A glória da humanidade na glória de Deus (Solenidade do Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo)

Nesta noite, marcada pela esperança novamente cintilante, o Senhor desce ao nosso encontro, se faz um de nós e, assumindo esta condição, abre à humanidade as portas da salvação e da vida nova. A antífona da Missa nesta noite santa inicia-se com as palavras do salmista: “Dominus dixit ad meFilius meus es tu, ego hodie genui te – O Senhor me disse: Tu és meu Filho, eu hoje te gerei” (Sl 2, 7). Essa frase, que primariamente pertencia ao rito da coroação do rei de Israel que em seu chamamento era introduzido como “filho de Deus”, hoje é usada pela Igreja no reconhecimento da filiação divina de Cristo e da sua eterna geração no Pai.

O salmo 2º é uma leitura prefigurativa daquele menino frágil e indefeso que hoje desce à terra, repleto de majestade e poder, tendo como único sinal a humildade e o canto dos anjos, que ouvimos no Evangelho. Aquele que é gerado por Deus desde toda a eternidade aceita também ser gerado no ventre de Maria, submetendo-se à condição da temporalidade e da morte. Ele é verdadeiramente Deus conosco! Ainda hoje o Filho – professado no Credo como consubstancial ao Pai – continua a ser gerado em Deus. Hoje também Deus vem ao nosso encontro, fala ao nosso coração e quer ser acolhido por cada um de nós.

Santo Irineu de Lyon escrevera de forma significativamente profunda: “O esplendor de Deus dá a vida. Consequentemente, os que veem a Deus recebem a vida. Por isso, aquele que é inacessível, incompreensível e invisível, torna-se compreensível e acessível para os homens, a fim de dar a vida aos que o alcançam e veem. Assim como viver sem a vida é impossível, sem a participação de Deus não há vida… Ao mesmo tempo [o Verbo], mostrou também, por diversos modos, que Deus é visível aos homens, para não acontecer que, privado totalmente de Deus, o homem chegasse a perder a própria existência. Pois a glória de Deus é o homem vivo, e a vida do homem é a visão de Deus” (Lib. 4,20,5-7:Sch 100, 640-642.644-648).

Com o seu nascimento Jesus nos permite participar de Deus. Nós recebemos a verdadeira vida! Se em primeiro plano o pecado parecia ter vencido o homem decaído, em última instância há sempre a graça de Deus e aquele sinônimo que devemos atribuir-lhe: “amor”.

Onde há reconhecimento da glória de Deus, há de igual forma vida e esperança. Onde não se dá glória a Deus se dá glória às ideologias subjetivas e contrárias ao verdadeiro sentido da fé e da vida. Onde Ele não é adorado, mas antes, é desprezado e negado, prevalecem os obstáculos entre o divino e o humano: Ele não pode falar e tampouco ser escutado.

Irineu reafirma que Deus se compraz e é glorificado no “homem vivo”. Que coisa podemos entender destas palavras? Que sentido possui a vida nesta noite em que o seu Autor assume nossa condição? Poderíamos responder a estas perguntas com a mesma afirmação paulina escutada na segunda leitura: O homem vivo é aquele que abandona a impiedade e as paixões mundanas e vive neste mundo com equilíbrio, justiça e piedade (cf. Tt 2,12). Quanta injustiça e impiedade imperam no mundo onde Deus deveria reinar! Quantos homens velhos que não se abriram ao Menino que vem, permanecendo, assim, na dramática situação narrada pelo Profeta Isaías: “Botas de tropa de assalto, trajes manchados de sangue…” (Is 9,4). A marca do exílio israelita na Assíria ultrapassa os limites históricos e assume uma dimensão espiritual e sempre atual. Ainda hoje podemos acompanhar a catastrófica situação dos prófugos e refugiados, de modo particular os cristãos do Oriente Médio, forçados a deixarem sua pátria pela realidade que se lhes sobreveio, ou, muitas vezes, rejeitados em outros lugares. Mas a profecia de Isaías estende-se com uma consoladora promessa: “… tudo será queimado e devorado pelas chamas”. Como não rezarmos nesta hora: Sim, Senhor, sabemos que onde não existem homens vivos não haverá vida digna. Fazei brilhar a vossa luz sobre aqueles que praticam a impiedade e a injustiça. Queimai os calçados ruidosos e os trajes manchados de sangue, sobretudo os daqueles que negam o direito à vida aos indefesos: que ainda não nasceram ou os que já estão acometidos pela fragilidade da idade avançada. Sejais Vós a verdadeira vida numa sociedade que se ampara na lógica da força e do poder e nega-se a abraçar a humildade e ser portadora da “grande alegria” comunicada pelos anjos aos pastores.

