Pedro e Paulo: mártires na fé por um único Amor

Celebramos com grande júbilo, neste dia, a Solenidade dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo. A Providência concede-nos também este dia como dia do Papa. E hoje gostaria de centrar-me nas leituras propostas, mas, de modo muito particular, na missão do Papa, tanto como Sucessor de São Pedro, como também naquele que foi escolhido pelo Espírito Santo para fazer viva e atuante a unidade imperecível da Igreja, não obstante as dificuldades que sempre se abateram sobre ela, especialmente nos últimos anos.

Para isso, gostaria de tomar como ponto de partida a primeira leitura, onde manifestar-se-á visivelmente a unidade da Igreja para com o seu guia. Diz o texto: “Pedro estava assim encerrado na prisão, mas a Igreja orava sem cessar por ele a Deus” (12, 5). Aqui vemos que sempre fez-se presente na Igreja a necessidade da oração. Vemos que os fiéis olham com solicitude para o seu pastor. Olham como pessoas que, longe dele, estavam perdidas, desnorteadas, e não sabiam mais por onde deviam prosseguir. E eis que vemos isto tão claramente na situação da Igreja hodierna. Quantos fiéis que, querendo buscar sua sabedoria, desmerecendo os valores cristãos, buscam pastorear a si mesmos, abandonando a Igreja e o seio no qual foram gerados? Para estes vale o que diz esta leitura, onde se manifesta intrinsecamente o sinal de unidade, já aparecido nos primórdios da Igreja.

Na segunda leitura São Paulo (o qual ao lado de São Pedro a Igreja celebra como grande mártir da fé) diz a Timóteo, seu fiel colaborador: “Quanto a mim, estou a ponto de ser imolado e o instante da minha libertação se aproxima. Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé. Resta-me agora receber a coroa da justiça, que o Senhor, justo Juiz, me dará naquele dia, e não somente a mim, mas a todos aqueles que aguardam com amor a sua aparição” (2 Tm 4, 6-7). Em primeiro lugar, convém ressaltar que o significado de libação é um derramamento de água, vinho, sangue ou outros líquidos, em honra de Deus, ou, no período romano ou grego, em honra de algum ídolo. Neste caso a libação assume um caráter sacrifical, não apenas com um liquido a ser derramado, mas com o sangue daqueles que, pela fé e pela propagação do Evangelho, testemunharam o Senhor que, sacrificado por nós, já não morre, mas vive, e se vive é porque a nós destina algo maior, ao qual o apóstolo se refere como a “coroa da justiça”.

Esta “coroa” é dada não apenas aos mártires, ou aos santos, mas também a nós ela é destinada. A nós se como cristãos demos verdadeiro testemunho de vida, e sacrificamo-nos pela causa maior do Evangelho. É uma “coroa” condicional, bem verdade; não somos obrigados a recebê-la. Mas para o cristão ela deve transmitir não uma simbologia, radicada nas figuras de linguagem da época de Paulo; ela deve nos mostrar que o verdadeiro prêmio é Cristo, e que sem Ele a vida do homem não tem sentido e não está destinada a um objetivo. Ora, estes apóstolos que a Igreja hoje celebra com tanta alegria (aqui no Brasil a Solenidade é celebrada no próximo domingo), demonstram – como disse Santo Agostinho – que suas mortes não foram em vão, buscavam um objetivo: “Estes mártires viram o que pregaram, seguiram a justiça, proclamaram a verdade, morreram pela verdade” (Sermo 295,1-2.4.7-8:PL38,1348-1352). E onde eles encontraram esta verdade? Onde muitos homens hoje poderiam encontrá-la se não fossem tão egocêntricos: Jesus Cristo. Ele, única e eterna verdade, foi a resposta para Pedro e Paulo. Não foi nas perseguições aos cristãos que Paulo encontrou a plena alegria, não foi na sua companhia de pesca que Pedro encontrou a sua satisfação completa, mas foi em Cristo. E eis que eu peço todos os dias que a nossa humanidade caminhe para Ele, não para as ideologias efêmeras, que buscam radicar estruturas na sociedade.

