Natal do Senhor: Regeneração da humanidade

“O povo, que andava na escuridão, viu uma grande luz; para os que habitavam nas sombras da morte, uma luz resplandeceu” (Is 9,1).

icone-da-natividade-6Depois do período proposto pela Igreja para a preparação do Natal, eis que hoje chegamos ao grande dia! É nascido um menino para a humanidade! Um Deus que se faz homem, um homem que é Deus. A leitura do profeta Isaías requer de nós um olhar contemplativo voltando-nos à gruta de Belém, mas sem esquecer-nos dos dias tormentosos do exílio babilônico ao qual fora submetido o povo. As palavras proféticas mais do que uma narração do passado da descendência judaica, tornaram-se para os pastores uma concretização e para nós uma esperança. Transcorrendo o cativeiro babilônico sob o poder de Ciro, a esperança do povo judeu tornava-se sempre mais escassa e inconsistente. Ecoava o brado dos exilados que sofriam sob pesados trabalhos, impostos e escravidão. Entretanto, o oráculo do profeta anuncia uma centelha de esperança, uma esperança que não se fundamentava em falsas concepções e em deuses vazios, mas na promessa do verdadeiro e Altíssimo. Esta profecia não se restringe tão somente à libertação da Babilônia, mas é também um preclaro sinal messiânico. Os versículos precedentes ao capítulo 9 são um verdadeiro poema que inicia-se com a bonança e conclui-se com os dias terríveis para os povos.

A quem se dirigia esta profecia? Os exegetas dizem tratar-se da destruição do reino da Samaria. O profeta ainda fala de um retorno dos deportados, que relacionava-se não aos judeus que voltariam da Babilônia, mas aos israelitas exilados para outro extremo da Assíria. Para nós, porém, estas palavras dirigem-se além de limites históricos e contextos territoriais e sociais da época. Na sociedade hodierna cada vez mais tende o homem a fazer desaparecer a luz da fé e a esperança de um retorno ao Deus verdadeiro. Lançamo-nos no ideal de sermos senhores de si e esquecemos o senhorio de Deus, que não manipula, não impõe, não força a nossa ação, mas ao contrário: requer de nós apenas o testemunho verdadeiro do discipulado. Como pude retratar em minha carta para o encerramento do ano da fé: “Para os que creem, o testemunho não é privilégio, mas exigência e necessidade de um autêntico discipulado”.

Outrora andou em escuridão o povo exilado, outrora estavam os pastores na escuridão, hoje o homem torna-se um ser das trevas quando procura eliminar Deus da vida social e da própria vida religiosa ao depositar a confiança em garantias tão inseguras e ao edificar sua fé em bases tão insólitas e solitárias. O profeta afirma que sem Deus, sem a sua luz grandiosa e guiadora, o povo estava envolto apenas em sombras, pois residia na escuridão. Algumas traduções dizem: “habitavam uma região tenebrosa”. A tradução latina de tais palavras nos fala precisamente: “habitantibus in regione umbræ mortis – habitavam na região das sombras da morte”. O homem sem Deus fenece! Sua sabedoria torna-se vã e o seu esforço inútil. É, de certo, um estado de morte se este já não mais vive, mas torna-se um suicida: decreta a si o seu fim porque decreta a independência do seu Criador. O homem tem necessidade de Deus, mas não uma necessidade que o torne dependente, que o manipule, como o fazem as drogas, os jogos e outros vícios. A necessidade de Deus, que é inerente ao homem, parte do principio de que sem Este a humanidade perde o seu norte, caminha para o precipício e para o descerramento do vazio existencial.

E daqui faz o homem encontrar-se consigo nas palavras de Isaias para descrever o cenário que entrou e tomou os horizontes do mundo em nossos dias. O ser humano parece ter sido talhado em sua capacidade de perceber Deus, de senti-Lo; está sempre a procurar subterfúgios para ab-rogar-se de prestar contas a Deus de todo o bem feito e do amor exercido já nesta terra. Muitos de nós dizemos que não temos tido tempo suficiente para Deus. Sempre nos consumimos em afazeres cotidianos. E o que tributamos ao Senhor? Apenas aquilo que nos sobra, ou ainda, nada. Quem não tem tempo para Deus, perde o seu tempo. O encontro do homem com Deus é o encontro com a própria esperança, consigo e com sua existência. Só quem redescobriu o sentido de estar em Deus, redescobriu, deveras, o sentido de viver. Quem não confia seu tempo ao Senhor não é herdeiro da promessa à qual fez aos antigos profetas. De fato, ainda hoje concretiza-se aquilo que está escrito: “Todo calçado que se traz na batalha, e todo manto manchado de sangue serão lançados ao fogo e se tornarão presa das chamas” (v4).

Sim, ainda sentimos o peso do bastão do opressor e os calçados que marcham ruidosos. Presenciamos as vestes manchadas de sangue, muitas vezes de inocentes que são aniquilados ainda em ventre materno, devido à perda do sentido verdadeiro da vida. Penso ainda de modo particular na veste dos cristãos que são manchadas de sangue por confessarem sua fé no verdadeiro Deus, sobretudo aqueles que habitam no Oriente Médio. Confiantes na luz da esperança predita já pelo profeta, queremos pedir: Senhor, compadecei-Vos de nossos pecados. Livrai-nos das vestes manchadas de sangue e do bastão dos opressores. Vós que viestes na fragilidade de uma criança, mostrai ao mundo que o verdadeiro poder não reside nos armamentos e nas técnicas de destruição, mas na força propulsora do amor que renova e dá vida. Que possamos ser homens da vida renovada e firmada na esperança do Reino vindouro.

Por outro lado, pervade nosso interior o júbilo desta noite que ainda mais uma vez ressoa em nossos ouvidos: “Não tenhais medo! Eu vos anuncio uma grande alegria, que o será para todo o povo. Hoje, na cidade de Davi, nasceu para vós um Salvador, que é o Cristo Senhor” (Lc 2,10-11). O nascimento de Cristo é a concretização da esperança predita pelo profeta. Deus está presente! Ele é verdadeiramente o Emmanuel – Deus conosco.  Ainda se ignorado e rejeitado pelos seus, Cristo sinaliza para o verdadeiro caminho, onde já não mais prevalece o medo que outrora aflorava na consciência do povo judeu. Ele renova todas as coisas, como bem nos recorda o Apocalipse (cf. 21,6). Nasce para nós o renovador. Mas, que tipo de renovador é Jesus? Seria um renovador social? Não, não é! Tampouco um renovador político ou religioso. Jesus é sim o renovador do homem, do seu coração e da sua vida; é “gerado do Pai antes de todos os séculos, Deus de Deus, luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, consubstancial ao Pai” (Credo Nisceno-constantinopolitano).