Voltemos ainda à afirmação de Irineu: “A vida do homem é a visão de Deus”. A leitura do profeta Isaías nos faz relato de um caos primígeno, já transcrito no início do livro dos Gênesis, quando ainda nada tivera sido criado. O caos é uma não-vida, portanto, uma realidade tenebrosa, obscura. Com este pressuposto, a frase de Irineu que atribui a visão de Deus, isto é, a sua ação, à vida do homem, entrelaça-se com a primeira leitura e podem ser postas lado a lado. O pecado quebra a harmonia da criação e restabelece a realidade primitiva: quando a mão de Deus nada tivera criado havia somente o caos, o prenúncio da morte. Desta forma, somente se permanece alimentado pela esperança e pela certeza da ação de Deus, o homem pode passar da morte à vida, pode ser visão de Deus e pode ser glória para Deus.

No fim, podemos pensar que o próprio Filho de Deus entra na História humana de forma visível, subjuga-se ao tempo (Chronos) e às condições físicas do homem. Poderíamos perguntar-nos: Como receberíamos Jesus hoje? O que faríamos se Maria e José batessem hoje à nossa porta? Quando Deus quis entrar no tempo dos homens, os homens quiseram sair do seu tempo (Chronos) e do tempo da Graça (Kairós). Criaram, por conseguinte, subterfúgios e, como Adão, esconderam Dele o seu rosto. É certo que a glória de Deus em sua totalidade só poderá ser contemplada quando estivermos purificados de todas as nossas faltas e participarmos do convívio dos eleitos. Mas Deus nos permite, pelo nascimento de Seu Filho, contemplarmos de antemão a prefiguração do Seu poder e da sua glória.

O Evangelho nos relata o cenário que Maria e José encontraram na fria noite em Belém. Mais do que hospedarias fechadas para um pobre casal, os corações encontravam-se cerrados no comodismo e no egocentrismo. Quem está fechado em si não se dá conta de que Deus mesmo está a bater à sua porta e que pede espaço e abrigo. Bateu outrora nas hospedarias em Belém e não encontrou lugar. Bate também hoje e não encontra espaço porque estamos atarefados com coisas pretensamente “importantes”. O tempo para Deus parece tornar-se cada vez mais escasso e disputado com o ativismo das tarefas diárias. A ausência de lugar para o Menino foi aprofundada e aludida na sua essência pelo evangelista João ao escrever: “Veio para o que era Seu, e os Seus não O acolheram” (Jo 1, 11).

Peçamos que o Senhor nos conceda um coração aberto a acolhê-Lo. Peçamos que o nome de Deus seja solevado e a salvação entre em nossos lares por meio d’Aquele que hoje pede o nosso amor, a nossa atenção e os nossos cuidados. Faze que reine a Paz como promessa do Teu Reino ao reconhecermos que sem Vós toda paz é utópica e toda ideologia é falha. Que a Tua Luz nos conduza à Belém para também nós adorarmos o mistério que ali se fez alcançar. Amém!

“Tu és meu filho e hoje te gerei”: Solenidade do Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo

Após o ciclo de quatro semanas propostas pela Igreja no tempo do Advento, celebramos hoje a Solenidade que faz maravilhar nossos corações: o Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo. Deus entra no espaço e no tempo dos homens. Fá-lo para realizar plenamente a salvação daqueles que estavam carregados com o julgo do pecado.

Apparuit enim gratia Dei salutaris omnibus hominibus – Manifestou-se a graça salvadora de Deus a todos os homens” (Tt 2, 11). Esta é a festa da gloriosa manifestação da graça santificante. Somos envoltos na luz da misericórdia e do amor de Deus, um Deus que faz-se um de nós assumindo o rebaixamento da nossa condição humana. Esse amor não aparece, mas manifesta-se. Manifesta-se, pois já existia, e porque já existia manifestou-se. Mas que coisa é para nós hoje esta manifestação? O que ela representa aos nossos dias atribulados pela valorização de coisas efêmeras, de guerras, de ódios, de divisões? Vemos com grande tristeza a perda dos valores natalinos. Enfeitamos as casas, os comércios, os, porém, corações continuam despreparados para acolher o Menino Deus que vem para libertar-nos do pecado. Os símbolos natalinos perdem seu valor e em nada traduzem o espírito natalino quando são privados de exalar o perfume de Cristo. A Igreja não cessa de convidar os católicos para que, profundamente tomados pela força revigoradora do Cristo, possam manifestar ao mundo que o verdadeiro espírito do Natal não há de consistir apenas nos presentes, pois hoje nos é dado o maior presente; também não há de consistir apenas na árvore de Natal, pois os céus se abrem hoje para manifestar que a Árvore da Vida implanta-se no mundo para nos guiar até o céu.

