O latim, lingua viva na Igreja

 
Ao cair da tarde de um dos dias primaveris do ano de 374, sobre a amurada de um dos navios ancorados no porto de Aquileia e prestes a levantar ferro, rumo a Dirráquio, um jovem de 27 anos aguardava, impaciente, o momento em que os escravos encarregados das mercadorias dos passageiros, corressem para as suas bagagens, que ele vigiava com olhar solícito e acrisolado carinho. A viagem ia ser longa e a sua equipagem, composta exclusivamente de preciosos pergaminhos latinos, reunidos em Roma «à custa de mil suores e fadigas», corria perigo.

Esse estudante, que doze anos antes, deixara a sua pequena pátria Estridónia, nas fronteiras da Dalmácia, para se ir matricular na Urbe entre os discípulos do célebre gramático romano, Élio Donato, e regressava agora com o espírito e as malas carregadas de erudição dos clássicos latinos, era Jerónimo – o homem que a Igreja havia de sublimar com a auréola de santo e a humanidade havia de saudar com o encomiástico nome de Cícero cristão.
Rijas batalhas devia ele travar com encarniçados impugnadores da cultura clássica, alguns dos quais, como Rufino, não hesitariam em acusá-lo de pagão, perjuro e infiel ao juramento prestado ante o tribunal de Deus.
Imunizava-o, porém, contra os ataques dos adversários do classicismo, o exemplo decidido de S. Paulo, o qual escrevendo a Tito empregou um hemistíquio heróico do poeta Epiménides, e noutra carta um verso senário de Menandro; e até duma inscrição, encontrada por acaso, se servira para a defesa da fé.
Por isso, o monge de Belém podia replicar aos que injustamente o arguíam: «Que admira que eu, encantado com a graça e beleza da sabedoria profana, tenha pretendido fazer dela uma israelita, de criada e escrava que era? Depois de a ter despojado de tudo o que tem de mortal, de tudo o que cheira a idolatria, a erros e a prazeres pecaminosos, não poderei eu, aliando-me com ela, torná-la fecunda para Deus?» .
Pensava acertadamente este humanista de gema, e a própria Igreja católica era a que lhe insuflava o mais estimulante incentivo, fazendo uso assíduo da língua e cultura do Lácio nas suas escolas e nos seus escritos.
A missão universal atribuída por Plínio à língua latina, não acabou com a queda do império romano; a Igreja católica, fazendo seu o idioma do Lácio, como que lhe comunicou a sua vitalidade perene, unitiva e pacificadora, servindo-se dele para evangelizar os povos e para criar a nova civilização cristã.
Os Apologetas e Padres Latinos, ao exararem suas obras na majestosa língua de Roma, transfundiram-Ihe nova seiva, criaram novos vocábulos, remoçaram-na, avigoraram-na e cerziram-na em moldes de mais ampla e moderna tessitura.
Minúcio Félix e S. Jerónimo, Tertuliano e S. Agostinho, S. Cipriano e S. Leão Magno, pela elegância do seu estilo rico e sonoro, pelo vigoroso poder de expressão verbal inconfundível, e pela beleza das páginas que criaram, podem não só competir com os escritores mais celebrados da época áurea de Roma, mas superam-nos, até, na sublime elevação do seu pensamento medularmente cristão.
E foram estes homens da Igreja, foram os humanistas, os filósofos e os teólogos cristãos, os que mais trabalharam, consciente ou inconscientemente, pela vitalidade imperecível do latim. Como subtilmente notou A. Bacci, «o latim não morreu, nem podia morrer, porque foi chamado a participar da mesma indefectível vida da Igreja».
Ninguém, mais do que os Pontífices romanos, tem enaltecido a importância do latim, e inculcado tão insistentemente o seu estudo teórico e prático.
Para só mencionar testemunhos mais modernos, citemos primeiramente as palavras exortatórias de Pio IX, na Carta Encíclica, Singulari quidem, aos Bispos do Império Austríaco, a 17 de Março de 1856: «Procurai com todas as veras, que principalmente nos vossos seminários, os jovens seminaristas se formem cuidadosamente no conhecimento da língua latina e no estudo das humanidades … ».
Leão XIII, na Carta, Plane quidem intelligis, ao Cardo Vigário de Roma, de 20 de Maio de 1885, exprime o veemente desejo de que se proporcione ao clero uma esmerada cultura literária e se dê ‘a primazia ao latim, como companheiro e auxiliar, que é, da Religião católica em todo o Ocidente: est latinus sermo religionis catholicae Occidente to to comes et administer».
E em Carta Encíclica dirigida aos Bispos e ao Clero da França, em Setembro de 1899, o imortal Pontífice da Rerum Novarum, sentindo que os Seminários franceses, por cedência aos programas do Estado tendentes a reduzir o estudo do latim, corriam o risco de o mutilar também nas suas aulas, previne os Prelados do perigo e recorda-lhes a urgente necessidade de manterem «os estudos dos aspirantes ao sacerdócio fiéis aos métodos tradicionais dos séculos passados. Foram eles que formaram os homens eminentes de que a Igreja de França justamente se gloria». E, concretizando mais, adverte: «Se de há vários anos para cá, os métodos pedagógicos em vigor nas escolas do Estado reduzem progressivamente o estudo da língua latina e suprimem os exercícios de prosa e verso, a que os nossos antepassados davam, e com razão, tanta importância, os Seminários menores devem estar alerta contra tais inovações inspiradas em preocupações utilitárias, e que redundam em detrimento da sólida formação do espírito».
Por sua vez, S. Pio X, na Carta Vehementer sane, enviada aos Bispos de todo o orbe católico, a 1 de Junho de 1908, depois de chamar seriamente a atenção para o facto de «ser o latim a língua própria da Igreja (linguam latinam iure meritoque dici et esse linguam Ecclesiae propriam), bem como «a língua da Filosofia e da Teologia (sed praeterea lingua latina cum Philosophiae, tum sacrarum disciplinarum lingua facile dicenda est), ordena que os Professores expliquem essas matérias em latim».
Com não menos vigor s
e exprimiu Bento XV, em Carta aos Bispos alemães, datada de 9 de Outubro de 1921: «Os alunos aprendam com empenho a língua latina e vernácula… Procurem sobretudo, com diligência, os Bispos que o estudo do latim recupere com brilho o seu antigo esplendor: Sed curent praesertim diligenterque provideant Episcopi ut studium latini sermonis… in spem veteris gloriae revirescat».