Contraposta às palavras do profeta, o evangelista narra a esperança e a coragem como próprias da eminente chegada do Salvador. Não temer é próprio de quem crê, quem está firme em Deus e permite que Ele adentre o seu coração e lá faça a sua morada. O Menino que chega não nos priva da liberdade de dizemo-Lo “não”; não invade o nosso livre-arbítrio, mas é da sua boca que emana as palavras: “Eis que estou à porta, e bato; se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa, e com ele cearei, e ele comigo” (Ap 3,20). Neste sentido é que a mesa eucarística torna-se para nós sinal da unidade e do reencontro com Cristo: Ele ceia conosco, entra livremente em nosso coração e nos concede um outro tempo além dos limites cronológicos. Para os gregos três eram as instâncias de tempo: o Chronus que refere-se ao tempo cronológico; o Kairós, o tempo da graça em que algo especial acontece; e o Aion, o tempo sagrado e eterno, sem nenhuma mesura cronológica: aquilo que hoje diríamos ser o tempo de Deus. O Menino-Deus permeia estes três aspectos e nós somos também parte de tal. De Deus viemos, do Aion, o tempo em que não há tempo; estamos inseridos no Chronus e fazemos já aqui a experiência do Kairós, momento surpreendente da graça de Deus em nossa vida. Porém, ainda que constantes no Chronus, o espírito cristão deve sempre voltar-se ao Aion, ao definitivo encontro com Deus na consumação da salvação.

Neste período nos cercam as falsas concepções de espírito natalino que o mundo nos oferece. O que de fato é o natal? Não é está falsa paz de espírito da mundaneidade; tampouco é este período somente de confraternização familiar ou, até para muitos, um espírito de tristeza. O Natal é bem mais que isto: é o reconhecimento da grandeza na fragilidade, do poder naquela aparente fraqueza. O Senhor vem! Faz-se um de nós, nos chama de modo singular: nisto consiste a grandeza do Natal. O divino se humaniza para dar um novo olhar a nossa humanidade. Não queremos e não podemos nos contentar com este falso espírito de confraternização que a mídia propõe. O Natal só tem sentido com Cristo, se está firmado nos princípios cristãos. Caso contrário, toda comemoração será vã. Por isso a festa da natividade de Nosso Senhor nos faz reconhecer que em tudo há uma supremacia: aquela do amor. Onde o amor não é conhecido, ou é rejeitado, também o próprio Deus é aniquilado. Que outra explicação haveríamos de dar com mais profundidade e realismo senão a de que Deus desce para se fazer amor?

A perspectiva do amor é algo fascinante na teologia da vida. Nosso Senhor nos ensinou muito bem como o amor, personificado Nele, se manifesta: doação, renúncia. Quem ama não se retém, mas se doa, se abre ao outro para caminharem juntos ao coração de Deus. Amor é “doa-ação” (ação-doada), doar-se, a si e suas ações, esvaziar-se do individualismo e compartilhar-se com aquele a quem nós nos damos. Por isso a renúncia que o amor carrega não nos traz perdas, mas completa-nos. Só quem tem o coração todo disponível a Deus pode renunciar por amor e para o amor.

Peçamos ao Senhor que nos ilumine com a sua luz nesta noite santa, para que se dissipem todos os sinais de trevas e todos os tormentos. Que ressoe no mundo a boa notícia dita aos pastores e anunciada a nós por meio de Deus pela boca dos seus ministros: “Hoje vos nasceu o Salvador, Cristo o Senhor”.

Sacrosanctum Concilium. Parte doze. A Santa Missa: o alvo e a flecha, o princípio e o objetivo.

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 O nº 10 da Constituição Conciliar Sacrosanctum Concilium é relativamente grande uma vez que engloba dois parágrafos. Grande em assuntos abordados, como não poderia deixar de ser e o é em praticamente todos os parágrafos do documento, como também é grande em tamanho físico. Vejamos o primeiro parágrafo do nº 10 para poder destrinchá-lo e analisá-lo coerentemente:

10. Contudo, a Liturgia é simultaneamente a meta para a qual se encaminha a ação da Igreja e a fonte de onde promana toda a sua força. Na verdade, o trabalho apostólico ordena-se a conseguir que todos os que se tornaram filhos de Deus pela fé e pelo Batismo se reúnam em assembleia para louvar a Deus no meio da Igreja, participem no Sacrifício e comam a Ceia do Senhor.

O parágrafo menciona desde a meta para a qual a Igreja se dirige, passando pelo motor de onde a Igreja retira suas forças para desempenhar seu papel e atividade, até chegar ao esforço que a Igreja precisa empreender para alcançar a uma perfeita participação em seus objetivos.

Pois bem, é como entender cada uma dessas encruzilhadas para que não se tornem confusas a ponto de nos perdermos em meio a tantos caminhos.

O texto do parágrafo afirma que “a Liturgia é simultaneamente a meta para a qual se encaminha a ação da Igreja (…)”. O texto é claríssimo a demonstrar, não só aqui nessa frase, mas em toda e qualquer manifestação da Igreja sobe a liturgia da Santa Missa que esse é o fim principal da Igreja, afinal ali, na Santa Missa, é que se faz o sacrifício, conforme ordenado pelo próprio Cristo e onde se conserva Cristo crucificado e vivo, onde se conserva a comunhão e nosso compromisso renovado com esse projeto salvífico.

A encíclica de nosso saudoso João Paulo II é clara ao deixar, em todo o seu texto, desde o título, que aqui se trata da Igreja da Eucaristia, a Igreja que vive na e da Eucaristia. Suas palavras são implacavelmente diretas ao colocar a Eucaristia, portanto o sacrifício da Missa, em primeiríssimo lugar:

1. A Igreja vive da Eucaristia. Esta verdade não exprime apenas uma experiência diária de fé, mas contém em síntese o próprio núcleo do mistério da Igreja. (Encíclica Ecclesiade Eucharistia, Papa João Paulo II)

Na mesma encíclica o Papa João Paulo II ainda menciona:

“Por isso mesmo a Eucaristia, que é o sacramento por excelência do mistério pascal, está colocada no centro da vida eclesial.”