A manifestação daquele recém-nascido envolto em panos é também o grito de tantas crianças colocadas à margem da sociedade e que nesta noite, tomadas pela escuridão e pelo frio que as cercam não estão incluídas em seios familiares. A elas também dirijo o meu pensamento e peço que não se sintam abandonadas, mas que sintam a presença do Menino Jesus que as ama e com elas permanece sempre.

O Senhor faz-se pequeno para que a o gênero humano pudesse ser engrandecido, e o homem, tomado em sua totalidade, visse a manifestação da glória de Deus, mas não somente a visse como também a experimentasse, tocasse, por assim dizer, pudesse fazer parte dela. Só desta forma os homens poderiam sentir-se abraçados pelo grande amor de Deus, por Aquele que, a princípio, por ser grande e estar infinitamente acima de nós parecia-nos distante e inalcançável.

Na manifestação humilde do Filho de Deus o mundo encontra uma resposta a todas as suas angústias, a todos as suas interrogações. Só Deus pode responder verdadeiramente aos anseios do homem e só d’Ele provém a felicidade eterna e verdadeira, que não se restringe a um instante mas é algo novo, diferente. A alegria que provém de Deus não muda somente o estado de espírito do ser humano; ela vai além: muda o modo de viver, muda o coração e também os objetivos que deseja alcançar. Esta, e só esta, é a felicidade divina.

Na sua maravilhosa obra Confissões, Santo Agostinho irá manifestar um triângulo de relacionamentos em um parágrafo que considero um dos mais belos. Diz ele: “Ó eterna verdade e verdadeira caridade e cara eternidade! Tu és o meu Deus, por ti suspiro dia e noite. Desde que te conheci, tu me elevaste para ver que quem eu via, era, e eu, que via, ainda não era. E reverberaste sobre a mesquinhez de minha pessoa, irradiando sobre mim com toda a força. E eu tremia de amor e de horror. Vi-me longe de ti, no país da dessemelhança, como que ouvindo tua voz lá do alto: ‘Eu sou o alimento dos grandes. Cresce e me comerás. Não me mudarás em ti como o alimento de teu corpo, mas tu te mudarás em mim’”.

São estas belíssimas palavras que nos levam a contemplar novamente esta novidade que vem do alto. Sim, Deus é uma verdade eterna, imutável. Em um mundo que necessita exercitar seu empirismo para acreditar, a Igreja nos exorta novamente a abandonarmos esta mentalidade. Busquemos Aquele pelo qual acreditamos não por vermos e necessitarmos tocar, mas acreditamos pelo Amor, um amor incondicional que instiga-nos a caminharmos em direção do próximo, do que necessita nosso amparo e nosso amor, dos que sofrem por não amarem. A estes o Senhor faz um convite incansável: Não temam em abrir-se para o amor! Não temam em abrir-se a Mim!

Se eterna é a verdade, a caridade há de ser, então, verdadeira. Só a verdade pode levar o homem a sair de si mesmo e com Cristo, humilhar-se, e em Cristo, ser unido a Ele sem jamais deixar-se atribular por qualquer pressão do mundo. Renuncieis a esta vida e tereis a vida eterna. Renunciai a vida eterna e nem mesmo esta vida tereis, pois não existe maior desgraça para o homem do que afastar-se de seu Criador e colocar-se na condição de um ser autossuficiente, senhor de si e de seus desejos, podemos confirmá-lo nos vários sistemas políticos de autoritarismo.

A união com Cristo, como lembrará o Santo Bispo ao final de sua colocação, não é algo que assemelhá-Lo-á a mim, mas eu assemelhar-me-ei a Ele. A iniciativa foi dada por Cristo: Ele veio ao nosso encontro; tomemos agora a iniciativa de irmos ao encontro d’Ele, de sairmos das trevas, de amá-lo sem reservas. Indubitavelmente a falta de amor no mundo é consequência da falta de Deus, não porque Ele tenha se afastado do mundo, mas o mundo afastou-se d’Ele.

