Luzes com a Luz

Celebramos hoje a Festa da Apresentação do Senhor, que acontece quarenta dias após o Natal. Jesus é apresentado no Templo por Maria e José, segundo a lei mosaica havia prescrito; além desta apresentação (como é de costume antigo), celebrava-se a festa da Purificação de Nossa Senhora, pois também Maria devia purificar-se após o parto, e, ali, deveriam oferecer sacrifícios, por serem pobres Maria e José ofereceram um par de rolas ou dois pombinhos. Mas a Festa de hoje não é de caráter mariano, e sim de Nosso Senhor Jesus Cristo, o que não quer dizer que não devemos honrar a bela cena da Sagrada Família que nos é apresentada.

Jesus é o consagrado por Deus e dado à humanidade. Ele vai à casa de Seu Pai, e não seria errado dizermos: Ele vai à Sua casa. Na fragilidade da criança contempla-se a luz que irradiaria em meio a um mundo tenebroso. Por isso, a Liturgia hodierna convida-nos a contemplarmos também a luz, símbolo que, de certa forma, assume hoje uma característica peculiar. Detenhamo-nos agora na primeira leitura, sendo que nos é apresentado Malaquias e Hebreus (por ser dia de semana faz-se apenas uma), nos deteremos neste ano na profecia de Malaquias.

“Eis que envio meu anjo, e ele há de preparar o caminho para mim; logo chegará ao seu templo o Dominador, que tentais encontrar, e o anjo da aliança, que desejais. Ei-lo que vem, diz o Senhor dos exércitos; e quem poderá fazer-lhe frente, no dia de sua chegada? E quem poderá resistir-lhe, quando ele aparecer?” (3, 1-2).

Chegará o Dominador. Sim! A apresentação de Jesus já havia sido prefigurada por Malaquias. Ele é o Dominador que tudo tem sob Si, o “Senhor dos exércitos”. Mas seu domínio não é comparado aos dos reis e soberanos deste mundo. Seu poder não é de escravidão! Ele não domina para Si, apesar de ser Deus. Pelo contrário: O Domínio de Jesus consiste sobretudo na verdade e na justiça; no amor e na compreensão.

Mas encontramos nesta leitura algo que dirige o nosso olhar também para a escatológica vinda do Senhor. Assim como há mais de dois mil anos, também na Sua vinda ninguém poderá resistir-lhe e fazer frente aos seus desígnios. Somos chamados a um renovado apelo de vivência e experiência da santidade, para que, na vinda do Senhor, sejamos também nós convidados a participarmos do seu banquete. Também a sua Onipotência é confirmada pelo salmista que leva-nos a cantar: “O rei da glória é o Senhor onipotente” (Sl 23). E hoje, ao contemplarmos nosso mundo dilacerado pela violência, pela falta de fé, por uma cultura desregrada da sexualidade, por uma aparente autossufuciência, queremos também elevar a Deus uma oração de súplica: Senhor concede paz aos nossos dias. Dá-nos a Tua paz, e não a paz passageira que o mundo aparentemente oferece. Faz com que o clarão da vossa luz salvífica brilhe sobre todos os homens, sobretudo aqueles que se enveredam pelas estradas da escuridão. Que a vossa glória seja plenamente manifestada Senhor! Que a nossa humanidade reconheça em Ti o Senhor da glória, que nos liberta de toda a tentação e obscuridade dos nossos olhos da fé!

Estando no Templo concretiza-se a profecia que nos foi citada na primeira leitura. Ao ver o Menino que era ofertado, Simeão faz duas afirmações que caracterizam as ações messiânicas e toda a vida de Jesus. Estavam, por assim dizer, intrínsecas a sua missão. Elas relacionam-se com a sua Paixão e Ressurreição. Temos dois adjetivos atribuido-Lhe: “luz das nações” e “glória do povo de Israel” (Lc 2, 32).  A luz que Jesus não apenas simboliza, mas realmente É, encontra pleno ápice na sua Ressurreição, de onde a humanidade, revigorada por tão grande mistério de amor, é imersa nesse profundo clarão, que investe, com toda sua força, contra os poderes maléficos. Por isso, a procissão das luzes feita hoje remete-nos ao glorioso sábado em que Cristo passa da morte à vida.

E agora encontramo-nos diante da  afirmação: “Glória do povo de Israel”. Talvez muitos que ali estivessem pensassem: como poderia na fragilidade de uma criança residir a glória de todo o povo? Mas, precisamente naquela fragilidade, Deus mostra o Seu poder. Ele não precisa se manifestar nos poderosos deste mundo, e nem quis fazê-lo, senão por meio de uma criança, aparentemente frágil e indefesa, mas que carregava em Si toda a glória e salvação do povo, dos pagãos de Israel, e de todos nós, que fomos beneficiados com o sacrifício redentor.

Agora dirijo-me a todos os consagrados e consagradas, e cumprimento-os pelo vosso dia. Que o Senhor, neste dia especial, vos estimule em vossas caminhas, e vos torne cada dia mais fiéis ao seu Evangelho e à sua Igreja. Ainda quando parece ser difícil a caminhada, a certeza de que o Senhor caminha ao nosso lado jamais nos deixa desanimar ou exitar de nossa missão. Que possais ser sinal da presença de Cristo em nosso mundo. E que sejais revigorados pelas bençãos divinas que sempre vos acompanham.

A todos reforço o convite: Sejamos luzes em nossos dias turbulentos! Não deixemos apagar em nós a chama da fé que deve irradiar esperança aos que hoje estão desesperançados; amor aos que hoje não sentem-se amados; fraternidade aos que vivem no egoísmo; fé aos que vivem na incerteza e na dúvida. Enfim, que possamos cumprir a missão a nós confiada, por aquele que é a Luz por excelência.

Que Maria Santíssima e São José nos ajudem a apresentarmo-nos diante de Deus, e a Ele oferecermos todos os nossos sacrifícios e a nossa vida

Somos sempre chamados ao Reino de Jesus

Chegando ao final de mais um ano litúrgico, a Igreja nos convida a celebrarmos a Solenidade de Jesus Cristo Rei do Universo, instituída pelo Papa Pio XI, em 1925. E seria muito interessante, mesmo já tendo feito em outras oportunidades, que meditássemos sobre o Reino de Deus e o seu advento escatológico.

Uma pergunta que justamente é feita em nossos dias é: Jesus é Rei? Como pode ser Ele rei, se vivemos em um mundo secularizado, anticlerical, que vive como se Deus já não mais existisse, que põe-se contra os valores do Evangelho e os ensinamentos da Igreja? “Cristo Rei, sois dos séculos Príncipe, Soberano e Senhor das nações! Ó Juiz, só a vós é devido julgar mentes, julgar corações”. Assim canta a Igreja neste dia, reconhecendo que, ainda que sejam impetuosas as forças contra o Evangelho, maior é o senhorio de Jesus, que jamais abandona a sua Igreja e os seus filhos.

Tenhamos em mente, por primeiro, que o Reino do qual nosso Senhor fala manifesta-se de forma diferente dos reinos deste mundo. Não é um reino de precipitação e nem deixa-se corromper. Mas, manifesta-se, sobretudo, com características cristãs: “Reino de verdade e de vida, de santidade e de graça, de justiça, de amor e de paz” (Prefácio da Missa de Cristo Rei).

Celebrar a Solenidade de Cristo Rei é celebrar também a realeza da Igreja. Não seria, porém, audaz fazê-lo? Verdadeiramente não! Porque ela é Esposa de Cristo, e é participante perene da sua realeza e dos seus mistérios salvíficos. Por isso, na segunda leitura, no hino cristológico que introduz a carta aos Colossenses, São Paulo afirma: “Ele é a Cabeça do Corpo, isto é, da Igreja” (Cl 1, 18). Cabeça e corpo, eis uma outra definição comumente presente nas cartas paulinas. Jesus é cabeça da Igreja, nada seria feito sem seu consentimento. Ele guia a Igreja como seguidora dos seus mandamentos, e nos torna servos por meio de sua realeza. Porém, esta realeza não é uma imposição, muito menos uma obrigação. Ela parte de uma consciência de estarmos contritos a Deus, unidos a Ele, sabendo que com Ele as dificuldades podem ser suprimidas mais facilmente, e que teremos sempre uma luz a guiar nossos passos.

Jesus Cristo não é um rei de ira. Não é alguém que nos força a segui-lo; mas, amando a todos igualmente, nos faz um convite ao qual nos cabe decidir: segui-Lo para as eternas alegrias, ou precipitarmo-nos no abismo do pecado. O inferno, no entanto, não é para que se imponha medo a quem não segue Cristo, mas é uma conseqüência das nossas ações já neste mundo. Como relata Jesus a Santa Faustina: “Antes de vir como justo Juiz, venho como Rei de Misericórdia” (Diário, 83).

