Natal do Senhor: Regeneração da humanidade

“O povo, que andava na escuridão, viu uma grande luz; para os que habitavam nas sombras da morte, uma luz resplandeceu” (Is 9,1).

icone-da-natividade-6Depois do período proposto pela Igreja para a preparação do Natal, eis que hoje chegamos ao grande dia! É nascido um menino para a humanidade! Um Deus que se faz homem, um homem que é Deus. A leitura do profeta Isaías requer de nós um olhar contemplativo voltando-nos à gruta de Belém, mas sem esquecer-nos dos dias tormentosos do exílio babilônico ao qual fora submetido o povo. As palavras proféticas mais do que uma narração do passado da descendência judaica, tornaram-se para os pastores uma concretização e para nós uma esperança. Transcorrendo o cativeiro babilônico sob o poder de Ciro, a esperança do povo judeu tornava-se sempre mais escassa e inconsistente. Ecoava o brado dos exilados que sofriam sob pesados trabalhos, impostos e escravidão. Entretanto, o oráculo do profeta anuncia uma centelha de esperança, uma esperança que não se fundamentava em falsas concepções e em deuses vazios, mas na promessa do verdadeiro e Altíssimo. Esta profecia não se restringe tão somente à libertação da Babilônia, mas é também um preclaro sinal messiânico. Os versículos precedentes ao capítulo 9 são um verdadeiro poema que inicia-se com a bonança e conclui-se com os dias terríveis para os povos.

A quem se dirigia esta profecia? Os exegetas dizem tratar-se da destruição do reino da Samaria. O profeta ainda fala de um retorno dos deportados, que relacionava-se não aos judeus que voltariam da Babilônia, mas aos israelitas exilados para outro extremo da Assíria. Para nós, porém, estas palavras dirigem-se além de limites históricos e contextos territoriais e sociais da época. Na sociedade hodierna cada vez mais tende o homem a fazer desaparecer a luz da fé e a esperança de um retorno ao Deus verdadeiro. Lançamo-nos no ideal de sermos senhores de si e esquecemos o senhorio de Deus, que não manipula, não impõe, não força a nossa ação, mas ao contrário: requer de nós apenas o testemunho verdadeiro do discipulado. Como pude retratar em minha carta para o encerramento do ano da fé: “Para os que creem, o testemunho não é privilégio, mas exigência e necessidade de um autêntico discipulado”.

Outrora andou em escuridão o povo exilado, outrora estavam os pastores na escuridão, hoje o homem torna-se um ser das trevas quando procura eliminar Deus da vida social e da própria vida religiosa ao depositar a confiança em garantias tão inseguras e ao edificar sua fé em bases tão insólitas e solitárias. O profeta afirma que sem Deus, sem a sua luz grandiosa e guiadora, o povo estava envolto apenas em sombras, pois residia na escuridão. Algumas traduções dizem: “habitavam uma região tenebrosa”. A tradução latina de tais palavras nos fala precisamente: “habitantibus in regione umbræ mortis – habitavam na região das sombras da morte”. O homem sem Deus fenece! Sua sabedoria torna-se vã e o seu esforço inútil. É, de certo, um estado de morte se este já não mais vive, mas torna-se um suicida: decreta a si o seu fim porque decreta a independência do seu Criador. O homem tem necessidade de Deus, mas não uma necessidade que o torne dependente, que o manipule, como o fazem as drogas, os jogos e outros vícios. A necessidade de Deus, que é inerente ao homem, parte do principio de que sem Este a humanidade perde o seu norte, caminha para o precipício e para o descerramento do vazio existencial.

E daqui faz o homem encontrar-se consigo nas palavras de Isaias para descrever o cenário que entrou e tomou os horizontes do mundo em nossos dias. O ser humano parece ter sido talhado em sua capacidade de perceber Deus, de senti-Lo; está sempre a procurar subterfúgios para ab-rogar-se de prestar contas a Deus de todo o bem feito e do amor exercido já nesta terra. Muitos de nós dizemos que não temos tido tempo suficiente para Deus. Sempre nos consumimos em afazeres cotidianos. E o que tributamos ao Senhor? Apenas aquilo que nos sobra, ou ainda, nada. Quem não tem tempo para Deus, perde o seu tempo. O encontro do homem com Deus é o encontro com a própria esperança, consigo e com sua existência. Só quem redescobriu o sentido de estar em Deus, redescobriu, deveras, o sentido de viver. Quem não confia seu tempo ao Senhor não é herdeiro da promessa à qual fez aos antigos profetas. De fato, ainda hoje concretiza-se aquilo que está escrito: “Todo calçado que se traz na batalha, e todo manto manchado de sangue serão lançados ao fogo e se tornarão presa das chamas” (v4).