Pio XI consagrou à causa do latim na Igreja uma atenção muito particular. Em 1 de Agosto de 1922, frisando que o conhecimento do latim entre os clérigos importava não só ao estudo das humanidades, mas à própria Religião, declarava: «É evidente que o clero, primeiro que ninguém, deve mostrar grande afeição à língua latina: liquet clerum, ante alios, latinae linguae perstudiosum esse oportere». E dá, entre outras, esta razão subtil: «Se em qualquer leigo de mediana cultura, a ignorância da língua latina, que podemos chamar verdadeiramente católica (quam dicere catholicam vere possumus), denota menos amor à Igreja, quanto mais convém que todos os clérigos conheçam a fundo essa mesma língua!».
Como medida prática a atestar o interesse que votava a tão nobre causa, ordenou Pio XI, pelo Motu Proprio. Litterarum Latinarum, de 20 de Outubro de 1924:
1.º – Que na Universidade Gregoriana, confiada pela Santa Sé à Companhia de Jesus, se erigisse uma cátedra de latinidade para ensino da língua e literatura latinas.
2.º – Que os Mestres que houvessem de reger essa cátedra, procurassem por meio de frequentes exercícios orais e escritos, levar os alunos a um aperfeiçoamento mais primoroso do estilo latino.
3.º – Que o curso compreendesse dois anos; e que ao cabo desse biênio, se entregasse um diploma aos alunos devidamente aprovados no exame final. Os alunos providos de tal diploma seriam preferidos nos concursos para a obtenção de benefícios junto da Santa Sé e das Cúrias diocesanas, e os mais distintos seriam premiados.
4.º – As aulas seriam franqueadas a todos, mesmo aos leigos. Particularmente desejava o Sumo Pontífice que fossem frequentadas por alunos dos Seminários e das Comunidades religiosas, residentes na Itália ou fora dela, mormente por aqueles que os Prelados julgassem mais idóneos para o estudo do latim.
Finalmente, Pio XII proclama o uso do latim como «evidente e belo sinal de unidade e remédio eficaz contra qualquer possível corrupção da genuína doutrina». Considera a língua latina como «um tesouro de incomparável beleza: thesaurus est incomparandae praestantiae». Mas não pode abafar o queixume de verificar que «a língua latina: glória dos sacerdotes, tem cada vez menos e mais frouxos cultores: Proh dolor, latina lingua, gloria sacerdotum, nunc languidiores usque et pauciores habet cultores». Não quer que haja sacerdote algum que não a entenda e fale com facilidade e fluência: «Nullus sit sacerdos, qui eam nesciat facile et expedite legere et loqui». Se algum sacerdote houver que a ignore, deve-se crer que sofre de lamentável deformidade mental: quare sacrorum administer qui eam ignorat, reputandus est lamentabili mentis laborare squalore.
Nada mais justificado do que estes tão reiterados apelos dos Sumos Pontífices para o cultivo do latim entre os eclesiásticos. O latim é a língua de comunicação universal entre os sacerdotes das mais longínquas e diversas regiões; é a língua em que se encontram traduzidos os livros do Antigo e Novo Testamento; é a língua em que são redigidos a maior parte dos documentos Pontifícios; é a língua em que foram escritos alguns dos tratados mais belos e autorizados de ascese e exegese Patrística, de Teologia, de Filosofia e de Pastoral; é finalmente a língua em que os sacerdotes da Igreja Latina recitam as preces canónicas do Breviário, da Missa e das cerimónias litúrgicas.
Tem-se esboçado aqui e além certa tendência a acabar com o latim na missa e no ritual. Embora sob o aspecto pastoral pudesse ter alguma vantagem o emprego da língua vernácula, a isso fàcilmente se ocorre com a tradução do missal para uso dos fiéis e com a versão de algumas fórmulas na administração de vários sacramentos, autorizada já pela Santa Sé para diversas nações.
Mas ao lado do aspecto pastoral, há o aspecto católico. O Cardeal Gibbons tentou um dia dar a razão do emprego do latim na missa e nas funções litúrgicas da Igreja. E era precisamente este aspecto católico que o eminente Purpurado pretendia focar: «Quando se implantou pela primeira vez o Cristianismo, dirigia os destinos do mundo o Império romano (…). O latim era a língua do império (…). A Igreja adoptou naturalmente na sua liturgia do culto público, a língua que então preponderava entre os povos. Os Padres da primitiva Igreja escreveram geralmente na língua latina, que assim se tornou depósito dos tesoiros da literatura sagrada na Igreja.
No século v sobreveio a ruptura do Império Romano. Novos reinos começaram a formar-se na Europa, sobre as ruínas do velho Império. O latim deixou gradualmente de ser língua viva dos povos, e novos idiomas começaram a brotar da língua-mãe. A Igreja, porém, conservou na sua liturgia e na administração dos sacramentos a língua latina, por muitas e prudentes razões:
Primeiramente, a unidade da fé. A Igreja Católica mantém sempre uma e a mesma fé, a mesma forma de culto público, o mesmo governo espiritual. Assim como a sua doutrina e liturgia se conservam inalteráveis, assim ela deseja que a linguagem da sua liturgia seja fixa e uniforme. A Fé Pode chamar-se a jóia, e a linguagem o cofre que a contém. A Igreja é tão cuidadosa em preservar intacta a jóia, que não se atreve a modificar o cofre em que ela se encerra. As línguas vivas, ao contrário duma língua morta, mudam constantemente o vocabulário e seu significado (…). A língua latina, pelo contrário, sendo uma língua morta, não está sujeita a essas vicissitudes».
O ilustre Antístite Baltimorense apela depois para a catolicidade da Igreja e salienta, que em contraste com o que se passa nas seitas protestantes, como nos Concílios ecuménicos, é a língua latina que permite o mútuo entendimento e fácil expressão entre os membros das mais remotas e variadas nacionalidades. Por fim, entrando mais em concreto na questão proposta sobre o uso do latim na missa, o Cardeal Gibbons formula a objecção, à qual responde imediatamente: «Mas o facto de o sacerdote dizer a missa numa língua desconhecida, não fará com que o povo ignore o que ele está dizendo e perca assim o seu tempo na Igreja.
Sentimos vontade de sorrir perante tais objecções que se repetem levianamente de ano para ano. Tais asserções procedem de uma ignorância total do que é a missa.
