Ovelhas de Jesus Cristo – Festa de São Gregório Magno

“Falando de suas ovelhas, diz Jesus: Minhas ovelhas escutam minha voz, eu as conheço e elas me seguem. Eu lhes dou a vida eterna (Jo 10, 27-28). É a respeito delas que fala: Quem entrar por mim, será salvo; entrará, sairá e encontrará pastagem (Jo 10, 9).”

“Suas ovelhas encontram pastagem, pois todo aquele que o segue na simplicidade de coração é nutrido por pastagens sempre verdes. Quais são afinal as pastagens destas ovelhas, senão as profundas alegrias de um paraíso sempre verdejante? Sim, o alimento dos eleitos é o rosto de Deus, sempre presente. Ao contemplá-lo sem cessar, a alma sacia-se eternamente com o alimento da vida.”

“Portanto, procuremos alcançar estas pastagens, onde nos alegraremos na companhia dos cidadãos do céu. Que a própria alegria dos bem-aventurados nos estimule. Corações ao alto, irmãos!”

“Nenhuma contrariedade nos afaste da alegria desta solenidade. Se alguém pretende chegar a um determinado lugar, não há obstáculo algum no caminho que o faça desistir. Nenhuma prosperidade sedutora nos iluda. Insensato seria o viajante que contemplando a beleza da paisagem, se esquece de continuar a viagem até o fim.”

El Buen Pastor, Homilia 14, 3-6

Celebramos hoje a Festa de São Gregório Magno, Doutor da Igreja e um dos Papas que mais deixou escritos, escritos cheios de ricos ensinamentos. Deixou-nos, sobretudo, um modelo de vida exemplar. E ainda que no papado haja papas indignos, os pecados e infidelidades de alguns, comparados às virtudes e santidade de outros, são simplesmente insignificantes.

Gregório, grande Papa. Magno (Grande) não apenas por título, mas porque assim demonstrou em toda sua vida. Abandonou as riquezas deste mundo, sendo ele prefeito de Roma e filhos de pais ricos, e foi preencher-se de riquezas muito maiores na vida monástica, maravilhado com os ensinamentos e vida de São Bento. E os Cantos Gregorianos por ele criados? Ah! Que maravilha! Que paz espiritual suscita em nossos corações! Com eles somos melhores introduzidos no espírito da Celebração Eucarística. Não com as barulheiras estarrecedoras, pois para se louvar a Deus não se tem necessidade disso. Porém as vozes unidas elevam-nos, de forma magnânima, e nos fazem, ainda que nesta vida, contemplar o paraíso celeste.

Quis deter-me sobre um trecho do sermão de São Gregório, onde estava a meditar sobre o Bom Pastor. E que relação tem o próprio Pontífice com o Sumo e eterno Sacerdote, Bom Pastor, que é Jesus? Uma relação incomensurável, não apenas por apascentar o rebanho de Cristo, mas por que, ainda que tamanha fosse sua riqueza material, maior foi a riqueza espiritual, não medindo esforços em doar-se pela Igreja e pelo próprio Senhor, ao qual foi confiada a Nau de Pedro.

“Um Paraíso sempre verdejante”: eis o que receberão as ovelhas que se deixarem conduzir por Cristo. Na sociedade hodierna tomada por ideologias contrárias aos ensinamentos de Cristo, transmitidos pela Igreja, soam as palavras de São Gregório. E eis que ele no-lo diz: “Insensato seria o viajante que contemplando a beleza da paisagem, se esquece de continuar a viagem até o fim”. Não podemos estar parados! O cristão está em viagem contínua. Mas que isto quer dizer a nós? Significa que o combate é permanente. Se pararmos de combater contra o pecado damos abertura para que ele entre e transforme nossas vidas em ruínas.

Se a nossa sociedade não encontra repouso em Cristo tenha certeza de que não encontrará em mais nenhum lugar. Pois só nEle encontraremos a verdadeira felicidade.

São Gregório foi inspirado pelo Espírito Santo, e é também a Igreja inspirada pelo mesmo. Se não fosse o Espírito Santo e a presença indubitável de Jesus, a Igreja não resistiria a tantos ataques, ainda que saibamos que muitos deles são equívocos e má-fé de muitos. Mas esta é a prova de que o Senhor e seu Espírito não abandonam, e jamais irão abandonar a Igreja.

Ainda que tentem nunca conseguirão! E eis que Satanás, com suas artimanhas, age por meio de muitos, mas se parece ser forte o poder das trevas, mais forte ainda é o poder de Cristo que está ao lado da Igreja. Tão forte que é capaz de vencer todos os poderes infernais.

Que a intercessão de São Gregório auxilie a Santa Igreja, para que nunca se canse de dar testemunho da verdade. Recordemo-nos também do Santo Padre e peçamos para que ele seja sempre inspirado pelo Espírito Santo em sua missão.

São Gregório Magno,
rogai por nós!

25 de maio: São Gregório VII

Fonte: Cléofas

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Sua vocação era a vida monástica. Mesmo no sólio pontifício usava o capuz beneditino. Hildebrando de Soana, toscano, nascido em 1028, parece ter iniciado sua vida monástica em Cluny. Após ter colaborado com os papas são Leão IX, que o nomeou abade de são Paulo, e Alexandre II, foi proclamado papa pelo povo. Era o dia 22 de abril de 1073. Oito dias depois os cardeais confirmaram a eleição, que ele aceitou com “muita dor, gemido e pranto.” Feito papa com o nome de Gregório VII, realizou com muita coragem o programa de reformas, que ele mesmo já havia planejado como colaborador de seus predecessores: luta contra a simonia e contra a intromissão do poder civil na nomeação dos bispos, dos abades e dos próprios pontífices, restauração de uma severa disciplina para o celibato. Encontrou violentas resistências também da parte do clero.

No concílio de Mogúncia os clérigos gritaram: “Se ao papa não bastam os homens para governar as Igrejas locais, que dê um jeito de procurar anjos.” O papa confiava seus sofrimentos aos amigos com cartas que revelavam toda a sua sensibilidade, sujeita a profundos desconfortos, mas sempre pronta à voz do dever: “Estou cercado de uma grande dor e de uma tristeza universal – escrevia em janeiro de 1075 ao amigo S. Hugo, abade de Cluny – porque a Igreja Oriental deserta da fé; e se olho das partes do Ocidente, ou meridional, ou setentrional, com muito custo encontro bispos legítimos pela eleição e pela vida, que dirijam o povo cristão por amor de Cristo, e não por ambição secular.”

No ano seguinte teve de enfrentar o duro desentendimento com o imperador Henrique IV, que se humilhou em Canossa mas, logo depois, retomou as rédeas do império, vingou-se com a eleição de um antipapa e marchou contra Roma. Gregório VII, abandonado pelos próprios cardeais, refugiou-se no Castelo Santo Ângelo, de onde foi libertado pelo duque normando Roberto de Guiscardo. O papa foi depois, em exílio voluntário, para Salermo, e aí morreu, um ano depois, pronunciando a célebre sentença: “Amei a justiça e odiei a iniquidade, por isso morro no exílio.”

Seu corpo foi sepultado na catedral de Salermo. Foi canonizado em 1606. Acostumados a ver neste papa um lutador empenhado com um braço de ferro contra o irrequieto imperador, não devemos esquecer o humilde servo da Esposa de Cristo, a Igreja, por cujo decorro trabalhou e sofreu a fim de que “permanecesse livre, casta e católica.” São as últimas palavras que ele escreveu na carta do exílio de Salermo, para convidar os fiéis a “socorrer a mãe”, a Igreja.

São Pio V, Papa

Fonte: Página Oriente

Pio V nasceu em 1504 em Bosco, Itália, de nobre família Ghislieri. No santo Batismo deram ao filho o nome de Miguel. Menino ainda, deu Miguel indício de vocação sacerdotal, distinguindo-se sempre por uma piedade pouco vulgar.

Seguindo a sua inclinação, entrou na Ordem de S. Domingos, na qual ocupou diversos cargos de Superior. Igualmente distinto em santidade como em ciência, foi Miguel nomeado inquisidor, cargo este que desempenhou com grande competência. Muitas cidades e regiões inteiras lhe devem terem ficado livres da peste de heresia.

Reconhecendo-lhe o valor e os grandes méritos, o Papa Pio IV conferiu-lhe a dignidade de Bispo e Cardeal da Igreja Católica. O conclave, reunido por ocasião da morte de Pio IV, elevou-o ao pontificado.

Como Papa, desenvolveu Pio V uma atividade admirável, para o bem da Igreja de Deus sobre a terra. Foi um pontificado dos mais abençoados. Exemplaríssimo na vida particular, ardente de zelo pela glória de Deus e a salvação das almas, possuía Pio V as qualidades necessárias de um grande reformador. É impossível resumir em poucas linhas o que este grande Papa fez, pela defesa da verdadeira fé, pela exterminação das heresias e pela reforma dos bons costumes na Igreja toda. Incansável mostrou-se em restabelecer a disciplina eclesiástica, em defender os direitos da Santa Sé, em remover escândalos, erros e heresias, em particular a causa dos oprimidos e necessitados. Cumpridor consciencioso do dever, não se fiava na palavra de outros, quando se tratava do governo de Igreja ou da disciplina. Ele mesmo, em pessoa se informava, queria ver, ouvir para depois formar opinião própria e resolver os casos em questão. De máximo rigor usava contra a imoralidade pública; prostitutas queria ele que fossem enterradas, não no cemitério, mas no esterquilínio. Deu leis severas contra o jogo e proibiu as touradas, como contrárias à piedade cristã. Em 1566 publicou o “Catecismo Romano”, obra importantíssima sobre a doutrina católica. Deve-lhe a Igreja também a organização oficial e definitiva do Breviário e do Missal.

Não só mandou embaixadores a todas as cortes cristãs européias, mas, por sua ordem, muitos homens percorreram a França, os Países Baixos, a Alemanha e a Inglaterra em defesa da fé católica, que seriamente periclitava, principalmente naqueles países.

