Quaresma: Momento favorável para a conversão

Mais uma vez somos convidados pela Igreja ao tempo quaresmal. Neste período faz-se ecoar em nosso coração o clamor do Senhor: “Voltai para mim com todo o vosso coração, com jejuns, lágrimas e gemidos; rasgai o coração, e não as vestes; e voltai para o Senhor, vosso Deus; ele é benigno e compassivo, paciente e cheio de misericórdia, inclinado a perdoar o castigo” (Joel 2, 12-13). Deter-me-ei primeiramente nesta profecia para melhor adentrarmos ao mistério celebrado.

Como, neste dia de Cinzas e início de Quaresma, poderemos nos esvaziar de qualquer sentimento de engrandecimento e prepotência e rasgarmos o coração? Como poderemos mostrar a outros que o que realmente Deus olha é o coração e não o exterior? Primeiramente tenhamos em mente que é necessário testemunharmos. É preciso que o cristão seja uma testemunha veemente do evangelho. Nada mais nos pede o Senhor, senão que rasguemos os corações. E por que nos pede que rasguemos o coração e não as vestes? Por que as vestes se rasgam mas não se vê o coração, e o coração rasgado, ainda que não se rasguem as vestes, pode ser visto. A ascese neste período constitui algo fundamental na experiência da humildade cristã e nos faz reconhecer que nada somos, mas Deus é tudo e Ele tudo pode.

É triste vermos, pois, que a nossa sociedade não mais quer voltar-se à Deus, senão aos prazeres e efemeridades que este mundo oferece. O mundo necessita de Deus! Deus está próximo do mundo, mas o mundo não quer estar próximo dEle. Ainda clamamos, em comunhão com toda a Igreja: O Senhor quer perdoar-vos! Ele é um Deus amoroso! Achegai-vos a Ele! É sabido que ninguém pode resistir sem Deus. Qualquer sociedade sem Deus jamais, por si só, ficará de pé. É Deus quem sustenta todos os homens, e os fortalece em sua caminhada. Quando parecemos estar sós, quando parecemos desesperançados, Deus nos estende a mão, manifesta sua misericórdia e nos convida a levantar novamente. Não estamos sós nestas provações, estamos com Deus! Não rasguemos as vestes pois elas não demonstram o que somos, rasguemos o coração, para que vendo o nosso amor outros também o façam.

Neste sentido, as Cinzas, impostas hoje em nossa cabeça pelos sacerdotes, demonstram o que somos: pó, e é ao pó que retornaremos. Nada somos! Somos criados à imagem e semelhança de Deus. Não fisicamente nos assemelhamos a Ele, mas o nosso espírito deve ser semelhante. Que semelhança a criatura pode ter com o que Lhe fez? O amor! O amor nos assemelha a Deus. Um amor que deve ser incondicional. E ponho-me muitas vezes a perguntar para que apegar-se tanto aos bens materiais? Para que arrogância e prepotência? Para que se fechar à sempre nova mensagem do Evangelho? Nossa vida assemelha-se a um sopro. Que seja sopro do Espírito Santo, e não das frivolidades que tentam impor-se em nossa cultura.

Memento homo, quia pulvis es, et in pulverem reverteri – Lembra-te que és pó e ao pós hás de voltar”. Claro está que com esta frase, dita pelo sacerdote na imposição das cinzas sobre nossas cabeças, resume-se todo o sentido da nossa espiritualidade quaresmal. O brado evangélico da salvação associa-se a estas palavras da Escritura. Não é a vivência da vida de forma desenfreada que será para nós garantia de uma felicidade. “Recorda-te que é pó”. Mas o que precisamente simboliza este pó? Em primeiro lugar devemos recordar que não significa um período que se esvai da nossa vida reduzido a mera finitude deste mundo, e, portanto, uma parte que pode ser apagado, mas vai além disso: O pó recorda-nos que nada somos, que nossa vida não é eterna; que não persiste a matéria, mas a nossa alma que transcende a Deus. O verdadeiro sinônimo de felicidade não pode ser encontrado se não estiver totalmente radicado na perspectiva evangélica da conversão.