Muitos protestantes imaginam que a essência do culto público consiste num sermão. Daí que para eles, o principal dever
dos fiéis é escutar o discurso que lhes é dirigido do púlpito. Pelo contrário, a oração, segundo a doutrina católica, é o dever mais essencial dos fiéis, se bem que estes são instruídos com regularidade por meio de sermões. Ora, o que vem a ser a missa? Não é um sermão, mas uma oração sacrifical que o sacerdote oferece a Deus por si mesmo e pelo povo. Quando o sacerdote celebra a Missa, não fala com o povo, mas com Deus, para quem todas as línguas são inteligíveis.
Os fiéis não podem, certamente, ouvir o celebrante (…), visto que boa parte do que ele diz é pronunciado em voz baixa. E era este o sistema cultual prescrito por Deus na Antiga Lei, como lemos no Antigo Testamento e no primeiro capítulo de S. Lucas. O sacerdote oferecia o sacrifício e orava pelo povo no santuário, enquanto os fiéis oravam a distância, no átrio. Em todas as igrejas cismáticas do Oriente, o sacerdote nas funções públicas não reza em vernáculo, mas numa língua morta. O mesmo se pratica hoje em dia nas sinagogas judaicas: o Rabi reza em hebraico, que é uma língua com a qual boa parte dos fiéis não estão familiarizados.
Mas será verdade que o povo não entende o que o sacerdote diz na missa? De modo nenhum. Por meio de um missal em vernáculo pode seguir o celebrante desde o princípio até ao fim das funções religiosas».
A uma exposição tão clara e tão brilhante, como esta, nada mais há a acrescentar; quando muito, convirá esclarecer que o latim não é língua morta, mas viva. O latim da missa ou do Ritual tem-se conservado mais ou menos inalterável; mas a língua latina, como tal, continua em evolução e progresso, sobretudo na técnica lexicográfica. Não há, a bem dizer, tema moderno e científico, sobre o qual a Igreja não se tenha pronunciado em latim. Recorde-se, por exemplo, a Encíclica de Pio XI, «Vigilanti Cura», sobre o cinema, bem como as normas directivas de Pio XII sobre a radiestesia.
Em Junho de 1939, no vasto pátio de S. Dâmaso, no Vaticano, o Papa Pio XII falou em latim a vários milhares de alunos dos Institutos eclesiásticos de Roma. O latim é a língua usada por mestres e alunos nas disciplinas de Filosofia e Teologia da maior parte dos Seminários e Universidades eclesiásticas de todo o mundo.
Infelizmente, porém, o declínio do estudo do latim, tem atingido também, num e noutro sector, alguns estabelecimentos de ensino eclesiástico. Nem sempre se cumprem à risca as prescrições da Santa Sé quanto ao uso da língua latina nas aulas de Filosofia e de Teologia, e alguns Professores tendem a ampliar abusivamente a concessão feita por Bento XV nas «Normas», enviadas a todos os Ordinários da Itália, nas quais se permitia ao professor acrescentar alguma ulterior explicação em vernáculo.
Com razão, o Geral da Companhia de Jesus, M. R. P. Wlodimiro Ledóchowski, a quem a S. Congregação dos Seminários, preocupada com a sorte do latim e do ensino superior nos Institutos eclesiásticos, solicitou oportunamente o parecer, alegava entre outras razões em defesa do latim nas escolas da Igreja, a da disciplina eclesiástica. A vista de tantos e tão claros documentos Pontifícios, a inculcar o estudo do latim, sobretudo desde o século XVI, quando os inimigos da Igreja, e principalmente a franco-maçonaria, começaram a vibrar-lhe golpes demolidores (bem sabiam eles que alvejar o latim, era até certo ponto alvejar também a Igreja), «é muito triste – comenta o M. R. P. Ledóchowski – que nos seminários, onde se forma o clero e se deve dar exemplo de pressurosa obediência à Santa Sé, documentos Pontifícios tão magníficos e tão solenes, e prescrições tão claras, sejam em não poucos países ou simplesmente ignorados ou (o que é pior) abertamente transgredidos».
Outra grave razão em prol do latim, é a que o mesmo Prepósito Geral deduz da necessidade de preservar, a todo o transe, a «pureza da fé». As línguas modernas estão em constante evolução; em muitas línguas vivas vão-se introduzido muitas alterações sintácticas, morfológicas e semânticas. Pelo contrário, na língua latina os termos criados à custa de discussões profundas através dos séculos, para exprimir os mais altos e difíceis conceitos filosóficos e teológicos, tornaram-se, por assim dizer, termos técnicos, de significação bem definida e fixa. Dada, pois, a dificuldade e o perigo de reproduzir em vernáculo ideias tão transcendentes, expressas numa linguagem concisa e estável, bem se deixa ver o risco a que se expõe a genuína doutrina teológica e filosófica, quando se abandona o latim e se preferem as línguas nacionais.
O perigo é tanto mais sério, quanto por analogia, talvez, com a criação de línguas nacionais, se tem caído nestes últimos tempos de tão exagerado nacionalismo, na louca pretensão de criar Igrejas nacionais. Banir o latim – receia o M. R. P. Ledóchowsld – é arriscar não só a pureza da fé, mas também a «unidade da Igreja».
A estas razões tão autorizadas, queremos adicionar ainda outra, que chamaríamos de «decoro eclesiástico».
A partir, sobretudo, do Congresso de Avinhão, celebrado em Setembro de 1956, acentua-se cada vez mais, entre os próprios leigos, o movimento a favor do latim, não só como língua viva, mas até como língua internacional.
Ainda recentemente os homens cultos do nosso país puderam vibrar de júbilo perante o desassombro com que o Doutor Américo da Costa Ramalho, em bem documentado discurso, provou perante os seus ilustres colegas da Assembleia Nacional, que o latim nem era língua morta, nem inútil, e que, ainda mesmo esquecido, fazia perdurar a sua benéfica influência no espírito e na acção daqueles que um dia o cultivaram.
Todas as tentativas para impor universalmente uma língua artificial, têm fracassado. Inventou-se o Volapük, composto em 1870 pelo célebre poliglota Scheyrer; difundiu-se o Esperanto, da autoria do Dr. Zamenhof, médico ele Varsóvia, que o deu a conhecer em 1887 com outro nome; propuseram-se Interlíngua e o latim sem flexões. Nenhum destes idiomas, porém, obteve um acordo unânime e, muito menos, os resultados práticos que alguns lhe auguravam.
 