“O povo, que andava na escuridão, viu uma grande luz; para os que habitavam nas sombras da morte, uma luz resplandeceu” (Is 9,1). Assim escutamos nesta noite santa por meio do Profeta Isaias. Também o mundo de hoje caminha em meio a uma forte escuridão. A cultura moderna está impregnada por “sombras da morte”. Nós parecemos não enxergar nenhum sinal que venha nos animar, parecemos atordoados pelas fadigas derivadas do peso que a sociedade impõe. Nosso Senhor, no entanto, sempre aparece como Aquele que conforta-nos e soluciona as nossas tribulações. Confiemos em Deus! Não perece quem confia em Deus, mas aquele que nele não põe sua esperança logo será abatido pelos ventos contrários. Em quem colocamos a nossa confiança? Em Deus ou no mundo? No bem ou no mal? No que fortalece ou no que atribula?

Dominus dixit ad me filius meus es tu ego hodie genui te – O Senhor me disse: Tu és meu filho e hoje te gerei” (Sl 2, 7). Essas palavras a Igreja canta no Introito da Santa Missa da Noite Santa de Natal. Sim, “gerado, não criado; consubstancial ao Pai”, assim professamos no símbolo de fé niceno-constantinopolitano. Gerado desde toda a eternidade, Jesus, cumprindo o salvífico desígnio do Pai, restaura a condição humana decaída pelo pecado, reata os laços do homem com Deus, cortados por Adão e Eva.

“Enquanto estavam em Belém, completaram-se os dias para o parto, e Maria deu à luz o seu filho primogênito” (Lc 2, 6). Com esta frase, absolutamente sóbria, São Lucas narra o maravilhoso acontecimento que teve lugar na manjedoura. Mas que significado tem aqui o termo “primogênito”? Indicaria uma sucessão de filhos? A primogenitura, deste ponto de vista da Sagrada Escritura, na Antiga Aliança, não significa uma sucessão de filhos, mas é um título de honra. Jesus é sim o primogênito de Deus, de Maria e da História. Nele Deus concretiza o seu desígnio em relação a sua graça salvadora na humanidade. São Paulo usará desta palavra ao afirmar que Cristo é “o primogênito de toda a criatura” (Cl 1, 15). Sim, tendo cumprido a sua obra salvífica podemos afirmar que Ele torna-se também o primogênito de muitos irmãos. Maria, assim, poderíamos associar como mãe de muitos filhos. Aqui estão os outros filhos de Maria! Derivam da filiação adotiva, daquele que é Filho de Deus por excelência: Jesus Cristo.

“Ela o enfaixou e o colocou na manjedoura, pois não havia lugar para eles na hospedaria” (Lc 2, 7). Não havia lugar para o Senhor e para sua mãe naquela época. Também hoje muitos corações estão fechados à receptividade do Reino de Deus que vem na pessoa desta frágil criança. No frio daquela noite de Belém nasce Aquele que iria aquecer todos os corações com a chama do seu amor misericordioso. Pedimos que os corações sejam abertos a este menino salvador. Abram-se os corações e possam acolher aquele que a dois mil anos foi rejeitado.

Que lugar Jesus ocupa em nossos corações hoje? Esta pergunta deve fazer com que possamos melhor vivenciar o verdadeiro espírito natalino. Muitos corações estão endurecidos à mensagem que esta noite tem a transmitir-nos a Igreja. Enquanto a efemeridade e o secundário forem postos como necessários os homens não encontrarão a paz tão almejada. Não pode abrir-se ao mundo e aos irmãos quem antes não estiver aberto a Deus, quem não se tornar portador de sua Palavra e fizer de sua vida um Evangelho.

 “Naquela região havia pastores que passavam a noite nos campos, tomando conta do seu rebanho” (Lc 2, 8). Quem eram os pastores? Por que a eles o anúncio é dirigido primeiramente? Devemos dizer, em primeiro lugar, que eram pessoas humildes, tidas à margem da sociedade. Eram desconhecedores da Lei e, portanto, não a vivenciavam; andavam com suas ovelhas por diversos campos, inclusive campos pagãos. Por tudo isso, eram julgados pelos fariseus e considerados impuros e indignos de participar das cerimônias de culto.

Mas se por um lado lhes pesava o fardo da exclusão, por outro, todo este sacrifício deu-lhes uma consolação maior que qualquer outra: Contemplar a face do Salvador feito homem; contemplar um Deus que é tão pequeno, tão humilde, tão frágil e quis necessitar do nosso amor. Não há na mitologia grega e nos deuses romanos nenhum Deus que tenha se feito homem; mas há para nós, homens e mulheres, testemunhas do Evangelho. O nosso Deus não constitui parte de uma literatura mítica. Ele existe! Ele vive! E hoje Ele inclina-se dos altos céus não para condenar-nos, mas para nos mostrar quão grande é o seu amor; um amor capaz de doar-se, capaz de não apenas inclinar-se para olhar-nos, mas descer para estar conosco.