Na segunda leitura São Paulo convida-nos a reconciliarmo-nos com Deus. Eis o momento propício para que o mundo se volte a Ele. Voltemo-nos hoje! Agora! Deixai de lado a mediocridade que levais em vossas vidas. “’No momento favorável, eu te ouvi e, no dia da salvação, eu te socorri’. É agora o momento favorável, é agora o dia da salvação” (2 Cor 6,2). Este clamor de Paulo, perpassados dois mil anos, convida-nos a deixar de lado este velho homem. Deixai de lado a vida laxa que levais! Cristo está a bater na porta e vós não escutais. Este momento favorável não virá, mas já está entre nós. É Deus quem nos socorre. A dualidade da vida de um homem faz com que ele perca todas as suas esperanças, sente-se só, isolado de toda uma realidade que parece estar além dele. Mas quem possui Deus, ainda que a vida oscile e manifeste-se em várias direções, a perseverança e o amor não deixaram que percamos nossa fé.

Só Cristo pode transformar qualquer situação de pecado em novidade de graça. Eis por que assume um forte impacto espiritual a exortação que Paulo dirige aos cristãos de Corinto: “Em nome de Cristo suplicamos-vos: reconciliai-vos com Deus”; e ainda: “Este é o tempo favorável, é este o dia da salvação” (5, 20; 6, 2).

Hoje vos convido, irmãos, a mudarem de vida. Despi-vos do que era velho, o Senhor nos traz o que é novo. A cada Quaresma, preparando-nos para a Semana Santa, o Senhor faz-nos recordar a sua constante fidelidade e a sua maior prova de amor: a doação de seu Filho único. E creiam meus irmãos: nada é maior e nenhuma prova de amor maior podemos esperar do que esta grande e humilde atitude de Deus.

O mundo deixou-se contaminar pelo veneno de Satanás! Ele está procurando afastar-nos de Deus para nos atrair aos seus desejos, e admitamos que ele está a conseguir. E aqui o nosso Cristianismo deve fazer-se presente. Devemos fazer com que o próximo veja em nós o rosto de Cristo, sempre presente e acolhedor. Nossa Igreja não pode fundamentar-se em leis se em primeiro lugar a caridade não se fizer presente, pois do contrário será endurecida. A Igreja deve ter leis, deve prezar pelas alfaias e pela liturgia, mas se não prezar pela caridade antes de qualquer coisa, perderá toda a sua fundamentação e tudo tornar-se-á vazio.

Este ano o Santo Padre Bento XVI nos oferece como meditação quaresmal com a mensagem do autor sagrado: «Prestemos atenção uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras» (Heb 10, 24). Estas exortantes palavras tomam um grande sentido sobretudo ao contemplarmos a nossa sociedade secularizada, que já não mais coloca-se no exercício da caridade cristã. Peçamos ao Senhor que renove os nossos corações; que estejamos atentos para ajudar-nos uns aos outros na caminhada. Que sejamos capazes de despojar-nos dos nossos desejos e de todas as coisas que prendem a nossa atenção na superficialidade.

Que nesta Quaresma clamemos ao Senhor por um coração renovado, capaz de estar sempre disposto a perdoar e capaz de configurar-se a Cristo por meio disto. Que Maria Santíssima interceda sempre por nós!

Uma Santa Quaresma a todos!

A Santíssima Virgem Maria: “Θεοτόκος ~ Theotókos” (Mãe de Deus)

Neste início de um novo ano que se inicia desejo formular a todos vós as minhas cordiais saudações e votos de paz neste novo período de vossas vidas. Celebramos hoje o dia mundial da paz e a Solenidade da Virgem Maria Santíssima, Mãe de Deus, em ambas festividades celebramos Jesus Cristo, Filho de Maria, que redime o mundo

Todos almejamos a paz, e todos desejamos viver em paz. Mas a paz verdadeira, pela qual todos buscam ardentemente, não deve ser vista simplesmente como acordo politico ou fruto de uma conquista do homem. Esta é, antes de tudo, dom divino e ao mesmo tempo compromisso o qual deve-se levar em frente, sobretudo observando as Escrituras. Mas esta paz também tem um nome e uma forma humana: Jesus Cristo, Verbo eterno de Deus que faz-se um de nós, entra no mundo e transforma a nossa realidade. A sua paz não é falsa; o seu poderio não é passageiro.

Veio, pois, esta paz ao mundo e os homens a rejeitaram, e o mataram. E ainda hoje tentam suprimir a verdadeira paz para impor no lugar um conceito de paz falso, que não trará pela felicidade a nenhum dos seres viventes. Só Jesus Cristo é a verdadeira Paz! N’Ele os homens poderão encontrar pleno repouso, e Ele aniquilará toda a marca de guerra e violência provocada por Satanás e por aqueles que querem sobrepor-se ao Evangelho e põe-se no centro de tudo, onde já não mais Deus lhes importa.