O cristão é chamado a combater, mesmo que isso lhe custe a vida, e, após terminada, esta já não nos valerá mais, pois a verdadeira alegria é estar com Deus, é poder contemplá-lo e poder descansar em ser colo acolhedor, recebendo o abraço do Pai, mesmo que muitas vezes tenhamos sido “filhos pródigos”.

Recordo-me das magníficas palavras do Santo Padre Bento XVI: Tenha a coragem de aventurar-se em Deus! Tente! Não tenha medo d’Ele! Tenha a coragem de apostar na fé! Tenha a coragem de apostar na bondade! Tenha a coragem de apostar no coração puro! Comprometa-se com Deus, então verá que justamente fazendo isso a sua vida se tornará ampla e iluminada, não monótona, mas repleta de infinitas surpresas, porque a suprema bondade de Deus jamais acaba!” (Homilia, 8 de dezembro de 2005). Assim é a figura de cristãos que a Igreja, e principalmente o mundo, precisa.

Por fim o maravilhoso Evangelho dispensaria até comentários. Mas dirá Padre Antonio Vieira, sobre o diálogo de Jesus com Pedro, e a sua maravilhosa profissão:

“Primeiramente não nego, nem se pode negar que o texto  parece que fala com todos os Discípulos e Apóstolos,  a quem o divino Mestre fazia a pergunta. Mas eu  pergunto também quem foi o que única e singularmente respondeu a ela? Claro está que foi São Pedro: Respondit Petrus. E porque respondeu só ele e nenhum outro? Excelentemente St.° Ambrósio: Cum interrogasset Dominus quid homines de Filio hominis æstimarent, Petrus tacebat: ideo (inquit) non respondeo, quia non interrogor: interrogabor, et ipse quid  sentiam tum demum respondebo, quod meum est. «Enquanto Cristo perguntou o que diziam os homens, Pedro esteve calado sem dizer palavra» __  tacebat; e porque esteve calado Pedro e não respondeu palavra? «Porque aquela pergunta, diz ele, não fala comigo»: Ideo non respondeo, quia non interrogor; «porém quando eu for perguntado, então responderei e direi o que sinto, porque a mim me pertence»: Cum interrogabor, et ipse quid sentiam respondebo, quod meum est. Note-se muito esta última palavra, quod meum est, na qual excluiu o mesmo S. Pedro a todos os outros Apóstolos e confiadamente diz que a resposta daquela altíssima pergunta só era sua e só a ele pertencia. É verdade que a palavra da pergunta: vos autem parece que compreendia a todos; mas a resposta exclui aos demais, como encaminhada a ele por quem sabia o que só Pedro sabia e os demais ignoravam”.

Pe. António Vieira, Sermão de São Pedro

Pedro! Eis aí um discípulo que não exclui sua resposta mediante os outros apóstolos. Ele fala em nome dos demais. Façamos uma analogia ao Santo Padre. Ele, em nome da Igreja, é, muitas vezes, o único a levantar sua voz em favor da Verdade (e digo “Verdade” com “V” maiúsculo porque não me refiro apenas a doutrinas, mas ao próprio Cristo), e por isso é caluniado, injustiçado. O Papa não governa a Igreja para ser simpático com ninguém. Ele governa a Igreja para mostrar ao mundo que há uma só Verdade, que há um só Senhor, e que há um só Caminho. E quando me lembro da grande promessa de Jesus a Pedro (“Non praevalebunt portae inferi – não prevaleceram as portas do inferno” (Mt 16,18)), sinto que cada dia mais confirma-se as palavras de São Paulo: “Deus é fiel” (1 Cor 10, 13).

Apesar das dificuldades e dos constantes ataques, a Igreja nunca será abandonada por Cristo. Ele estará sempre do seu lado. E nós, católicos, nunca abandonaremos Cristo, a Igreja e o Papa. Pois quem está contra o Papa e a Igreja, está contra Cristo, que fala por eles,  faz-se presente na humanidade por meio deles.