Só o latim oferece solução viável e oportuna.
Seria lamentável que os homens da Igreja, propugnadora invincta da latinidade, cedessem posições na defesa e no cultivo da língua latina!
O M. R. P. Ledóchowski, no depoimento atrás citado, era de parecer, que devia manter-se e exigir-se com firmeza a prescrição do uso do latim nas aulas de Filosofia e Teologia, de tal maneira que não pudessem ser admitidos aos estudos filosóficos os seminaristas que não fossem capazes de compreender o latim dos professores e dos compêndios e, ao menos, passado algum tempo, de exprimir o seu pensamento em latim nas repetições e disputas. Opinava, ainda, que deviam ser depostos do seu ofício os P
rofessores que não quisessem conformar-se com as prescrições da Santa Sé. Finalmente, sugeria que se enviasse um Visitador aos diversos seminários, para se ocupar apenas deste assunto.
Pela nossa parte, acharíamos também útil a abertura de cursos intensivos de latim prático, nas férias do verão, para futuros e actuais Professores de latim nos seminários. Podiam aí tratar-se, em latim, questões gerais e especializadas de Gramática Latina, desenvolver-se um tratado de história da literatura latina em latim, e proferir-se-iam algumas conferências sobre cultura latina, algumas delas acompanhadas de projecções.
Todos os apologistas do latim, como língua viva, estão de acordo em que só os antigos e tradicionais métodos de traduzir, escrever e falar habilitam para o completo domínio do idioma do Lácio.
E não é preciso que se aspire a escrever e falar somente o latim de Cícero e de César, sobretudo quanto ao vocabulário. Não é preciso, nem é possível. Embora a Igreja tenha favorecido sempre, por todos os meios, o latim clássico, admite igualmente e emprega o latim cristão dos SS. Padres, bem como o latim progressivo e moderno, que os homens doutos têm enriquecido, através dos séculos, ante novas necessidades e novos conceitos do pensamento humano.
Mas note-se que latim cristão não é sinónimo de latim bárbaro nem vulgar, nem decadente. Embora, por vezes, se possam depreender vestígios de decadência e vulgaridade nalguns escritos eclesiásticos, a verdade é que a generalidade dos latinistas cristãos, como Tertuliano, Minúcio Félix, S. Jerónimo, S. Agostinho, S. Leão Magno, Erasmo, Marsílio Ficino, Jerónimo Osório e José Caeiro, para citar apenas alguns nomes mais proeminentes na literatura latina cristã do passado, cultivaram com primor as elegâncias do latim clássico, e algumas das suas páginas podem, sem discrepância, figurar ao lado das melhores de Cícero e de César.
Advogamos decididamente a evolução do latim na técnica vocabular, na aquisição de novas palavras e novas expressões, quando a necessidade ou a conveniência o requererem e a autoridade dos mestres o legitimar.
Mas parece-nos indispensável, por motivos de coerência, uniformidade e clareza, a fidelidade aos preceitos gramaticais do latim clássico.
Reprovamos, portanto, solecismos e barbarismos como estes, próprios do latim decadente ou arcaico: videtur quod philosophi vacant, por: videntur vacare philosophi; dixit quid volebat, por: quid vellet; nescit homo si est dignus amoré, por: an sit dignus; adeo aegrotus est, ut iam non vult cibos, por: ut nolit; faveas venire, por: veni, quaeso; etc., etc.
Também seria para desejar a uniformidade de pronúncia, sobretudo agora que tanto se debate o problema do latim como língua universal. Não poderá sê-lo, de modo satisfatório, enquanto se mantiverem as três pronúncias actualmente vigentes: a romana, a tradicional e a restaurada. Esta última, que pode dizer-se suficientemente conhecida e mais científica, vai conquistando, cada dia, mais adeptos não só nas universidades laicas, onde principalmente tem dominado, mas até entre eclesiásticos, sobretudo na Alemanha. No Congresso de Avinhão, em Setembro de 1956, foi proposta como pronúncia única.
Como única a propugna calorosamente César Vicário, S. M., em carta aberta ao Director de «Incunable», magnífico periódico sacerdotal espanhol, que à causa do latim tem consagrado este ano oportunos artigos.
Pelo contrário, o P. Manuel – M. Ibáiíez, em carta publicada no mesmo periódico em Março deste ano, sustenta que a pronúncia universal «no puede ser otra que la romana».
Refuta-o César Vicário, estribando-se na autoridade do P. José Jiménez Delgado, o qual nos Cursos de Humanidades Clássicas, celebrados na Universidade Pontifícia de Salamanca, de 5 a 25 de Agosto de 1957, «demonstrou que nem da célebre carta ao Cardeal Dubois, nem da não menos conhecida aos monges de Monserrat, nem do Sínodo de Tarragona, em que se ventilou este assunto, se deriva obrigação alguma de aceitar a pronúncia romana como pronúncia universal (…). O texto citado pelo P. Ibáiíez expressa realmente um desejo do Papa, mas unicamente a respeito do culto: in liturgico cultu peragendo. E é muito possível – acrescenta César Vicario – que nem Bento XV, nem Pio XI, se expressariam hoje nesses termos».
Quanto a nós, reconhecendo embora as dificuldades práticas da adopção da pronúncia «restaurada» do latim, não hesitaríamos, contudo, em patrocinar a sua universalização dentro e fora da Igreja, apondo-Ihe a condição que já no Congresso de Avinhão propôs M.lle E. Malcovati: «que uma comissão internacional de latinistas de todos os países, designados pelas Associações Clássicas, elaborasse as Regras desta pronúncia, naturalmente adaptada a cada país»; e que se respeitasse «a pronúncia diferenciada – tradicional – do «u» vogal e do «u» consoante antes de vogal (v)», por causa da dureza e cacofonia, a que dá frequentemente azo em palavras e expressões, como estas: uiua, uoce, inuia, Naeuius, etc.
A regra de todas as vogais abertas, vigente na pronúncia romana, apresenta uma vantagem prática que deveria ter-se em conta na adaptação da pronúncia restaurada, onde a prolação das vogais com som fechado ou aberto, consoante a sua quantidade longa ou breve, tornaria bastante complicada a fonética e exigiria um dispêndio de energias e de tempo, talvez não compensativo.
Em todo o caso, com a pronúncia romana, ou com a tradicional, ou com a restaurada, defenda-se e cultive-se, entre os eclesiásticos, o latim como sempre foi tido: língua viva na Igreja.
Extraído de “Estudos de Cultura Greco-Latina”, de António Freire, S.J., Livraria Apostolado da Imprensa, Porto, 1960.