Precisamente esta impressão, pela qual hoje somos tomados, acometeu os pastores que contemplaram maravilhados o menino. Deixaram tudo, ao escutar o anúncio do anjo. Certamente houve um grande temor por parte deles, afinal não lhes era comum ver aquele personagem vindo do céu. O que os pastores nos ensinam? Esta resposta nos é dada pelo Papa Bento XVI: “Deles queremos aprender a não deixar-nos esmagar por todas as coisas urgentes da vida de cada dia. Deles queremos aprender a liberdade interior de colocar em segundo plano outras ocupações – por mais importantes que sejam – a fim de nos encaminharmos para Deus, a fim de O deixarmos entrar na nossa vida e no nosso tempo. O tempo empregue para Deus e, a partir d’Ele, para o próximo nunca é tempo perdido. É o tempo em que vivemos de verdade, em que vivemos o ser próprio de pessoas humanas” (Homilia do Natal do Senhor, 2009). Ademais ensinam-nos que só o amor pode nos dar coragem para vencer o medo. Só o amor nos dá coragem para seguir a Cristo. Quem tem uma fé fraca e deixa-se abalar pelas coisas do mundo ainda não está apto para tal seguimento. Por vezes há momentos de queda, mas a força que vem de Deus dá-nos a certeza de que não estamos abandonados. Deus está conosco!

Deixemos tudo, como fizeram os pastores. Coloquemo-nos a caminho de Belém e enquanto caminhamos, rezemos: Vem, ó Senhor! Toca os corações endurecidos; renova os nossos corações; dissipa o ódio e o mal da face da terra; reafirmai vossa primazia e poder sobre todos os homens e em todos os tempos. Renovai vosso ardente desejo de sermos Evangelhos vivos para os homens de nossos dias. Revigora o ânimo dos entristecidos; conforta os tristes; curai os enfermos; acolhei os abandonados. Tornai-nos corações vigilantes na expectativa de que, habitando Cristo em nossos corações, possamos abitar igualmente no coração amoroso d’Ele. Concede paz ao mundo dilacerado pela guerra, paz verdadeira e duradoura. Paz a todos os cristãos nos mais diversos países, perseguidos por causa do vosso nome. Livrai-nos da tentação de colocar-Vos em último lugar, mas que possais crescer enquanto nós, assim como João Batista, possamos diminuir.

A todos os meus votos de um Feliz e Santo Natal. Que a luz de Cristo resplandeça em vossos corações e em vossas famílias.

Deus não se limitou a inclinar o olhar para baixo

Papa na Santa Missa de Natal de 2010

“Na verdade, as palavras do rito da coroação em Israel não passavam de palavras rituais de esperança, que de longe previam um futuro que haveria de ser dado por Deus. Nenhum dos reis, assim homenageados, correspondia à sublimidade de tais palavras. Neles, todas as expressões sobre a filiação de Deus, sobre a entronização na herança dos povos, sobre o domínio das terras distantes (Sal 2, 8 ) permaneciam apenas presságio de um futuro – como se fossem painéis sinalizadores da esperança, indicações apontando para um futuro que então era ainda inconcebível. Assim o cumprimento da palavra, que tem início na noite de Belém, é ao mesmo tempo imensamente maior e – do ponto de vista do mundo – mais humilde do que a palavra profética deixava intuir. É maior, porque este menino é verdadeiramente Filho de Deus, é verdadeiramente ‘Deus de Deus, Luz da Luz, gerado, não criado, consubstancial ao Pai’. Fica superada a distância infinita entre Deus e o homem. Deus não Se limitou a inclinar o olhar para baixo, como dizem os Salmos; Ele ‘desceu’ verdadeiramente, entrou no mundo, tornou-Se um de nós para nos atrair a todos para Si. Este menino é verdadeiramente o Emanuel, o Deus conosco. O seu reino estende-se verdadeiramente até aos confins da terra. Na imensidão universal da Sagrada Eucaristia, Ele verdadeiramente instituiu ilhas de paz. Em todo o lado onde ela é celebrada, temos uma ilha de paz, daquela paz que é própria de Deus. Este menino acendeu, nos homens, a luz da bondade e deu-lhes a força para resistir à tirania do poder. Em cada geração, Ele constrói o seu reino a partir de dentro, a partir do coração. Mas é verdade também que ‘o bastão do opressor’ não foi quebrado. Também hoje marcha o calçado ruidoso dos soldados e temos ainda incessantemente a ‘veste manchada de sangue’ (Is 9, 3-4). Assim faz parte desta noite o júbilo pela proximidade de Deus. Damos graças porque Deus, como menino, Se confia às nossas mãos, por assim dizer mendiga o nosso amor, infunde a sua paz no nosso coração. Mas este júbilo é também uma prece: Senhor, realizai totalmente a vossa promessa. Quebrai o bastão dos opressores. Queimai o calçado ruidoso. Fazei com que o tempo das vestes manchadas de sangue acabe. Realizai a promessa de ‘uma paz sem fim’ (Is 9, 6). Nós Vos agradecemos pela vossa bondade, mas pedimos-Vos também: mostrai a vossa força. Instituí no mundo o domínio da vossa verdade, do vosso amor – o ‘reino da justiça, do amor e da paz’.”