Eis um Rei ao qual todos podem recorrer! Um Rei que é misericórdia, que ama e que perdoa. Um Rei que sabe que os valores espirituais superam os meros bens materiais, ao qual muitas vezes nos apegamos exacerbadamente. Ora, o próprio Cristo dá-nos o exemplo de humildade. O que Ele abraçou? As riquezas? Os poderes reais passageiros? O ouro? O luxo? Em que consiste seu Reino? Em uma suposta satisfação material? Em aparências? Não! O que Cristo abraçou muitos não teriam coragem de fazê-lo. O que Jesus abraçou, com todo o olhar misericordioso e com todo o seu amor, é a cruz. Unicamente a cruz!

Na cruz atinge-se o ápice da manifestação messiânica e real de Jesus. Ali Ele não apenas se mostra como Rei, como também redime o mundo por seu sacrifício, que também e sobretudo é um sacrifício real de Amor. Agora, pois, se perguntarmos: para que tanto apego às riquezas? Para que tanta ganância que consome as pobres almas que agora riem, mas irão padecer nos tormentos? Voltemo-nos para a única riqueza: Jesus Cristo. Submetamo-nos à sua realeza singular e salvífica!

O Evangelho nos apresenta a cena da crucifixão do Senhor. Prometendo o Paraíso ao ladrão arrependido, Jesus mostra que, mesmo diante da imensidão dos nossos pecados, maior é sua misericórdia, e as portas do seu Reino estão abertas para acolher a todos: “Hoje estarás comigo no Paraíso” (Lc 23, 43). Por isso, observa Santo Ambrósio:

“Ele pedia ao Senhor para que se recordasse dele, quando estivesse no seu Reino, mas o Senhor respondeu-lhe: Em verdade, em verdade te digo, hoje estarás comigo no Paraíso. A vida é estar com Cristo, porque onde está Cristo ali está o Reino” (Exposição do Evangelho segundo Lucas, 10, 121).

Poderíamos convictamente afirmar que o Reino, no quadro evangélico, foi antecipado ao ladrão, pois não estará com Cristo no fim dos tempos, quando vier o tão esperado Reino; mas já o está hoje, neste momento! Mesmo diante das zombarias para que descesse da cruz, Cristo não cede a essas tentações de manifestação de poder. Parece-nos paradoxal, mas justamente permanecendo na cruz Ele manifesta sua glória. Também a nós é dito: não fujamos da cruz. Não nos deixemos seduzir pelas tentações do prazer e de uma vitória superficial. E, desta forma, poderemos dizer a Deus, como o povo disse a Davi: “Aqui estamos. Somos teus ossos e tua carne” (2Sm 5,1). Conduza-nos e não nos deixes sucumbir perante as tentações de relativização da verdade e de uma conquista meramente material. Faze-nos que sejamos servos de uma realeza eterna e salvadora, a nós confiada pelo Batismo.

Que Maria, nossa mãe, Rainha do Céu e da terra, nos guie ao encontro de Seu Filho, o Rei dos séculos!

 

Perseguida para triunfar

“Conta-se que São Pio X, durante audiência aos membros de um dos colégios eclesiásticos romanos, perguntou aos jovens estudantes:

– Quais são as notas distintivas da verdadeira Igreja de Cristo?

– São quatro, Santo Padre: Una, Santa, Católica e Apostólica – respondeu um deles.

– Não há mais de quatro? – indagou o Papa.

– Ela é também Romana: Una, Santa, Católica, Apostólica e Romana.

– Exatamente, mas não falta mencionar ainda uma característica das mais evidentes? – insistiu o Pontífice.

Após um instante de silêncio, ele próprio respondeu:

– Ela é também perseguida! Esse é o sinal de sermos verdadeiros discípulos de Jesus Cristo”.

(Revista Arautos do Evangelho, nº 107, pag. 9)

Assim, pois, com esta imagem da Igreja perseguida, desejo iniciar a meditação de hoje.

Em mais um ano litúrgico que aproxima-se de seu término, as leituras nos convidam a preparar-nos para a vinda iminente do Senhor (Natal), como também direciona nossos olhares para o Advento definitivo e para a sua Parusia.

A primeira e a segunda leitura de hoje, são, de fato, um convite a uma mudança de vida imediata, uma autêntica conversão que nos ponha em Cristo, em seu coração, e nos faça partícipes do seu Reino no banquete ao qual somos convidados.

Na primeira leitura, o alerta do profeta faz com que também nos sintamos responsáveis pelos nossos atos já agora, enunciado ao mesmo tempo que nós somos responsáveis a nos condenar ou a nos salvar. Não podemos culpar a Deus por nosso fim último, pois somente a nós cabe defini-lo. E por que falo assim? Porque assim nos mostra Malaquias ao falar do vindouro dia, o dia que todos esperam; tanto aqueles que estão cravados nas rochas sepulcrais, como aqueles que neste mundo se dedicam ao Evangelho, ou, pelo contrário, dedicam-se somente a fazerem festas, a comer e a beber, sem, no entanto, fixarem os olhos no julgamento: “Eis que virá o dia, abrasador como fornalha, em que todos os soberbos e ímpios serão como palha; e esse dia vindouro haverá de queimá-los, diz o Senhor dos exércitos, tal que não lhes deixará raiz nem ramo. Para vós, que temeis o meu nome, nascerá o sol da justiça, trazendo salvação em suas asas” (3, 19-20a).

Temamos ao Senhor, portanto! Não um temor que nos faça olhá-Lo como um Deus prepotente, que se afasta de nós, que se fecha nos mais insondáveis Céus. Mas, não obstante a distância que agora nos separa de Deus, nos conforta saber que o temos do nosso lado; e que o temor que devemos ter é salutar e deve nos conduzir à verdadeira salvação que é Ele próprio.

Na segunda leitura São Paulo nos chama a abandonar a ociosidade e toda a preguiça malígna, que nos afasta de Deus e dos diversos meios de missão que a nós são confiados. “Quem não quer trabalhar também não deve comer” (2Ts 3, 7 – 12). O que vem a ser esta máxima de São Paulo? Por que assim dirige-se a comunidade de Colossos? Já pude aludir neste site que o Reino de Deus é constituído também de renúncias, e renúncias às vezes muitos difíceis.

Ora, a carta de São Paulo a Colossos é também uma carta destinada a falar veementemente da Parusia. Trata-se, portanto, de uma organização da Igreja voltada para a escatológia. A Igreja é chamada a ser prefiguradora do Reino do Senhor. Tais palavras do apóstolo são um incentivo à missão, postas, obviamente, em uma figura escatológica. Como podem querer desfrutar do Reino vindouro aqueles que não trabalham, mas sustentam-se, como costumamos dizer, às “custas” dos outros? Por isso é como se fizéssemos uma analogia às palavras de São Paulo: Quem não quer assumir sua idêntidade cristã; quem não quer ser missionário, então que também não seja partícipe do Reino de Deus. Ora, alguns podem perguntar: onde está a misericórdia de Deus? Será que Sua misericórdia só atende aos cristãos? Digo: se Ele não manifestasse sua justiça, não menor que sua misericórdia, então não seria Deus. “Tem Ele, por assim dizer, duas mãos: a da misericórdia e a da justiça. Com a primeira, perdoa e protege; com a segunda, cobra e castiga; De uma dessas mão ninguém escapa” (Mons. João Scognamiglio Clá Dias, Revista Arautos do Evangelho, pag.11-12, Edic.107).

Santo Afonso Maria de Ligório afirma:

“Não merece a misericórdia de Deus quem se serve dela para ofendê-Lo. A misericórdia é para quem teme a Deus, e não para o que dela se serve com o propósito de não temê-Lo. Aquele que ofende a justiça pode recorrer à misericórdia; mas a quem pode recorrer o que ofende a própria misericórdia.”

(Preparação para a morte. Cons. XVII, ponto I)

E eis que chegamos ao Evangelho (Lc 21, 2-19), ao qual gostaria de centrar-me pela sua riqueza.

Ora, Jesus fala aqui do final dos tempos, mas também da perseguição, que a Igreja por muito tempo sofreu e ainda sofre. Por isso iniciei este post com aquela pequena história. Porque, não obstante estes dois mil anos, não cessam as perseguições inutilmente lançadas por Satanás para tentar, de alguma forma, derrubar a Igreja. Pois digo e ainda garanto: Se se levantasse todo o inferno e seus soldados, liderados pelo Príncipe das trevas, para tentar derrubar a Igreja, ainda assim, nunca conseguirão. Pois a nossa Igreja não é fundamentada em ideologias mitológicas e vazias, mas fundamenta-se unicamente em Jesus Cristo, Deus verdadeiro feito homem.