(Encíclica Ecclesiade Eucharistia, Papa João Paulo II, ponto 3, itálico no original)

Quando a Sacrosanctum Concilium afirma que “a Liturgia é a meta a qual se encaminha a ação da Igreja” é justamente desse caminho, o da Eucaristia, que ela quer falar. Sem a Eucaristia não existe Igreja, sem Santa Missa não existe Eucaristia. A conclusão fica clara como o sol: sem Santa Missa não há Igreja.

O próprio Concílio Vaticano II tratou de deixar nítida tal afirmação em outro de seus documentos, a Lumen Gentium, demonstrando a total coerência que não podia deixar de acontecer em um Concílio que, apesar das más-línguas, apenas propagou a continuidade dos mais de vinte que o antecederam, sem falha e sem ruptura, para desespero de muitos. Vejamos:

“(…)Pela participação no sacrifício eucarístico de Cristo, fonte e centro de toda a vida cristã (…)”

Não há como negar, portanto, que a Liturgia é o centro da vida eclesial. Todos os demais pontos de conversão em que a Igreja se encontra são secundários, por mais que o mundo assim não veja.

Parece insensível fazer esse tipo de afirmação quando colocamos, por exemplo, as questões assistenciais. Entretanto, antes de pormenorizar, afirmamos: a Santa Missa é mais importante.

Em vários lugares pelo mundo já que não é exclusividade de nossa América Latina, a questão assistencial da Igreja é muito latente. Dificilmente deixamos de encontrar as chamadas Pastorais Sociais nas paróquias. Ninguém nunca disse que esse tipo de trabalho é proibido ou inconveniente, pelo contrário, contudo não pode, nunca, ser colocado acima da Santa Missa.

Sacerdotes que são verdadeiros líderes comunitários e desenvolvem um trabalho social invejável são de extrema importância e muito bem vistos, contudo sua preocupação deve igualmente girar em torna da dignidade litúrgica e mais ainda em torno da importância do sacrifício de Cristo na Santa Missa.

É preciso sempre lembrar que a função da Igreja é salvar almas. Distribuição de cestas básicas pode ser um dos caminhos, contudo não é o único, caso contrário, parafraseando nosso Papa Francisco: não seremos mais que uma gigantesca ONG.

É nesse sentido que devemos identificar todos os trabalhos que envolvem a Igreja, fora o trabalho litúrgico. Grupos de Oração, trabalhos pastorais do mais diversos e a trazer a dignidade a quem não tem, são temas e serviços muito caros à Igreja e muito bem vistos aos olhos de Deus. Trazem uma dignidade à alma que sem dúvida ajudará em nossa salvação e ajudará na salvação de tantos outros, contudo não é o principal, repito. A Santa Missa sim, o é.

Não a toa que a primeira oração do primeiro parágrafo do nº 10 da Sacrosanctum Concilium conclui que:

“(…) a Liturgia é simultaneamente a meta para a qual se encaminha a ação da Igreja e a fonte de onde promana toda a sua força.”

Não só a Liturgia é a meta, o alvo e o objetivo maior, mas também é o princípio, o início de tudo quanto há, afinal quem mesmo é o alfa e o ômega (Ap 1,8; 21,6; 22,13)?

Sacrosanctum Concilium. Parte Dez: Antes de participar da Santa Missa é preciso fé e conversão.

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Ao analisar a liturgia como um todo e ler documentos como a Ecclesia de Eucharistia do Beato João Paulo II, muitos que tem em seu intento apenas o estudo deixando de lado a vivência da fé comunitariamente, seja participando ativamente em uma paróquia seja apenas frequentando a missa nos dias santos e de guarda, como prescreve o mandamento, acaba por tirar suas próprias conclusões de forma errada. Essas conclusões podem divagar entre dois pontos:

Primeiro: a liturgia é um conjunto de regras a serem seguidas com gestos, rituais e falas marcadas por momentos adequados;

Segundo: a liturgia é o ponto principal, portanto o único que deve ser levado em consideração, sendo os demais mero enfeite desse principal.

Ora, ambas as considerações estão erradas. Depois da internet e o acesso fácil a um sem número de documentos, foram criados senhores em doutrina católica como “nunca-antes-visto-nesse-país”, digo até que no mundo. Surgiram experts em assuntos que antes apenas demandava fé e obediência por parte dos fiéis que, antes de tudo são isso: fiéis.

Entender de doutrina, conhecer documentos da Igreja, saber o porquê de cada detalhe na liturgia da Santa Missa, são de especial importância, contudo não são essenciais. Ninguém precisa ser perito em liturgia para comungar legitimamente, muito menos para se confessar ou crer que a Igreja foi fundada por Cristo e a ela devemos nossa obediência. Ninguém precisa saber o que vem a ser transubstanciação, doxologia final, oração sobre as oblatas ou discutir academicamente a tradução da fórmula da consagração para ser bom católico. Aliás, esses, os que não sabem dessas discussões, costumam ser os melhores católicos, porque, na ignorância e pobreza, inclusive de coração (Mt. 5, 3) ) são os que creem. São eles os que creem sem terem visto (Jo. 20,29).

Pois bem, a liturgia não é só um conjunto de regras rígidas de falas e posicionamentos de corpo. Essa definição se assemelha mais a uma parada militar. A Santa Missa também não se fecha nela mesma e se esgota em si mesma. A Santa Missa é muito mais que isso. Trata-se do sacrifício de Deus. Essa frase parece não expressar toda a amplitude da questão, contudo é exatamente isso: Deus dando Sua vida para abrir caminhos à salvação da humanidade que se perdeu por querer justamente atacar e ser esse mesmo Deus. Nenhuma religião prega um Deus como esse. Os politeísmos grego e romano tinham deuses que se proliferavam mais que ratos fechados em um porão, contudo nenhum desses deuses seria capaz de se entregar por aqueles meros e insignificantes mortais. Trata-se de algo novo e inesperado na história: um Deus que se rebaixa à condição precária de ser humano e entrega a vida com total resignação e sofrimento à uma humanidade que como ser social nunca fez nada para merecer tal ato de misericórdia.