“‘Maria deu à luz o seu filho primogênito’ (Lc 2, 7). Com esta frase, São Lucas narra, de modo absolutamente sóbrio, o grande acontecimento que as palavras proféticas, na história de Israel, tinham com antecedência vislumbrado. Lucas designa o menino como ‘primogênito’. Na linguagem que se foi formando na Sagrada Escritura da Antiga Aliança, ‘primogênito’ não significa o primeiro de uma série de outros filhos. A palavra ‘primogênito’ é um título de honra, independentemente do fato se depois se seguem outros irmãs e irmãs ou não. Assim, no Livro do Êxodo, Israel é chamado por Deus ‘o meu filho primogênito’ (Ex 4, 22), exprimindo-se deste modo a sua eleição, a sua dignidade única, o particular amor de Deus Pai. A Igreja nascente sabia que esta palavra ganhara uma nova profundidade em Jesus; que n’Ele estão compendiadas as promessas feitas a Israel. Assim a Carta aos Hebreus chama Jesus ‘o primogênito’ simplesmente para O qualificar, depois das preparações no Antigo Testamento, como o Filho que Deus manda ao mundo (cf. Heb 1, 5-7). O primogênito pertence de maneira especial a Deus, e por isso – como sucede em muitas religiões – devia ser entregue de modo particular a Deus e resgatado com um sacrifício de substituição, como São Lucas narra no episódio da apresentação de Jesus no templo. O primogênito pertence a Deus de modo particular, é por assim dizer destinado ao sacrifício. No sacrifício de Jesus na cruz, realiza-se de uma forma única o destino do primogênito. Em Si mesmo, Jesus oferece a humanidade a Deus, unindo o homem e Deus de uma maneira tal que Deus seja tudo em todos. Paulo, nas Cartas aos Colossenses e aos Efésios, ampliou e aprofundou a ideia de Jesus como primogênito: Jesus – dizem-nos as referidas Cartas – é o primogênito da criação, o verdadeiro arquétipo segundo o qual Deus formou a criatura-homem. O homem pode ser imagem de Deus, porque Jesus é Deus e Homem, a verdadeira imagem de Deus e do homem. Ele é o primogênito dos mortos: dizem-nos ainda aquelas Cartas. Na Ressurreição, atravessou o muro da morte por todos nós. Abriu ao homem a dimensão da vida eterna na comunhão com Deus. Por fim, é-nos dito: Ele é o primogênito de muitos irmãos. Sim, agora Ele também é o primeiro de uma série de irmãos, isto é, o primeiro que inaugura para nós a vida em comunhão com Deus. Cria a verdadeira fraternidade: não a fraternidade, deturpada pelo pecado, de Caim e Abel, de Rômulo e Remo, mas a fraternidade nova na qual somos a própria família de Deus. Esta nova família de Deus começa no momento em que Maria envolve o “primogênito” em faixas e O reclina na manjedoura. Supliquemos-Lhe: Senhor Jesus, Vós que quisestes nascer como o primeiro de muitos irmãos, dai-nos a verdadeira fraternidade. Ajudai-nos a tornarmo-nos semelhantes a Vós. Ajudai-nos a reconhecer no outro que tem necessidade de mim, naqueles que sofrem ou estão abandonados, em todos os homens, o vosso rosto, e a viver, juntamente convosco, como irmãos e irmãs para nos tornarmos uma família, a vossa família.”

Bento XVI, Homilia na Santa Missa da Noite de Natal
24 de dezembro de 2010

“Et Verbum caro factum est!”