“Algumas pessoas comentavam a respeito do Templo que era enfeitado com belas pedras e com ofertas votivas. Jesus disse: ‘Vós admirais estas coisas? Dias virão em que não ficará pedra sobre pedra. Tudo será destruído’” (vv. 5-6).

O Templo era lugar sagrado para os judeus, e para o próprio Jesus. No entatanto, por que o Senhor dirige palavras tão ásperas àquelas pessoas? Ora, não obstante o templo ser lugar de oração, mas não contemplava-se além de uma mera visão naturalista. Estavam, por conseguinte, cegos para Deus, pois detinham-se na criatura e não no Criador; compreendiam o símbolo, mas não o Simbolizado. Por isso, contundentemente exorta Nosso Senhor.

E esta profecia não tardaria mais de quarenta anos para acontecer. Como escreveu São Beda: “Permitiu a Divina Providência a destruição de toda a cidade e do Templo para que nenhum daqueles que ainda estavam débeis na fé fossem seduzido por suas diversas cerimônias”.

Ainda assim os apóstolos achavam que essa destruição se daria na consumação dos séculos. Mas Jesus faz questão de manifestar-se sobre os dois momentos, para mostrar que não iria tardar acontecer aquilo que, de certa forma, seria jubilar. Destruído o Templo, a Lei deveria então ceder lugar à Graça, manifestada plenamente em Jesus.

Antes, porém, que estas coisas aconteçam, sereis presos e perseguidos; sereis entregues às sinagogas e postos na prisão; sereis levados diante de reis e governadores por causa do meu nome. Esta será a ocasião em que testemunhareis a vossa fé. Fazei o firme propósito de não planejar com antecedência a própria defesa; porque eu vos darei palavras tão acertadas, que nenhum dos inimigos vos poderá resistir ou rebater” (vv. 12-15).

Anunciando aos Apóstolos o que lhes haveria de acontecer, Jesus prenuncia a imagem da Igreja perseguida. Errôneo seria se a Igreja, mediante essa perseguição, se ocultasse de sua missão e se fechasse em si mesma, não completando sua missão de anunciar o Evangelho a todos os povos. Mas é verdade que, sobretudo na perseguição, Nosso Senhor põe-se ao lado dela, para que não pereça nunca, mas, como Ele próprio prometeu, seja invencível (cf. Mt 16, 18) e enfrente as tribulações que se fazem presente neste mundo. E não apenas isto: que ela seja triunfante. Esta é a figura da Igreja escatológica. Aquela que, como retrata o Apocalípse, desceu do céu gloriosa (cf. 21, 9-11a).

De fato, conta-nos a história que Napoleão, após ser excomungado pelo Papa Pio VII, perguntou, petulantemente, ao legado papal, se por causa disso as armas das mãos dos seus soldados iriam cair. Ora, o Conde de Ségur, testemunha ocular, narra: “As armas dos soldados pareciam ser de um peso insuportável para seus braços intumecidos; em suas frequentes quedas, escapavam-lhes das mãos, quebravam-se ou perdiam-se na neve” (Conde de Ségur apud Barón Henrion Historia general de la Iglesia 2ª ed. VIII, pag. 153).

Nas horas de tempestade a Providência Divina nunca faltou à Igreja. Suscitou homens e mulheres firmes e de vida paradigmática. E aí eles testemunharam sua fé, como também nós somos chamados a fazê-lo. Não sejamos ocultos ao mistério que nos foi revelado. Muito menos deixemos que a nossa vida seja afastada de Deus. Só Deus pode fortalecer a caminhada do homem. Só n’Ele os homens podem encontrar uma felicidade que não é interesseira, mas busca elevar a humanidade até Ele.

Com a afirmação em não nos planejar em preparar defesa com antecedência, Nosso Senhor não nos convida à negligência, mas não quer que nos aflinjamos, pois Ele estará conosco. Vale-nos aqui o que diz Santo Inácio: “Rezai como se tudo dependesse de Deus e trabalhai como se tudo dependesse de vós” (catecismo da Igreja Católica, 2834).  E São Gregório Magno escreve: “É como se o Senhor dissesse a seus discípulos: ‘Não vos atemorizemos. Vós ireis ao combate, mas Eu é que combaterei; vós pronunciareis palavras, mas quem falará sou Eu’” (São Gegório Magno apud Revista Arautos do Evangelho, pag. 13, Edic.107).

Que a Virgem Maria ajude a Igreja, e também a nós, a caminharmos ao encontro de Seu Filho. E que, mesmo diante dos conflitos, possamos sempre ter à nosso horizonte a gloriosa Igreja Católica Apostólica Romana de Nosso Senhor Jesus Cristo, que triunfará pelos séculos.

Orar com humildade

Em que consiste orar com humildade? Por que este tema?

Não poderemos compreendê-lo se não fizermos uma analogia entre as leituras e a necessidade da oração, conjugando-a na sociedade hodierna. Verdadeiramente ultimamente temos sido veementemente exortados pelas leituras dominicais a uma oração que nasça da sinceridade do coração; que não se revista de uma aparência exterior, mas interiormente está vazia e sem sentido. Por isso a primeira leitura é taxativa a dizer: “Jamais despreza a súplica do órfão nem da viúva, quando esta lhe fala com seus gemidos… Quem adora a Deus será recebido com agrado e sua súplica chegará até as nuvens. A oração do humilde penetra as nuvens e não se consolará enquanto não se aproximar de Deus; e não se afastará, enquanto o Altíssimo não olhar e o justo juiz não fizer justiça” (Eclo 35, 27. 20-21).

Estas penetrantes palavras contêm um ensinamento profundo, que em uma primeira vista não seria possível observarmos. Mas debrucemo-nos um instante sobre estas palavras sapienciais. O que elas indicam-nos? Em primeiro lugar tenhamos em mente que estas palavras, como obviamente está à nossa percepção, dirige-se aos humildes. Mas quem são os humildes? São os pobres materiais? Falando-se no contexto deste mundo, restrito à possessão de bens, sim. Falando no contexto evangélico não. Mesmo os ricos, que não atribuem suas riquezas a méritos próprios, mas a reconhecem como presente de Deus; quem tem o espírito submisso a Deus e sabe partilhar, também eles são os humildes. Santa Teresa de Ávila apresenta-os um pouco diferente, mas em um mesmo contexto: “O verdadeiro humilde sempre duvida das próprias virtudes e considera mais seguras as que vê no próximo”. Comumente a Bíblia os associa aos “órfãos, viúvas e estrangeiros”, que eram colocados à margem da sociedade na época, e ainda hoje não obstante os diversos progressos e esforços a uma igualdade continuam a existir diversos marginalizados.

Depois gostaria de deter-me sobre a frase: “Quem adora a Deus será recebido com agrado e sua súplica chegará até as nuvens”. Feliz realização! Como estas palavras são incômodas nos dias de hoje. Muitos não adoram a Deus; no entanto, fixam seu olhar sobre os bens terrenos e passageiros, que em nada contribuem para uma melhor vivência da fé; vivem na ganância e na soberba, são bem aparentados por fora, mas por dentro estão vazios e não sabem o verdadeiro valor do amor. São Paulo condena a estes e exorta, também a nós: “Quer comais, quer bebais, quer façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus” (1 Cor 10, 31).  E ainda, ao escrever a Timóteo fala com dureza: “A raiz de todos os males é o amor ao dinheiro… Ordena aos ricos deste mundo que rejeitem o orgulho e não ponham sua esperança na riqueza incerta, mas em Deus que provê abundantemente de tudo para nosso bom uso. Ordena-lhes ainda que façam o bem e se enriqueçam de boas obras, que sejam prontos para dar e generosos” (1 Tm 6, 10.17-18).

Na segunda leitura, vemo-la frequentemente nas celebrações de São Pedro e São Paulo, este último apóstolo já tinha consciência de sua morte, e, portanto, sabemos que não se distancia desta. Gastada sua vida em favor do Evangelho, Paulo não a perde, mas a ganha. Por isso escreve: “Combati o bom combate. Conclui a corrida. Guardei a fé. Agora me é reservada a coroa da justiça” (2 Tm 4, 7-8). Sobre isso São João Crisóstomo bem afirmou: “Estar longe de Cristo representava para ele o combate e o sofrimento, mais ainda, o máximo combate e a mais intensa dor. Pelo contrário, estar com Cristo era um prêmio único. Paulo, porém, por amor de Cristo, prefere o combate ao prêmio… Talvez algum de vós afirme: Mas ele sempre dizia que tudo lhe era suave por amor de Cristo! Isso também eu afirmo, pois as coisas que são para nós causa de tristeza eram para ele enorme prazer… Rogo-vos, pois, que não vos limiteis a admirar este tão ilustre exemplo de virtude, mas imitai-o. Só assim poderemos ser participantes de sua glória” (Riquezas da Igreja, Prof. Felipe Aquino, pag. 172 e 173).