É nesse sentido que o número 9 da Constituição Conciliar Sacrosanctum Concilium manifesta:

9. A sagrada Liturgia não esgota toda a ação da Igreja, porque os homens, antes de poderem participar na Liturgia, precisam de ouvir o apelo à fé e à conversão: «Como hão-de invocar aquele em quem não creram? Ou como hão-de crer sem o terem ouvido? Como poderão ouvir se não houver quem pregue? E como se há-de pregar se não houver quem seja enviado?» (Rom. 10, 14-15).

Grande parte do parágrafo merece ser dissecado em texto apartado por que a complexidade ultrapassa os limites do que aqui já foi discutido e tornaria o texto extremamente longo: assim o faremos. Entretanto, que fique muito clara a primeira frase desse número 9 do documento conciliar: “A sagrada Liturgia não esgota toda a ação da Igreja, porque os homens, antes de poderem participar na Liturgia, precisam de ouvir o apelo à fé e à conversão (…)”

A Liturgia, antes de ser vista e dignamente acompanhada e honrada por nós, deve ser resultado de profunda conversão. Podemos entender cada parte da missa e explicá-la a qualquer leigo ou doutor em teologia, mas nunca ela será completamente entendida e, mais que isso, vivenciada, se não estivermos em profundo estado de conversão. A medida que entendemos, mas não cremos piamente no que ali acontece, para nós nada ocorre que não um evento social ou religioso que pode ser visto em qualquer lugar a qualquer tempo, portanto, “depois posso assistir à missa, vou ficar conversando aqui fora agora”.

Entender o milagre que acontece em cada Santa Missa é saber que nada pode ser mais importante, nada pode sobrepor esse momento ímpar. Acompanhar a Santa Missa dignamente e convertido é acompanhar um milagre pessoalmente com hora marcada. Qual de nós nunca teve pelo menos um breve lapso de vontade de ver um milagre acontecer à frente de nossos olhos? Qual de nós nunca pensou que poderia ter estado no dia de pentecostes, vendo e ouvindo os apóstolos falarem em sua própria língua e todos ouvirem em suas línguas, uma Babel ao contrário? Ou quem nunca pensou que poderia ter estado naquela manhã de outubro de 1917 em Fátima para ver o sol dançar no céu? Sem dúvida todos já tivemos essa vontade, entretanto, simplesmente abandonamos a oportunidade de ver um milagre com hora marcada que acontece todos os dias diversas vezes e que é o motivo de todos esses outros milagres: a consagração e transubstanciação.

A conversão transforma nossa vivência da Santa Missa em algo de suprema importância e magistral significância. Cada gesto, cada palavra, cada inclinar de cabeça ou dobrar de joelhos, passa a ser não uma obrigação ou imitação, mas um verdadeiro ato de adoração, fé e conversão.

Sacrosanctum Concilium. Parte nove, A promessa divina realizada na Santa Missa.

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Sacrosanctum Concilium. Parte dois.

Sacrosanctum Concilium. Parte três. Um guarda fiel da tradição.

Sacrosanctum Concilium. Parte quatro. A plenitude do culto divino.

Sacrosanctum Concilium. Parte Cinco. A presença de Cristo na Santa Missa.

Sacrosanctum Concilium, Parte Seis. Santa Missa: culto agradável a Deus e o caráter esponsal de Cristo com Sua Igreja.

Sacrosanctum Concilium. Parte Sete. Culto público e integral da Igreja e exercício da função sacerdotal de Cristo.

Sacrosanctum Concilium. Parte Oito. A Liturgia terrena, antecipação da Liturgia celeste.

Sacrosanctum Concilium. Parte Nove. A promessa divina realizada na Santa Missa.

Em continuidade ao número 8 do documento intitulado Sacrosanctum Conciliumtemos que, além de entender que a Liturgia da qual participamos aqui é uma antecipação da liturgia celeste; que essa mesma liturgia é lugar de onde nos dirigimos à Deus, conforme por várias vezes já foi mencionado e que o documento nada mais faz do que confirmar o que estamos tentando dizer:

8. Pela Liturgia da terra participamos, saboreando-a já, na Liturgia celeste celebrada na cidade santa de Jerusalém, para a qual, como peregrinos nos dirigimos e onde Cristo está sentado à direita de Deus (…)

A Santa Missa se mostra um caminho que deve ser trilhado por todos nós, entendendo que Cristo é o Caminho (João 14, 6a) como Ele mesmo já nos disse. Na Santa Missa temos o sacrifício de Cristo, escândalo para um sem número de pessoas, cristãs ou não, que nos leva à salvação, afinal, Cristo morreu para nos salvar e abriu o caminho para que todos nós pudéssemos chegar ao Pai, contudo é preciso querer, é preciso buscar, é preciso trilhar esse caminho.

(…) por meio dela cantamos ao Senhor um hino de glória com toda a milícia do exército celestial, esperamos ter parte e comunhão com os Santos cuja memória veneramos, e aguardamos o Salvador, Nosso Senhor Jesus Cristo, até Ele aparecer como nossa vida e nós aparecermos com Ele na glória (23).

Os anjos não à toa participam da Santa Missa. Ela é o apogeu da adoração divina e toda criatura deve fazer essa adoração (Filipenses 2, 9-10). Obviamente que o grau de entendimento dos anjos é muito maior que o grau de entendimento do mais entendido dos seres humanos, contudo só podemos pagar por aquilo que sabemos e entendemos. Como diriam alguns: a ignorância salva mais do que qualquer outra coisa nesse mundo (Atos dos Apóstolos 17, 30).

Algumas passagens bíblicas são cristalinas para o entendimento da Santa Missa como ela é e como foi sendo inserida na humanidade desde o princípio.

Desde o início Deus faz uma aliança com Abraão, então Abrão, o que pode ser lido em Gênese 15, 5-19. A passagem parece estranha e com costumes estranhos aos nossos, porém, ao ser entendida como um pacto, podemos chegar a algumas conclusões.