Celebramos a partir da noite santa de hoje a grande Solenidade do Natal do Senhor, a segunda maior da Igreja. Após a preparação meditativa proposta pelo tempo do Advento, hoje podemos experimentar e reviver a grande graça que vem a nós e rebaixa-se a nossa condição. Jesus faz-se homem! Eis a grande novidade. Como Deus pode humanizar-se? Como Ele pode assumir as nossas fraquezas? Por que Ele fez isso? Porventura somos dignos de tão grande maravilha?

Não somos! Mas Deus, unicamente por amor e misericórdia, volta-se para nossa pobre condição, compadece-se de nós e vem ao nosso encontro para nos redimir, e todo o mistério da Redenção inicia-se precisamente na encarnação. O profeta Isaías já afirmava que “o amor apaixonado do Senhor dos exércitos é que há de fazer tudo isso” (9,6). E este Amor é que torna-se visível. “Por sua vontade, nasceu hoje para nós no tempo, a fim de nos conduzir à eternidade do Pai. Deus se fez homem para que o homem se tornasse Deus. Para que o homem comesse o pão dos anjos, o Senhor dos anjos se fez homem” (Santo Agostinho).

Ele não quis habitar unicamente em luz inacessível, mas veio estar ao nosso lado, consolar-nos e dar-nos a certeza de que confiando n’Ele poderíamos encontrar a salvação. “Tudo o que Nosso Senhor realizou, ele o fez por nenhuma outra razão a não ser para que Deus esteja conosco que nós sejamos um com ele; e por isso Deus se tornou homem” (Sermões do Mestre Eckhart, p. 99).

Mediante uma cultura consumista, que tende a fazer desaparecer os valores religiosos do Natal, a Igreja nos convida a olharmos para a simples gruta de Belém. Ali, e não em palácios, nasceu o Salvador. Seus primeiros visitantes foram simples pastores, e Ele foi aquecido por animais que se encontravam no estábulo. Pobre veio o Senhor; pobres também devemos ser em nosso interior e, na medida das nossas possibilidades, também no exterior. Não queiramos luxo e riqueza; não busquemos prestígio e poder, mas simplicidade e pureza de coração, pois a Onipotência manifesta-se pela humildade. Ademais a verdadeira felicidade não está no supérfluo, mas no eterno. E só o eterno pode nos dar aquilo que ninguém nos pode tomar. Só neste Eterno, que justamente por ser eterno não tem limites, a humanidade pode descansar segura, sem temer os vendavais que, por vezes, abatem-na. Só neste Eterno a “transcendência” tão desejada pelo homem pode ser plenamente cumprida, sabendo que esta não é supérflua, vã e vazia, mas é cheia, cheia do Amor de Deus e do Amor que é Deus.

Em sua homilia para o Natal de 2005, escreveu o Santo Padre Bento XVI, de feliz reinado:

“Logo a seguir, porém, surgem as perguntas: como podemos amar Deus com toda a nossa mente, se nos custa encontrá-lo com a nossa capacidade metal? Como amá-Lo com todo o nosso coração e a nossa alma, se este coração consegue entrevê-Lo só de longe e contempla tantas coisas contraditórias no mundo que velam o seu rosto diante de nós? Neste ponto se encontram os dois modos com os quais Deus «abreviou» a sua Palavra. Ele não está mais longe. Não é mais desconhecido. Não é inalcançável para o nosso coração. Fez-se menino por nós e, com isto, dissolveu toda ambigüidade. Fez-se o nosso próximo, restabelecendo também deste modo a imagem do homem que, com freqüência, se nos revela tão pouco amável. Deus, por nós, fez-se dom. Doou-se a si próprio. Perde tempo conosco. Ele, o Eterno que supera o tempo, assumiu o tempo, atraiu a si próprio para o alto o nosso tempo. O Natal veio a ser a festa dos dons para imitar Deus que por nós doou-se a si próprio. Deixemos que o nosso coração, a nossa alma e a nossa mente fiquem tocados por este fato!”

As leituras nos revelam esta manifestação amor-misericórdia de Deus. Na primeira leitura Isaias escreve: “O povo que andava na escuridão viu uma grande luz, para os que habitavam na sombra da morte uma luz resplandeceu” (9,1).

E em que dia resplandece melhor a luz senão no Natal e na Páscoa? Enquanto uma resplende ainda ofuscada pelas trevas, a outra já não mais poderá ser ofuscada, pois já dissipou as trevas do mundo; e onde habita Jesus as trevas já não mais terão lugar. Onde há luz, não mais imperam as trevas!