“Na minha primeira defesa, ninguém me assistiu, todos me abandonaram. Que isto não lhe seja levado em conta. Mas o Senhor veio em meu auxílio e me deu forças… E eu fui libertado da boca do leão” (2 Tm 4, 16-17). Ora, este abandono de Paulo é sentido por muitos hoje. Quantos acham que Deus o abandonou? Ou então o contrário: Quantos só podem contar com Deus, pois foram “abandonados”? Nestes dois casos vale aquilo que o Papa bento XVI disse: “Quando já ninguém me escuta, Deus ainda me ouve. Quando já não posso falar com ninguém, nem invocar ninguém, a Deus sempre posso falar. Se não há mais ninguém que me possa ajudar – por tratar-se de uma necessidade ou de uma expectativa que supera a capacidade humana de esperar – Ele pode ajudar-me” (Carta Encíclica Spe Salvi, 32).

No Evangelho Jesus conta-nos a parábola do fariseu e do publicano. Dirigia-se o Senhor àqueles que confiavam na própria justiça e desprezavam os outros. “Dois homens subiram ao Templo para rezar: um era fariseu, o outro cobrador de impostos” (Lc 18, 10). A atitude de subir significa estar em contanto íntimo com Deus. Assim como Jesus subia ao monte para orar, estes dois vão também pôr-se diante do Altíssimo.

Mas a diferença é que um na sua oração exaltava-se, o outro reconhecia a imensidão dos seus pecados. “O fariseu, de pé, rezava assim em seu íntimo: ‘Ó Deus, eu te agradeço porque não sou como os outros homens, ladrões, desonestos, adúlteros, nem como este cobrador de impostos. Eu jejuo duas vezes por semana, e dou o dízimo de toda a minha renda’.
O cobrador de impostos, porém, ficou a distância, e nem se atrevia a levantar os olhos para o céu; mas batia no peito, dizendo: ‘Meu Deus, tem piedade de mim que sou pecador!” (vv. 11-13).

A oração não é para nos engrandecer, mas para reconhecermos nossos pecados, colocando-nos por inteiro nas mãos de Deus. O pecado não traz alegria, mas ele faz com que busquemos a verdadeira alegria, que é a nossa reconciliação com Deus: “O não reconhecimento da culpa, a ilusão de inocência não me justifica nem me salva, porque o entorpecimento da consciência, a incapacidade de reconhecer em mim o mal enquanto tal é culpa minha” (Spe Salve, 33). Aquele fariseu não foi justificado, mas sim o publicano, porque não apenas rezou, mas rezou com humildade. A oração não nos isola, mas nos ensina a viver em comunidade. “Orar não significa sair da história e retirar-se para o canto privado da própria felicidade. O modo correto de rezar é um processo de purificação interior que nos torna aptos para Deus e, precisamente desta forma, aptos também para os homens” (idem).

Na oração devemos buscar estar unidos de uma forma tão íntima com o Senhor que nem precisamos falar, pois Ele como Pai já sabe das nossas necessidades, do que realmente é importante.

Peçamos ao Senhor a humildade, para que não sobreponha-se as nossas misérias, mais que reconheçamos tudo como graça de Deus. Peçamos também, neste dia mundial das Missões, a graça de sermos testemunhas autênticas do Evangelho, para que ele seja levado a outros, sobretudo por nossas ações.

Enquanto agradeço a Deus pelo bom êxito do Sínodo dos Bispos para o Oriente Médio, confio-vos em minhas orações à proteção de Maria, Mãe da humildade.

Salus et Pax in corde Iesus et Maria

 

Vigilantes sempre!

Neste domingo o Santo Evangelho exorta-nos a guardamos a vigilância e a prudência. E quão grandes são esses valorosos conselhos no contexto da atual sociedade com que nos deparamos. Em um mundo relativista, que mostra resistência em ceder aos conselhos da Palavra de Deus, Jesus nos exorta veementemente a buscarmos um tesouro no céu: “Vendei vossos bens e dai esmola. Fazei bolsas que não se estraguem, um tesouro no céu que não se acabe; ali o ladrão não chega nem a traça corrói. Porque, onde está o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração” (Lc 12, 33-34).

Como as palavras de Jesus caracterizam profundamente o horizonte do mundo que temos à nossa frente. Uma sede de poder, uma ganância demasiada, um desejo exacerbado de possuir mais e mais, um consumismo desenfreado. Com isso, deixam-se cativar pelos “consolos” que esta vida pode oferecer, abandonado a Deus, buscam uma autoconfiança que os fazem transcender não para Deus, mas para este mundo, e esta transcendência logo perderá fôlego e vigor se o homem voltar-se para Cristo e nEle ver o único essencial e o único centro da vida humana.

Onde está o nosso tesouro? Indagam-se muitos no mundo hodierno. E eu iria mais a fundo: Onde temos feito os nossos tesouros? No mundo secularizado, que tende a sufocar os valores cristãos, éticos e morais; ou no Céu, no coração de Deus, onde os homens sequiosos são convidados para lá nutrirem forças na caminhada?

Não cabe somente a mim dar esta resposta. Só você poderá dá-la. O Senhor interroga a cada um de nós, e espera de nós uma resposta convicta, que verdadeiramente confirme um caráter de compromisso, como o “sim” de Maria.

Há! Como são felizes os mártires, que desapegaram-se de tudo, até mesmo das suas vidas! Como são felizes os sacerdotes, que desapegaram-se de uma feliz realização material para darem-se totalmente a Jesus Cristo! Isto porque a verdadeira felicidade não consiste em bens materiais, mas consiste em alguém: Jesus Cristo. Só Ele pode satisfazer todos os nossos anseios. Só nEle encontramos a verdadeira paz, a verdadeira felicidade.

Mais a diante o Senhor chama-nos a atenção para a vigilância: “Que vossos rins estejam cingidos e as lâmpadas acesas. Sede como homens que estão esperando seu senhor voltar de uma festa de casamento, para lhe abrirem, imediatamente, a porta, logo que ele chegar e bater” (Lc 12, 35-36). Vigiar tornou-se, nos dias de hoje, uma necessidade maior ainda para o cristão. Em uma sociedade que vulgariza os homens e mulheres, e que vive em espírito pecaminoso e de promiscuidade, as palavras de Jesus vêm tirar-nos da inércia espiritual, à qual muitos se rendem por não encontrarem forças para combater.

Estejam preparados! Que ecoe para todo o mundo estas palavras. Que ela possa alcançar todo o vasto campo de missão confiado a Igreja.

São Cipriano expõe muito bem o sentido deste Evangelho:

“Ninguém se preocupa com as coisas que hão de vir, ninguém pensa no dia do Senhor, na ira de Deus, nos futuros suplícios dos incrédulos, nos eternos tormentos destinados aos pérfidos… Quem acredita se acautela, quem se acautela se salva” (Sobre a Unidade da Igreja, XXVI).

A nós se dirigem as sábias e proféticas palavras de São Cipriano, tão incidentes na sociedade hodierna. Há meus irmãos! Se os homens soubessem a importância da vigilância! Eis que muitos não têm coragem de vigiar, assim como Pedro, Tiago e João não suportaram e curvaram-se ao sono.

A estes valem as fortes palavras de São Cipriano:

“Despertemos, irmãos diletíssimos, quebremos o sono da inércia rotineira e, por quanto for possível, sejamos vigilantes em guardar e cumprir os preceitos do Senhor… É necessário que estejamos cingidos, a fim de que, quando vier o dia da partida, não sejamos surpreendidos cheios de impedimentos e de embaraços. Fique sempre viva a nossa luz e brilhe em boas obras, para nos guiar da noite deste mundo aos esplendores da claridade eterna. Sempre solícitos e cautos, fiquemos à espera da chegada repentina do Senhor. Quando ele bater, encontre a nossa fé vigilante de forma que mereça receber o prêmio do Senhor. Se forem observados esses mandamentos, se forem postas em prática essas exortações, não acontecerá que sejamos vencidos – no sono – pela falácia do demônio, mas, como servos bons e vigilantes, reinaremos com Cristo glorioso” (idem).