Vaticano inicia diálogo doutrinal com integristas

CIDADE DO VATICANO, Santa Sé — O Vaticano inicia na segunda-feira um diálogo doutrinal com os integristas da Fraternidade São Pio X, fundada pelo arcebispo francês Marcel Lefebvre que foi excomungado em 1988, com o objetivo de superar o mais reciente cisma na Igreja Católica.

A iniciativa pode durar meses, levando em consideração as enormes divergências entre os dois lados.

Os integristas seguidores de Lefebvre não aceitam as mudanças consagradas no concílio Vaticano II sobre a liberdade religiosa, o ecumenismo e a autoridad do Papa.

O conteúdo dos debates não foi divulgado, mas um comunicado deve ser publicado ao fim da primeira sessão, que tem como meta estabelecer os pontos essenciais das conversações e o calendário das discussões.

Em 1988, Joseph Ratzinger (futuro Papa Bento XVI), que era o prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, negociou até o último momento para evitar que quatro bispos fossem consagrados por Lefebvre, o que provocou de fato a ruptura.

Bento XVI já adotou vários gestos de abertura em relação aos integristas, o que provocou tensão dentro da própria Igreja Católica.

Em 2007 publicou um decreto que facilita a celebração da missa em latim, uma das reivindicações dos integristas.

Mas o gesto mais importante veio em janeiro passado, quando suspendeu a excomunhão de quatro bispos ordenados por Lefebvre, incluindo Richard Williams, que nega o genocídio dos judeus na II Guerra Mundial, o que provocou uma enorme polêmica.

A reforma da reforma

Anunciada há vários anos, parece que agora vai afinal ser decretada a reforma da Missa Nova de Paulo VI. É a chamda “reforma da reforma”. Mais exatamente — conforme me sugeriu um velho e fiel sacerdote franciscano a “Reforma da Deforma”.

O jogo de palavras é bem feito e, melhor ainda, bem aplicado. Pois o que fez Monsenhor Bugnini ao fabricar a Nova Missa de Paulo VI foi uma completa deformação, e até demolição, da Missa de sempre. E Mons.Bugnini deu só o primeiro passo, pois como se admitiu que o celebrante poderia exercer sua “criatividade”, inventando orações e gestos “litúrgicos”, a Missa acabou sendo diferente em cada paróquia, inventando-se inovações selvagens e barbaramente ecumênicas.

No pós Concílio a Sagrada Liturgia católica foi roqueiramente destruída, tornado-se irreconhecível. Virou Missa-show e até espetáculo circense. (O Cardeal Lehman botou nariz de palhaço numa celebração. Nos Estados Unidos um Padre vestiu-se de ursinho e permitiu que uma mulher vestida como um diabo, distribuisse a comunhão).

Contra esses crimes, sempre se manifestou o Cardeal Ratzinger. Eleito Papa, ele deu sinais claros de que ia acabar lentamente, e por etapas, esses abusos e essa destruição.
Claro que, conhecendo a situação lamentável do clero em todo o mundo, sabendo da ignorância imensa causada pela destruição dos estudos nos seminários, vendo a amplíssima infiltração do modernismo no clero pós conciliar, Bento XVI compreendeu que se faria – e se fará — enorme resistência à correção dos abusos e da demolição da Sagrada Liturgia.

O retorno completo à plena ordem litúrgica levará muitos anos.
O primeiro garnde passo dado pelo Pàpa Bento XVI foi a liberação da Missa de sempre, através do Motu Proprio Summorum pontificum, tão pouco acatado, tão obstaculizado pelos Bispos modernistas.

Se a celebração da Missa de sempre permitida a qualquer sacerdote, sem precisar permissão do Bispo, está sendo tão combatida, como não será combatido o Papa, quando obrigar os Bispos e Padres modernistas aplicarem a reforma da deforma que agora se anuncia para logo mais?

Porque as mudanças, embora paulatinas, serão profundas. Ver-se-á que grau e que extensão terão as mudanças, quando for conhecido o decreto papal da Reforma da Deforma. Mas já se fala da adoção do latim! Em Missais bilingues!

Imagine-se Padres Marcelo Rossi, Joãozinho, Zezinho e Fãbio de Melo tendo que rezar a Missa em latim! E sem rock e sem cancõnetas ridículas!
Como ficarão os Bispos que proibiram a Missa de sempre com a escusa de que os fieis deveriam saber latim?

Consta que o cânon da Missa em forma “ordinária“ terá que ser em latim, o sacerdote falando baixo, mantendo-se silêncio completo na Igreja, com proibição de qualquer canto. O rock será banido.
VIVA!!!
Adeus shows-missas!