Sim, ainda sentimos o peso do bastão do opressor e os calçados que marcham ruidosos. Presenciamos as vestes manchadas de sangue, muitas vezes de inocentes que são aniquilados ainda em ventre materno, devido à perda do sentido verdadeiro da vida. Penso ainda de modo particular na veste dos cristãos que são manchadas de sangue por confessarem sua fé no verdadeiro Deus, sobretudo aqueles que habitam no Oriente Médio. Confiantes na luz da esperança predita já pelo profeta, queremos pedir: Senhor, compadecei-Vos de nossos pecados. Livrai-nos das vestes manchadas de sangue e do bastão dos opressores. Vós que viestes na fragilidade de uma criança, mostrai ao mundo que o verdadeiro poder não reside nos armamentos e nas técnicas de destruição, mas na força propulsora do amor que renova e dá vida. Que possamos ser homens da vida renovada e firmada na esperança do Reino vindouro.

Por outro lado, pervade nosso interior o júbilo desta noite que ainda mais uma vez ressoa em nossos ouvidos: “Não tenhais medo! Eu vos anuncio uma grande alegria, que o será para todo o povo. Hoje, na cidade de Davi, nasceu para vós um Salvador, que é o Cristo Senhor” (Lc 2,10-11). O nascimento de Cristo é a concretização da esperança predita pelo profeta. Deus está presente! Ele é verdadeiramente o Emmanuel – Deus conosco.  Ainda se ignorado e rejeitado pelos seus, Cristo sinaliza para o verdadeiro caminho, onde já não mais prevalece o medo que outrora aflorava na consciência do povo judeu. Ele renova todas as coisas, como bem nos recorda o Apocalipse (cf. 21,6). Nasce para nós o renovador. Mas, que tipo de renovador é Jesus? Seria um renovador social? Não, não é! Tampouco um renovador político ou religioso. Jesus é sim o renovador do homem, do seu coração e da sua vida; é “gerado do Pai antes de todos os séculos, Deus de Deus, luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, consubstancial ao Pai” (Credo Nisceno-constantinopolitano).

Contraposta às palavras do profeta, o evangelista narra a esperança e a coragem como próprias da eminente chegada do Salvador. Não temer é próprio de quem crê, quem está firme em Deus e permite que Ele adentre o seu coração e lá faça a sua morada. O Menino que chega não nos priva da liberdade de dizemo-Lo “não”; não invade o nosso livre-arbítrio, mas é da sua boca que emana as palavras: “Eis que estou à porta, e bato; se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa, e com ele cearei, e ele comigo” (Ap 3,20). Neste sentido é que a mesa eucarística torna-se para nós sinal da unidade e do reencontro com Cristo: Ele ceia conosco, entra livremente em nosso coração e nos concede um outro tempo além dos limites cronológicos. Para os gregos três eram as instâncias de tempo: o Chronus que refere-se ao tempo cronológico; o Kairós, o tempo da graça em que algo especial acontece; e o Aion, o tempo sagrado e eterno, sem nenhuma mesura cronológica: aquilo que hoje diríamos ser o tempo de Deus. O Menino-Deus permeia estes três aspectos e nós somos também parte de tal. De Deus viemos, do Aion, o tempo em que não há tempo; estamos inseridos no Chronus e fazemos já aqui a experiência do Kairós, momento surpreendente da graça de Deus em nossa vida. Porém, ainda que constantes no Chronus, o espírito cristão deve sempre voltar-se ao Aion, ao definitivo encontro com Deus na consumação da salvação.