“A quem muito foi dado, muito será pedido; a quem muito foi confiado, muito mais será exigido!” (Lc 12, 18). Não é porque somos cristãos que seremos poupados. As palavras do Senhor confirmam que árduo é o trabalho, mas será também grande a recompensa. Seremos cobrados por nossas ações e pelo que fizemos em prol do anúncio do Evangelho neste mundo. Àqueles que não querem guardar as palavras de Cristo, confiemos-lhes a misericórdia divina. E peçamos para nós o dom da vigilância, estar em prontidão, para que o Senhor nos convide ao seu eterno banquete.

A Virgem Santíssima nos auxilie nesta caminhada.

Ut in omnibus glorificetur Deus!

A verdadeira riqueza é Deus

Se no domingo passado fomos convidados a um encontro com Cristo por meio da oração, agora somos chamados a grande virtude da humildade.

A primeira leitura já é ela um ensinamento para nos desapegarmos das vaidades e prazeres materiais, supérfluos: “Vaidade das vaidades, diz o Eclesiastes, vaidade das vaidades! Tudo é vaidade” (Ecl 1,2). Assim começa o livro do Eclesiastes. A vaidade pode garantir uma vida melhor neste mundo, mas não nos dá a certeza de uma bem-aventurança, de uma vida moldada nos ensinamentos de Jesus Cristo e dos santos, e mais ainda: busca inserir-nos em um contexto totalmente adverso aos ensinamentos evangélicos.

Frutuoso são os ensinamentos provenientes do “Diálogo” entre Deus e Santa Catarina de Sena. Eis que Deus diz àquela fiel serva: “A soberba não leva ao céu, mas para o mais profundo do inferno” (Edit. Paulus, pag. 274). Quanta prepotência; quanta arrogância; quanta vaidade; quanto orgulho vemos no mundo de hoje! A sociedade está a descaracterizar-se e a privar-se de um intrínseco relacionamento com Deus, pois limita seu olhar apenas às possibilidades terrenas, não podendo ver, assim, o futuro espiritual destinado a cada um de nós, que deve ser o encontro salvífico com Deus.

Na segunda leitura São Paulo nos exorta:

“Se ressuscitastes com Cristo, esforçai-vos por alcançar as coisas do alto, onde está Cristo, sentado à direita de Deus; aspirai às coisas celestes e não às coisas terrestres” (Cl 3, 1-3).

Toda esta segunda leitura põe-nos em um contexto que caracteriza fortemente a nossa sociedade atual.

Ressuscitar com Cristo é um convite que cada dia renova-se a todos os homens, para que, conhecendo-O, possam amá-lO. E mais ressonante ainda é o objetivo desta ressurreição: alcançar as coisas do alto. O alto é a meta do cristão! É para lá que ele deve caminhar, não sozinho, mas com Cristo. A nossa vida nova, o nosso erguer-se junto com Cristo (synegeirö=conresurgere), se dá pela plena adesão aos seus ensinamentos, anunciados zelosamente pela Santa Igreja e propagados para a conversão das almas e a plena salvação de todos.

“Buscai as coisas do alto!” Não as terrenas, mas as do alto. As que provêm de Deus. Sim, não são fáceis as condições, para tais exige-se uma constante renúncia, no entanto, os frutos que dela provém perpassam esta vida e nos põe em uma profunda união com Deus.

Não pode progredir na vida quem, antes de tudo, não busca progredir na fé. E aqueles que sobrepõem-se a esta necessidade devem ter em mente que “somente o poder que se coloca sob a medida e o juízo do céu – isto é, de Deus – pode tornar-se poder para o bem. E só o poder que se coloca sob a benção de Deus pode ser seguro” (Bento XVI, Jesus de Nazaré, pag. 49).

“Quando Cristo, vossa vida, aparecer em seu triunfo, então vós aparecereis também com ele, revestidos de glória. Portanto, fazei morrer o que em vós pertence à terra: imoralidade, impureza, paixão, maus desejos e a cobiça, que é idolatria.” (Cl 3, 4-5).

Eis aqui onde muitos santos encontraram conforto em suas vidas. Aqui está a razão porque tudo renunciaram e deixaram-se totalmente preencher por Cristo. Eis o nosso consolo! Os santos (temos total certeza) virão na glória com Cristo. Essa vinda é dada, não por não pecarem, mas porque, sendo pecadores, reconheceram a grandeza de Deus, e humilharam-se a esta soberana bondade. Há uma frase que define a atitude de muitos, à qual seria desnecessário acrescentar mais alguma coisa: “Os santos concordam que são pecadores; só os pecadores acham que santos” (Peter Kreeft).

Nós, muitas vezes, nos iludimos com as vãs “glórias” deste mundo, nos exaltamos a tal ponto que não percebemos a nossa insignificância. O próprio Jesus recorda-nos, e mais que isso, impõe-nos esta condição para o seu fiel seguimento: “Quem se exalta, pelo orgulho, será humilhado; e quem se humilha será exaltado” (Mt 23, 12).

Ora, para o alto rumamos e do alto viremos no dia em que Cristo aparecer em sua glória. Mas como se dará esta subida? Dar-nos-á esta resposta o nosso Santo Padre Papa Bento XVI, felizmente reinante, que de forma sublime assim nos define: “A subida para Deus acontece precisamente na descida ao serviço humilde, a descida ao amor, que é a essência de Deus e, portanto, a verdadeira força purificadora, que capacita o homem para conhecer Deus e vê-lo”.
(Ibidem, p. 95).

Na humildade e no perdão Cristo manifestou a sua glória. Humilhado, não quis vingar-se, mas orou pelos seus malfeitores. Ó Senhor, ensina-me a também ser humilde. Ensina-me a curvar-me e a lavar os pés dos meus próximos. Ensina-me que não é pela grandeza que conquistarei o Reino dos céus, mas que quanto menor for maior serei.

Pela humildade nós poderemos contemplar a face de Deus. E são tantos os que estão a privar-se dela. Tantos que põe a confiança no dinheiro e no prazer, mas não buscam beber da verdadeira fonte, aquela da qual emana água viva. Não basta sermos homens novos, se não tomarmos atitudes de tal. “Não é suficiente ir em frente, é preciso ver para onde se vai!” (Bento XVI, Homilia na Missa de Corpus Christi, 2008).

No evangelho Jesus suscita o objetivo de sua missão: Anunciar o Reino de Deus. Ao ser indagado por um homem que pedia-Lhe para convencer o seu irmão que repartisse os bens com ele, o Senhor o diz: “Homem, quem me encarregou de julgar ou de dividir vossos bens?” (Lc 12, 14). Cristo não é divisor de bens materiais. Quem apega-se a bens materiais não serve para seguir Jesus. Quem se lamenta por segui-lO e não ter uma vida melhor (sinceramente digo) por favor não O siga. Ele não necessita e nem quer pessoas que se lamentem. O cristão não pode ser alguém que carpe-se por seguir Jesus! Ele almeja almas que dêem testemunho do seu nome; que não tenham nenhum resquício por ter abandonado tudo para segui-lO, mesmo que seja para a morte. E aí está a nossa verdadeira riqueza: em Deus. Deus é a única e verdadeira riqueza de um cristão. Não será mais impulsionado a esbanjar os prazeres deste mundo, aquele que tiver Deus como centro de sua vida. Ele deixa-nos um alerta: “Atenção! Tomai cuidado contra todo tipo de ganância, porque, mesmo que alguém tenha muitas coisas, a vida de um homem não consiste na abundância de bens” (Lc 12, 15).

Maria, nossa mãe, a Serva do Senhor, nos ajude a tornamo-nos sempre mais dignos do Reino de Deus. Que ela nos torne cada dia mais humildes com o seu exemplo.

Fraternalmente, em Cristo Jesus e Maria Santissima!

Perseverai e orai!

Neste domingo, a providência divina quis que nos fossem apresentadas as leituras que, poderíamos dizer, são persistentes, além de chamar nossa atenção, mais uma vez, para a necessidade da oração. Verdadeiramente, a persistência pelas coisas celestiais é algo importante na vida cristã. Só quem persiste pode chegar a uma meta. Por isso, hoje, Jesus convida-nos a uma “santa persistência”. Uma perseverança constante em não desanimarmos diante das dificuldades, a sermos cristãos autênticos. Por esta perseverança foram abertas aos mártires as portas do céu.

