Escolher a melhor parte

Neste Domingo somos chamados a contemplar Cristo e ouvi-lo em suas palavras. No evangelho é muito bem representada esta ação na figura de Maria, que põe-se aos pés de Cristo para escutá-lo e, ouvindo os ensinamentos do Mestre, se dispõe a fazer sua plena vontade, põe-se em atitude de serviço. Na primeira leitura é caracterizada a figura de Abraão, que serve ao Deus todo poderoso, e sugestiva e intrigante é a figura dos homens que apresentam-se a ele: três homens, representando as três pessoas da Santíssima Trindade.

Assim como Abraão, nós somos convidados a este constante ato de serviço: Humilhar-se diante de Deus, chorar nossas mágoas e pecados, reconhecermo-nos indignos de tamanha misericórdia, para que desta forma ela se manifeste em profusão.

Mas, se por um lado temos a figura de Maria, que põe-se a serviço e está em constante atenção para a mensagem de Jesus, por outro lado temos a figura de Marta, que ocupada com os afazeres da casa, não colocou-se aos pés de Jesus para compreender sua mensagem salvífica. Jesus então lhe diz: “Marta, Marta! Tu te preocupas e andas agitada por muitas coisas. Porém, uma só coisa é necessária. Maria escolheu a melhor parte e esta não lhe será tirada” (Lc 10, 41-42).

Fico pensando como estas palavras de Jesus incidem tão fortemente na sociedade hodierna. Quantas vezes os afazeres deste mundo “sufocam”, por assim dizer, o que realmente é essencial em nossa vida. E não seria extremismo meu dizer que o único essencial em nossa vida é Deus. Não precisamos nos ater a coisas supérfluas, desnecessárias, às quais não nos trará nenhum bem espiritual.

Sei muito bem quão difícil é falar e, mais ainda, combater o espírito de extravagância e de consumismo que este mundo relativista propõe. Porém, urge cada vez mais alto a nós cristãos, tomarmos ciência deste dever e pô-lo em prática. Mesmo que seja o mundo um instrumento de perseguição, mas quem está sob a proteção de Deus, quem se põe sob sua segurança e quem deseja cumprir sua vontade, será sempre amparado por Ele e poderá anunciar, sem nenhum temor, as diversidades de ensinamentos às quais nós devemos combater com o Santo Evangelho e o ensinamento da Santa Mãe Igreja.

Colocar-se aos pés de Cristo é, também, estar em adesão com os seus ensinamentos; e os deixados por  Ele para a Sua Igreja. É saber da necessidade de estarmos sempre atuantes, combatendo as forças do mal. Dirá Pascal: “Cristo morreu de braços abertos, para que nós não vivamos de braços cruzados.” E quantos, infelizmente, cruzam os braços e esquecem-se da missão à qual são chamados.

São Paulo irá dizer na segunda leitura: “Alegro-me de tudo o que já sofri por vós e procuro completar em minha própria carne o que falta das tribulações de Cristo, em solidariedade com o seu corpo, isto é, a Igreja. A ela eu sirvo, exercendo o cargo que Deus me confiou de vos transmitir a palavra de Deus em sua plenitude: o mistério escondido por séculos e gerações, mas agora revelado aos seus santos” (Cl 1, 24-26).

Ora, se até Paulo servia a Igreja, quem são hoje tais pessoas que, injustamente, atacam a Igreja e buscam ferir a integridade de seu corpo? Nosso Senhor confiou a Igreja a missão de perpetuar a sua presença na terra, de prefigurar o Seu Reino vindouro, ao qual ansiosos esperamos. Quantos dizem que a Igreja deve ser “reformada”, que é antiquada, retrógrada? Ao invés de reformar a Igreja, reformem seus corações que se fecham a Jesus e à palavra imutável que Ele deixou à sua Igreja.

Peçamos à Virgem Maria o dom da escuta e da humildade, para que, também nós, possamos colocar-nos aos pés de Cristo e escolhermos a “melhor parte”, a qual nem o mundo poderá tirar-nos. T

Fraternalmente em Cristo Jesus e Maria Santíssima!

Publicado também no: Reflexões Franciscanas

Para onde vamos?

Público aqui um artigo do meu Bispo Diocesano que gostei muito.
Quem tem Palavras de Vida Eterna?

O século XXI começa com crise na Igreja e no mundo. No mundo, crise da economia, com previsões sombrias de esgotamento dos recursos naturais para uma população crescente e mais exigente no consumo de água, de energia, de alimentos.

A terra já não consegue oferecer a seis bilhões de habitantes um padrão de vida que todos querem, muito menos a novos bilhões que vão nascer ainda neste século. Se não crescer a solidariedade, vai aumentar a miséria. Quem tem mais vai precisar contentar-se com menos para quem tem menos poder ter mais.