Infelizmente sua campanha contra Isabel, rainha da Inglaterra, cuja destronização chegou a decretar sem podê-la tornar efetiva, causou muitos sofrimentos e perseguições aos católicas ingleses. A Companhia de Jesus, cuja fundação é contemporânea desse pontificado, achou em Pio V um grande protetor.

Ameaçava grande perigo à Igreja, como à Europa toda, da parte dos turcos, cujo imperador jurara exterminar a religião cristã. Pio V envidou todos os esforços, fez valer toda sua influência junto aos príncipes cristãos para conjurar essa desgraça iminente. Para obter de Deus que abençoasse as armas cristãs, ordenou que se fizessem, em toda a parte da cristandade, preces públicas, particularmente o terço, procissões, penitência. Paralelamente, em 1570,  os otomanos, de notável poderio militar, apoderaram-se do Santo Sepulcro em Jerusalém e não permitiam a visita dos cristãos.  O próprio Papa, em pessoa, tomou parte nesses exercícios extraordinários, impostos pela extrema necessidade. Organizou uma Cruzada, cujo comando entregou a Dom João da Áustria, que era irmão  de Carlos V,  Imperador do Sacro Império Romano. Aconteceu a Batalha Naval no Golfo de Lepanto. A armada turca, com poderio militar que ultrapassava o dobro dos navios dos cruzados, incidiu ferozmente para destruir os cristãos. Os chefes cruzados ajoelharam e suplicaram a intercessão de Nossa Senhora. Por intercessão de Maria Santíssima, foram inspirados pelo Espírito Santo a rezar o Terço como única forma de enfrentar e vencer o inimigo e assim o fizeram. O êxito foi glorioso. A vitória dos cristãos em Lepanto (1571) foi completa. As festas de Nossa Senhora da Vitória e do SS. Rosário perpetuam até hoje a memória daquele célebre fato. No momento em que a batalha se decidia a favor dos cristãos, teve o Papa, por revelação divina, conhecimento da vitória e imediatamente convidou as pessoas presentes a dar graças a Deus. Era seu plano organizar uma nova campanha contra os turcos, mas uma doença dolorosa não lho permitiu pô-la em execução. A doença  era o prenúncio da morte, para a qual Pio se preparou com o maior cuidado. Quando as dores ( causadas por cálculos renais) chegavam ao auge, exclamava o doente: “Senhor ! aumentai a dor e dai-me paciência !”. Mandou que lhe lessem trechos da Sagrada Paixão e Morte de Nosso Senhor, e continuamente se confortava com a citação de versos bíblicos e jaculatórias, até que a morte lhe pôs termo à vida, tão rica em trabalhos, sofrimentos e glórias. Antes, porém, havia instituído, como agradecimento pela vitória em Lepanto, a festa de Nossa Senhora das Vitórias. (Dois anos mais tarde, o Papa Gregório XIII, seu sucessor, lembrando que a vitória de Lepanto foi mais uma vitória do Rosário, mudou o nome da festa para Nossa Senhora do Rosário.)

Pio V morreu em 15 de maio de 1572, tendo seu pontificado durado seis anos e três meses. Não há virtude que este grande Papa não tenha exercitado. Todos os dias celebrava ou ouvia a Santa Missa, com o maior recolhimento. Terníssima devoção tinha a Jesus Crucificado. Todas as orações fazia aos pés do Crucificado, os quais inúmeras vezes beijava.

Certa vez que ia beijá-los, conforme o costume, a imagem retirou-se, salvando-o assim de morte certa. Pessoa má tinha-os coberto de um pó levíssimo e venenoso. Numa quinta-feira Santa, quando realizava a cerimônia do “Mandatum”, entre os doze pobres havia um, cujos pés apresentavam uma úlcera asquerosa. Pio, reprimindo uma natural repugnância, beijou a ferida com muita ternura. Um fidalgo inglês, que viu este ato, ficou tão comovido, que, no mesmo dia, se converteu à Igreja Católica.

Pio era tão amigo da oração, que os turcos afirmaram ter mais medo da oração do Papa, do que dos exércitos de todos os príncipes unidos. À oração unia rigor contra si mesmo: a vida era-lhe de penitência contínua. ‘Três vezes somente por semana comia carne e ainda assim em quantidade diminutíssima.

Grande amor mostrava aos pobres e doentes. Entre os pobres, gozavam de preferência os neófitos. Pouco aproveitavam os parentes. Quando, em certa ocasião, alguém lhe lembrou de subvencionar mais os parentes, Pio respondeu: “Deus fez-me Papa para cuidar da Igreja e não de meus parentes”.

Seguindo o exemplo do divino Mestre, perdoava de boa vontade aos inimigos e ofensores. Nunca se lhe ouviu da boca uma palavra áspera.

Pio empregava bem o tempo. Era amigo do trabalho e todo o tempo que sobrava da oração, pertencia às ocupações do alto cargo. Alguém lhe aconselhara que poupasse mais a saúde, e tomasse mais descanso. Pio respondeu-lhe: “Deus deu-me este cargo, não para que vivesse segundo a minha comodidade, mas para que trabalhasse para o bem dos meus súditos. Quem é governador da Igreja, deve atender mais às exigências da consciência que às do corpo”.

Pio V foi canonizado por Clemente XI. O corpo descansa na Igreja de Santa Maria Maggiore.

São José, Patrono da Igreja

Fonte: Blog do Professor Felipe Aquino

 

O Papa Pio IX, no dia 8 de dezembro de 1870, declarou o glorioso São José, Padroeiro da Igreja Católica.  Este mesmo Papa, em 08/12/1854, já tinha proclamado solenemente o dogma da Imaculada Conceição de Nossa Senhora.
Através de Decreto da Congregação dos Sagrados Ritos, o Papa atendeu à solicitação do episcopado do mundo todo, que estava então reunido no Concílio Vaticano I ( 08/12/1869 a 20/10/1870), os quais rogaram ao Santo Padre que se dignasse constituir São José Padroeiro da Igreja Católica.
Assim se expressou a Sagrada Congregação dos Ritos:
“Assim como Deus constituira o antigo José, filho do antigo patriarca Jacó, para presidir em toda a terra do Egito, a fim de conservar o trigo para os povos; assim, chegada a plenitude dos tempos, estando para enviar à terra o seu Unigênito Filho para redenção  do mundo, escolheu outro José, de quem o primeiro era figura; constituiu-o Senhor e Príncipe de sua casa e de sua possessão, e elegeu-o custódio de seus principais tesouros.
José teve, de fato, por esposa a Imaculada Virgem Maria, da qual por virtude do Espírito Santo, nasceu Nosso Senhor Jesus Cristo, que, junto aos homens,  se dignou  ser julgado filho  de José, e lhe foi submisso. E José, não só viu Aquele que tantos reis e profetas desejaram ver, mas conversou com Ele, estreitou-O  ao peito  com  paternal  afeto, beijou-O; e, além disso, com extremoso cuidado, alimentou Aquele que devia ser nutrição espiritual e alimento de vida eterna para o povo fiel.
Por esta excelsa dignidade, concedida por Deus a seu fidelíssimo Servo, a Igreja, após a Virgem Santíssima, sua Esposa, teve sempre em  grande honra e cumulou de louvores o  Beatíssimo  José, e  nas  angústias lhe implorou a intercessão.  Ora, estando a Igreja, nestes tristíssimos tempos,  perseguida em toda parte por inimigos e opressa por tão  graves calamidades, a ponto de julgarem os ímpios que as portas do abismo prevaleceram contra Ela, os Bispos de todo o mundo católico, em seu nome e no dos fiéis confiados a seus cuidados, rogaram ao Sumo Pontífice que se dignasse constituir São José Padroeiro da Igreja Católica.
Tendo pois eles, no Sagrado Concílio Ecumênico Vaticano I, renovado com maior insistência os mesmos pedidos e desejos, o Santo Padre Pio IX, comovido com a presente e lutuosa condição dos tempos, querendo de modo especial  colocar-se  a  si mesmo e aos fiéis sob o poderosíssimo  Patrocínio  do Santo Patriarca José e satisfazer os desejos dos Bispos, declarou-o solenemente Padroeiro da Igreja Católica.
Elevou a sua festa, que caí a 19  de  março  a rito duplo de primeira classe. E, além disso ordenou que esta declaração, feita com o presente decreto da Sagrada Congregação dos Ritos, fosse publicado no dia consagrado à Imaculada Virgem Mãe de Deus, Esposa do castíssimo José”.
Eram, como sempre, tempos difíceis para a Igreja. O Papa convocara o Concílio Vaticano I para enfrentar o brado da Revolução Francesa (1789) contra a fé, no endeusamento da razão e do nacionalismo. O século XIX começou marcado pelo materialismo racionalista e pelo ateísmo, fora da Igreja; dentro dela as tendências conciliaristas e de separatismo, que enfraqueciam a autoridade do Papa e a  unidade da Igreja. Mais uma vez a Barca de Pedro era ameaçada pelas ondas do século. Então a Igreja recomendou-se ao “Pai” terreno do Senhor. Aquele que cuidara tão bem da Cabeça da Igreja, ainda Menino, cuidaria também de todo o seu Corpo Místico.
Trinta anos depois, o Papa Leão XIII, no dia 15/8/1899, assinava a Encíclica “Quanquam Pluries” sobre São José, nos tempos difíceis da virada do século.
Ouçamos o Papa:
“Nos tempos calamitosos, especialmente quando o poder das trevas parece tudo usar em prejuízo da cristandade, a Igreja costuma  sempre invocar súplice a Deus, autor e vingador seu, com maior fervor e perseverança, interpondo também a mediação do Santo, em cujo patrocínio mais confia  para encontrar socorro, entre os quais se acha em primeiro lugar a Augusta Virgem Mãe de Deus”.
“Ora, bem sabeis Veneráveis Irmãos que os tempos presentes  não  são menos  desastrosos  do  que  tantos  outros, e tristíssimos,  atravessados  pela  cristandade.  De  fato,  vemos perecer em muitos o princípio de todas as virtudes cristãs, de fé, extinguir-se a caridade, depravar-se nas idéias e costumes a nova geração, perfeitamente hostilizar-se por toda a parte a Igreja  de  Jesus Cristo,  atacar-se  atrozmente o Pontificado, e com audácia cada vez mais imprudente arrancarem – se os próprios fundamentos da religião”.
“Nós propomos… para tornar Deus mais favorável às nossas preces  e  para  que  Ele, recebendo as súplicas de mais intercessores, dê mais pronto e amplo socorro à sua Igreja, julgamos sumamente conveniente que o povo cristão se habitue a invocar com singular devoção e confiança, juntamente com a Virgem Mãe de Deus, o seu castíssimo esposo São José: temos motivos particulares para crer que seja isto aceito e agradável à própria Virgem. E, a respeito desse  assunto,  do  qual pela primeira vez tratamos em  público, bem conhecemos  que  a  piedade  do povo cristão não    é  favorável,  mas  tem  progredido  também por iniciativa  própria; pois  vemos já gradativamente promovido e estendido o culto de São José por zelo dos Romanos Pontífices, nas  épocas  anteriores, universalmente aumentado e com indubitável incremento nestes últimos tempos, em especial  depois  que Pio IX, nosso antecessor de feliz memória, declarou às súplicas de muitos bispos, Padroeiro da Igreja Católica o Santíssimo Patriarca. Não obstante, por ser muito necessário  que  seu  culto  lance  raízes nas instituições católicas  e nos costumes, queremos que o povo cristão receba, antes  de tudo, de  nossa voz e autoridade novo estímulo”.
Vemos assim que, nas horas mais difíceis de sua caminhada a Igreja sempre recorre à Sua Mãe Santíssima, que nunca a desamparou; e, em seguida ao seu esposo castíssimo São José.
E Leão XIII explica as razões da grandeza de São José por “ser ele esposo de Maria e pai adotivo de Jesus”.
ORAÇÃO  A  SÃO  JOSÉ
“Ó glorioso São José, digno de ser amado, invocado e venerado com especialidade entre todos os santos, pelo primor de vossas virtudes, eminência de vossa glória e poder de vossa intercessão, perante a Santíssima Trindade, perante Jesus Vosso Filho adotivo, e perante Maria, Vossa Santíssima Esposa, minha Mãe terníssima, tomo-vos hoje por meu advogado junto de ambos, por meu protetor e pai, proponho firmemente nunca esquecer-me de Vós, honrar-Vos todos os dias que Deus me conceder e, fazer quanto em mim estiver para  inspirar  vossa  devoção  aos  que estão sob o meu encargo. Dignai-vos vo-lo peço ó pai do meu coração, conceder-me a vossa especial proteção e admitir-me entre os vossos mais  fervorosos  servos.  Em  todas  as  minhas ações assisti-me, junto de Jesus e Maria favorecei-me, e na hora da morte não me falteis, por piedade.  Amém”.
Glorioso São José, rogai por nós!
 