Deus diz a Abrão que lhe dará uma infinita descendência:

E, conduzindo-o fora, disse-lhe: “Levanta os olhos para os céus e conta as estrelas, se és capaz… Pois bem, ajuntou ele, assim será a tua descendência.” (Gênesis 15,5)

Essa era uma promessa divina e certamente seria cumprida, contudo Abrão, mesmo confiando deixa transparecer uma ponta de dúvida ao perguntar a Deus:

“O Senhor Javé, como poderei saber se a hei de possuir?” (Gênesis 15, 8)

Deus, em Sua infinita misericórdia não leva a pergunta com maus olhos e entende a dúvida de Abrão, afinal era uma promessa sem precedentes e de uma grandeza sem fim. É preciso entender que a grandeza dessa promessa não estava somente na quantidade de descendentes, mas na possibilidade de ter esses descendentes. Nossa sociedade atualmente parece inverter os papéis e entender que uma grande prole e uma larga descendência é uma praga, uma espécie de maldição. As pessoas não mais querem filhos e preferem cachorros e gatos, contudo Abrão e toda a sociedade em que ele estava inserido não entendia assim, pelo contrário, tinha nessa grande prole e grande descendência o entendimento de que é uma bênção de Deus, como na verdade é.

Pois bem, Abrão considerou essa bênção grande demais e por isso faz a pergunta para Deus querendo saber como poderá saber se há mesmo de possuir tudo aquilo.

Deus responde com uma ordem estranha para nossos costumes:

“Toma uma novilha de três anos, respondeu-lhe o Senhor, uma cabra de três anos, um cordeiro de três anos, uma rola e um pombinho.” (Gênesis 15, 9)

A ordem de Deus para Abrão é um tanto quanto estranha, mas muito óbvia para Abrão que não titubeia e já parte em busca desses animais.

Como podemos perceber, Abrão já sabia o porque de Deus pedir esses animais e já prepara tudo sem mesmo que Deus determine algo mais, vejamos:

Abrão tomou todos esses animais, e dividiu-os pelo meio, colocando suas metades uma defronte da outra; mas não cortou as aves. (Gênesis 15, 10)

Deus não manda a Abrão que ele divida os animais ao meio, mas Abrão já faz isso porque já compreendeu o que Deus pretende.

Era costume da época que, quando selado um pacto, comercial normalmente, ou uma promessa qualquer feita entre duas pessoas, se pegasse animais e os partisse ao meio. Os dois pactuantes passavam entre os animais prometendo que se não cumprirem a promessa “que aconteça comigo o que aconteceu com esse animal”, ou seja, que morra da forma mais horrível possível. Tudo porque não cumprir o pacto.

Deus entende esse costume e Abrão também, por isso esse ritual já é prontamente organizado por Abrão.

Entretanto, a sequência dos fatos não acontece exatamente como Abrão esperava, nem como era o costume. Após uma clara profecia sobre o que aconteceria ao povo de Israel no Egito, inclusive o êxodo, a Bíblia nos relata o seguinte:

Quando o sol se pôs, formou-se uma densa escuridão, e eis que um braseiro fumegante e uma tocha ardente passaram pelo meio das carnes divididas. (Gênesis 15, 17)

Como dissemos, no meio dos animais divididos deveriam passar aqueles que fazem o pacto, ou seja, no caso em questão deveriam passar Deus e Abrão. Deus se manifesta por várias vezes como fogo, como bem sabemos. Existe o episódio da sarça ardente (Êxodo 3, 1-4), também pela invocação de Elias para provar que Deus era único e não existia nenhum Deus Baal (1Reis 18, 24ss) e outras tantas passagens.

Nesse caso, o fogo, que era Deus, passou sozinho por entre os animais partidos. O que isso poderia significar? Ora o significado é por demais óbvio: Deus assume toda a responsabilidade sozinho. É claro que Deus não descumpriria Sua palavra, contudo o homem, corrompido pelo pecado original e tendente sempre ao pecado, certamente descumpriria. Deus assume sozinho a responsabilidade e seria partido ao meio, ou seja, morto da pior forma, caso houvesse algum descumprimento de qualquer das partes.

A morte de Cristo nada mais foi do que o cumprimento dessa promessa e de tantas outras. Nessa promessa feita com Abrão, Deus se entrega à morte mais horrível não por Seu próprio descumprimento do que foi pactuado, mas pelo descumprimento da humanidade, isto é, morre por nós e no nosso lugar.

A morte de Cristo vem sendo confirmada na história do povo de Israel desde muitos anos antes da vinda do próprio Cristo e, antes mesmo dessa morte Cristo nos ensina muitas coisas entre elas a Santa Missa que deve ser celebrada apenas por aqueles que foram escolhidos e chamados pelo nome, apenas pelos Apóstolos e aqueles que o sucederem. Trata-se de um mandato divino, algo a ser discutido em outro texto.

É o cumprimento dessa promessa divina o que celebramos na Santa Missa e é nessa esteira que o altar se torna Calvário, celebrando a mesma morte de um Deus atemporal em cada Santa Missa diariamente celebrada em milhares de lugares pelo mundo.

Sacrosanctum Concilium. Parte Oito. A Liturgia terrena, antecipação da Liturgia celeste.

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Sacrosanctum Concilium. Parte Oito. A Liturgia terrena, antecipação da Liturgia celeste.

Um título perfeito foi o encontrado pelos padres conciliares ao dar cabeçalho ao número 8 do documento Sacrosanctum Concilium de “A Liturgia terrena, antecipação da Liturgia celeste”.

Poucos católicos sabem o que é realmente a Santa Missa, quanto aos demais, sejam protestantes, não cristãos ou até mesmo os que tentam admitir que não creem em nada, apesar de terem em suas teorias um pressuposto de infalibilidade dogmática incontestável, quanto a esses todos, obviamente, que não têm a mínima noção do que seja uma celebração litúrgica, uma vez que sequer conhecem, em sua maioria, a palavra liturgia.

Pois bem, de qualquer forma o católico, ou o que se diz católico, normalmente não tem nem um vislumbre do que vem a ser liturgia, muito menos de que a Santa Missa que é celebrada em diversas igrejas e que pode ser acompanhada por qualquer um de nós, é uma antecipação do que acontecerá após a  nossa morte, caso esse seja o nosso destino após essa vida, claro.

O número 8 do documento assim é redigido:

8. Pela Liturgia da terra participamos, saboreando-a já, na Liturgia celeste celebrada na cidade santa de Jerusalém, para a qual, como peregrinos nos dirigimos e onde Cristo está sentado à direita de Deus, ministro do santuário e do verdadeiro tabernáculo (22); por meio dela cantamos ao Senhor um hino de glória com toda a milícia do exército celestial, esperamos ter parte e comunhão com os Santos cuja memória veneramos, e aguardamos o Salvador, Nosso Senhor Jesus Cristo, até Ele aparecer como nossa vida e nós aparecermos com Ele na glória (23).