Neste período nos cercam as falsas concepções de espírito natalino que o mundo nos oferece. O que de fato é o natal? Não é está falsa paz de espírito da mundaneidade; tampouco é este período somente de confraternização familiar ou, até para muitos, um espírito de tristeza. O Natal é bem mais que isto: é o reconhecimento da grandeza na fragilidade, do poder naquela aparente fraqueza. O Senhor vem! Faz-se um de nós, nos chama de modo singular: nisto consiste a grandeza do Natal. O divino se humaniza para dar um novo olhar a nossa humanidade. Não queremos e não podemos nos contentar com este falso espírito de confraternização que a mídia propõe. O Natal só tem sentido com Cristo, se está firmado nos princípios cristãos. Caso contrário, toda comemoração será vã. Por isso a festa da natividade de Nosso Senhor nos faz reconhecer que em tudo há uma supremacia: aquela do amor. Onde o amor não é conhecido, ou é rejeitado, também o próprio Deus é aniquilado. Que outra explicação haveríamos de dar com mais profundidade e realismo senão a de que Deus desce para se fazer amor?

A perspectiva do amor é algo fascinante na teologia da vida. Nosso Senhor nos ensinou muito bem como o amor, personificado Nele, se manifesta: doação, renúncia. Quem ama não se retém, mas se doa, se abre ao outro para caminharem juntos ao coração de Deus. Amor é “doa-ação” (ação-doada), doar-se, a si e suas ações, esvaziar-se do individualismo e compartilhar-se com aquele a quem nós nos damos. Por isso a renúncia que o amor carrega não nos traz perdas, mas completa-nos. Só quem tem o coração todo disponível a Deus pode renunciar por amor e para o amor.

Peçamos ao Senhor que nos ilumine com a sua luz nesta noite santa, para que se dissipem todos os sinais de trevas e todos os tormentos. Que ressoe no mundo a boa notícia dita aos pastores e anunciada a nós por meio de Deus pela boca dos seus ministros: “Hoje vos nasceu o Salvador, Cristo o Senhor”.

Epifania do Senhor: uma luz para os povos

Celebramos com grande alegria a Solenidade da Epifania do Senhor. Jesus Cristo, feito Homem, manifesta-se aos homens e em nós renova-se o constante convite a reconhecermos o Seu poder e a maravilhosa manifestação do Seu Amor. A esta Festa, celebrada neste dia, a Igreja une sua voz a voz dos anjos e santos para reconhecer que só em Cristo, e somente por meio dEle, os homens encontram sentido para a sua existência, mas ainda mais que isso: podem dar sentido a existência do próximo por meio do testemunho autêntico do Evangelho e do despojamento constante dos interesses e falsos “sentidos” que atribuem a este passageiro período.

No entanto, para que este despojamento aconteça, é necessário que os homens saiam de sua comodidade e estejam necessariamente segundo a verdadeira posição cristã. Como, porém, poderíamos conhecer esta posição? Conhecemo-la antes de tudo pelas palavras do profeta, que escutamos na primeira leitura: “De pé! Deixa-te iluminar! Chegou a tua luz! A glória do Senhor te ilumina. Sim, a escuridão cobre a terra, as trevas cobrem os povos mas sobre ti brilha o Senhor, sobre ti aparece sua glória. ” (60, 1-3).

A posição do cristão é a posição daquele que está pronto para guerrear contra as forças do mal. Estar em pé significa estar em constante vigilância, colocar-se a caminho. Assim, o profeta manifesta o nosso caminhar à Cristo. De certo que este caminho não deve ser visto no âmbito empírico mas é sobretudo uma via espiritual. A constante luta que travamos com os meios ideológicos de libertação e de salvação, de felicidades e de prazer, mostra-nos que todas essas coisas podem cair e desvanecem ao poder de Cristo. Mesmo na Igreja surgiram algumas correntes ideológicas que buscavam fazer com que a libertação que vem de Cristo fosse substituída por uma mera libertação social da opressão econômica. “Nós, segundo nos diz São Paulo, não lutamos contra o sangue e a carne, e sim contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes”. (Ef 6,12)

A verdadeira libertação vem de Cristo porque só Ele é o Libertador. E a sua libertação não é em causa de uma opressão social, mas do pecado, pelo qual Ele nos redimiu com seu Sangue.

Só estando em pé chegaremos a um segundo momento: a iluminação. Esta é confirmada pelo anuncio da chegada da luz, da luz que vem pela glória do Senhor. A luz de Cristo resplandece no mundo como sinal para todos os povos. Só nesta luz achar-se-á o caminho para a salvação. A manifestação da glória de Deus dá-se no nascimento de Cristo, feito homem, rebaixado a nossa condição para salvar-nos e assim pode a luz pairar sobre todos aqueles que nele acreditam.