A CÁTEDRA DE PEDRO

Quarta-feira passada iniciamos com toda a Igreja o tempo da Quaresma, que no Brasil também é aprofundada com a Campanha da Fraternidade. Algumas festas, porém, são celebradas neste tempo de conversão a caminho da Páscoa. Uma delas é a Festa da Cátedra de São Pedro, comemorada no dia 22 de fevereiro, segunda-feira.

Qual o sentido de celebrar tal festa? Sem dúvida, trata-se de uma comemoração importante, pois revela que a Igreja, tal como querida por Jesus, é uma comunhão ordenada, tendo Pedro à frente. Na Sagrada Escritura, por diversas vezes, a missão de Pedro dentro da comunhão da Igreja aparece como única. O nome de Pedro encabeça a lista dos Apóstolos. É Pedro quem fala com Jesus em nome dos demais Apóstolos. Jesus promete fundar sobre o Apóstolo a sua Igreja, cuja estabilidade não seria jamais ameaçada, e entrega, particularmente a Pedro, as chaves do Reino dos Céus (cf. Mt 16, 16-19). Jesus também roga pela fé de Pedro, em particular, a fim de que o príncipe dos Apóstolos confirme os irmãos na fé (cf. Lc 22, 31-32) Jesus, depois da Ressurre ição, ainda aparece confirmando a singular missão pastoral de Pedro ao lhe confiar seus cordeiros e ovelhas (cf. Jo 21, 15-17). Pedro também aparece discursando ao povo em nome do colégio dos Apóstolos (cf. At 2, 14ss.).

Ademais, a tradição dos primeiros tempos da Igreja confirma, de diversos modos, o papel único de Pedro no seio da comunhão da Igreja. Vale aqui recordar as belas palavras do grande Arcebispo de Constantinopla, São João Crisóstomo, sobre o texto de Jo 21, 15-17: “O principal bem que resulta deste amor é o de procurar a salvação do próximo. O Senhor, prescindindo dos demais Apóstolos, dirige a Pedro estas promessas, porque Pedro era o primeiro dos Apóstolos, a voz dos discípulos e a cabeça do colégio. Por isso, depois de apagada a negação, o Senhor o investiu como prelado de seus irmãos. Não lhe lança em rosto a negação, mas diz: ‘Se me amas, preside a seus irmãos e dá testemunho agora do amor que sempre demonstraste, sacrificando por minhas ovelhas a vida que disseste que darias por mim’” (In Joannem, hom. 87).

A Cátedra de Pedro é o símbolo da missão magisterial que o Apóstolo recebeu do próprio Cristo. Os ensinamentos de Pedro procuram atualizar os ensinamentos de Jesus. A missão de Pedro é a de fazer com que o mistério do Filho de Deus, – Caminho, Verdade e Vida –, seja conhecido e amado pelos homens. Nesse sentido, estar em comunhão com o magistério autorizado de Pedro é estar em comunhão com a doutrina de Cristo. O antigo ditado latino expressa muito bem este sentimento: “Ubi Petrus, ibi Ecclesia” – Onde está Pedro, está a Igreja.

Em alguns momentos da história muitos se esqueceram do mandato de Jesus de viver a unidade! Somos chamados a ser corajosas pessoas da comunhão, da unidade entre nós e com Pedro e seu sucessor, caminhando como Igreja que anuncia hoje a boa notícia ao mundo com a mesma coragem dos primeiros discípulos.

O Apóstolo Pedro tem nos Papas seus legítimos sucessores. A cidade de Roma foi honrada pela presença e pelo martírio de São Pedro, que assim a consagrou como Sede Apostólica. Nós honramos a Sede de Pedro com o carinhoso e respeitoso título de Santa Sé. A Cátedra de Pedro é hoje ocupada pelo Papa Bento XVI. Ao longo da história, Deus mesmo é quem sustenta a Igreja na terra e o Papa que está à sua frente. A Cátedra de São Pedro foi ocupada por inúmeros nomes ilustres e santos, que se distinguiram seja pelo zelo pelas coisas de Deus, pela preservação e transmissão da sã doutrina, pela missão, pela sabedoria ou pelo serviço da caridade. Sabemos também que a fragilidade humana marcou a história do papado. Entretanto, nada de contrário a o sentido verdadeiro da Palavra de Deus foi oficialmente ensinado por um Papa, por menos digno que ele fosse, o que revela a ação de Deus assistindo à sua Igreja. Na verdade, Deus faz com que o ouro do Evangelho chegue incólume aos fieis!

Nestes últimos tempos assistimos como a ação do Espírito Santo faz com que tenhamos as pessoas necessárias para o nosso tempo e para que a Igreja continue na fidelidade a Cristo e ao Evangelho no caminhar da história. A lista e a diversidade dos últimos Papas nos demonstram isso.

O atual Papa Bento XVI destaca-se, entre outras coisas, pela coragem que tem de propor aos homens de nosso tempo a autêntica mensagem de Jesus, sem atenuações ou diminuições. Sabemos que o mundo atual, a diversos títulos, afasta-se de Deus e do seu Cristo. O consumismo, o hedonismo e o individualismo se apresentam hoje como deuses que reclamam culto de adoração. O secularismo e a indiferença religiosa parecem tomar proporções consideráveis. O desprezo pela verdade e o descaso, em muitos casos, pela dignidade da vida humana, principalmente em sua fase inicial e terminal, são realidades que estão aí. Apesar de tudo, Bento XVI não se intimida e propõe, com frescor sempre renovado, os valores do Evangelho. O Papa tem a consciência de que a Mensagem de Cristo nada tem a tirar de tudo aquilo que faz a vida boa e bela. Cristo não nos tira nada. Ao contrário, Cristo nos dá tudo. Se quisermos correr o belo risco por aquilo que verdadeiramente vale a pena na vida abracemos para valer a doutrina de Cristo, tal como a Igreja, com seu magistério autorizado, no-la transmite. “Tomai meu jugo sobre vós e recebei minha doutrina, porque eu sou manso e humilde de coração e achareis o repouso para as vossas almas. Porque meu jugo é suave e meu peso é leve” (Mt 11, 29-30).

Na festa da Cátedra de São Pedro façamos a Deus uma prece de louvor e agradecimento. Deus caminha conosco. Jesus é nosso irmão. O Espírito da Verdade guia a Igreja, a fim de que a obra de Cristo sempre produza frutos. Aliás, a promessa de Jesus foi exatamente esta: “Quando vier o Paráclito, o Espírito da Verdade, ensinar-vos-á toda a verdade […]” (Jo 16,13). Renovemos, pois, a nossa fé e a nossa gratidão. O ministério de Pedro e de seus sucessores, os Papas, é um verdadeiro dom para a comunhão dos irmãos em Cristo. Sabemos que existe na Igreja uma instância auto rizada, guiada pelo Espírito, para ser sinal de nossa unidade e interpretar autenticamente a Mensagem de Jesus. Esta não ficou entregue ao vento, mas foi confiada à Igreja, que tem em sua base a “Pedra” escolhida por Jesus como sólido fundamento.

Neste Ano Sacerdotal, rezemos por todos os sacerdotes e, de modo especial, pelo Papa Bento XVI, que hoje é Pedro para nós!