No livro dos Números, cuja primeira leitura nos é proclamada hoje, encontramos uma benção que é dada pelo próprio Deus, e a Igreja conserva-a ainda hoje em seu formulário de bençãos. Em um dos versículos se diz: “O Senhor volte para ti o seu rosto e te dê a paz” (Nm 6,26). Na noite de Natal os anjos cantaram: “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens por Ele amados” (Lc 2,14). Sim! Que o Senhor volte Seu rosto também para os nossos dias, marcados pela violência e desvalorização do ser humano; pela ganância do coração humano e pelas pesquisas ousadas com a vida humana, como se esta fosse para experiências científicas. Que o Senhor volte seu rosto para aqueles que são perseguidos por causa do Seu Evangelho. Enfim, que volte-se para a humanidade envonta nas sombra das trevas. Sim Senhor! Que esta paz reine no mundo! Que possais, Vós, reinar no mundo! Que a vossa destra sobreponha-se gloriosamente reinante sobre todas as formas de violência. Porque só se estiver iluminada pelo “rosto” de Deus e submeter-se ao seu “nome” a humanidade poderá encontrar um verdadeiro caminho para a paz.

Para os israelitas, no Antigo Testamento, o Senhor concedeu a paz, anunciada por meio de Moisés. Para o povo do Novo Testamento, firmado na Nova Aliança do Sague de Cristo, Ele já não mais concede a paz invisível, como um desejo; mas concede o Seu Filho, Jesus Cristo, que assume a forma humana. Ele é a nova Paz, que firma-se com Sua Encarnação e com o Sangue derramado na cruz. Ora, se Jesus é o Deus da Paz, Filho de Maria, logo Maria é a mãe da Paz. Sim! Maria é a mulher e mãe da Paz! Ela em sua vida sempre desejou fazer a vontade do Senhor, e nô-lo fez. Mesmo aos pés da cruz ela se encontra em permanente atitude de oração, e não deixa de olhar para a humanidade maculada pelo pecado e ferida por tantas devastações.

Na segunda leitura leitura, de forma muito resumida, São Paulo faze-nos contemplar todo o mistério da Encarnação do Verbo. “Quando se completou o tempo previsto, Deus enviou seu Filho, nascido de uma mulher, nascido sujeito à Lei, para resgatar os que eram sujeitos à Lei, e todos recebemos a dignidade de filhos” (Gl 4, 4). Toda vida de Jesus foi dedicada a nos unir a Deus, e precisamente para isto Ele veio: para fazer-nos recobrar a atitude de que somente em Deus nos é concedida verdadeira liberdade; para nos resgatar do peso da Lei, que tornava-se vazio, pois apenas anunciava-se, mas não se vivia. E Jesus vem ser este sinal de liberdade verdadeira. Não de libertinagem, e muito menos de uma falsa liberdade; mas de uma verdadeira e santa Liberdade, que não sujeita-se ao pecado, mas vê a graça da vida futura, ao lado de Deus. E por isso o Filho de Deus encarna-se em Maria. E eis aqui o grande privilégio dela: Ser mãe do Filho de Deus, e assim sendo, é também Mãe de Deus. E justamente não há data melhor para celebrarmos tal Solenidade senão neste oitavo dia após o Natal, quando estes dois mistério se relacionam íntrinsecamente.

Assim como os Doutores da Lei e Fariseus anunciavam as leis, mas não a viviam, também nós devemos tomar cuidado, não obstante ser a verdadeira Igreja fundada por Cristo há dois mil anos, mas as leis da Igreja, fundamentadas em seu fundador, não podem tornar-se vazias de seu significado; caso contrário cairá num invólucro vazio e em um desencorajamento da vivência da nossa fé, tão bem transmitida a nós. Que as leis, onde se deve subsistir a verdade, sejam acompanhadas da caridade, mas que não sejam sacrificadas pela caridade.

Juntamente com a invocação de Virgem Santíssima, a invocação Mãe de Deus é uma das mais antigas na devoção a Maria, e também uma das de maiores devoção, ao qual, de geração em geração, todos invocam a proteção materna daquela que é também nossa mãe. Todavia, se somos filhos não por merecimento mas por pura misericórdia de Deus, Maria também é nossa mãe, não por merecimento nosso, mas por misericórdia. E assim, filhos da mesma Mãe, e filhos do mesmo Pai, poderemos ser inserir-nos, também nós, no mistério da salvação, e tornarmo-nos partícipes da gloriosa vinda do Senhor.