Para os Magos do Oriente esta manifestação dá-se, poderíamos dizer, empiricamente. Eles fazem a experiência do encontro pessoal com Cristo de forma literal. Mas quem eram os Magos? Devemos dizer que vinham de uma região distante, de cultura e religião diferentes, exerciam funções sacerdotais pagãs. Em contato com judeus, tiveram conhecimento do messianismo com a profecia de que um astro apareceria ao nascimento do maior rei esperado (cf. Nm 24,17). Para Santo Tomás de Aquino, o mesmo anjo que apareceu aos pastores em forma humana apareceu aos magos em forma de astro, por serem pagãos, desconhecedores de anjos.

São Leão Magno, na noite santa do Natal, nos diz: “Reconhece, cristão, a tua dignidade e, tornado participante da natureza divina, não queira recair à condição miserável de outro tempo com uma conduta indigna. Recorda-te de quem é a tua Cabeça e de qual Corpo és membro. Recorda-te de que, arrancado do poder das trevas, fostes trazido à luz e ao Reino de Deus” (Sermone 1 sul Natale, 3,2: CCL 138,88). Os magos reconhecem o Reino de Deus, eles o veem, o tocam; não se recusam em curvar-se diante do pequeno e do frágil Menino de Belém. Abandonam suas crenças para acreditar no Deus verdadeiro, naquele que contemplavam.

Belém significa Casa do Pão, inicialmente chamada Éfrata, isto é, fértil. O nome está em uma intrínseca relação com aquele que ali nasce. Na Casa do Pão é acolhido o verdadeiro Pão, o Pão da Vida, que fortalece o homem e o reanima para a sua caminhada. Ali o Menino rejeitado por todos encontra um lugar na manjedoura, cercado por animais e por seus pais. Jesus é a árvore fértil que faz com que todos os homens tenham vida. Ele é a Vida, vida verdadeira. A fertilidade que dele provém para o homem, não perece, mas é sinal e garantia de eternidade.

Reconhecendo a pequenez do Menino, os Magos reconhecem também a sua grandeza. Só é grande aquele que se faz pequeno. Só reconhece a Jesus quem antes se fizer simples, sair de seu mundo privado, formado por suas ideologias, e colocar-se a caminho daquele que vem ao nosso encontro.

As trevas, segundo a primeira leitura, tomavam a face da terra. Esta realidade não diverge do contexto em que se encontra a nossa sociedade. O obscurantismo da inteligência humana, que deseja sobrepujar a divina, as formas de cientificismo anticristão, a falta do testemunho evangélico e tantas outras situações, manifestam que o nosso mundo ainda não está totalmente iluminado, mas, do contrário, nos sinalizam para a falta de Deus no mundo e nos dizem que enquanto o homem não curvar a sua prepotência à sabedoria divina, não passará de um ser tomado pela escuridão e toda a sua aparente “inteligência” será produto de sua própria destruição.

A glória do Senhor brilha sobre o homem que se curva a Ele. A estrela brilha e conduz todo o que deseja trilhar pelo reto caminho. Muitas vezes aparecem algumas falsas luzes e estrelas que dizem estarem conduzindo o homem para o verdadeiro caminho, dizem serem deuses, mas não são. Só o Deus que salva e liberta o homem da sua ignorância e da sua arrogância é o verdadeiro Deus. O Deus em que só nEle encontramos salvação.

Peçamos ao Senhor que a Sua luz irradie toda a face da terra, para que reconheçam nEle o Deus vivo e verdadeiro, que guia o caminho dos povos e a todos retira do braço opressor das forças das trevas. Que todas as nações deixem-se guiar pela luz que, ainda que pareça muitas vezes ser ofuscada, nunca poderá ser extinta e sempre brilhará como sinal de esperança para os homens, sobretudo nos nossos turbulentos dias. E desta forma pedimos, por intercessão de Maria Santíssima, que gerou e concebeu esta Luz, que cumpra-se entre nós as palavras do profeta: “As nações caminharão à tua luz, os reis, ao brilho do teu esplendor” (Is 60, 3)