+ Orani João Tempesta, O. Cist.

Arcebispo Metropolitano de São Sebas
tião do Rio de Janeiro, RJ

Qual é o Terceiro Segredo de Fátima?

Infelizmente circula na internet um tal “Terceiro Segredo de Fátima”, que muito assusta as pessoas, como se o Papa João Paulo II não tivesse revelado o verdadeiro no ano 2000. No dia 26 de junho deste ano foi revelado, com a devida autorização do Papa, o verdadeiro Terceiro Segredo de Fátima, que tanta curiosidade, medo e, às vezes, pavor, despertava no povo. Na verdade, houve muita fantasia prejudicial às pessoas. Nas suas três partes o Segredo nada tem de previsões sobre o fim do mundo, nem de catástrofes ou flagelos. 
Com a revelação do Segredo, feita através da Sagrada Congregação da Fé, com uma interpretação feita, a pedido do Papa, pelo então Cardeal Joseph Ratzinger, hoje o Papa Bento XVI, prefeito da citada congregação na época, viu-se que se trata de uma visão do século XX, século este impregnado de mártires do comunismo, do nazismo e de outras forças inimigas da Igreja e de Deus. Milhões morreram pela fé. 
Na entrevista que Dom Tarcísio Bertone, então Secretário da Congregação para a Doutrina da Fé, teve com a Irmã Lúcia, por ordem do Sumo Pontífice, em 27 de abril de 2000, no Carmelo de Coimbra, onde vivia a religiosa, esta, lúcida e calma, concordou com a interpretação do Segredo, segundo a qual a terceira parte do Segredo de Fátima consiste numa visão profética, comparável às da história sagrada. Ela reafirmou a sua convicção de que a visão de Fátima se refere “sobretudo à luta do comunismo ateu contra a Igreja e os cristãos” e descreve os duros sofrimentos das milhões de vítimas do século XX. 
Irmã Lúcia confirmou que a principal personagem do Segredo era o Santo Padre e recordou como os Pastorinhos tinham pena dele. Com relação ao “Bispo vestido de branco” (o Papa), que é ferido de morte e cai por terra, a Irmã concordou plenamente com a afirmação do saudoso Papa João Paulo II: “Foi uma mão materna que guiou a trajetória da bala e o Santo Padre deteve-se no limiar da morte” (Meditação com os Bispos italianos na Policlínica Gemelli, 13 de maio de 1994). 
É interessante destacar o que diz a Irmã Lúcia: “Eu escrevi o que vi; não compete a mim a interpretação, mas ao Papa.” A ela foi dada a visão, não a interpretação. Mais uma vez vemos aí a importância da Igreja e do Pontífice. E a Irmã concordou com a interpretação dada pela Igreja. Na interpretação do Segredo, já bastante publicado e conhecido, feita pelo Cardeal Ratzinger, alguns pontos merecem ser destacados:
 
1 – A palavra-chave da primeira e segunda parte do Segredo é “Salvar as almas”; a palavra-chave da terceira parte é “Penitência, penitência, penitência”. O mesmo cardeal lembrou que a Irmã Lúcia lhe disse que o objetivo de todas as Aparições da Santíssima Virgem era fazer crescer cada vez mais a fé, a esperança e a caridade. 
2 – A visão do anjo com a espada de fogo representa o perigo da destruição da humanidade por si mesma, por meio da guerra e de outras formas. O brilho da Mãe de Deus aparece como a força capaz de vencer as forças da terrível destruição. 
3 – O sentido da visão não é mostrar um filme sobre o futuro, mas uma forma de orientar a liberdade humana a buscar o bem. Há que se evitar, portanto, as interpretações fatalistas do Segredo, como se tudo já fosse traçado para acontecer, sem respeitar a liberdade dos homens. O futuro é visto como que num espelho, de maneira simbólica. 
4 – Três sinais aparecem: uma montanha alta; uma grande cidade meio em ruínas e uma grande cruz de troncos toscos. A montanha e a cidade são o lugar da história humana, de convivência, mas de luta; como uma subida árdua no qual o homem destrói, com as próprias mãos, o que ele mesmo construiu (cidade em ruínas). No alto da montanha está a Cruz, meta e orientação da história humana, sinal da miséria humana e promessa de salvação. 
A visão mostra o caminho da Igreja como uma Via-Sacra, ladeado de violência, destruição e morte, mas de esperança. Diz o cardeal que nesta imagem pode-se ver a história de um século que se finda. O século dos mártires, dos sofrimentos e das perseguições à Igreja. Século de duas guerras mundiais e de muitas guerras locais. No espelho desta visão vemos passar as testemunhas da fé deste século. 
O cardeal fez questão de recordar o que a Irmã Lúcia disse ao Papa João Paulo II, em 12 de maio de 1982, um ano após o atentado sofrido por ele: “A terceira parte do segredo se refere às palavras de Nossa Senhora: “Se não [a Rússia] espalhará os seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja. Os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas.”
Os Papas deste século tiveram um papel preponderante na árdua “subida da montanha” do Segredo. Desde Pio X até João Paulo II, todos os Santos Padres sofreram no caminho que leva à Cruz. 
5 – Destaca o mesmo cardeal que o fato de o Papa não ter não ter morrido no atentado de 13/5/81 significa que não existe um destino imutável (na visão Sua Santidade aparece morta), e se a mão de Nossa Senhora guiou a bala para que não o matasse é porque a força da oração e da penitência é maior do que as balas, e a fé é mais poderosa do que os exércitos. Tudo pode ser mudado pela oração e pela conversão! 
6 – Por fim a visão mostra os anjos que recolhem da cruz o sangue dos mártires e com ele regam as almas que se aproximam de Deus. O Sangue de Cristo e o dos mártires são vistos juntos a significar que o nosso sofrimento completa a salvação do mundo (cf. Cl 1, 24). O sangue dos mártires é semente de novos cristãos, como dizia Tertuliano. E assim, o terceiro Segredo termina com uma forte mensagem de esperança: nenhum sofrimento é vivido em vão se é acolhido na fé. É de todo o sofrimento e de todo o sangue derramado pela Igreja, no século XX, que brotarão as forças de um novo Cristianismo no século XXI. Haverá uma forte purificação e um renovamento que já se faz sentir no coração da Igreja. É a eficácia salvífica que brota do Sangue de Cristo misturado ao dos Seus mártires. 
7 – Os acontecimentos, a que se refere o Segredo, já são do passado; fica o permanente apelo à oração e à penitência para a salvação das almas. O cardeal termina afirmando que a certeza de Nossa Senhora de que por fim “o meu Imaculado Coração triunfará” significa que um coração voltado inteiramente para Deus é mais forte do que as pistolas ou as outras armas de fogo. A mensagem do Terceiro Segredo é uma mensagem de confiança no Cristo que venceu o mundo (cf Jo 16, 33). 

Estive em Portugal, logo após a morte de Irmã Lúcia, em Coimbra, com a Dra. Branca, que cuidou da religiosa até a sua morte. A médica disse-me que Irmã Lúcia concordou inteiramente com a revelação feita pela Igreja sobre o Segredo e que mais nada havia a revelar. Portanto, é preciso cessar a divulgação de um falso Terceiro Segredo de Fátima, como se a Igreja não tivesse revelado o verdadeiro.

QUEM FOI SÃO SILVESTRE

Cidade do Vaticano, 31 dez (RV) – São Silvestre foi papa durante 21 anos e morreu em 335, durante o tempo de Constantino. Silvestre teve de enfrentar as intromissões do imperador no governo da Igreja. Constantino, herdeiro da grande tradição imperial romana, considerava-se o legítimo representante da divindade e do Deus dos cristãos e por isso, com naturalidade, sentia-se encarregado de controlar a Igreja como qualquer outra organização religiosa.

Constantino convocou em 325 o primeiro Concílio Ecumênico que foi realizado em Nicéia, na Bitínia. O Papa Silvestre, idoso, não pode comparecer, mas enviou representantes.

Graças ao bom relacionamento entre o Papa e o Imperador, este apoiou financeiramente a Igreja e o pontificado de Silvestre ficou caracterizado também pelas grandes construções de edifícios eclesiásticos. Conseguiu do Imperador a autorização para a construção da grande basílica em honra de São Pedro na colina do Vaticano, a de São Paulo fora dos Muros e a de São João de Latrão.
Foi também o Papa Silvestre que recebeu do Imperador Constantino o Palácio de Latrão para ser a residência dos pontífices.

Mas o grande presente que o Papa Silvestre desejava receber do Imperador era vê-lo batizado. Isso não aconteceu pois o papa morreu em 335 e Constantino, segundo Eusébio de Cesareia, foi batizado no leito de morte, em 337.
(CM)

HISTÓRIA DO DOGMA DA IMACULADA CONCEIÇÃO

INTRODUÇÃO
a) Os dogmas da Igreja evoluem? Esta poderia ser a pergunta formulada pelo leitor. Sim e não. Não evoluem em seu conteúdo, isto é, o que é verdadeiro hoje, daqui a um século não virá a ser falso; porém, sem evoluir no que afirmam ou negam, podem evoluir – e evoluem – na consciência que deles vai adquirindo a própria Igreja. Para fazer uma comparação, cada dogma (que vale o mesmo que uma verdade relevada por Deus) é uma sementinha que o próprio Cristo semeou no campo fecundo da sua Igreja; semente que germina, cresce e se desenvolve quando as circunstâncias o favorecem. Em nosso caso, o tempero é dado pelo próprio Espírito Santo, aquele Espírito da Verdade sobre quem Cristo dizia aos Apóstolos: “Quando eu tiver ido, Ele vos guiará e vos ensinará toda a verdade, recordando-vos tudo o que Eu vos disse”. Nem tudo o que Jesus fez ou disse foi colocado por escrito, nem tampouco o que ensinaram os Apóstolos que Dele receberam o depósito da fé. Porém, nada foi perdido. Parte dos seus ensinamentos não-escritos ficaram como que no subconsciente da Igreja e aflora quando chega a hora da Providência, de forma tão clara e patente que muitas vezes não pode ser afogada nem mesmo pela autoridade dos Doutores, como no caso do dogma que ora abordamos.

b) O dogma da Imaculada Conceição de Maria é um daqueles clássicos que serve para demonstrar a força imanente que carrega toda doutrina divina depositada na parcela de Deus, que é a reunião dos fiéis com seus Pastores e o Sumo-Pontífice romano, que os preside.

c) Vamos analisar a História desse dogma. Não sendo este um daqueles que a Sagrada Escritura consignou com clareza absoluta, foi necessário, para se chegar à definição do mesmo, investigar o que ensinou a Tradição e recorrer ao “sentir comum” da Igreja.