O povo andava sobrecarregado pelos pecados e pelo peso da Lei; ainda hoje, o pecado tenta oprimir a sociedade, que muitas vezes deixa-se corromper por ele; Jesus, porém, vem dar novo vigor a humanidade, vem dizer-nos que Ele nunca nos abandona; Ele caminha conosco! E, ao olharmos para o presépio, de onde irradia a luz do mundo, ali devemos ver um caminho verdadeiro e próspero para os homens. Quem se deixa guiar por Cristo jamais poderá perecer pelas forças do mal.

A leitura também é uma exortação para os poderes opressores. Não aqueles que oprimem meramente em sentido econômico, mas sobretudo aqueles que oprimem a fé do povo; aqueles que se põem como Deus e desejam fazer valer todas as suas vontades. Nenhum poder poderá subsistir senão estiver unido a Cristo. Unamo-nos a Cristo, amados irmãos, e não pesará sobre nós o seu poderoso braço; pelo contrário: o Senhor mostrará seu incomensurável Amor, que se derrama sobre homens.

O menino-Deus vem instaurar a paz, onde já não haverá mais limites e as guerras não terão vez (cf. 8,6). E  esta consumação se inicia com o Evangelho, pois a Parusia está próxima! O que os anjos disseram Isaías já havia profetizado. E este tempo novo dá-se em Cristo, Senhor e Juiz da História.

A vida de Jesus, às vezes, parece um paradoxo: Como um Rei – sabendo ainda que se trata de Deus – pode nascer num estábulo? Como pode alguém trazer a paz se todos os que O seguem sempre foram e serão perseguidos? Jesus refere-se a um sentido escatológico; o próprio nascimento foi voltado para a escatologia. A grandeza de Jesus está na humildade, e a glória da Igreja e do cristão está na perseguição.

Apparuit enim gratia Dei salutaris omnibus hominibus – Manifestou-se a graça salvadora de Deus a todos os homens” (Tt 2,11). Jesus manifesta-se! Ele é a graça salvífica do Pai destinada a todos os homens. Todos são chamados a experimentarem e mergulharem neste mar de benevolência. Manifesta-se Cristo para que os homens não silenciem-se. Sempre repetimos: Vinde Senhor Jesus! Ele veio! Ele está conosco! Seja louvado o Deus que desce para elevar a nossa mísera condição. E tudo isso Ele faz por Amor. Amor! Palavra doce que ecoa tão suave em nossos ouvidos. E onde poderíamos achar maior doçura do que em Jesus?

Ainda hoje clamamos para que o Senhor se manifeste. Manifeste-se o Senhor e dissipe o mal da nossa sociedade. Manifeste-se e quebre os poderes opressores do pecado que dominam muitos dos vossos filhos. Manifeste-se e toque no coração daqueles que vos esqueceram; daqueles que já não mais Vos buscam; daqueles que procuram salvação onde não há; daqueles que deixam-se seduzir pelas concupiscências e desejos carnais. Vivamos neste mundo como peregrinos, e elevemos nossos olhos aos imperecíveis bens celestiais. Deixemo-nos pertencer ao Senhor; sejamos d’Ele, e só d’Ele!

O Evangelho de São Lucas lido na Santa noite de Natal nos diz que, após ser rejeitado nas casas, o Senhor nasce em um estábulo, numa gruta, em uma noite fria, ao lado de animais. Não encontrou o Senhor abrigo em sua primeira vida, e ainda hoje continua a ser rejeitado por aqueles que deveriam acolhê-lo. Procura um lugar para nascer, mas as portas se fecham para Ele, ou, muitas vezes, lhe oferecem uma gruta fria.

Após seu nascimento São Lucas vai afirmar que haviam alguns pastores na região, aos quais apareceu um anjo avisando do nascimento do Senhor. E, de repente, juntou-se uma grande multidão da milícia celeste e entoaram: “Gloria in altissimis Deo, et super terram pax in hominibus bonae voluntatis – Glória a Deus nas alturas, e paz na terra as homens de boa vontade” (Lc 2,14). E os pastores foram imediatamente a Belém. A Igreja nos aponta o Menino-Deus, vamos também nós em direção ao presépio. Deixemo-nos impelir por esta fragilidade fortalecedora. Aquele bebê parece pequeno e frágil como todos os outros, Mas sua fortaleza perpassa também por esta aparente pequenez. E ali em Jesus repousa a verdadeira paz, que a humanidade só encontrará quando deixar-se envolver por seu abraço.

O Senhor veio! Despertem! Não estejais cansados, mas revigorados pela sua força regeneradora. Maria Santíssima e São José nos ensinem a caminharmos ao encontro do Salvador que jamais nos abandona.

Santo Natal a todos!