Que Maria nos ajude nesta tarefa de tornarmo-nos cristãos cada dia mais comprometidos com o Evangelho de Cristo, tomando como modelo para nós estas duas grandes figuras da Igreja.

Oremus pro Pontifice nostro Benedicto!

FESTA DE SANTO ESTÊVÃO PROTOMÁRTIR

 [Hoje celebramos a Festa do Protomártir Santo Estevão. Por isso publico aqui um discurso do Santo Padre Bento XVI no Angelus de 26 de dezembro de 2008. E pedimos que ele nos ensine a testemunharmos Cristo, até mesmo com a doação de nossa própria vida. Santo Estevão, Rogai por nós!]

A hodierna festa de Santo Estêvão, o primeiro mártir da Igreja, coloca-se na luz espiritual do Natal de Cristo. Estêvão, um jovem “cheio de fé e de Espírito Santo”, como no-lo descrevem os Actos dos Apóstolos (6, 5), foi ordenado diácono na primeira Comunidade de Jerusalém, juntamente com outros seis, e devido à sua pregação fervorosa e corajosa, foi aprisionado e lapidado. Existe um pormenor na narração do seu martírio, que durante o Ano Paulino deve ser realçado, e é a menção que “as testemunhas depuseram as suas capas aos pés de um jovem chamado Saulo” (Act 7, 58). Aqui pela primeira vez aparece São Paulo, com o seu nome judeu Saulo, no papel de zeloso perseguidor da Igreja (cf. Fl 3, 6), o que então era sentido por ele como um dever e um motivo de orgulho. A posteriori, poder-se-á dizer que precisamente o testemunho de Estêvão foi decisivo para a sua conversão. Vejamos de que modo.
Pouco tempo depois do martírio de Estêvão, Saulo, cada vez mais impulsionado pelo zelo contra os cristãos, foi a Damasco para aprisionar os que lá teria encontrado. Contudo, enquanto se aproximava da cidade, aconteceu a sua fulguração, a singular experiência na qual Jesus ressuscitado lhe apareceu, lhe falou e lhe mudou a vida (cf. Act 9, 1-9). Quando Saulo, caindo por terra, ao ouvir ser chamado pelo nome por uma voz misteriosa, perguntou: “Quem és tu, Senhor?”, ouviu responder: “Eu sou Jesus, a quem tu persegues” (Act 9, 5). Saulo perseguia a Igreja e tinha colaborado inclusive na lapidação de Estêvão; viu-o morrer apedrejado e, sobretudo, viu o modo como Estêvão morreu: em tudo como Cristo, isto é, rezando e perdoando os seus assassinos (cf. Act 7, 59-60). No caminho de Damasco, Saulo compreendeu que ao perseguir a Igreja estava perseguindo Jesus morto e verdadeiramente ressuscitado; Jesus vivo na sua Igreja, vivo também em Estêvão, que ele tinha visto morrer mas que certamente agora vivia com o seu Senhor ressuscitado. Poderíamos quase dizer que na voz de Cristo reconheceu a de Estêvão e, também pela sua intercessão, a graça divina tocou-lhe o coração. Foi assim que a existência de Paulo mudou radicalmente. A partir daquele momento Jesus tornou-se a sua justiça, a sua santidade, a sua salvação (cf. 1 Cor 1, 30), o seu tudo. E um dia também ele seguiu Jesus, nas pegadas de Estêvão, ao derramar o próprio sangue como testemunho do Evangelho, aqui, em Roma.
Caros irmãos e irmãs, em Santo Estêvão vemos a realização dos primeiros frutos da salvação que o Natal de Cristo trouxe para a humanidade: a vitória da vida sobre a morte, do amor sobre o ódio, da luz da verdade sobre as trevas da mentira. Louvemos a Deus porque esta vitória permite também hoje a tantos cristãos não responder ao mal com o mal, mas com a força da verdade e do amor. A Virgem Maria, Rainha dos Mártires, faça com que todos os crentes sigam com coragem este mesmo caminho.