I. A IMACULADA CONCEIÇÃO NOS PRIMEIROS SÉCULOS

Nos primeiros séculos do Cristianismo, os Santos Padres não propuseram o problema da Imaculada Conceição de Maria. (…) Porém, a doutrina sobre o privilégio de Maria está contida, como a árvore na semente, nos ensinamentos dos mesmos Padres ao contrapor a figura de Maria à de Eva em relação à queda e reparação do gênero humano; ao exaltar, com palavras sumamente encomiásticas, a pureza admirável da Virgem; e ao tratar sobre a realidade de sua maternidade divina. Dois princípios da ciência sobre Maria que deixaram firmemente assentados os primeiros Doutores da Igreja foram:

1º) O Princípio da Recapitulação

a) Com estas palavras, “princípio da recapitulação, recirculação ou reversão” é conhecida a doutrina patrística sobre o plano divino da salvação do gênero humano.

b) Aos Padres primitivos chamou à atenção, fortemente (e não menos que a nós), o belo vaticínio sobre a Redenção humana contido no Protoevangelho. E tendo escrito São Paulo que Cristo é o novo Adão, completaram o paralelismo, sem nenhum esforço, contrapondo Maria a Eva. É raro encontrar um Santo Padre que não tenha empregado este recurso ao tratar da Redenção. E é tão constante a doutrina, tão universal o princípio, que não é possivel deixar de admitir que tenha provindo da própria Tradição Apostólica.

c) Citemos, por todos, Santo Ireneu: “Assim como aquela Eva, desobediente, tendo Adão por varão, porém permanecendo ainda virgem, foi a causa da morte, assim também Maria, tendo já um varão predestinado e, no entanto, virgem obediente, foi causa de salvação para si e para todo o gênero humano (…) Desta forma, o nó da desobediência de Eva foi desatado pela obediência de Maria. O que a virgem Eva amarrou por sua incredulidade, foi desamarrado pela fé da Virgem Maria”. Com efeito, assim como um nó não é desamarrado enquanto não se passam os cabos pelo mesmo lugar, mas de modo inverso, assim também a Redenção operou de forma idêntica, mas de modo inverso ao da queda.

d) Este paralelismo, que contém dois aspectos – semelhança e contraposição – encontra-se repetido, segundo acabamos de dizer, como um princípio básico ao se referir a Maria. E como é fácil de se compreender, não alcança toda sua força senão colocando os extremos da contraposição em igualdade de circunstâncias: Eva, virgem e inocente, é a causa da ruína do gênero humano; Maria, virgem e inocente também, a causa de sua salvação. Eva, adornada de graça desde o momento de sua existência, reclama, por comparação, a Maria, possuidora da graça desde o primeiro momento de seu ser.

e) A legitimidade do princípio da recapitulação foi declarada pelo Papa Pio IX em sua Bula Dogmática sobre a Imaculada.

2º) A Exaltação da Pureza de Maria

a) Um coro unânime de vozes proclama Maria como puríssima, sem mancha, a mais sublime das criaturas etc. Nesta aclamação universal da pureza de Maria deve haver, necessariamente, um princípio geral que a impulsiona. Os Santos Padres da Antigüidade não estavam muito mais informados do que nós sobre a vida da Virgem. O que lhes move, portanto, a afirmar com tanta ênfase, com tanta segurança, que Maria não admite comparação com qualquer outra criatura em sua grandeza e elevação moral? Sua Maternidade divina! Evidentemente, seus louvores partem do princípio que mais tarde é formulado por Santo Anselmo: “A Mãe de Deus deveria brilhar com tal pureza, que não é possível imaginar [pureza] maior exceto a de Deus”. Pois bem; para admitir sua Conceição Imaculada, caso se propusesse a pergunta, não precisavam mudar de rumo: bastava tirar as conseqüências do princípio assentado e admitido.

b) Leiamos alguns destes louvores dedicados à Virgem:

1. Santo Hipólito, mártir, diz: “Certamente, a arca de madeiras incorruptíveis era o próprio Salvador. E por esta arca, isenta de podridão e corrupção, se significa seu tabernáculo, que não gerou corrupção de pecado. Pois o Senhor estava isento de pecado e estava, enquanto homem, revestido de madeiras incorruptíveis, isto é, da Virgem e do Espírito Santo, por dentro e por fora, como de ouro puríssimo do Verbo de Deus”. Em o
utra parte, chama Maria de “toda santa, sempre Virgem, santa, Virgem imaculada”.

2. Nas atas do martírio de Santo André, o Apóstolo, se lêem estas palavras ditas pelo Santo ao procônsul: “E visto que da terra foi formado o primeiro homem, que pela prevaricação da árvore trouxe a morte ao mundo, foi necessário que, de uma Virgem imaculada, nascesse o homem perfeito, o Filho de Deus, para que restituísse a vida eterna que os homens perderam por Adão”. Ainda que estas atas – como alguns opinam – não sejam genuínas (isto é, contemporâneas de Santo André), possuem uma venerável antigüidade e nos atestam o que se pensava então a respeito da Santíssima Virgem.

3. Santo Efrém da Síria, apelidado “Harpa do Espírito Santo”, canta assim à Virgem: “Certamente Tu (Cristo) e tua Mãe sois os únicos que haveis sido totalmente formosos; pois em Ti, Senhor, não há defeito, nem em tua Mãe mancha alguma”. E em outras partes chama Maria de “imaculada, incorrupta, santa, alheia a toda corrupção e mancha, muito mais resplandescente que o sol” etc.

4. Santo Ambrósio põe nos lábios do pecado: “Vem, pois, Senhor Jesus e busca tua ovelha cansada; busca-a não pelos servos, nem pelos mercenários, mas por Ti mesmo. Recebe-me, não naquela carne em que caiu Adão, nem de Sara, mas de Maria: virgem incorrupta, íntegra e limpa de toda mancha de pecado”.

5. E aponta São Jerônimo: “Propõe-te por modelo a gloriosa Virgem, cuja pureza foi tal que mereceu ser a Mãe do Senhor”.

c) A lista poderia se estender muitíssimo mais. Mas a conclusão é a seguinte: os Santos Padres não propõem a pergunta sobre a Imaculada Conceição, no entanto, os louvores que dirigem à pureza de Maria são tais que, caso se propusesse a questão, teriam alcançado à verdade pelo próprio caminho que seguiam. E desde logo, o que lhes impulsiona a louvar, de maneira tão unânime e fervorosa, a pureza de Maria é a existência de uma Tradição que pode ser qualificada como Apostólica, derivada dos ensinamentos dos Apóstolos.

II. A IMACULADA CONCEIÇÃO ATÉ A IDADE MÉDIA

A partir do século IV, a Igreja ocidental não corre em paralelo com a oriental em professar a Imaculada Conceição de Maria. A heresia nestoriana, única na História que atacou diretamente a prerrogativa máxima da Virgem – sua divina Maternidade – e que ia se expandindo no século V, ofereceu a melhor ocasião e também a necessidade de se exaltar a soberana figura da Bem-Aventurada Mãe de Deus. Enquanto isso, no Ocidente, o herege Pelágio desfigurava o conceito de pecado original e suas funestas conseqüências sobre os homens, razão pelas quais os Padres [latinos] se viram constrangidos a tratar primeiramente da universalidade do pecado do que da gloriosa exceção concedida à Virgem.

Leiamos alguns testemunhos de uma e de outra [parte da] Igreja:

1º) A Igreja Oriental

a) Na Igreja oriental encontramos o esforçado defensor da maternidade divina de Maria, São Cirilo, escrevendo: “Quando se ouviu alguma vez que um arquiteto edifique uma casa e a deixe ser ocupada por seu inimigo?”. Não se pode expressar mais claramente a idéia da Imaculada Conceição.

E Teodoro de Ancira, escreve: “Virgem inocente, sem manhca, santa de corpo e alma, nascida como o lírio entre os espinhos”. E, em outro lugar: “Maria, na sua pureza, leva vantagem sobre os serafins e querubins”.

Proclo, secretário de São João Crisóstomo, no mesmo século V, diz que Maria foi formada “de barro límpido”, ou seja, é de natureza humana, porém, incontaminada.

b) No século VI, lemos um hino composto por São Tiago Nisibeno: “Se o Filho de Deus tivesse encontrado alguma mancha em Maria, um defeito sequer, sem dúvida escolheria [outra] mãe isenta de qualquer imundície”. E qualifica a santidade de Maria como “justiça jamais rompida”.

São Teófanes louva Maria assim: “Ó, incontaminada de toda mancha”. E, em outra parte: “O puríssimo Filho de Deus, como encontrasse somente a ti puríssima de toda mancha, ou totalmente imune do pecado, foi gerado de tuas entranhas e limpa dos pecados todos os crentes”.

Santo André de Creta: “Não temas! Encontraste graça diante de Deus: a graça que Eva perdeu (…) Encontraste a graça que nenhum outro [ser humano] como tu jamais encontrou”.

E na Carta a Sérgio, aprovada pelo IV Concílio Ecumênico, Sofrônio diz acerca de Maria: “Santa, imaculada de corpo e alma, livre totalmente de todo contágio”.

A seguir, as palavras “imaculada” e “puríssima” já não se referem diretamente e apenas à virgindade de Maria. À medida que vão avançando os séculos, se vai percebendo, com maior precisão, a idéia da Imaculada Conceição.