Escreve Santo Agostinho: “De valor algum teria sido para ela a própria maternidade divina, se ela não tivesse levado Cristo no coração, com um destino mais afortunado de quando o concebeu na carne(De sancta Virginitate, 3, 3). Não bastou para Maria conceber Jesus, Ela o levou em si mesma; carregou-O antes em seu coração. Para nós é válida esta mensagem sempre presenta na História: Tenhamos Jesus em nosso coração, para que possamos nos configurar a Ele; e, assim, possamos levá-Lo a outros que ainda não o conhecem.

Parece-nos difícil acreditar que uma mulher pode tornar-se Mãe de Deus. Como, se Deus é eterno? Como se Ele é Criador de tudo e de todos? Ora, sendo Deus eterno, e podendo fazer o quer, pôde também deixar que fosse concebido de uma mulher. Ele assim o quis para que melhor fosse completada sua salvífica obra.

No Evangelho São Lucas, como diversas vezes narra, nos diz que “Maria, porém, guardava todas essas coisas, meditando-as em seu coração” (Lc 2,19). O que se passava pela cabeça de Maria? O que Ela meditava? Certamente deveria se questionar sobre o por quê ela foi escolhida. No entanto, nesta passagem fui tocado por duas palavras que devem fazer-se presente cotidianamente na vida do cristão: meditação e oração. Não seriam a mesma coisa? Não! Apesar de se completarem não possuem mesmo significado. Pode-se meditar sem se práticar a oração. Medita-se quando se pensa em algo. Porém, uma oração não existe sem meditação, apesar de ser possivel existir meditação sem oração. Mas convenhamos que, se não se medita em uma oração ela tornar-se-á apenas palavras, mas o verdadeiro significado, que parte do coração perde seu sentido.

Meditemos e oremos! Oremos e meditemos! Como Maria saibamos enxergar e interpretar os sinais de Deus em nossa vida. Ele não é o Deus do passado, não está distante! Ele é um Deus presente, que vem nascer todos os dias e bate à nossa porta, à porta do nosso coração. Conservemos em nosso coração todas as coisas que Deus nos oferece. Tenhamos a certeza de que na fragilidade da criança, em seu olhar, em sua pequenez, esconde-se a Onipotência e o Amor de um Deus que em sua glória inclina-se e olha a cada um de igual forma.

Maria Santíssima, Mãe de Deus, nos dê forças para não cedermos à tentação do desencorajamento e que possamos perverar sempre nos ensinamentos divinos, sobretudo neste novo ano que se inicia. Que o frágil Menino torne-nos artífices e promotores da paz.

Orar com humildade

Em que consiste orar com humildade? Por que este tema?

Não poderemos compreendê-lo se não fizermos uma analogia entre as leituras e a necessidade da oração, conjugando-a na sociedade hodierna. Verdadeiramente ultimamente temos sido veementemente exortados pelas leituras dominicais a uma oração que nasça da sinceridade do coração; que não se revista de uma aparência exterior, mas interiormente está vazia e sem sentido. Por isso a primeira leitura é taxativa a dizer: “Jamais despreza a súplica do órfão nem da viúva, quando esta lhe fala com seus gemidos… Quem adora a Deus será recebido com agrado e sua súplica chegará até as nuvens. A oração do humilde penetra as nuvens e não se consolará enquanto não se aproximar de Deus; e não se afastará, enquanto o Altíssimo não olhar e o justo juiz não fizer justiça” (Eclo 35, 27. 20-21).

Estas penetrantes palavras contêm um ensinamento profundo, que em uma primeira vista não seria possível observarmos. Mas debrucemo-nos um instante sobre estas palavras sapienciais. O que elas indicam-nos? Em primeiro lugar tenhamos em mente que estas palavras, como obviamente está à nossa percepção, dirige-se aos humildes. Mas quem são os humildes? São os pobres materiais? Falando-se no contexto deste mundo, restrito à possessão de bens, sim. Falando no contexto evangélico não. Mesmo os ricos, que não atribuem suas riquezas a méritos próprios, mas a reconhecem como presente de Deus; quem tem o espírito submisso a Deus e sabe partilhar, também eles são os humildes. Santa Teresa de Ávila apresenta-os um pouco diferente, mas em um mesmo contexto: “O verdadeiro humilde sempre duvida das próprias virtudes e considera mais seguras as que vê no próximo”. Comumente a Bíblia os associa aos “órfãos, viúvas e estrangeiros”, que eram colocados à margem da sociedade na época, e ainda hoje não obstante os diversos progressos e esforços a uma igualdade continuam a existir diversos marginalizados.