Fala-se até da possibilidade de que o padre terá que celebrar, pelo menos uma parte da Missa, de costas para o povo.

Que ranger de dentes será ouvido em muitas sacristias!

Sem dúvida , haverá choro e ranger de dentes. Porque, quando os lobos choram, eles rangem os dentes.
E mordem.

O serviço “meteorológico” prevê tempestades eclesiásticas e até “tremores” de terra…

Pois é claro que todos compreendem que, isso que agora é anunciado, é só a primeira etapa.

Todos compreendem?
Todos é exagero.

Os sede vacantistas não compreendem. Acharão que o Papa está traindo a Missa de sempre, porque, aliás, ele nem seria Papa.

O próprio Papa Bento XVI—quando era Cardeal- escreveu ao Padre Heins-Lothar Barth, em carta agora publicada, que a reforma seria em etapas, mas que o ponto final seria alcançado quando houvesse de novo um só rito romano. E na forma antiga da Missa!

Antes seria preciso “limpar a Capela de Capri”, como foi escrito no livro- entrevista do Cardeal Ratzinger ao jornalista Peter Seewald, Voici quel est notre Dieu (Eis como é nosso Deus).

Eis a parábola que aparece nesse livro:

Peter Seewald.– O escritor Martin Mosebach conta uma pequena história a respeito de uma missa. Isso aconteceu, há muito tempo, na ilha de Capri. Um dia, desembarca um padre inglês, que se fez reconhecer como padre por suas roupas, o que tinha se tornado raro, mesmo na Itália do sul. Quando se tornou claro que o homem de batina queria seriamente celebrar uma missa, todos os dias, se lhe atribuiu, depois de muitas hesitações, uma capela situada num promontório rochoso em precipício sobre o mar, o monte Tibério, sobre o qual estava situado outrora a vila Jovis, uma das numerosas residências do Imperador Tibério. Esta capela era aberta apenas uma vez por ano, no dia 8 de setembro, para a festa da Natividade da Virgem Maria. No resto do ano, ela ficava abandonada aos ratos que cavavam buracos no fundo das gavetas da sacristia.
O Padre inglês, um homem prático, e que não era um grande teólogo, se pôs a caminho. Ele subiu a ladeira ríspida e se deliciou com a bela vista sobre o golfo. Ele teve alguma dificuldade para fazer funcionar a fechadura enferrujada da capela. Ele entrou nesse lugar que cheirava a mofo, acompanhado por um belo raio de sol. A porta metálica do tabernáculo estava aberta, as velas estavam inteiramente consumidos, as cadeiras reviradas, e a sacristia tinha o aspeto de lugar abandonado às pressas. Vasos sujos, uma capa de altar apodrecida, um cálice estilo kitch, toalhas de linho de altar tinha colado umas às outras, um missal caindo aos pedaços. Sim, até mesmo o crucifixo estava torcido.
O padre olhou atentamente tudo isso e refletiu longo tempo. Ele abriu a janela, pegou uma vassoura de palha, que estava caída num canto, e se pôs a varrer toda a capela. Ele pegou o crucifixo, beijou-o e o posou sobre o armário da sacristia. Ele limpou o cálice e reergueu os candelabros. Quando ele descobriu a corda do sino, trepou numa escada no exterior da capela e amarrou a corda a um sino. O encanto estava agora rompido.
Ele colocou uma estola roxa acetinada toda manchada. Derramou um pouco de água que tinha trazido numa garrafa plástica num pequeno pote e se pôs a rezar; ele acrescentou um pouco de sal, fez os gestos de bênção e colocou a água em pequenas pias de água benta em forma de concha ao lado da entrada; poder-se-ia imaginar ouvir a pedra gemer como se ela despertasse de novo. E quando ele badalou o sino com a ajuda da corda, aproximaram-se vindos de longe os primeiros fiéis, mulheres e crianças, e logo a capela ficou cheia.
A missa podia começar. O sacerdote se inclinou diante do altar e começou pelas palavras: Introibo ad altare Dei.
Enquanto o homem de batina purificava o lugar, enquanto ele acendia as velas e benzia a água, quando ele tirava a poeira e expulsava para um canto as ratoeiras, um observador atento, devia ter a impressão que alguma coisa especial se passava. Tal como Abel ou Noé, ele tinha construído um altar antes de sacrificar. E como Moisés, ele delimitou o espaço para o tabernáculo. Era a preparação e a delimitação do espaço sagrado.
Cardeal Ratzinger. – “Esse texto de Mosebach naturalmente é muito poético, mas, no total, a situação em Capri não era tão desesperadora quanto parecia. Mas é verdade que a preparação exterior e interior vão juntas. A missão de São Francisco começou da mesma maneira. Ele ouviu as célebres palavras de Cristo: “É preciso que reconstruas a minha Igreja”. Ele as aplicou inicialmente a essa igreja arruinada, à Porciúncula, que ele restaurou e reconstruiu. Ele notou, em seguida, que ele precisava fazer muito mais: reconstruir a Igreja viva.
Mas este trabalho manual inicial faz parte dessa reconstrução. Ele é muito importante vigiar para que o espaço, a Igreja, seja sempre preparado de novo, que sua santidade interior como a exterior seja
sempre perceptível e reconhecível. É verdade que nós temos em todo o mundo, graças a Deus, igrejas maravilhosas cujo caráter sagrado seria necessário reaprender a amar. A chama acesa diante do Santíssimo Sacramento permite-nos perceber uma presença silenciosa permanente. Muitas igrejas, hoje, parecem teatros, dos quais se admira a beleza do passado mais do que como meio de nossas próprias atividades; constata-se então uma perda interior do sentido do sagrado.
“Reencontrar este sentido e preparar este espaço e exterior, não pode ser feito senão sob a condição de entrar na celebração de modo a encontrar o sagrado efetivamente nela
”. (Cardeal Joseph Ratzinger, Voici quel est notre Dieu, Plon, Paris, 2.001. Pp. 288 a 294. Tradução do francês de O. Fedeli.