E, assim, no século VIII, podemos ler estas palavras tão claras de São João Damasceno: “Neste paraíso (=Maria) não teve entrada a serpente, por cujas ânsias da falsa divindade fomos feitos semelhantes a feras”.

Nos séculos IX e X se percebe com maior clareza a concepção sem mancha de Maria. São José, o Hinógrafo, escreve sobre a Virgem: “Imune de toda mancha e queda, a única Imaculada, sem mancha, a única sem mancha”.

E São João, o Geometra, em um formoso verso: “Alegra-te, tu que deste a Cristo o corpo mortal. Alegra-te, tu que foste livre da queda do primeiro homem”.

c) Não é necessário prosseguir, porque a palavra “Imaculada”, a partir daí, entre os orientais, ganha um significado preciso e concreto: a isenção de Maria do pecado original. Ademais, desde o século VII, a Igreja oriental passou a celebrar a festa da Imaculada Conceição, ainda que não universalmente. Sobre o significado dessa festa, ouçamos São João de Eubea: “Se se celebra a dedicação de um novo templo, como não se celebrará, com maior razão, esta festa, tratando-se da edificação do templo de Deus, não com fundamentos de pedra, nem erguido pela mão do homem? Celebra-se a concepção no seio de Ana, porém, o próprio Filho de Deus a edificou com o beneplácito de Deus Pai e com a cooperação do santíssimo e vivificante Espírito”.

Como se observará, nestas palavras se menciona a criação de Maria e, assim mesmo, sua santificação, como insinua a alusão ao Espírito Santo que dela se apropria.

2º) Na Igr
eja Ocidental

a) Na Igreja ocidental, o processo até chegar à confissão clara e paladina da Imaculada Conceição de Maria resultou mais lento devido a circunstâncias especiais que o suspenderam. Contudo, o conceito que os Santos Padres mostram ter da grandeza espiritual e moral da excelsa Mãe de Deus não desmerece nem cede em nada ao dos orientais. A admissão de alguma mancha em Maria produziu no Ocidente – da mesma forma que no Oriente – um escândalo entre os fiéis e se chocou com a idéia que se professava sobre a santidade máxima da Bem-Aventurada Virgem. Com efeito, disso lançou mão o herege Pelágio para atacar seu adversário Santo Agostinho, na discussão sobre o pecado original que Pelágio negava. Juliano, discípulo do herege, escreveu, dirigindo-se ao bispo de Hipona: “Tu entregas Maria ao diabo em razão do nascimento”; em outras palavras: se se afirma que o pecado original é transmitido pela geração natural, Maria então foi súdita do diabo porque desta maneira descendeu e deste modo foi concebida por seus pais.

O Santo Doutor, porém, contestou: “A condição do nascimento é destruída pela graça do renascimento”. Discute-se se, com estas palavras, o santo bispo admitiu a Imaculada Conceição. Porém, o que é certo é que o nosso Doutor ensina que os pecados atuais têm sua origem no pecado original; diz: “Ninguém está sem pecado atual, porque ninguém foi livre do [pecado] original”. Entretanto, opina que Maria não teve qualquer pecado atual: “Exceção feita à Virgem Maria, da qual não quero, pela honra devida ao Senhor, suscitar qualquer questão quando se trata de pecado (…) Se pudéssemos congregar todos os santos e santas (…) quando aqui viviam, não é verdade que unanimemente teriam exclamado: ‘Se dissermos que não temos pecado, nos enganamos e não há verdade em nós’?”. Portanto, segundo o princípio assentado pelo mesmo Santo Doutor, temos que concluir que Maria careceu do pecado original.

Nesta mesma época, por volta do ano 400, encontramos o máximo poeta cristão Prudêncio interpretando a fé da Igreja segundo a pureza sem mancha de Maria. Canta nestes versos: “A víbora infernal jaz, esmagada pela cabeça sob os pés da mulher. Por aquela Virgem que foi digna de gerar a Deus, é dissolvido o veneno e, retorcendo-se sob suas plantas, vomita, impotente, seu tóxico sobre a verde erva”.

b) No século V, São Máximo escreve estas palavras: “Maria, digna morada de Cristo, não pela beleza do corpo, mas pela graça original”.

Ao contrário do que ocorre no Oriente, no Ocidente, à medida que vão avançando os séculos, se fala com maior reserva a respeito deste assunto. Não que se esqueça por completo a crença na Imaculada Conceição de Maria, pois sabemos que logo começou a ser celebrada sua festa, mas porque os autores eclesiásticos, influenciados pela autoridade de Santo Agostinho – cuja opinião sobre este mistério é duvidosa – e diante da necessidade de defender o dogma certo da universalidade do pecado original e suas conseqüências, se vêem forçados a tratar antes desta questão do que em estabelecer e ilustrar a exceção que Maria constitui à lei universal do pecado.

Boa prova de que a fé neste glorioso privilégio de Maria não foi ofuscada nos fornece a Liturgia. Afirma-se que no século VII, por obra de Santo Ildefonso, arcebispo de Toledo, já era celebrada a festa da Imaculada Conceição na Espanha. Alguns, contudo, duvidam da autenticidade do documento em que se apóiam aqueles que o defendem.

Porém, sabe-se com toda segurança, que essa festa já era celebrada no século IX, como aponta o calendário de mármore de Nápoles, que diz: “Dia 9 de dezembro: a Concepção da Santa Virgem Maria”. A data da celebração (a mesma em que celebravam os orientais) indica que a festa foi trazida do Oriente, com o qual Nápoles mantinha intensa relação comercial. Mas esta não é a única constância que se tem da celebração litúrgica. Por calendários dos séculos IX, X e XI, sabemos que era celebrada também na Irlanda e Inglaterra.

c) Porém, apesar da celebração litúrgica, o significado da solenidade não estava teologicamente fixado. E não deixa de chamar a atenção o fato de que talvez o Santo mais devoto de Maria foi quem reduziu os impulsos do povo cristão, suscitando a discussão mais inflamada da história dos dogmas. Refiro-me a São Bernardo.

Tendo chegado aos seus ouvidos que os monges de Lião, em 1140, tinham introduzido a festividade, o Santo Abade escreveu-lhes uma carta veementíssima, reprovando o que chama uma inovação “ignorada pela Igreja, não aprovada pela razão e desconhecida da antiga Tradição”. A carta é um dos melhores documentos para provar a profunda devoção do Santo a Maria. Cada vez que a nomeia, o faz com grandiosíssimo respeito e com a inimitável força de estilo que o caracteriza, convencendo o leitor de que todo o raciocínio não possui nem um pouco de paixão. Impugna o privilégio porque crê que assim deva fazê-lo.

Apesar do enorme prestígio do Santo Doutor, sua carta não ficou sem resposta. O primeiro que refutou a mesma, Pedro Comestor, fez logo notar a confusão que São Bernardo tinha do assunto e distingue entre a concepção de quem concebe (isto é, o ato dos pais) e a concepção de quem é concebido, ou seja, entre a concepção ativa e a concepção passiva, que já mencionamos anteriormente. Não faltou tampouco – como em toda polêmica – a frase dura e contundente do contraditor; assim, escreve Nicolas, monge de São Albano: “Duas vezes foi transpassada a alma de Maria: na Paixão de seu Filho e na contradição de sua Concepção”.

Embora a carta do Douto Melífluo não tenha conseguido impedir a expansão da festa, que a cada dia aumentava sempre mais, projetou inegável influência nas discussões teológicas dos séculos seguintes.

III. A CONTROVÉRSIA DOS ESCOLÁSTICOS ATÉ O BEATO ESCOTO

a) Os séculos XIII e XIV são os de máximo esplendor da ciência divina denominada “Teologia”. Os que a cultivaram nessa época foram chamados “Escolásticos”. Surgiram diversos centros de importância, sendo os mais ilustres a Sorbona de Paris e a Universidade de Oxford, na Inglaterra. Ao comentar o “Livro das Sentenças”, de Pedro Lombardo, que servia como Manual e Guia para ministrarem suas lições, os Escolásticos encontraram a questão da Concepção de Maria. Os doutores de Paris se inclinaram pela corrente maculista enquanto que os de Oxford pela imaculista, isto é, excluíam Maria da queda comum do pecado original. A vitória final foi dada a estes últimos, concretamente pelo Beato Escoto, seu mais alto expoente e representante.

b) Em Paris, os mestres reduziram a questão nestes termos: Quando a Virgem Maria foi santificada? “Santificada” aqui equivaleria – como se verá pelo contexto de toda a questão – a “purificada”. Com efeito, na própria colocação do problema já se tem algo como pressuposto e seguro: que em Maria hav
ia algo que necessitava de purificação. A razão de se propor o problema nestes termos estava no erro contido no “Livro das Sentenças” que comentavam. O erro consistia em afirmar que o pecado original se identifica com a concupiscência da carne, que corrompe e mancha a alma. E propunham um exemplo: como a imundície do recipiente faz com que a doçura do vinho se converta em vinagre, assim a concupiscência da carne, que se transmite pela geração natural, mancha a pureza da alma. Em seu conceito, o pecado original tinha dois elementos: um material (a concupiscência da carne) e outro formal (o pecado propriamente dito, que é a carência da graça).

Partindo, pois, do princípio que a carne, manchada pela geração natural, mancha também a alma, os Doutores de Paris se perguntavam: quando Maria foi santificada, isto é, purificada desta mancha inerente à carne?

c) O primeiro a propor a questão nestes termos foi o frade Alejandro de Halés. Assentou o princípio de que “a Maria lhe foi outorgada quando se pôde dar”, porém, não percebeu todas as conseqüências que daí derivavam. E seguindo a opinião que acabamos de expor sobre o pecado original, pergunta se Maria foi santificada em seus pais, respondendo que não, pois ainda que eles fossem santíssimos, sua santidade não podia ser transmitida à carne que conceberam. Continuou investigando se a carne de Maria foi purificada antes que sua alma entrasse e fosse infundida na mesma e entendeu que tampouco, pois a carne não pode ser sujeito de santidade alguma, nem de nenhuma graça. Prosseguiu interrogando se ela foi santificada no próprio momento de se infundir a alma no corpo, mas se inclina também pela negativa. A conclusão é que foi santificada após a concepção, ainda que antes de nascer, porque se isto também fora concedido a Jeremias e a [João] Batista, “não poderia ser negado à tão excelsa Virgem o que fora concedido a outros”.

d) Segue pelo mesmo caminho e com uma conclusão mais enérgica, o Doutor Santo Alberto Magno. Este crê ser de fé que Maria foi concebida no pecado original, pois a Bíblia, no célebre texto de São Paulo, ensina “que em Adão todos pecaram”; e “todos” inclui também a ela.

e) Os dois colossos da ciência teológica, São Tomás [de Aquino] e São Boaventura, que continuaram a obra de ensino dos dois doutores acima citados, prosseguiram, embora mais cautelosos, no mesmo caminho.