Depois gostaria de deter-me sobre a frase: “Quem adora a Deus será recebido com agrado e sua súplica chegará até as nuvens”. Feliz realização! Como estas palavras são incômodas nos dias de hoje. Muitos não adoram a Deus; no entanto, fixam seu olhar sobre os bens terrenos e passageiros, que em nada contribuem para uma melhor vivência da fé; vivem na ganância e na soberba, são bem aparentados por fora, mas por dentro estão vazios e não sabem o verdadeiro valor do amor. São Paulo condena a estes e exorta, também a nós: “Quer comais, quer bebais, quer façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus” (1 Cor 10, 31).  E ainda, ao escrever a Timóteo fala com dureza: “A raiz de todos os males é o amor ao dinheiro… Ordena aos ricos deste mundo que rejeitem o orgulho e não ponham sua esperança na riqueza incerta, mas em Deus que provê abundantemente de tudo para nosso bom uso. Ordena-lhes ainda que façam o bem e se enriqueçam de boas obras, que sejam prontos para dar e generosos” (1 Tm 6, 10.17-18).

Na segunda leitura, vemo-la frequentemente nas celebrações de São Pedro e São Paulo, este último apóstolo já tinha consciência de sua morte, e, portanto, sabemos que não se distancia desta. Gastada sua vida em favor do Evangelho, Paulo não a perde, mas a ganha. Por isso escreve: “Combati o bom combate. Conclui a corrida. Guardei a fé. Agora me é reservada a coroa da justiça” (2 Tm 4, 7-8). Sobre isso São João Crisóstomo bem afirmou: “Estar longe de Cristo representava para ele o combate e o sofrimento, mais ainda, o máximo combate e a mais intensa dor. Pelo contrário, estar com Cristo era um prêmio único. Paulo, porém, por amor de Cristo, prefere o combate ao prêmio… Talvez algum de vós afirme: Mas ele sempre dizia que tudo lhe era suave por amor de Cristo! Isso também eu afirmo, pois as coisas que são para nós causa de tristeza eram para ele enorme prazer… Rogo-vos, pois, que não vos limiteis a admirar este tão ilustre exemplo de virtude, mas imitai-o. Só assim poderemos ser participantes de sua glória” (Riquezas da Igreja, Prof. Felipe Aquino, pag. 172 e 173).

“Na minha primeira defesa, ninguém me assistiu, todos me abandonaram. Que isto não lhe seja levado em conta. Mas o Senhor veio em meu auxílio e me deu forças… E eu fui libertado da boca do leão” (2 Tm 4, 16-17). Ora, este abandono de Paulo é sentido por muitos hoje. Quantos acham que Deus o abandonou? Ou então o contrário: Quantos só podem contar com Deus, pois foram “abandonados”? Nestes dois casos vale aquilo que o Papa bento XVI disse: “Quando já ninguém me escuta, Deus ainda me ouve. Quando já não posso falar com ninguém, nem invocar ninguém, a Deus sempre posso falar. Se não há mais ninguém que me possa ajudar – por tratar-se de uma necessidade ou de uma expectativa que supera a capacidade humana de esperar – Ele pode ajudar-me” (Carta Encíclica Spe Salvi, 32).

No Evangelho Jesus conta-nos a parábola do fariseu e do publicano. Dirigia-se o Senhor àqueles que confiavam na própria justiça e desprezavam os outros. “Dois homens subiram ao Templo para rezar: um era fariseu, o outro cobrador de impostos” (Lc 18, 10). A atitude de subir significa estar em contanto íntimo com Deus. Assim como Jesus subia ao monte para orar, estes dois vão também pôr-se diante do Altíssimo.

Mas a diferença é que um na sua oração exaltava-se, o outro reconhecia a imensidão dos seus pecados. “O fariseu, de pé, rezava assim em seu íntimo: ‘Ó Deus, eu te agradeço porque não sou como os outros homens, ladrões, desonestos, adúlteros, nem como este cobrador de impostos. Eu jejuo duas vezes por semana, e dou o dízimo de toda a minha renda’.
O cobrador de impostos, porém, ficou a distância, e nem se atrevia a levantar os olhos para o céu; mas batia no peito, dizendo: ‘Meu Deus, tem piedade de mim que sou pecador!” (vv. 11-13).