Na Igreja, crise de fé. No Brasil, debandada de católicos para outros grupos de cristãos. Em muitos outros países de tradição cristã, debandada de cristãos. Muitos já falam do surgimento de uma civilização pós-cristã.

No seu Evangelho, o Apóstolo João se refere à primeira grande debandada de discípulos de Jesus. Muitos discípulos voltaram atrás e não andavam mais com ele. (Jo 6,66)

Foi depois que Jesus se apresentou como pão da vida: “Eu sou o pão vivo descido do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. O pão que eu darei é a minha carne entregue para a vida do mundo.”

Aí começou o murmúrio entre os ouvintes: “Como é que este homem pode dar-nos sua carne para comer?

Diante dos questionamentos que surgiram, Jesus ainda insistiu: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim, e eu nele. … Quem come este pão viverá para sempre.”

Vendo que muitos iam embora, Jesus não chamou ninguém de volta para explicar melhor. Pelo contrário, ainda chamou os doze apóstolos e perguntou: “Não quereis também partir?”.

Pedro respondeu perguntando: “Senhor, a quem iremos? Tu tens palavras de vida eterna.”

È nisso que os cristãos acreditam: que Jesus tem palavras de vida eterna. È por isso que queremos viver como discípulos dele. No entanto, vivendo num mundo de contestação, numa civilização que não admite que alguém possa saber onde está a verdade, como é que podemos ter certeza que Jesus é o caminho, a verdade e a vida? Muitos dizem que nenhuma religião pode achar-se mais verdadeira que outras.

São Paulo nos diz que devemos examinar tudo e guardar o que for bom. Acontece que na confusão de idéias e na proliferação de ideologias e teorias deste século inundado de livros e de propaganda ninguém pode conhecer tudo com profundidade.

Procuremos, então, descobrir pelo menos se existem outros que têm palavras de vida eterna, outros que dizem conhecer a verdade.

Quais seriam? Os agnósticos, que dizem que ninguém pode saber onde está a verdade? É verdade que ninguém pode conhecer a verdade?

Será que ateus teem palavras de vida eterna? Se Deus não existe, como dizem eles, pode existir vida eterna?

Será que Maomé, com o islã que muitos querem impor na marra, tem palavras de vida eterna?

Será que Buda e outros esotéricos e teóricos da reencarnação que chegam com força nos países de cristianismo enfraquecido, teem palavras de vida eterna?

E a Igreja, que apresenta o ensinamento de Jesus como Palavra de Deus, tem mesmo palavras de vida eterna? A divisão cada vez maior dos cristãos dificulta o reconhecimento da verdadeira Igreja de Cristo, da verdade na Igreja.

Na Igreja que tem o Papa com a missão especial de manter a unidade na fé, novos Escribas e Doutores da Lei ficam duvidando da verdade histórica do Evangelho. Dizem que o Apóstolo João teria misturado as palavras de Jesus com suas próprias idéias.

Não há dúvida que no evangelho de João temos reflexões próprias do Evangelista. Já no primeiro capítulo ele faz a sua meditação pessoal sobre o mistério da pessoa divina de Jesus. Tempos atrás dei uma tarefa aos alunos do Curso de Teologia para Leigos: Identificar no evangelho de João quais são as palavras próprias dele e quais são as palavras de Jesus.

Dificuldades existem. Onde não existem, alguém inventa. Estudiosos perguntam como é que João, escrevendo mais de meio século depois dos acontecimentos podia lembrar com precisão as palavras de Jesus.

Não questiono a teoria dos exegetas que afirmam que o quarto evangelho foi escrito quase no fim do primeiro século. No entanto, teoria por teoria, apresento a minha: Muito antes da redação final do seu evangelho, João fazia anotações de palavras de Jesus que considerava importantes para serem relatadas com exatidão.

Numa perspectiva de fé, lembro a promessa de Jesus sobre a vinda do Espírito Santo “que vos recordará tudo que vos disse” (Jo 14,26.

O cristão que tem um mínimo de fé, crê na inspiração divina dos evangelhos que trazem a Palavra de Deus até nós. Se cremos em Jesus, Filho de Deus que o Pai enviou ao mundo para anunciar e realizar a nossa Salvação, temos também a certeza que Deus tem o poder de fazer chegar a sua Palavra a todos que queiram dar-lhe acolhida. Oferece a todos a possibilidade de reconhecer a sua Presença pela mediação da Igreja que fez o Evangelho chegar aos nossos tempos de tal maneira que possa ser reconhecida por todos que procuram a verdade.

Por outro lado, Deus confiou tanto na colaboração dos cristãos que deixou depender da boa vontade dos seus discípulos e missionários a chegada da sua Palavra ao mundo inteiro. De você, por exemplo, que na tranquilidade da sua casa está recebendo a mensagem de alguém que não é dono da verdade, mas seu servidor, pela graça de Deus.

Jequié, 23 de agosto de 2009

+ Cristiano