O Doutor Angélico, São Tomás, afirma e repete com insistência, em várias partes de suas obras, escritas em diversas épocas. que Maria contraiu o pecado original. Citemos apenas o que escreveu em sua obra maior, a “Suma Teológica”: à primeira pergunta, “se Maria foi santificada antes de receber a alma”, responde que não, porque a culpa não pode ser apagada senão pela graça, cujo sujeito é tão somente a alma. À segunda pergunta, isto é, “se o foi no momento de receber a alma”, responde que deve-se dizer que “se a alma de Maria não tivesse jamais sido manchada com o pecado original, isto derrogaria a dignidade de Cristo, que está no fato de ser o Salvador universal de todos. E assim, sob a dependência de Cristo, que não necessitou de salvação alguma, foi máxima a pureza da Virgem, pois Cristo de modo algum contraiu o pecado original, mas foi santo em sua própria concepção, segundo aponta São Lucas: ‘Aquele que nascerá de Ti, Santo, será chamado Filho de Deus’. Porém, a Santíssima Virgem contraiu certamente o pecado original, ainda que tenha sido limpa dele antes de ter nascido”. Em outra parte, pergunta quando foi santificada e responde: “Pouco depois de sua concepção”.

A estas palavras tão claras alguns têm querido dar ultimamente um significado diferente, fazendo mil acrobacias para que signifiquem que São Tomás não negou o privilégio de Maria, como se a negação supusesse algum defeito. O Santo e ponderadíssimo Doutor riria bastante dos malabarismos intelectuais de alguns de seus comentaristas…

Por outro lado, São Boaventura insinua timidamente a verdadeira solução da questão, embora se declare explicitamente partidário da corrente maculista. Após expor a opinião comum, escreve: “Alguns dizem que na alma da Santíssima Virgem a graça da santificação se adiantou à mancha do pecado original (…) Isto significa, segundo eles, o que Santo Anselmo disse sobre a Santíssima Virgem: que Maria foi pura, com pureza tão pura, que maior – excluída a pureza de Deus – não se pode imaginar. Isto não repugna a fé cristã, porque a própria Virgem foi liberada do pecado original pela graça que dependia e tinha sua origem em Cristo, assim como as demais graças dos Santos. Estes foram levantados depois de caídos, mas a Virgem foi amparada durante o ato de cair, para que não caísse, segundo a referida opinião”. Ninguém havia ainda exposto em Paris tão claramente, nem insinuado com tanta precisão, os argumentos a favor da Imaculada. Porém, São Boaventura ainda se inclinava pela corrente contrária: tirania da razao que se impôs sobre os anseios do amor.

d) Não estava reservado para os Doutores de Paris o empreendimento de defender o privilégio de Maria. Quando a doutrina contrária à Imaculada Conceição era comum entre os teólogos, corroborada pela autoridade dos grandes mestres, “surgiu o Doutor providencial que Deus mandou à Igreja para resolver esta questão”, dizia o antigo Ofício da Imaculada: o beato Juan Duns Escoto.

IV. A INTERVENÇÃO DO DOUTOR MARIANO
 
a) O beato Juan Duns Escoto nasceu em Maxton (Escócia), da nobre família Duns. Formou-se na Universidade de Oxford e aqui mesmo e em Paris lecionou Teologia. Ao chegar a Paris, a questão sobre a Concepção de Maria estava definitivamente encerrada e resolvida em sentido negativo. Sua doutrina sobre a isenção de Maria de todo pecado bateu de frente com o ambiente reinante na Universidade e, segundo o estilo da época, precisou defender sua opinião em uma disputa pública com os doutores da mesma. O esmagador triunfo que alcançou, medindo forças e conhecimento com os mestres mais renomados, fez com que aquela celebérrima discussão científica entrasse para os anais da Universidade e da Igreja. A lenda e a tradição, como costumam fazer com os fatos transcendentais, a adornaram com mil detalhes formosos. As crônicas eclesiásticas asseguram que, ao passar o Doutor pelos clautros da Universidade para a discussão, prostrou-se diante de uma imagem de Maria, implorando o seu auxílio, e que a imagem de mármore inclinou sua cabeça. Para a aula magna da Universidade, aguardavam o Doutor todos os mestres; presidiam a assembléia os legados do Papa, presentes em Paris para tratar de outros assuntos com o rei. Seja como for, a tradição nos relata que opuseram duzentos argumentos ao Doutor Mariano; ele os refutou e pulverizou após ter recitado cada um de memória. A quantidade de argumentos (ainda que não tenha chegado aos duzentos) foi enorme, pois dos fragmentos que restaram do debate e que chegaram até nós, pode-se listar cinqüenta. A nobríssima Assembléia se levantou e o aclamou unanimemente como vencedor. Uma defesa similar desse privilégio mariano ocorreu ainda em Colônia, onde o triunfo al
cançado pelo Defensor de Maria foi tamanho que até as crianças o aclamavam: Vencedor Escoto!  

Todos estes detalhes da lenda demonstram a impressão que causou a defesa escotista na imaginação dos contemporâneos que viam irremediavelmente perdida a causa no campo intelectual. Porém, se os detalhes são lendários, continua em pé a historicidade do fato conhecido como “Debate da Sorbona”, como provou em seus estudos o mariólogo pe. Carlos Balic, conhecido em todos os centros teológicos.

b) Passemos a expor a doutrina do Doutor Mariano. Observemos antes de mais nada que o beato Juan Duns Escoto propõe a questão de maneira completamente diferente dos que o precederam: “Maria foi concebida em pecado original?”. Este modo de formular a pergunta não pressupõe nem prejudica nada, mas tem um sentido claro e determinante: teve ou não teve o pecado original? Isto vem da idéia que o nosso Doutor possui do pecado original, hoje comum a todos os teólogos: para o beato Escoto, o pecado original não consiste em algo mais que a negação da graça que se deveria possuir. Com efeito, não se deve perguntar nada sobre a carne, como faziam os teólogos anteriores.

Portanto, à pergunta se Maria foi concebida em pecado, responde: Não! Razões? A perfeitíssima Redenção de seu Filho e a honra do mesmo. Ou seja: à dificuldade que os adversários apresentam, ele combate com um argumento quase único. Em suma: “Afirma-se que em Adão todos pecaram e que em Cristo e por Cristo todos foram redimidos. E nestes ‘todos’, inclusive ela (=Maria). E respondo que sim, ela também, mas ela de modo distinto. Como filha e descendente de Adão, Maria deveria contrair o pecado de origem, mas perfeitamente redimida por Cristo, não incorreu nele. Quem atua mais perfeitamente? O médico que cura a ferida do filho caído ou o que, sabendo que seu filho irá passar por determinado local, se adianta e tira a pedra que provocará o tropeço? Sem dúvida alguma, o segundo. Cristo não seria perfeitíssimo redentor se, pelo menos em um caso, não redimisse da maneira mais perfeita possível. Pois bem; é possível prevenir a queda de alguém no pecado original. E se devia fazê-lo em algum caso, o fez no caso de sua Mãe”.

O beato Escoto vai aplicando o argumento ora a partir do ponto de vista de Cristo como Redentor perfeitíssimo, ora a partir do ponto de vista do pecado, ora a partir do ponto de vista de Maria, chegando sempre à mesma conclusão. Seu argumento restou sintetizado para a posterioridade com aquelas quatro celebérrimas palavras: Potuit, decuit, ergo fecit, – podia, convinha, logo fez! – Podia fazer sua Mãe Imaculada, convinha fazê-lo por sua própria honra, logo fez!

De tudo o quanto se deduz, escreve o Doutor Alastruey, em sua conhecida “Mariologia”:

1. Que o Doutor Mariano distingue perfeitissimamente entre a lei universal do pecado original, que abrange Maria, e a queda real. Isto é, entre o débito (como falam os teólogos) e a contração do pecado. Maria deveria contraí-lo por ser descendente de Adão, mas não o contraiu porque foi preservada. Por isso, sua preservação chama-se “privilégio”.

2. Que o Doutor Mariano concilia perfeitamente a preservação de Maria e sua dependência da Redenção de Cristo. Isto consegue fazer distinguindo entre a Redenção curativa e a preservativa. Esta última é, na sua opinião e diante do testemunho da razão, a redenção mais perfeita. Assim, Maria, em seu privilégio, longe de menosprezar a honra de Cristo, como se escapasse do seu influxo (como temiam os antigos), depende Dele de uma maneira mais brilhante e mais efetiva.

3. Finalmente, Escoto conseguiu pulverizar os principais argumentos da opinião contrária e esclarecer que nada podia ser deduzido dos dogmas da fé que fosse contrário à Imaculada Conceição de Maria.

As páginas do Doutor Mariano tornaram-se o arsenal para se buscar armas e argumentos em defesa deste privilégio mariano. Ao longo de tantos séculos de discussões científicas, chegou-se à definição dogmática sem que se pudesse acrescentar às suas páginas qualquer outra idéia, argumento ou distinção.