Bento XVI vai começar a limpar a Capela de Capri.

Que farão os ratos quando a vassoura começar a ser usada. Porque os ratos da Capela de Capri, na verdade, são lobos que atacarão o Pastor supremo.
Rezemos pelo Papa Bento XVI ajudêmo-lo, o quanto pudermos na limpeza, ordenação e decoração da Capela de Capri.

Na restauração da Missa de sempre!
São Paulo, 24 de Agosto de 2009, festa de São Bartolomeu.

Orlando Fedeli

CADA VEZ MAIS ESTAMOS PERTO!

Encontrei este artigo no FRATES IN UNUM, sobre os primeiros passos de um possível retorno do Rito que hoje é tido como extraordinário.

ROMA: O documento foi entregue em mãos a Bento XVI na manhã de 4 de abril passado pelo Cardeal espanhol Antonio Cañizares Llovera, Prefeito da Congregação para o Culto Divino. É o resultado de uma votação reservada, que ocorreu em 12 de março, no transcurso da sessão “plenária” do dicastério responsável pela liturgia, e representa o primeiro passo concreto em direção àquela “reforma da reforma” freqüentemente desejada pelo Papa Ratzinger. Os Cardeais e Bispos membros da Congregação votaram quase unanimemente em favor de uma maior sacralidade do rito, da recuperação do senso de culto eucarístico, da retomada da língua Latina na celebração e da re-elaboração das partes introdutórias do Missal a fim de pôr fim aos abusos, experimentações desordenadas e inadequada criatividade. Eles também se declararam favoráveis a reafirmar que o modo ordinário de receber a Comunhão conforme as normas não é na mão, mas na boca. Há, é verdade, um indulto que, a pedido dos episcopados [locais], permite a distribuição da hóstia [sic] também na palma da mão, mas isso deve permanecer um fato extraordinário. O “Ministro da Liturgia” do Papa Ratzinger, Cañizares, está também estudando a possibilidade de recuperar a orientação do celebrante em direção ao Oriente, ao menos no momento da consagração eucarística, como acontecia de fato antes da reforma, quando tanto fiéis como padre voltavam-se em direção à Cruz e o padre então voltava suas costas à assembléia.

Aqueles que conhecem o Cardeal Cañizares, apelidado “o pequeno Ratzigner” antes de sua vinda para Roma, sabem que ele está disposto a levar adiante decisivamente o projeto, começando de fato do que foi estabelecido pelo Concílio Vaticano Segundo na constituição Sacrosanctum Concilium, que foi, na realidade, excedido pela reforma pós-conciliar que entrou em vigor no fim dos anos 60. O purpurado, entrevistado pela revista 30Giorni nos últimos meses, declarou a respeito: “Às vezes as mudanças eram feitas pelo mero fim de mudar um passado compreendido como negativo e fora de época. Às vezes a reforma foi vista como uma ruptura e não como um desenvolvimento orgânico da Tradição”.

Por esta razão, as “propositiones” votadas pelos Cardeais e Bispos na plenária de Março prevêem um retorno ao sentido de sagrado e de adoração, mas também um redescobrimento das celebrações em latim nas dioceses, ao menos nas solenidades principais, assim como a publicação de Missais bilíngües – um pedido feito a seu tempo por Paulo VI – com o texto em latim primeiro.

As propostas da Congregação que Cañizares entregou ao Papa, obtendo sua aprovação, estão perfeitamente em linha com a idéia sempre expressa por Joseph Ratzinger quando ainda era Cardeal, como é deixado claro em suas palavras não publicadas [ndt: ao menos na Itália, pois no mundo ‘tradicionalista’ já era conhecida a carta do então Cardeal Ratzinger ao dr. Barth] reveladas antecipadamente por Il Giornale ontem, e que serão publicadas no livro Davanti al Protagonista (Cantagalli]), apresentadas antecipadamente num congresso em Rimini. Com uma significante nota bene: para a realização da “reforma da reforma”, serão necessários muitos anos. O Papa está convencido que passos apressados, assim como diretrizes simplesmente lançadas de cima, não ajudam, com o risco de que muitas possam depois permanecer letra morta. O estilo de Ratzinger é o da comparação e, acima de tudo, do exemplo. Como o fato de que, por mais de um ano, quem se aproxima do Papa para a comunhão, tem que se ajoelhar no genuflexório especialmente colocado pelo cerimoniário.

O Absurdo de Limeira

Igreja Una

Mais (péssimas) novidades sobre LimeiraGate

Recentemente foi publicado num jornal de circulação local em Americana, pertencente ao território canônico de Limeira, algumas considerações sobre a polêmica em torno da missa antiga em Limeira. Quem nos transmitiu a matéria foi o blog Fratres In Unum .

O jornal é “O Liberal”. Não é um nome muito “agradável” para uma matéria dessas, mas o texto até que manteve certa imparcialidade.
Coloquei-me, ao ler a curta matéria pela primeira vez, como um leitor comum, desses que freqüenta a missa uma vez por semana e nada mais. O que conclui? Que os integrantes do grupo que peticiona a missa antiga querem que a missa “em latim” seja o padrão, ou seja, que toda a “Arqui”Diocese volte a celebrar em latim. Isso, obviamente, não é a verdade, mas “O Liberal” não fez muita questão de esclarecer este ponto.

O que o Grupo de Estudos Santo Antonio deseja é ver a missa tridentina (tradicional-gregoriana-de-sempre…) celebrada, só isso. Não deseja, creio eu, que ela substitua o Novus Ordo. Mas é muito mais fácil e conveniente deixar a massa alienada desse detalhe.
Dom Vilson, nosso querido “arce”bispo, relata o seguinte, que acho ser o mais emblemático de tudo.

“Um grupo desses jovens foi até um padre aqui de Limeira que falava latim para pedir sua adesão ao movimento e ele perguntou qual o objetivo, mas em latim. Eles ficaram sem entender nada. Acho que esse episódio prova o absurdo que estão pedindo”.

Bom…não prova. Quem sabe se esse mesmo grupo fizesse o pedido num dialeto africano, que é o preferido do bispo local, eles obteriam um sucesso maior.

