A Fé: ponto de partida

As leituras deste domingo nos convidam a uma reflexão mais profunda sobre a fé. Partindo da primeira leitura vemos o clamor do profeta Habacuc, que, em determinado momento, parece ter sido esquecido por Deus. Parece que seu clamor havia sido ignorado. E onde se achava Deus nesta hora? Por que deixava que seus filhos sofressem, assim como sorem muitos hoje?  A resposta para essas questões encontra-se no mesmo livro, não de uma forma direta, mas que nescessita de uma reflexão à qual deter-me-ei primeiro.

Habacuc vivia no final do século VII, início do século sexto, A.C. Reinava Joaquim, rei iníquo. O povo já não cultivava amor pelo Senhor, vivia-se na impiedade. O clamor feito pelo profeta era um clamor de todo o povo. O Senhor manifesta-se de forma dura. E afirma: “O justo viverá por sua fé” (Hb 2, 4). Estas palavras, associadas ao Evangelho, demostrar-nos-á que a fé é sempre necessária. Não obstante o contexto histórico que vivia o profeta, também para os dias hodiernos podemos associar tais palavras. A fé é capaz de nos retirar do mundo da mesquinhez e do egocêntrismo, e inseri-nos em uma comunidade fraterna, mesmo quando aí parecem surgir várias adversidades.

Quando o homem, ou a sociedade, busca uma autossuficiência afastada de Deus; quando eles já não rezam e curvam-se a Deus; quando já não mais obedecem os desígnios do Senhor e se põe contra os seus mandamentos, então deixam de ter forças, suprime sua fé e lança-se no “fundo do poço”.

Será que a nossa sociedade ainda não percebeu (ou, se percebeu, não quer ver) que sem Deus todos tendemos a um existencialismo vazio, desumano, obscurecido e irracional? Hoje lanço a todos vós um convite: levantai-vos! O Senhor nos chama! Que desperte o Brasil, os plíticos, os sacerdotes, e todo o mundo! Que a Santa Igreja, com sua espada da justiça e misericórdia levante-se contra todas as ameaças que tendem a secularizar mais a sociedade.

Na segunda leitura Paulo faz uma exortação veemente a Timóteo, seu fiel colaborador, para que reavive “a chama do dom de Deus que recebestes por imposição das minhas mãos” (2 Tm 1, 6). Vemos aqui presente um gesto que era usado já pelos apóstolos desde a Igreja primitiva, outrora fora usado também pelos sacerdotes que ofereciam os sacrifícios do cordeiro.

Com o gesto da imposição das mãos a Igreja confirma e ao mesmo tempo dá o direito para que uma pessoa assuma uma função. Vemo-lo principalmente nas ordenações.

“Não te envergonhes do testemunho de nosso Senhor nem de mim, seu prisioneiro, mas sofre comigo pelo Evangelho… Guarda o precioso depósito com a ajuda do Espírito Santo, que habita em nós” (ibid., v. 14). As palavras de Paulo foram zelosamente assumidas pela Igreja no decorrer destes dois milênios. Ainda que tempestades impetuosas pareçam balançar a Nau de Cristo, guiada por Pedro e seus sucessores, mas a certza de que ela nunca naufragará nos dá um alívio e um porto seguro.

Paulo não quer que Timóteo se desanime com relação à pregação. Por isso pede que ele não se envergonhe do testemunho do Evangekho; nem por sua causa (pois estava preso), nem por causa do Senhor. Há! Como as palavras de São Paulo necessitam impetrar um espírito de coragem em muitos católicos. Tantos que ocultam sua fé por motivos políticos. Colocam as ações políticas acima do âmbito religioso. Sobretudo neste dia de eleição deve-se ter consciência de que devemos prezar pelo futuro do país. Não deixar que abortistas e anti-cristãos assumam o governo do país é um dever nosso. Um cristão dá testemunho de sua fé, ainda que seja na política. Ou será que queremos ver o Brasil como uma futura Espanha?