A oração não é para nos engrandecer, mas para reconhecermos nossos pecados, colocando-nos por inteiro nas mãos de Deus. O pecado não traz alegria, mas ele faz com que busquemos a verdadeira alegria, que é a nossa reconciliação com Deus: “O não reconhecimento da culpa, a ilusão de inocência não me justifica nem me salva, porque o entorpecimento da consciência, a incapacidade de reconhecer em mim o mal enquanto tal é culpa minha” (Spe Salve, 33). Aquele fariseu não foi justificado, mas sim o publicano, porque não apenas rezou, mas rezou com humildade. A oração não nos isola, mas nos ensina a viver em comunidade. “Orar não significa sair da história e retirar-se para o canto privado da própria felicidade. O modo correto de rezar é um processo de purificação interior que nos torna aptos para Deus e, precisamente desta forma, aptos também para os homens” (idem).

Na oração devemos buscar estar unidos de uma forma tão íntima com o Senhor que nem precisamos falar, pois Ele como Pai já sabe das nossas necessidades, do que realmente é importante.

Peçamos ao Senhor a humildade, para que não sobreponha-se as nossas misérias, mais que reconheçamos tudo como graça de Deus. Peçamos também, neste dia mundial das Missões, a graça de sermos testemunhas autênticas do Evangelho, para que ele seja levado a outros, sobretudo por nossas ações.

Enquanto agradeço a Deus pelo bom êxito do Sínodo dos Bispos para o Oriente Médio, confio-vos em minhas orações à proteção de Maria, Mãe da humildade.

Salus et Pax in corde Iesus et Maria

 

Perseverai e orai!

Neste domingo, a providência divina quis que nos fossem apresentadas as leituras que, poderíamos dizer, são persistentes, além de chamar nossa atenção, mais uma vez, para a necessidade da oração. Verdadeiramente, a persistência pelas coisas celestiais é algo importante na vida cristã. Só quem persiste pode chegar a uma meta. Por isso, hoje, Jesus convida-nos a uma “santa persistência”. Uma perseverança constante em não desanimarmos diante das dificuldades, a sermos cristãos autênticos. Por esta perseverança foram abertas aos mártires as portas do céu.

Na primeira leitura, chama-nos bastante atenção, a atitude de Abraão em que, mesmo diante de Deus, insiste pela salvação de Sodoma; no entanto, não havia nela nenhum justo. Há, bem verdade, ainda hoje, uma dúvida sobre qual pecado teria levado a destruição de Sodoma; diverge-se entre o homossexualismo ou a vida depravada que muitos habitantes estariam levando, fala-se até mesmo em xenofobia. No entanto muitos concordam que o verdadeiro motivo seria a prática homossexual, orgias e outras depravações morais.

Entretanto, façamos uma analogia com o que o texto quer dizer-nos hoje. Se Abraão indagava Deus sobre a sua misericórdia infinita, também muitos hoje duvidam da misericórdia de Deus. Para estes, o próprio texto já responde, mediante a persistência do pai de muitas gerações diante de Deus, quando ele pergunta ao Senhor se com cinqüenta justos Ele pouparia a cidade, e vai baixando o número até dez, e Deus lhe diz que por dez justos pouparia a cidade. Na cidade, porém, não havia nenhum justo. Os que lá se encontravam, Deus havia mandado sair. Ora, nosso Deus não é um somente um Deus de ira, mas também de justiça; e a sua justiça se estende por toda a terra. Ele deseja que todos se voltem para Ele, que mergulhem na sua inexaurível misericórdia e nela possam permanecer a todo instante, mesmo que sejamos tentados pelo mundo a dela nos afastarmos. O próprio Jesus, na sua aparição a Santa Faustina, fala da grandeza da misericórdia, e nos diz que esta precederá a própria Justiça: “Antes de vir como justo Juiz, abro de par em par as portas da Minha misericórdia” (Diário 1146; cf. 1728); e ainda: “Que o pecador não tenha medo de aproximar-se de Mim. Queimam-me as chamas da misericórdia; quero derramá-las sobre as almas” (Diário 50).