Na primeira leitura, chama-nos bastante atenção, a atitude de Abraão em que, mesmo diante de Deus, insiste pela salvação de Sodoma; no entanto, não havia nela nenhum justo. Há, bem verdade, ainda hoje, uma dúvida sobre qual pecado teria levado a destruição de Sodoma; diverge-se entre o homossexualismo ou a vida depravada que muitos habitantes estariam levando, fala-se até mesmo em xenofobia. No entanto muitos concordam que o verdadeiro motivo seria a prática homossexual, orgias e outras depravações morais.

Entretanto, façamos uma analogia com o que o texto quer dizer-nos hoje. Se Abraão indagava Deus sobre a sua misericórdia infinita, também muitos hoje duvidam da misericórdia de Deus. Para estes, o próprio texto já responde, mediante a persistência do pai de muitas gerações diante de Deus, quando ele pergunta ao Senhor se com cinqüenta justos Ele pouparia a cidade, e vai baixando o número até dez, e Deus lhe diz que por dez justos pouparia a cidade. Na cidade, porém, não havia nenhum justo. Os que lá se encontravam, Deus havia mandado sair. Ora, nosso Deus não é um somente um Deus de ira, mas também de justiça; e a sua justiça se estende por toda a terra. Ele deseja que todos se voltem para Ele, que mergulhem na sua inexaurível misericórdia e nela possam permanecer a todo instante, mesmo que sejamos tentados pelo mundo a dela nos afastarmos. O próprio Jesus, na sua aparição a Santa Faustina, fala da grandeza da misericórdia, e nos diz que esta precederá a própria Justiça: “Antes de vir como justo Juiz, abro de par em par as portas da Minha misericórdia” (Diário 1146; cf. 1728); e ainda: “Que o pecador não tenha medo de aproximar-se de Mim. Queimam-me as chamas da misericórdia; quero derramá-las sobre as almas” (Diário 50).

Na segunda leitura São Paulo nos chama a atenção para algo muito interessante: uma nova identidade. Deixarmos de lado o homem velho e tomarmos posse do novo homem: “Com Cristo fostes sepultados no batismo; com ele também fostes ressuscitados por meio da fé no poder de Deus” (Cl 2, 12). Vale também para nós tais palavras. Nos dias de hoje vemos o imenso número de pessoas que preferem estar apegadas à velha vida, fora dos preceitos evangélicos. O apóstolo nos convida a, com Cristo, adentrarmos a esta nova fase, a esta verdadeira conversão. Se pelo pecado estávamos mortos e o nosso laço de união com Deus foi cortado pelos nossos primeiros pais, com Jesus a humanidade encontrou novo sentido; Ele, Sumo e Eterno Sacerdote, reatou este laço e firmou-o novamente com algo que jamais poderá alguém cortá-lo: o seu preciosíssimo sangue, derramado pela nossa salvação e pela redenção do mundo. A morte de Cristo, sua total doação, é a melhor prova de que Deus ama a humanidade, de que não quer que ela afaste-se d’Ele por causa de ideologias ou de qualquer outra coisa.

O Santo Evangelho chama-nos a uma meditação do Pai Nosso, mas também convida-nos a voltarmos nossos olhos para duas parábolas que Jesus nos apresenta: Em que sentido as palavras desta oração poderiam ser comparadas aos nossos dias. E assim podemos inferir:

Não pode dizer “Pai nosso” quem não busca viver como Igreja e como filho de Deus.

Não pode dizer “santificado seja o vosso nome” quem não tem o nome de Deus como Santo e não o respeita.

Não pode dizer “venha a nós o vosso reino” quem se preocupa apenas com os bens materiais e superficialidades.

Não pode dizer “seja feita a vossa vontade” quem apenas busca fazer a própria vontade e não escuta a voz de Deus. Não pode dizê-lo quem apóia o aborto e os tantos meios de ataques a vida humana.

Não pode dizer “assim na terra como no céu” quem apenas vive para si mesmo e esquece que estamos todos peregrinando, rumo ao céu.

Não pode dizer “o pão nosso de cada dia nos daí hoje” quem nega o pão aos necessitados, quem é egoísta, e quem nega a presença de Jesus na Eucaristia, Pão espiritual para nossa salvação.

Não pode dizer “perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido” quem nunca perdoa o irmão e sempre deseja ser perdoado, levando uma vida hipócrita. E só com o perdão, que gera a unidade, poderemos alcançar a pasz no mundo.

Não pode dizer “Não nos deixeis cair em tentação” quem sempre se expõe a ela, levando uma vida desregrada.

Não pode dizer “mas livrai-nos do mal” quem pratica o mal e adere aos projetos do maligno.

Não pode dizer “Amém” quem não se compromete a viver conforme o plano de Deus.

Por fim, as parábolas nos convidam a confiarmos em Deus. A oração constante, insistente e que tenha uma boa finalidade, sempre será atendida por Deus. Como lembra a parábola, se não for pela boa intenção, atenderá pelo menos pela insistência. E Jesus nos diz: “Pedi e recebereis; procurai e encontrareis; batei e abrir-se-vos-á” (Lc 11, 9).

O Pai celeste só sabe e só pode dar coisas boas aos seus filhos. Ele nunca renegará uma oração sincera e confiante, um verdadeiro clamor que insurge das entranhas humanas e eleva-se ao mais alto dos céus, e Ele sempre estará disposto a atendê-la. “E que este clamor esteja impregnado de toda a verdade sobre a misericórdia que tem expressão tão rica na Sagrada Escritura e na Tradição, e também na autêntica vida de fé de tantas gerações do Povo de Deus. Com este clamor apelamos, como fizeram os Autores sagrados, para o Deus que não pode desprezar nada daquilo que criou  (Sab 11, 24), para o Deus que é fiel a Si próprio, à Sua paternidade e ao Seu amor” (Papa João Paulo II, Dives in Misericórdia, cap. 8, § 15).

Ajudemos a nossa humanidade a redescobrir o inestimável valor da oração, que só terá valor eficaz quando o homem, consciente de sua miséria, voltar-se ao Senhor, para que Ele possa, com seu beneplácito e com sua ação salvífica, instaurar em nosso meio o Reino de paz e de amor.

Maria Santíssima, mulher feita oração, nos ajude nesta caminhada em busca dos verdadeiros valores da oração.

Fraternalmente em Cristo Jesus e Maria Santíssima!

Eu creio na Igreja!

Basilica de São PedroFundada por Jesus Cristo sobre o bem-aventurado Pedro, a Igreja, sinal e instrumento de salvação, tem a missão de dar continuidade a presença real de Cristo em nosso meio, por meio da Eucaristia, e da transmissão da Boa Nova a todos os homens e mulheres desta humanidade, que “geme como em dores de parto” (Rm 8, 22). Este caráter peculiar ganha mais força ainda quando sabe-se que ela é corpo de Cristo, e nós somos partes integrais que a compõe.

São Paulo dirá, de forma esplêndida, que: “[A] Igreja de Deus vivo, [é] coluna e sustentáculo da verdade” (I Tm 3, 15). E sendo assim, ela recebeu esta imperiosa missão de fazer com que a humanidade conheça a única Verdade (Jesus), que ela contém e deseja transmitir ardorosamente aos povos que não conhecem Cristo, ou buscam ocultá-lo de suas vidas. Mas hoje uma forte onda anti-católica alastrou-se por todos os cantos. A Palavra de Deus, transmitida pela santa Igreja, e que graças a ela perpassou estes dois mil anos, já não faz efeito em muitas pessoas, está a perder seu valor em muitos âmbitos da sociedade, mas a Igreja, confiante nas palavras de Cristo, nunca abandonará sua missão para satisfazer o seu bel prazer; no-lo podemos constatar mediante as grandes perseguições que ela sofreu e sofre, e mediante o sangue de muitos mártires, derramado para que assim pudesse fertilizar os solos estéreis. E isto prova que não é a sua moral que a Igreja prega, não seus ensinamentos, senão e unicamente os de Cristo, para isto ela existe e por isso ela é perseguida.

O Concílio Ecumênico Vaticano II, assim ensina: “Fundado na Escritura e Tradição, ensina que esta Igreja, peregrina sobre a terra, é necessária para a salvação. Com efeito, só Cristo é mediador e caminho de salvação e Ele torna-Se-nos presente no Seu corpo, que é a Igreja; ao inculcar expressamente a necessidade da fé e do Batismo (cfr. Mc. 16,16; Jo. 3,15), confirmou simultaneamente a necessidade da Igreja, para a qual os homens entram pela porta do Batismo. Pelo que, não se poderiam salvar aqueles que, não ignorando ter sido a Igreja católica fundada por Deus, por meio de Jesus Cristo, como necessária, contudo, ou não querem entrar nela ou nela não querem perseverar” (Lumen Gentium nº 14). E São Clemente de Alexandria afirma-nos de igual modo: “Assim como a vontade de Deus é um ato e se chama mundo, assim também sua intenção é a salvação dos homens, e se chama Igreja” (Paed, 1,6). Quanto aos não-católicos a Lumen Gentium, diz: “Deste modo, o Espírito suscita em todos os discípulos de Cristo o desejo e a prática efectiva em vista de que todos, segundo o modo estabelecido por Cristo, se unam pacificamente num só rebanho sob um só pastor (31). Para alcançar este fim, não deixa nossa mãe a Igreja de orar, esperar e agir, e exorta os seus filhos a que se purifiquem e renovem, para que o sinal de Cristo brilhe mais claramente no seu rosto” (nº 15). Mas não quero ater-me a este assunto sobre questões de salvação agora, quero apenas mostrar a necessidade insubstituível da Igreja.