O parágrafo é relativamente longo visualmente, mas extremamente estreito para a quantidade de detalhes, conceitos e afirmações importantes que faz. Por esse motivo vamos ter que destrincha-lo deixando para outra oportunidade o estudo de suas demais partes. Vejamos seu início:

“Pela Liturgia da terra participamos, saboreando-a já, na Liturgia celeste celebrada na cidade santa de Jerusalém (…)”

Esse pequeno excerto foi feito para que entendamos uma coisa básica: a Santa Missa não é reunião de pessoas; não é encontro social; não é culto para agradar sentidos humanos manchados pelo pecado original. A Santa Missa é culto agradável a Deus e só a Ele dirigido. A Santa Missa é a antecipação do paraíso.

Para entendermos isso é bom sabermos que existem três partes ou estados da Igreja, todas católicas, claro: Igreja militante, Igreja padecente e Igreja triunfante.

A Igreja militante é a que fazemos parte e que milita aqui nesse mundo buscando a purificação e a aproximação da glória final junto a Deus. A Igreja padecente é aquela que está no purgatório e padece, sofre e purga seus pecados para também, um dia, estar na glória de Deus. Por fim, a Igreja triunfante que é aquele cujos membros já foram salvos e estão junto a Deus no paraíso formando uma grande torcida que silenciosamente intercede por todos nós conforme os preceitos divinos.

São Pio X em seu Catecismo Maior certamente é mais conciso e feliz ao explicar:

146. Onde se encontram os membros da Igreja?

Os membros da Igreja encontram-se parte no Céu, formando a Igreja triunfante; parte no Purgatório, formando a Igreja padecente e parte na terra, formando a Igreja militante.

Por favor, ninguém me acuse de afirmar que a Igreja é divida em três partes independentes, não disse isso em momento algum. Disse que a Igreja é dividida em três partes que melhor podem ser compreendidas como três estados. Essas três partes ou estados compõem, por óbvio uma só Igreja cuja cabeça é única: Cristo. São Pio X também não me deixa solitário nessa explicação e certamente explica com mais clareza em seu Catecismo Maior:

147. Estas diversas partes da Igreja constituem uma só Igreja?

Sim, estas diversas partes da Igreja constituem uma só Igreja e um só corpo, porque têm a mesma cabeça que é Jesus Cristo; o mesmo espírito que as anima e as une e o mesmo fim, que é a felicidade eterna, que uns já estão gozando e que outros esperam.

Justamente por ser militante a Igreja aqui na Terra é também gloriosa, não no mesmo sentido da Igreja que já está no paraíso, a triunfante, mas no sentido de que milita e também tem sua glória. Lembre-se que falamos da Igreja que é gloriosa mesmo aqui sendo militante e não dos seus membros que não são gloriosos, afinal a glória maior ainda está por vir mesmo para a Igreja dos Santos, ou seja, mesmo para a Igreja triunfante, uma vez que ela só atingirá a plenitude da glória quando vier o juízo final e todos aqueles que foram salvos e que Deus chama pelo nome (Is 49,1) farão parte de Seu corpo. Nesse dia a Igreja militante se “unirá” definitivamente à Igreja triunfante e padecente. É pensando assim que temos a Santa Missa como ato de total entrega de Cristo por aquela parcela da humanidade que O aceita e O quer. A Santa Missa passa a ser a antecipação da liturgia celeste quando nos eleva a Deus de tal forma que os anjos aclamam conosco, a uma só voz, o canto do Santo.

É nesse estrito sentido que nos unimos à Igreja triunfante todas as vezes que celebramos a Santa Missa já que, assim, tocamos o céu nesse milagre diário que nos passa desapercebido que é a Santa Missa antecipando o que no futuro esperamos conseguir encontrar nos céus.

“Et Verbum caro factum est!”

Celebramos a partir da noite santa de hoje a grande Solenidade do Natal do Senhor, a segunda maior da Igreja. Após a preparação meditativa proposta pelo tempo do Advento, hoje podemos experimentar e reviver a grande graça que vem a nós e rebaixa-se a nossa condição. Jesus faz-se homem! Eis a grande novidade. Como Deus pode humanizar-se? Como Ele pode assumir as nossas fraquezas? Por que Ele fez isso? Porventura somos dignos de tão grande maravilha?

Não somos! Mas Deus, unicamente por amor e misericórdia, volta-se para nossa pobre condição, compadece-se de nós e vem ao nosso encontro para nos redimir, e todo o mistério da Redenção inicia-se precisamente na encarnação. O profeta Isaías já afirmava que “o amor apaixonado do Senhor dos exércitos é que há de fazer tudo isso” (9,6). E este Amor é que torna-se visível. “Por sua vontade, nasceu hoje para nós no tempo, a fim de nos conduzir à eternidade do Pai. Deus se fez homem para que o homem se tornasse Deus. Para que o homem comesse o pão dos anjos, o Senhor dos anjos se fez homem” (Santo Agostinho).

Ele não quis habitar unicamente em luz inacessível, mas veio estar ao nosso lado, consolar-nos e dar-nos a certeza de que confiando n’Ele poderíamos encontrar a salvação. “Tudo o que Nosso Senhor realizou, ele o fez por nenhuma outra razão a não ser para que Deus esteja conosco que nós sejamos um com ele; e por isso Deus se tornou homem” (Sermões do Mestre Eckhart, p. 99).

Mediante uma cultura consumista, que tende a fazer desaparecer os valores religiosos do Natal, a Igreja nos convida a olharmos para a simples gruta de Belém. Ali, e não em palácios, nasceu o Salvador. Seus primeiros visitantes foram simples pastores, e Ele foi aquecido por animais que se encontravam no estábulo. Pobre veio o Senhor; pobres também devemos ser em nosso interior e, na medida das nossas possibilidades, também no exterior. Não queiramos luxo e riqueza; não busquemos prestígio e poder, mas simplicidade e pureza de coração, pois a Onipotência manifesta-se pela humildade. Ademais a verdadeira felicidade não está no supérfluo, mas no eterno. E só o eterno pode nos dar aquilo que ninguém nos pode tomar. Só neste Eterno, que justamente por ser eterno não tem limites, a humanidade pode descansar segura, sem temer os vendavais que, por vezes, abatem-na. Só neste Eterno a “transcendência” tão desejada pelo homem pode ser plenamente cumprida, sabendo que esta não é supérflua, vã e vazia, mas é cheia, cheia do Amor de Deus e do Amor que é Deus.