Na segunda leitura São Paulo nos chama a atenção para algo muito interessante: uma nova identidade. Deixarmos de lado o homem velho e tomarmos posse do novo homem: “Com Cristo fostes sepultados no batismo; com ele também fostes ressuscitados por meio da fé no poder de Deus” (Cl 2, 12). Vale também para nós tais palavras. Nos dias de hoje vemos o imenso número de pessoas que preferem estar apegadas à velha vida, fora dos preceitos evangélicos. O apóstolo nos convida a, com Cristo, adentrarmos a esta nova fase, a esta verdadeira conversão. Se pelo pecado estávamos mortos e o nosso laço de união com Deus foi cortado pelos nossos primeiros pais, com Jesus a humanidade encontrou novo sentido; Ele, Sumo e Eterno Sacerdote, reatou este laço e firmou-o novamente com algo que jamais poderá alguém cortá-lo: o seu preciosíssimo sangue, derramado pela nossa salvação e pela redenção do mundo. A morte de Cristo, sua total doação, é a melhor prova de que Deus ama a humanidade, de que não quer que ela afaste-se d’Ele por causa de ideologias ou de qualquer outra coisa.

O Santo Evangelho chama-nos a uma meditação do Pai Nosso, mas também convida-nos a voltarmos nossos olhos para duas parábolas que Jesus nos apresenta: Em que sentido as palavras desta oração poderiam ser comparadas aos nossos dias. E assim podemos inferir:

Não pode dizer “Pai nosso” quem não busca viver como Igreja e como filho de Deus.

Não pode dizer “santificado seja o vosso nome” quem não tem o nome de Deus como Santo e não o respeita.

Não pode dizer “venha a nós o vosso reino” quem se preocupa apenas com os bens materiais e superficialidades.

Não pode dizer “seja feita a vossa vontade” quem apenas busca fazer a própria vontade e não escuta a voz de Deus. Não pode dizê-lo quem apóia o aborto e os tantos meios de ataques a vida humana.

Não pode dizer “assim na terra como no céu” quem apenas vive para si mesmo e esquece que estamos todos peregrinando, rumo ao céu.

Não pode dizer “o pão nosso de cada dia nos daí hoje” quem nega o pão aos necessitados, quem é egoísta, e quem nega a presença de Jesus na Eucaristia, Pão espiritual para nossa salvação.

Não pode dizer “perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido” quem nunca perdoa o irmão e sempre deseja ser perdoado, levando uma vida hipócrita. E só com o perdão, que gera a unidade, poderemos alcançar a pasz no mundo.

Não pode dizer “Não nos deixeis cair em tentação” quem sempre se expõe a ela, levando uma vida desregrada.

Não pode dizer “mas livrai-nos do mal” quem pratica o mal e adere aos projetos do maligno.

Não pode dizer “Amém” quem não se compromete a viver conforme o plano de Deus.

Por fim, as parábolas nos convidam a confiarmos em Deus. A oração constante, insistente e que tenha uma boa finalidade, sempre será atendida por Deus. Como lembra a parábola, se não for pela boa intenção, atenderá pelo menos pela insistência. E Jesus nos diz: “Pedi e recebereis; procurai e encontrareis; batei e abrir-se-vos-á” (Lc 11, 9).

O Pai celeste só sabe e só pode dar coisas boas aos seus filhos. Ele nunca renegará uma oração sincera e confiante, um verdadeiro clamor que insurge das entranhas humanas e eleva-se ao mais alto dos céus, e Ele sempre estará disposto a atendê-la. “E que este clamor esteja impregnado de toda a verdade sobre a misericórdia que tem expressão tão rica na Sagrada Escritura e na Tradição, e também na autêntica vida de fé de tantas gerações do Povo de Deus. Com este clamor apelamos, como fizeram os Autores sagrados, para o Deus que não pode desprezar nada daquilo que criou  (Sab 11, 24), para o Deus que é fiel a Si próprio, à Sua paternidade e ao Seu amor” (Papa João Paulo II, Dives in Misericórdia, cap. 8, § 15).

Ajudemos a nossa humanidade a redescobrir o inestimável valor da oração, que só terá valor eficaz quando o homem, consciente de sua miséria, voltar-se ao Senhor, para que Ele possa, com seu beneplácito e com sua ação salvífica, instaurar em nosso meio o Reino de paz e de amor.

Maria Santíssima, mulher feita oração, nos ajude nesta caminhada em busca dos verdadeiros valores da oração.

Fraternalmente em Cristo Jesus e Maria Santíssima!

A eficácia da oração

“Através desta oração coral, que encontra o seu cume na participação cotidiana no Sacrifício Eucarístico, a vossa dedicação ao Senhor no silêncio e no escondimento é tornada fecunda e fértil, não somente em ordem do caminho de santificação e purificação pessoal, mas também no que diz respeito àquele apostolado de intercessão que desenvolveis por toda a Igreja, para que possa aparecer pura e santa diante do Senhor. Vós, que bem conheceis a eficácia da oração, experimentais todo o dia quantas graças de santificação ela pode obter à Igreja.”