“Bonum depositum custodi per Spiritum Sanctum qui habitat in nobis – Guarda o precioso depósito com a ajuda do Espírito Santo, que habita em nós (idem). O depósito confiado a Igreja há dois mil anos trás permanece com sua originalidade. A Igreja nunca poderá auterá-lo. Muitos me perguntam: por que a Igreja não se moderniza? Respondo: por que no “depósito” que São Paulo mandou guardar não está escrito que a doutrina é feita pela Igreja. Quiçá um dia possam compreendê-lo! Todas as leis e mandamentos que a Igreja guarda, de alguma forma, procedem de Cristo e dos apóstolos.

Por fim, o Evangelho é um exemplo de que a fé é necessária. Jesus diz aos apóstolos que “Se tivésseis fé como um grão de mostarda, poderíeis dizer a esta amoreira: ‘Arranca-te daqui e planta-te no mar’, e ela vos obedeceria” (Lc 17, 6). Com isto Jesus quer nos convidar a fortalecer nossa fé; a não nos preendermos em nada supérfluo e passageiro.

É necessário que estejamos voltados para o alto, para os bens celestiais. A nossa fé é a plena e livre adesão aos ensinamentos do Senhor, e deve ser sinal concreto de testemunho autêntico.

Que Maria, nos ajude a sermos fiéis ao Evangelho de Seu Filho.

Com cordiais saudações em Cristo Jesus e Maria Santíssima!

Salute et Pax!

E se Jesus ficasse caído?

Quantas vezes nos sentimos sobrecarregados com o peso da cruz? Já não nos é mais possível suportá-la. Então caímos. Não tenha vergonha de ter caído, muito menos sinta-se humilhado. O próprio Filho de Deus caiu, devido o árduo peso da cruz. Caiu, mas não ficou prostrado por terra; caiu, mas ergueu-se de forma tão mais espetacular do que quando estava antes da queda. Jesus estava espezinhado pelo peso da cruz. Era forçado a caminhar, ensaguentado, chagado, pelas vias de Jerusalém, mas todo seu caminho para o Calvário foi também o caminho para a glória. Se Jesus foi humilhado e caiu, nós que não chegamos nem à condição em que ele estava, também o seremos. Mas só poderemos vencer quando, reconhecendo nossa fraqueza e estimulados por um novo recomeço, nos levantarmos e prosseguirmos o caminho que a nós parece tão difícil.

Mas como poderemos compreender as palavras ressonantes de São Paulo também nos dias hodiernos? “Se, pois, somos atribulados, é para vossa consolação e salvação. Se somos consolados, é para vossa consolação, a qual se efetua em vós pela paciência em tolerar os sofrimentos que nós mesmos suportamos” (II Cor 1, 6). Suportar os sofrimentos é algo que a primeiro momento, e talvez a todo o instante, seja difícil, mas se estamos com Cristo, se encontramos o fim último nEle e se nos deixamos penetrar no seu amor, poderemos vencer todas as dificuldades e, mais que isto, poderemos fazer com que as dificuldades, as tribulações, se tornem caminhos para alcançarmos as virtudes.

Cair na vida cristã é parte de uma jornada. Não podemos é permanecer caídos. Jesus hoje dirige-se a nós e diz: “Levanta-te!” Também nós precisamos ser tomados por este impulso. Levantarmo-nos e dirigirmo-nos em direção de Cristo, Ele, e unicamente Ele, é a solução de todos os problemas. E os problemas só terão uma solução quando nos detivermos, antes, diante da imagem do crucificado.

Não deixe que as dificuldades sobreponham-se a sua fé cristã. Confie!

Olhemos para o Cristo. Para o calvário Ele foi sem jamais reclamar. Caiu e levantou-se, mesmo sabendo que iria morrer. Há meus irmãos! Como necessitamos de pessoas corajosas, capazes de dizerem com convicção: “Jesus, com a tua força eu superarei tal problema. Somente em ti confio, e sei que os problemas são mínimos diante de ti”.

Certamente se Cristo ficasse caído estaríamos entre trevas, atribulados, mortos pelo pecado e por todo o caos que ele provocou e provoca no mundo.