Em sua homilia para o Natal de 2005, escreveu o Santo Padre Bento XVI, de feliz reinado:

“Logo a seguir, porém, surgem as perguntas: como podemos amar Deus com toda a nossa mente, se nos custa encontrá-lo com a nossa capacidade metal? Como amá-Lo com todo o nosso coração e a nossa alma, se este coração consegue entrevê-Lo só de longe e contempla tantas coisas contraditórias no mundo que velam o seu rosto diante de nós? Neste ponto se encontram os dois modos com os quais Deus «abreviou» a sua Palavra. Ele não está mais longe. Não é mais desconhecido. Não é inalcançável para o nosso coração. Fez-se menino por nós e, com isto, dissolveu toda ambigüidade. Fez-se o nosso próximo, restabelecendo também deste modo a imagem do homem que, com freqüência, se nos revela tão pouco amável. Deus, por nós, fez-se dom. Doou-se a si próprio. Perde tempo conosco. Ele, o Eterno que supera o tempo, assumiu o tempo, atraiu a si próprio para o alto o nosso tempo. O Natal veio a ser a festa dos dons para imitar Deus que por nós doou-se a si próprio. Deixemos que o nosso coração, a nossa alma e a nossa mente fiquem tocados por este fato!”

As leituras nos revelam esta manifestação amor-misericórdia de Deus. Na primeira leitura Isaias escreve: “O povo que andava na escuridão viu uma grande luz, para os que habitavam na sombra da morte uma luz resplandeceu” (9,1).

E em que dia resplandece melhor a luz senão no Natal e na Páscoa? Enquanto uma resplende ainda ofuscada pelas trevas, a outra já não mais poderá ser ofuscada, pois já dissipou as trevas do mundo; e onde habita Jesus as trevas já não mais terão lugar. Onde há luz, não mais imperam as trevas!

O povo andava sobrecarregado pelos pecados e pelo peso da Lei; ainda hoje, o pecado tenta oprimir a sociedade, que muitas vezes deixa-se corromper por ele; Jesus, porém, vem dar novo vigor a humanidade, vem dizer-nos que Ele nunca nos abandona; Ele caminha conosco! E, ao olharmos para o presépio, de onde irradia a luz do mundo, ali devemos ver um caminho verdadeiro e próspero para os homens. Quem se deixa guiar por Cristo jamais poderá perecer pelas forças do mal.

A leitura também é uma exortação para os poderes opressores. Não aqueles que oprimem meramente em sentido econômico, mas sobretudo aqueles que oprimem a fé do povo; aqueles que se põem como Deus e desejam fazer valer todas as suas vontades. Nenhum poder poderá subsistir senão estiver unido a Cristo. Unamo-nos a Cristo, amados irmãos, e não pesará sobre nós o seu poderoso braço; pelo contrário: o Senhor mostrará seu incomensurável Amor, que se derrama sobre homens.

O menino-Deus vem instaurar a paz, onde já não haverá mais limites e as guerras não terão vez (cf. 8,6). E  esta consumação se inicia com o Evangelho, pois a Parusia está próxima! O que os anjos disseram Isaías já havia profetizado. E este tempo novo dá-se em Cristo, Senhor e Juiz da História.

A vida de Jesus, às vezes, parece um paradoxo: Como um Rei – sabendo ainda que se trata de Deus – pode nascer num estábulo? Como pode alguém trazer a paz se todos os que O seguem sempre foram e serão perseguidos? Jesus refere-se a um sentido escatológico; o próprio nascimento foi voltado para a escatologia. A grandeza de Jesus está na humildade, e a glória da Igreja e do cristão está na perseguição.

Apparuit enim gratia Dei salutaris omnibus hominibus – Manifestou-se a graça salvadora de Deus a todos os homens” (Tt 2,11). Jesus manifesta-se! Ele é a graça salvífica do Pai destinada a todos os homens. Todos são chamados a experimentarem e mergulharem neste mar de benevolência. Manifesta-se Cristo para que os homens não silenciem-se. Sempre repetimos: Vinde Senhor Jesus! Ele veio! Ele está conosco! Seja louvado o Deus que desce para elevar a nossa mísera condição. E tudo isso Ele faz por Amor. Amor! Palavra doce que ecoa tão suave em nossos ouvidos. E onde poderíamos achar maior doçura do que em Jesus?

Ainda hoje clamamos para que o Senhor se manifeste. Manifeste-se o Senhor e dissipe o mal da nossa sociedade. Manifeste-se e quebre os poderes opressores do pecado que dominam muitos dos vossos filhos. Manifeste-se e toque no coração daqueles que vos esqueceram; daqueles que já não mais Vos buscam; daqueles que procuram salvação onde não há; daqueles que deixam-se seduzir pelas concupiscências e desejos carnais. Vivamos neste mundo como peregrinos, e elevemos nossos olhos aos imperecíveis bens celestiais. Deixemo-nos pertencer ao Senhor; sejamos d’Ele, e só d’Ele!

O Evangelho de São Lucas lido na Santa noite de Natal nos diz que, após ser rejeitado nas casas, o Senhor nasce em um estábulo, numa gruta, em uma noite fria, ao lado de animais. Não encontrou o Senhor abrigo em sua primeira vida, e ainda hoje continua a ser rejeitado por aqueles que deveriam acolhê-lo. Procura um lugar para nascer, mas as portas se fecham para Ele, ou, muitas vezes, lhe oferecem uma gruta fria.

Após seu nascimento São Lucas vai afirmar que haviam alguns pastores na região, aos quais apareceu um anjo avisando do nascimento do Senhor. E, de repente, juntou-se uma grande multidão da milícia celeste e entoaram: “Gloria in altissimis Deo, et super terram pax in hominibus bonae voluntatis – Glória a Deus nas alturas, e paz na terra as homens de boa vontade” (Lc 2,14). E os pastores foram imediatamente a Belém. A Igreja nos aponta o Menino-Deus, vamos também nós em direção ao presépio. Deixemo-nos impelir por esta fragilidade fortalecedora. Aquele bebê parece pequeno e frágil como todos os outros, Mas sua fortaleza perpassa também por esta aparente pequenez. E ali em Jesus repousa a verdadeira paz, que a humanidade só encontrará quando deixar-se envolver por seu abraço.