(Papa Bento XVI, Homilia no Mosteiro Dominicano de Santa Maria do Rosário; 24 de junho de 2010)

O Santo Padre mais uma vez manifesta-nos a necessidade constante da oração, e não apenas dela, como também da vida contemplativa. Urge cada vez mais alto a necessidade de termos pessoas constantes na oração, que possam levar uma vida contemplativa e nela descobrir o verdadeiro rosto de Deus. Verdadeiramente não são as alegrias terrenas que nos farão contemplar a face de Deus, mas o nosso interior, a nossa condição de pessoas e de cristãos.

Para quantos no mundo hodierno parece-se uma insensatez, ou até mesmo uma loucura, a vida de clausura, ao qual muito dos nossos irmãos se detém? Mas a Igreja, constantemente, por meio dos Santos Padres sobretudo, nos convida a olharmos de forma diferenciada para esta vida de oração que a muitos enriquece. Quem sabe orar faz da sua vida um céu, quem não sabe a transforma em um inferno. Isto porque se a oração não nos dirige para Deus, e fere a nossa fé cristã nos fazendo cair na presunção da autossuficiência, não poderá ser boa e muito menos poderá pôr-nos em profundo contato com Deus, mas atirar-nos-á em um abismo, um existencialismo puro, sem um destino e sem Alguém que lhe dará pelo valor.

Só a oração verdadeira e íntima com Deus, que brota do coração, pode realmente fazer com que os homens e mulheres – especialmente os que dedicam suas vidas a rezar pelo mundo nos mosteiros – sintam o abraço do Pai e nele encontrem plena realização. Em um mundo tomado por ideologias que contrastam fortemente os sagrados ensinamentos evangélicos e os preceitos da moral católica, somos convidados a perseverar, como bem nos exorta São Pedro: “Sede, portanto, prudentes e vigiai na oração.” (1 Pd 4, 7).

São João Crisóstomo fala sobre os monges:

Ali há uma só riqueza para todos, a verdadeira riqueza, e uma só glória para todos, a verdadeira glória, pois não põem os bens nos nomes, mas nas coisas: um só prazer, um só desejo, uma só esperança para todos. Tudo está perfeitamente ordenado como com régua e esquadro. Não há ali desordem alguma. Tudo é ordem, ritmo e harmonia, e concórdia absoluta, e motivo constante de alegria. Por isto todos fazem e sofrem tudo para que todos vivam felizes e contentes. E assim, só entre os monges podemos ver esta pura alegria que não acontece em nenhuma outra parte, não só porque desprezaram o presente e cortaram pela raiz toda ocasião de dissensão e luta; não só porque têm as mais belas esperanças para o futuro, mas também pelo fato de que cada um considera como seu tudo quanto acontece de alegria ou tristeza aos demais. Deste modo, a tristeza desaparece facilmente, pois todos levam a carga, como se fossem um só, e se acrescentam os motivos de alegria, pois não se alegram só pelos próprios bens, mas também – e não menos que pelos próprios – pelos bens alheios”.

Contra os impugnadores da vida monástica
Discurso III, cap. 21

Se muitos soubessem o verdadeiro valor da vida monástica e religiosa não a atacariam tão vorazmente, e muito menos a colocariam como castigo. Da oração brota o amor. E quem primeiro ama são aqueles que mais rezam. Logo, em nenhum momento ousaria dizer que amo mais que um religioso, ou um monge, ou uma freira. É Deus que ama o mundo por meio deles, é Deus que nos ama por meio dos sacerdotes.

Os Santos são exemplo vivo disto: Santa Teresinha do Menino Jesus, São Bento, Santo Antonio e tantos outros, que, apesar de não serem monges, viviam em alguma congregação.

Doar-se e doar-se sem reservas: eis um lema que deve centralizar a vida cristã. Aquele que se doa em primeiro lugar doa-se à oração. E se muitos soubessem o inexaurível valor da oração não a excluiriam de suas vidas, mas saberiam que ali achariam forças para nutrir a caminhada neste mundo e nos garantir a salvação no próximo.

Não basta rezar, é necessário saber rezar.

Encerro com as sábias palavras de São Paulo, que são tão consoladores à todos nós: “Sede alegres na esperança, pacientes na tribulação e perseverantes na oração” (Rm 12, 12).

Fraternalmente em Cristo Jesus e Maria Santíssima!