Não é qualquer instituição, mas é aquela que Cristo escolheu para ser sua esposa (2Cor 11,2; Ap 21,9). É nesta instituição que quero perseverar, é por ela que desejo me consumir, e sei que não será em vão.

Muito me admira a veemencia e voracidade com que muitos atacam, injustamente, a Igreja. Quanta falta de sabedoria; quanta hipocrisia a uma instituição que sempre procurou fazer o bem. É errôneo, e mais que isso, absurdo, culpar a Igreja por erros que partem de seus filhos. Mas neste momento recordo-me sempre das sábias palavras de Santo Epifânio, que logo nos primeiros séculos ressaltava a necessidade da união com a Igreja: “A Igreja é a finalidade de todas as coisas”. (Haer. 1,1,5)“ ‘Há um caminho real’, que  é a Igreja católica, e uma só senda da verdade. Toda heresia, pelo contrário, tendo deixado uma vez o caminho real, desviando-se para a direita ou para a esquerda, e abandonada a si mesma por algum tempo, cada vez mais se afunda em erros. Eia, pois, servos de Deus e filhos  da  Igreja  santa  de Deus, que conheceis  a regra segura da fé, não deixeis que vozes estranhas   vos  apartem  dela  nem  que  vos  confundam as  pretensões  das  erroneamente  chamadas  ciências”  (Haer.59,c. 12s).

Não obstante os constantes ataques a Igreja nunca perderá sua raiz, sua originalidade: os apóstolos e a Trindade, por isso mesmo ela se torna Ícone da Trindade. Pois sua raiz remete a estas três pessoas que agem continuamente nela.

Quando se diz que a Igreja é “santa e pecadora” vejo ai uma certa “precipitação”, e por que não uma confusão entre a Igreja como instituição, na sua originalidade, e o clero. O clero faz parte da Igreja (e é a parte mais importante, pois a eles cabe governar, administrar os sacramentos, tornar presente o Cristo, por meio da Eucaristia), porém não são somente eles a Igreja. A Igreja é a santa e infalível instituição que Jesus quis deixar aos homens, e por isso a edificou sobre Pedro: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16, 18). Ela é – como bem recordou o Papa Leão XIII – “a obra imortal do Deus de misericórdia” e tem por fim “a salvação das almas e a felicidade eterna” (Immortale Dei, 1).

Outro ponto a si questionar desta afirmação que a Igreja é também pecadora, estaria no fato que Cristo é a Cabeça da Igreja (cf. Cl 1, 18). Ora, se o próprio Senhor a governa, como poderia ela errar? Teria Cristo abandonado sua Igreja? Será que Ele esqueceu-se de sua promessa? Não meus irmãos. Em vão tentam derrubar a Igreja, mas nunca conseguirão. O Senhor, que age em sua Igreja, é maior que todas as tribulações e ventos impetuosos, porém passageiros. “Com efeito, é à própria Igreja que foi confiado o Dom de Deus. É nela que foi depositada a comunhão com Cristo, isto é, o Espírito Santo, penhor da incorruptibilidade, confirmação de nossa fé e escada de nossa ascensão para Deus. Pois lá onde está a Igreja, ali também está o Espírito de Deus; e lá onde está o Espírito de Deus, ali está a Igreja e toda graça” (Catecismo da Igreja Católica, 797).

Eis, pois, combatentes do Senhor, levantemos o estandarte da vitória, a Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, e permaneçamos sempre firmes nesta Igreja. Mostremos ao mundo o que realmente é a nossa Igreja. Não a abandonemos nunca, pois quem está com a Igreja Católica, está com Jesus Cristo. E crer na Igreja não é nada mais do que mostrar plena adesão a vontade de Jesus e aos seus ensinamentos.

Algumas estatísticas:

Com certeza nem todos sabiam das estatísticas que passarei agora.

No campo da instrução e da educação a Igreja administra 64.307 maternais, freqüentados por 6.394.295 alunos; 92.461 escolas primárias para 28.511.698 alunos; 39.404 institutos secundários para 16.454.439 alunos. Além disso, segue 1.715.556 de jovens das escolas superiores e 2.364.899 universitários. Este setor da atividade pastoral da Igreja marca um incremento em todas as faixas de idade: em relação ao ano precedente, os maternais aumentaram em 1.204, os primários em 911, os secundários em 2129.

Os institutos de beneficência e assistência administrados pela Igreja são no total 80.612, assim distribuídos: 5.236 hospitais, 16.679 dispensários, 656 leprosários, 14.794 institutos para idosos e portadores de deficiências, 9.996 orfanatos, 10.634 creches, 12.804 consultórios matrimoniais, 9.813 institutos de outro tipo. O continente com o maior número de estruturas é a América, seguido por Europa, Ásia, África e Oceania.

Estatísticas do site: Santa Sé

Aqui está a verdadeira riqueza da Igreja!

Então, essa era a sua visão da Igreja? Você sabia disso?

Pense bem!

Fraternalmente, em Cristo Jesus e Maria Santíssima!

Escolher a melhor parte

Neste Domingo somos chamados a contemplar Cristo e ouvi-lo em suas palavras. No evangelho é muito bem representada esta ação na figura de Maria, que põe-se aos pés de Cristo para escutá-lo e, ouvindo os ensinamentos do Mestre, se dispõe a fazer sua plena vontade, põe-se em atitude de serviço. Na primeira leitura é caracterizada a figura de Abraão, que serve ao Deus todo poderoso, e sugestiva e intrigante é a figura dos homens que apresentam-se a ele: três homens, representando as três pessoas da Santíssima Trindade.

Assim como Abraão, nós somos convidados a este constante ato de serviço: Humilhar-se diante de Deus, chorar nossas mágoas e pecados, reconhecermo-nos indignos de tamanha misericórdia, para que desta forma ela se manifeste em profusão.

Mas, se por um lado temos a figura de Maria, que põe-se a serviço e está em constante atenção para a mensagem de Jesus, por outro lado temos a figura de Marta, que ocupada com os afazeres da casa, não colocou-se aos pés de Jesus para compreender sua mensagem salvífica. Jesus então lhe diz: “Marta, Marta! Tu te preocupas e andas agitada por muitas coisas. Porém, uma só coisa é necessária. Maria escolheu a melhor parte e esta não lhe será tirada” (Lc 10, 41-42).

Fico pensando como estas palavras de Jesus incidem tão fortemente na sociedade hodierna. Quantas vezes os afazeres deste mundo “sufocam”, por assim dizer, o que realmente é essencial em nossa vida. E não seria extremismo meu dizer que o único essencial em nossa vida é Deus. Não precisamos nos ater a coisas supérfluas, desnecessárias, às quais não nos trará nenhum bem espiritual.

Sei muito bem quão difícil é falar e, mais ainda, combater o espírito de extravagância e de consumismo que este mundo relativista propõe. Porém, urge cada vez mais alto a nós cristãos, tomarmos ciência deste dever e pô-lo em prática. Mesmo que seja o mundo um instrumento de perseguição, mas quem está sob a proteção de Deus, quem se põe sob sua segurança e quem deseja cumprir sua vontade, será sempre amparado por Ele e poderá anunciar, sem nenhum temor, as diversidades de ensinamentos às quais nós devemos combater com o Santo Evangelho e o ensinamento da Santa Mãe Igreja.

Colocar-se aos pés de Cristo é, também, estar em adesão com os seus ensinamentos; e os deixados por  Ele para a Sua Igreja. É saber da necessidade de estarmos sempre atuantes, combatendo as forças do mal. Dirá Pascal: “Cristo morreu de braços abertos, para que nós não vivamos de braços cruzados.” E quantos, infelizmente, cruzam os braços e esquecem-se da missão à qual são chamados.