A questão lingüística é colocada como o obstáculo magno da questão, quando não deveria nem ser cogitada. Se por mais de 500 anos a língua latina foi o idioma litúrgico dos alemães, ingleses, italianos, franceses, espanhóis e brasileiros, por que agora, quando atingimos um nível de alfabetização mais elevado, virou um problema aquilo que Trento considerou uma solução?

A liturgia que Dom Vilson defende é a liturgia de Descartes – compreensível nos menores detalhes. Nada mais anti-liturgico que isso.

A liturgia é também mistério sublime, é o momento quando nosso coração se eleva ao alto, às coisas do alto. “Corações ao alto!” diz o missal em português, mas quem realmente sabe o que isso quer dizer, quem realmente entende o significado oculto nas palavras? Somente aqueles suficientemente catequizados, é claro.

A liturgia de hoje é pobre de espiritualidade, eu não tenho medo de dizê-lo. Participo da missa nova (porque é a única alternativa que tenho), mas o faço imbuído de um espírito tridentino (o que me ajuda a suportar o arcabouço Descarto-Bugniniano). Vejo como as tentativas de descortinar a liturgia acabam transformando o rito em mero espetáculo ou numa mera reunião.

Infelizmente é justamente esse tipo de liturgia racionalista, aparentemente aberta e comunicativa, que Dom Vilson defende, contrapondo-a ao “absurdo” da liturgia antiga.

Não me espante que Dom Vilson tenha colocado essa palavra (absurdo) na roda. É a mais pura verdade! A liturgia antiga é centrada verdadeiramente no mistério da cruz e da redenção e nós sabemos que “o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque para ele são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente” (cf. I Cor. 2, 14).

A liturgia antiga, para ser realmente vivida e amada, deve estar num contexto de estudo, mas principalmente de oração. É uma liturgia adulta e espiritual, diferente da liturgia infantil e humanista que estamos infelizmente tão acostumados.

Sou levado a crer que Dom Vilson é um bispo ecumênico (exceto com os tradicionalistas, é claro). Sendo ecumênico, teria ele coragem de afirmar as mesmas teses a um bispo ortodoxo ou mesmo católico oriental que celebra sua liturgia num idioma diferente do português? Uma declaração dessas não seria falta de, como dizem os entusiastas do ecumenismo dialogante, “sensibilidade ecumênica” ou de fraternidade cristã?

A questão toda não é saber ou não latim, mas querer um rito digno e que satisfaça plenamente a fé. O grupo em questão tem uma fé mais profunda, que requer uma liturgia capaz de comunicá-la adequadamente. Não vou entrar no mérito teológico da estrutura tridentina versus paulina, que já é conhecida, mas é preciso que o bispo, como justo pastor, saiba ser generoso ao satisfazer essas necessidades.

A resposta é simples. Deixar a missa ser celebrada livremente, sem “neuras”. Todo mundo ficaria satisfeito – o grupo, por ter a missa, e o bispo por deixar de ver seu nome nos jornais (uma hora isso chegará, não tenho dúvida, aos ouvidos de um certo cardeal espanhol e ai a coisa com certeza vai mudar de figura).

Mas infelizmente o bispo tem se mostrado bem diferente do vulto “paternal” que alguns limeirenses tentam vender a todo custo, especialmente aqueles ligados às formas mais bizarras de liturgia.

O jornal “O Liberal” também coloca o Grupo como um opositor dos “avanços” promovidos pelas reformas recentes. Ora, deveria ter enfatizado que os atuais colaboradores do Sumo Pontífice, incluindo o próprio pontífice, são grandes revisionistas do Concílio. Dom Ranjith (de venerável memória), Cardeal Canizares, Dom Bux, Fr. Lang, Dom Burke, Mons. Guido e alguns bispos além-Cúria como Dom Scheneider, Cardeal Zen, Cardeal Cipriani Thorne, Cardeal George, Cardeal Pell, etc.

Realmente essas barreiras que alguns bispos estão colocando são verdadeiramente insustentáveis. Estão criando eles mesmos a guerra interna, quando deveriam apascentar e, principalmente, apaziguar o povo de Deus.

Uma diocese que tem uma vida litúrgica profundamente enraizada na Tradição da Igreja não pode alcançar outra coisa que não o sucesso. Infelizmente alguns bispos estão presos numa estrutura minimalista, reducionista, que conduz tudo a um plano demasiado pragmático – as pessoas não vão entender o latim, logo vão deixar de ir à missa… Isso é falso!

Seria interessante que o bispo fizesse uma experiência empírica que eu mesmo, em partes, fiz. Após duas missas, uma nova e uma tridentina, perguntar ao primeiro leigo que deixar o recinto sobre o que aconteceu, o que é a missa e o que significa a Eucaristia. Certamente a resposta mais católica será daqueles que acabaram de assistir ao rito antigo. Eu já perguntei a pessoas de várias idades, aqui na minha paróquia, sobre a missa; tive a oportunidade de ouvi-las, em diversos momentos, comentando sobre a missa e devo dizer – PÉSSIMO. Nenhuma, absolutamente nenhuma, chegou perto do verdadeiro significado do “Mistério da Fé”. Todas citaram a partilha, o encontro “com os irmãos” e coisas do tipo. E todas assistiram ao rito em bom e velho português, com uma homilia “inclusiva” e moderna.

Fica a minha sugestão ao “arce”Bispo de Limeira.

Autor Danilo Augusto

Dom Burke celebrará Santa Missa Tradicional em São Pedro.

Rinascimento Sacro anunciou que, como ápice da Segunda Convenção sobre Summorum Pontificum organizada pelos Giovani e Tradizione, uma Missa Pontifical Solene conforme o Rito Clássico Romano será celebrada na Capela de Adoração Eucarística na Basílica de São Pedro, no sábado, 18 de outubro de 2009 às 10:00h. A Missa será celebrada por Sua Excelência, o Arcebispo Raymond Leo Burke, Prefeito do Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica. A música será providenciada por um coro misto dos Franciscanos da Imaculada.