“Vinde a mim, vós todos que estais aflitos sob o fardo, e eu vos aliviarei” (Mt 11, 28). Todo o peso dos nossos pecados Jesus tomou sobre si. Se hoje são mais leves (apesar de muitas vezes não parecerem), foi Jesus quem os tornou assim. Ele, que sendo Deus e não tendo pecado, assumiu os nossos.

Sempre que encontrarmo-nos diante de alguma dificuldade olhemos para cruz. Lembremos que dificuldade e dor maior teve Jesus, crucificado inocentemente, e peçamos-lhe a graça da paciência, da humildade e, sobretudo, da fé.

Toda a dor cessará quando o amor for uma centralidade na vida humana.

Fraternalmente em Cristo Jesus e Maria Santíssima!

“Alegra-te, cheia de graça!”

Com estas palavras somos introduzidos no mistério que hoje celebramos. A Solenidade da Anunciação do Senhor, recorda o dia em que, pelo poder do Espírito Santo, Jesus dá início ao “processo” da salvação, penetrando no seio materno da Virgem Maria, para que daí pudesse realizar-se todos os desígnios de Deus na humanidade. E por que celebra-se a 25 de março? Porque são 9 meses para o Natal. 9 meses normalmente é o tempo de gestação de uma mulher.
Também neste dia às palavras do Credo Nisceno-Constantinopolitano: “Et Incarnatus est – E se encarnou”, todos os fiéis se ajoelham para adorar o Cristo que vem ao nosso encontro.
Também acho muito propício esta Festa situar-se próximo à Pascoa. Se observarmos bem estaremos nas duas “extremidades” da salvação e da vida de Cristo (Cito extremidades entre aspas porque esta salvação perdura até os nossos dias, mesmo que não seja de igual forma). A Encarnação é o ínicio do caminho para a redenção da humanidade, que dar-se-á na Páscoa.
Maria é escolhida para fazer parte deste “projeto salvífico” do Pai. Ela é inserida por Deus em todo o contexto da salvação. Nela a Igreja busca cotidianamente modelar sua vida.
O anjo aparece a Maria e lhe diz: “Alegra-te, cheia de graça! O Senhor está com você!” (Lc 1, 28). O termo “alegra-te”, na sua original poderá dizer-se “Ave-Maria”, designa um convite à alegria messiânica.  
Maria sente-se pertubada com a saudação do anjo. E fica a indagar-se e a temer o motivo de tal honra. Após o anjo explicar-lhe o motivo da saudação e tudo o que iria acontecer por meio de Jesus, Maria diz uma das frases que acho mais maravilhosas e que se insere na nossa missão: “Eis a serva do Senhor” (v. 38). Sim, Maria enquanto Rainha, ainda assim, faz-se serva.
Quantas vezes somos dominados pela arrogância, pela prepotência e perdemos o nosso senso de humildade. O capitalismo, fortemente predominante nos dias hodiernos, faz com que nos descentralizemos da Verdade para seguirmos caminhos tortuosos e de fim duvidoso.
É notório também que até mesmo nossos padres e bispos, muitas vezes perdem uma característica fundamental nos seus ministérios. Quando falo em humildade, não é para abster-se dos bens materiais e viver apenas na pobreza, no sentido literal. Humildade é testemunhar Jesus Cristo e o Seu Evangelho sem engradecer-se, sem querer ser a “estrela”. 
Temos uma Igreja de Doutores e sábios Teólogos, mas acho que falta um pouco mais de humildade. Os Bispos dêem mais atenção aos fiéis que a eles se dirigem (não que eles não dêem, mas acho que falta isso em alguns Bispos), ou que deles esperam uma resposta. Os Padres escutem mais seus “filhos”, os paroquianos. Sejam figura de um pai para eles, tanto na repreensão, como no acolhimento.
Em suma: ser humilde é ser “Maria”; é dizer “sim” a Deus, para que Ele realize em nós o que realizou em Maria, claro que não em uma forma restrita da palavra, mas carregando em nós o Cristo Eucarístico, que sempre se doa na Santa Missa.
O “sim” de Maria deve ser o nosso “sim”.
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