São Paulo irá dizer na segunda leitura: “Alegro-me de tudo o que já sofri por vós e procuro completar em minha própria carne o que falta das tribulações de Cristo, em solidariedade com o seu corpo, isto é, a Igreja. A ela eu sirvo, exercendo o cargo que Deus me confiou de vos transmitir a palavra de Deus em sua plenitude: o mistério escondido por séculos e gerações, mas agora revelado aos seus santos” (Cl 1, 24-26).

Ora, se até Paulo servia a Igreja, quem são hoje tais pessoas que, injustamente, atacam a Igreja e buscam ferir a integridade de seu corpo? Nosso Senhor confiou a Igreja a missão de perpetuar a sua presença na terra, de prefigurar o Seu Reino vindouro, ao qual ansiosos esperamos. Quantos dizem que a Igreja deve ser “reformada”, que é antiquada, retrógrada? Ao invés de reformar a Igreja, reformem seus corações que se fecham a Jesus e à palavra imutável que Ele deixou à sua Igreja.

Peçamos à Virgem Maria o dom da escuta e da humildade, para que, também nós, possamos colocar-nos aos pés de Cristo e escolhermos a “melhor parte”, a qual nem o mundo poderá tirar-nos. T

Fraternalmente em Cristo Jesus e Maria Santíssima!

Publicado também no: Reflexões Franciscanas

Jesus ou Cristo?

Um tema muito discutido na sociedade atual é sobre o Jesus histórico e o Cristo da Fé. Mesmo sabendo que “o homem histórico Jesus é o Filho de Deus, e o Filho de Deus é o homem Jesus” (Introdução ao Cristianismo, Edit. Herder, pag. 152, Joseph Ratzinger), mas nas últimas décadas surgiu, particularmente dentro da Teologia da Libertação, o conceito que o Jesus histórico, apresentado pela ciência, é unicamente suficiente, o Cristo dos Evangelhos é uma estória. Com isso pretendia-se abalar a credibilidade dos Evangelhos. Este pensamento, criado por Bultmann, insere-se em um dos mais absurdos – e por que não o mais absurdo – pensamento da Teologia da Libertação.

O então Padre Joseph Ratzinger, no seu livro Introdução ao Cristianismo, diz:

O dilema dos dois caminhos – de um lado, transpor totalmente ou reduzir Cristologia a História; de outro lado, desvencilhar-se da História, deixando-a para trás como supérflua para a fé – este dilema poderia ser resumido na alternativa que já perpassa a Teologia moderna: Jesus ou Cristo? A Teologia de hoje começa a voltar as costas a Cristo, refugiando-se em Jesus, enquanto historicamente comprovável, para, em seguida, no ápice do movimento, com Bultmann, virar em direção oposta, voltando de Jesus para Cristo fuga, que, todavia, no momento atual, já recomeça a configurar uma nova debanda de Cristo para Jesus (pag. 156).

Eis que estamos diante de uma problemática que afeta muitos dos nossos teólogos e padres da sociedade hodierna. Para muitos, Jesus não passa de um “libertador” social, revolucionário; no entanto, sua essencial missão fica oculta aos olhos de tais pensadores.

Tais erros, infiltrados na Teologia da Libertação, revestem-se de caráter verdadeiro, o que aumenta mais ainda a sua periculosidade, não somente por estar unida a este grupo de ensinamentos marxistas, mas por estar “dentro da Igreja”, por assim dizer. “Com a análise do fenômeno da teologia da libertação torna-se manifesto um perigo fundamental para a fé da Igreja. Sem dúvida, é preciso ter presente que um erro não pode existir se não contém um núcleo de verdade. De fato, um erro é tanto mais perigoso quanto maior for a proporção do núcleo de verdade assumida” (Eu vos explico a Teologia da Libertação, Card. Joseph Ratzinger I).

A teologia da libertação tenta se revestir de um santo catolicismo, quando na verdade são como raposas que tendem a destruir a vinha do Senhor.

Ainda para Bultmann, “Jesus pertence aos pressupostos do Novo Testamento, permanecendo, porém, encerrado no mundo do judaísmo” (ibidem II).

Ora, no seu livro Essência do Cristianismo, Harnack, exprime um cristianismo demasiado orgulhoso e de caráter racionalista, nos apresenta uma espécie de “libertação”, mas que encontra-se envolta em erros. Diz ele: “Não o Filho, mas exclusivamente o Pai pertence ao Evangelho, como Jesus o anunciou”. Mas o que queria ele afirmar com esta frase? Para ele Jesus seria o divisor da humanidade. “Onde a fé no Filho criou separações – cristãos e não cristãos e cristãos de diversos credos – a fé no Pai é capaz de unir. Onde o Filho só a poucos pertence, o Pai pertence a todos e todos a ele. Onde a fé cindiu, o amor pode reunir. Jesus contra Cristo significa: fora com o dogma, retorno ao amor” (Introdução ao Cristianismo, Edit. Herder, pag. 157, Joseph Ratzinger).

E poderíamos então concluir: logo, a salvação estaria unicamente em Deus e não em Jesus. Chegamos aqui ao relacionamento da Santíssima Trindade. A Igreja anuncia, e a própria Bíblia já nos apresentou, que existem três pessoas em um só Deus. O Pai, o Filho e o Espírito Santo, agem conjuntamente. Não se contradizem. Se Deus salva, também Jesus e o Espírito Santo podem fazê-lo. A diversidade de pessoas não dá lugar à diversidade de “deuses”. O próprio Jesus disse a Filipe: “Quem me viu, viu o Pai… Não acreditas que eu estou no Pai e que o Pai está em mim? As palavras que eu vos digo, não as digo por mim mesmo; é o Pai que, permanecendo em mim, realiza as suas obras” (Jo 14,9-10).

E eis que outro ponto ao qual gostaria de fazer um breve comentário é sobre a relação amor e dogma. Verdadeiramente, a Igreja pode também ser definida como a “instituição do amor”. Ninguém, mais que a Igreja ama seus filhos que lhes foram confiados pelo próprio Amor. A Igreja dos mártires e dos santos. A Igreja das diversidades de dons, que buscam fundamentar uma humanidade cada dia mais santa. A Igreja que vive o amor. Mas, para alguns, viver o amor significa ser coerente com o erro. Não! Isto não é amor, é imprudência. Já diz o ditado: “Deus ama o pecador, mas odeia o pecado”. Isto significa que devemos combater os erros. Devemos aniquilar as heresias que se levantam contra a Santa Fé Católica. Viver a liberdade de filhos de Deus, supõe que possamos ter em mente que esta inicia-se no limiar dos mandamentos, e encerra-se onde os mesmos findam-se. Não obstante os erros dos seus filhos, a Igreja incita-os a abandonarem a vida desregrada e afastada de Deus, e a unirem-se a Ele por meio da observância dos mandamentos.

A ciência com seus pressupostos e antepondo-se a fé, não terá uma direção correta. Se as duas não estão lado a lado, de algum lado haverá precipitação. Ainda que historicamente pareça poder trilhar seu caminho individual, a ciência não terá sentido, e não chegará a um destino, se privar-se de Deus. Recordo-me das palavras do Papa João Paulo II: “O homem se encontra num caminho de busca, humanamente infindável: busca da verdade e busca duma pessoa em quem poder confiar. A fé cristã vem em sua ajuda, dando-lhe a possibilidade concreta de ver realizado o objetivo dessa busca” (Fides et Ratio, 33).

No seu livro já citado, o Cardeal Ratzinger fala da teologia da “morte de Deus” (pag. 158), propagadora da idéia que, embora não disponhamos mais de Deus, nos fica Jesus Cristo, que torna-se um sinal de confiança e anima-nos a prosseguir. E esta teologia se dá claramente hoje. É a prova viva de que a humanidade necessita redescobrir a face misericordiosa de Deus.

Em conclusão: “Jesus só existe como o Cristo e o Cristo só é real como Jesus… Talvez seja mais indicado confiar mais na presença da fé atuante através dos séculos, que, em sua natureza, nada mais é do que compreensão – compreensão do que e quem finalmente foi Jesus – quiçá seja mais indicado confiar na fé, do que na reconstrução que busca seu caminho fora da realidade. Pelo menos convém tomar conhecimento do que, afinal, essa fé nos diz” (Idem).

Peçamos a Virgem Maria, hoje invocada com o título de Nossa Senhora do Carmo, que interceda pela Santa Igreja, para que possa enfrentar todos os desafios que insurgem contra ela. Aos que puderem, recomendo insistentemente a leitura dos livros Introdução ao Cristianismo e Jesus de Nazaré, para que saibamos defender-nos das heresias que se disfarçam de doutrinas.

Fraternalmente em Cristo Jesus e Maria Santíssima!