O Senhor veio! Despertem! Não estejais cansados, mas revigorados pela sua força regeneradora. Maria Santíssima e São José nos ensinem a caminharmos ao encontro do Salvador que jamais nos abandona.

Santo Natal a todos!

É hora de despertarmos! O Senhor vem ao nosso encontro!

Com o 1º Domingo do Advento, damos início ao novo tempo litúrgico que acontece nos ciclos trienais da Igreja.

Precisamente no Advento vemos “nascer” em nós a expectativa da vinda do Senhor. O Messias que vem para libertar-nos do mal e nos redimir com o Seu sangue redentor. É um tempo de deixar que floresça uma nova vida, unida a Deus e submissa aos seus mandamentos. E isto São Paulo nos apresenta na segunda leitura, particularmente, em uma passagem que consideramos riquíssima e profunda, pondo-nos em contato com Deus, que nos chama a sermos filhos da luz. Escreve ele:

“Vós sabeis em que tempo estamos, pois já é hora de despertar. Com efeito, agora a salvação está mais perto de nós do que quando abraçamos a fé. A noite já vai adiantada, o dia vem chegando; despojemo-nos das ações das trevas e vistamos as armas da luz. Procedamos honestamente, como em pleno dia; nada de glutonerias e bebedeiras, nem de orgias sexuais e imoralidades, nem de brigas e rivalidades. Pelo contrário, revesti-vos do Senhor Jesus Cristo” (Rm 13, 11-14a).

Paulo utiliza de palavras escatológicas para alertar aquela comunidade e também a nós, sobre a demasiada situação de ociosidade. É hora de despertarmos! O Senhor vem ao nosso encontro, mas a nossa vida só terá verdadeiro sentido quando também nós formos ao encontro d’Ele. Este ir não deve ser apenas uma experiência de Cristo, senão também uma experiência nossa. Obviamente que Paulo se referia também a uma possível vinda iminente do Senhor Jesus para encerrar a História; no entanto, estas palavras que ecoam ainda hoje nesta sociedade que alguns vivem contra os valores do Evangelho, convidam-nos a um imediato despertar diário, e não apenas no momento próximo ao advento definitivo de Cristo Jesus.

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Nossa Senhora da Expectação

Mais adiante, o apóstolo nos afirma que a salvação está mais próxima que antes, nos primórdios, ao abraçarmos a fé. Não nos é difícil compreender tais palavras, pois, ao abraçarmos a fé ela ainda está como que imatura; mas, com o decorrer da caminhada ela se torna firme, consistente. Mas, para isso, é preciso que ela seja colocada no coração do Pai, e que n’Ele encontre o seu princípio e fim. Comparemo-la a uma planta que, para tornar-se verdejante e bela, precisa ser bem cuidada e receber toda a dedicação.

Aqui chegamos a uma das passagens de Paulo que mais me toca e fazem-me associá-las de imediato com a hodierna sociedade, com as quais ela incide e se configura. Despojar-nos das ações das trevas! Afastemo-nos da impureza! Abramo-nos a Cristo! Para que, entrando em nossas vidas, possamos achar plena realização, que dar-se-á unicamente n’Ele. Nos afastemos de tudo o que é mal! Nos afastemos do pecado, da ganância, da luxúria, da preguiça, da falta de amor, das drogas. Deixemos que Cristo seja a nossa armadura. Revistamo-nos d’Ele! Ele nos faz vencer qualquer perigo! Não é preciso que usemos de objetos violentos, mas que levemos conosco e em nós, aquele que pode nos dar a eterna felicidade; que é doce e, ao mesmo tempo, rigoroso, não obstante a isso, mesmo em sua rigorosidade, Ele é infinitamente misericordioso.

Assim, pois, escreve Santo Agostinho:

“Quem não tem inquietações, aguarda com serenidade a vinda do Senhor. Pois que amor a Cristo é esse que teme sua chegada? Irmãos, não nos envergonhemos? Amamos e temos medo de sua vinda. Odiemos, portanto, estes mesmos pecados e amemos aquele que virá castigar os pecados. Ele virá, quer queiramos, quer não. Se ainda não veio, não quer dizer que não virá. Virá em hora que não sabes; se te encontrar preparado, não haverá importância não saberes” (Santo Agostinho Apud Alimento Sólido, pág. 61).

A que horas vem o Senhor? A qualquer hora! Ele virá e nós seremos surpreendidos pela sua gloriosa vinda. E isto relata-nos Jesus no Evangelho de São Mateus: “A vinda do Filho do Homem será como no tempo de Noé. Pois nos dias, antes do dilúvio, todos comiam e bebiam, casavam-se e davam-se em casamento, até o dia em que Noé entrou na arca. E eles nada perceberam, até que veio o dilúvio e arrastou a todos. Assim acontecerá também na vinda do Filho do Homem” (vv. 24, 37-39).

Na hora menos esperada vem o Senhor. E eis que devemos prepararmo-nos. Qual é o prazer que o pecado pode oferecer se sabemos que, por seu jugo poderemos padecer por toda a eternidade? Podemos nos perguntar se não é melhor sofrermos agora do que sofrer durante toda a eternidade?

Ora, como a imprudência dos homens fez com que Deus devastasse o mundo com o torrencial dilúvio, assim serão também as almas imprudentes e que fecham-se ao Evangelho, destinadas ao eterno tormento. É melhor padecermos aqui, abraçando a Cristo e tendo todas as consolações que d’Ele provêm.

Na quinta-feira passada estava andando pela rua, e em minha pequenina cidade todos sabem da minha vocação à vida sacerdotal. De repente, ouvi alguém gritar: “Os Padres são pedófilos!” E correu! Ora, sabia que aquelas palavras se dirigiam para mim. Mas o que fiz? O que poderia fazer senão rezar? Eu sei que os padres, em sua grande maioria não são pedófilos, mas sei também que Satanás se utiliza de diversas artimanhas para nos desviar do caminho de Cristo. Pois saiba Ele que, quanto mais nos provar mais serei fiel e mais rezarei. Tenho consciência que devo padecer aqui, para só em Cristo ser feliz eternamente.

Que Maria Santíssima nos ajude a esperarmos vigilantes e na oração o Seu Filhg Bendito. E que este novo Ano Litúrgico possa renovar-nos e colocar-nos em comunhão profunda com Jesus.