E para que não faltasse um testemunho contrário ao aguerrido defensor da Virgem, citamos o padre Gerardo Renier, que de inimigo doutrinal passou (como muitos ao longo da história do dogma) a adversário pessoal do beato Escoto, escrevendo a propósito de seus ensinamentos em Paris: “O primeiro semeador desta herética maldade (=a Imaculada Conceição) foi Juan Duns Escoto, da Ordem Franciscana”. Qualificação teológica que, como é evidente, foi profética. Nunca se viu jamais um punhado de lama atirado contra o adversário se transformar, durante o trajeto, num buquê de rosas e lírios…

V. ATÉ A DEFINIÇÃO DOGMÁTICA

a) Seguiram o beato Escoto, como é fácil de se supor, todos os franciscanos que o adotaram por mestre. Entre seus discípulos, podemos citar nomes ilustríssimos como Francisco Mayrón, Andrés de Neuchateu, Juan Basols etc. Toda a Ordem Franciscana em geral – escreve Campana em “Maria no Dogma Católico” – aceitou a doutrina de seu mestre, de forma que, em pouco tempo, a Imaculada Conceição foi chamada de “opinião franciscana”, nome com que foi designada até a definição dogmática.

b) Perdido o prestígio na Universidade de Paris, a corrente contrária apelou ao Papa João XXII em sua corte de Avignon. E apesar de o Pontífice estar em grave controvérsia com a Ordem Franciscana, em virtude das interpretações sobre a pobreza, através de um debate entre um franciscano e um dominicano, o Papa se enclinou pela corrente imaculista; como conclusão, ordenou celebrar a festividade na capela papal. A determinação de João XXII significou um passo decisivo para o triunfo da Imaculada. E aqui nos encontramos ainda em 1325, isto é, cerca de 20 anos depois da defesa de Escoto.

c) Um incidente que revela os sentimentos e a conduta de toda uma geração se deu em 1335. João de Monzão recebeu a investidura de Doutor. Em sua primeira lição magisterial sustentou quatro proposições contrárias à Imaculada Conceição. A Universidade as reprovou e confiou [a investidura] ao franciscano João Vital, que as refutara, como fez em sua “Defensorium pro I. M. Conceptione”. Confirmada a sentença ou qualificação da Universidade pelo bispo de Paris, o dominicano apelou para o Papa, perante o qual triunfou novamente a corrente imaculista. “Porém, a luta tinha chegado ao seu auge” – escreve o pe. Sola, sj, em seu livro “A Imaculada Conceição”. Como Escoto tinha arrastado atrás de si toda a sua escola, Monzão arrastou também toda a escola tomista. E se os discípulos de Escoto formularam o voto de defender o privilégio até o sangue, os seus adversários formularam defender da mesma forma a doutrina de São Tomás sobre este tema.

d) Não é necessário prosseguir adiante n
o curso das discussões científicas, pois a seguir a corrente maculista vai perdendo terreno cada vez mais e sua atuação vai deixando de atrair interesse. Sabe-se que no Concílio da Basiléia travou-se um longo debate entre maculistas e imaculistas, triunfando estes últimos. Contudo, a decisão tomada pelo Concílio não teve valor, pois quando foi tomada o Concílio já não era canônico.

Perante Sisto IV (nos encontramos agora no século XV), se sustentou outro debate entre o dominicano Bandelli e o franciscano Francisco de Bréscia. A vitória deste último foi tão esmagadora, que a Assembléia se levantou aclamando-o como “Sansão”, nome com que ficou conhecido na História.

E de triunfo em triunfo chegamos ao Concílio de Trento que, ao falar da universalidade do pecado original, ainda que não defina o dogma da exceção de Maria, apresentou a doutrina nestas palavras: “Declara, no entanto, este Santo Concílio, que ao falar do pecado original não tenta compreender a bem-aventurada e imaculada Virgem Maria, devendo-se observar, quanto a isto, o que foi estabelecido por Sisto IV”.

e) As palavras do Concílio foram decisivas para a expansão da doutrina imaculista e não tardou muito para se tornar opinião universal.

Não se encontrará uma Ordem religiosa que não tenha apresentado nomes ilustres de teólogos favorecendo a prerrogativa da Virgem, contribuindo para o seu triunfo. A Companhia de Jesus pôde apresentar Diego Laínez, Alfonso Salmerón, Toledo, Suárez, São Pedro Canísio, São Roberto Belarmino e muitos outros. A gloriosa Ordem Dominicana, o célebre Ambrosio Catarino, Tomás Campanella, João de Sâo Tomás, São Vicente Férrer, São Luís Beltrão e São Pio V papa etc. A Ordem Carmelita, já em 1306, determinou a celebração da festa no Capítulo Geral reunido na França. Os Agostinianos defenderam também a prerrogativa da Virgem logo em 1350.

f) A contribuição da Espanha no triunfo do dogma da Imaculada Conceição mereceria um capítulo à parte, certamente bem longo e glorioso, mas isto nos afastaria do caráter puramente doutrinário que possui estas breves notas históricas. Recordemos apenas, como significativos, os pedidos dos reis aos Sumos Pontífices requerendo a definição do dogma. Por isso, Pio IX quis que o monumento à Imaculada, após seu definitivo oráculo, fosse erguido na praça romana de Espanha.

VI. A DEFINIÇÃO DOGMÁTICA DA IMACULADA

a) O Papa Pio IX, de saudosa memória, decidiu dar o último passo para a suprema exaltação da Virgem, definindo o dogma de sua Imaculada Conceição. Conta-se que nas tristíssimas circunstâncias pelas quais atravessava a Igreja, em um dia de grande abatimento, o Pontífice disse ao Cardeal Lambruschini: “Não encontro solução humana para esta situação”, ao que o Cardeal respondeu: “Pois busquemos uma solução divina: defina Sua Santidade o dogma da Imaculada Conceição”.

Mas, para dar este passo, o Pontífice quis conhecer a opinião e o parecer de todos os bispos; porém, ao mesmo tempo, parecia-lhe impossível reunir um Concílio para formular a consulta. A Providência forneceu-lhe a solução. Uma solução simples, porém eficaz e definitiva. São Leonardo de Porto Maurício tinha escrito uma carta ao Papa Bento XIV insinuando que era possível conhecer a opinião do episcopado consultando-o por correspondência epistolar… A carta de São Leonardo foi descoberta nas circunstância em que Pio IX tentava solucionar o problema e foi como que o “ovo de Colombo” (desculpem a frase!), de modo que o Papa pôde exclamar: “Encontrei a solução!”. Em pouco tempo pôde conhecer o parecer de toda a hierarquia. Um certo bispo hispano-americano respondeu-lhe: “Nós, americanos, com fé católica recebemos a crença na preservação de Maria”. Formoso louvor à ação e zelo da nação espanhola.

b) E no dia 8 de dezembro de 1854, rodeado solenemente por 92 bispos, 54 arcebispos, 43 cardeais e uma imensa multidão, Pio IX definiu como dogma de fé o grande privilégio da Virgem:


Doctrinam, quæ tenet, beatissimam Virginem Mariam in primo instanti suæ conceptionis fuisse singulari omnipotentis Dei gratia et privilegio, intuitu meritorum Christi Jesu Salvatoris humani generis, ab omni originalis culpæ labe præservatam immunem, esse a Deo revelatam atque idcirco ab omnibus fidelibus firmiter constanterque credendam.

“A doutrina que ensina que a bem-aventurada Virgem Maria foi preservada imune de toda mancha de pecado original no primeiro instante de sua concepção, por singular graça e privilégio de Deus todo-poderoso, em atenção aos méritos de Jesus Cristo, Salvador do gênero humano, é revelada por Deus e por isso deve-se crer firme e constantemente por todos os fiéis”.


Estas palavras, embora pareçam tão simples, foram selecionadas uma a uma, mantendo sintonia com os séculos. São eco autorizado e definitivo da voz-solo que cantava o “comum sentir” da Igreja ainda durante os quentes debates dos teólogos da Idade Média.

A virtude da esperança

[Extraído da Audiência Geral do Papa João Paulo I, 20 de setembro de 1978]

Dante, no seu Paraíso (Cantos 24, 25 e 26), imaginou apresentar-se a um exame sobre o cristianismo. Funcionava uma comissão categorizada. “Tens fé?”, pergunta-lhe, primeiro, São Pedro. “Tens esperança?”, continua São Tiago. “Tens caridade?”, termina São João. “Sim — responde Dante — tenho fé, tenho esperança, tenho caridade”. Demonstra-o e fica aprovado por unanimidade.

Disse eu que é obrigatória. Mas não é, por isto, a esperança feia ou dura: pelo contrário, quem a vive viaja num clima de -confiança e de entrega, dizendo com o salmista: “Senhor, tu és a minha rocha, o meu escudo, a minha fortaleza, o meu refúgio, a minha lâmpada, o meu pastor, a minha salvação. Mesmo que um exército se formasse contra mim, o meu coração não temeria; e se contra mim se levantar a batalha, mesmo então terei confiança”.

Direis: Mas não é exageradamente entusiasta este salmista? lá possível que a ele as coisas tenham sempre corrido tão bem? Não, não lhe correram sempre bem. Sabe e diz que os maus são muitas vezes afortunados e os bons oprimidos. Disto se lamentou até por vezes dirigindo-se ao Senhor; chegou a dizer: “Porque dormes, Senhor? Porque te calas? Desperta, ouve-me, Senhor”. Mas a sua esperança manteve-se firme, inabalável. A ele, e a todos quantos esperam, se pode aplicar o que disse São Paulo de Abraão: acreditou esperando contra toda a esperança (Rom. 4, 18). Direis ainda: Mas como pode acontecer tal coisa? Acontece, porque nos apegamos a três verdades: Deus é omnipotente, Deus ama-me imenso e Deus é fiel às promessas. E é Ele, o Deus da misericórdia, que acende em mim a confiança; por isso não me sinto nem só, nem inútil, nem abandonado, mas integrado num destino de salvação, que um dia virá a levar-me ao Paraíso. Aludi aos Salmos. A mesma confiança segura vibra nos livros dos Santos. Gostaria que lêsseis uma homilia feita por Santo Agostinho no dia de Páscoa sobre o Aleluia. O verdadeiro Aleluia — diz aproximadamente — cantá-lo-emos no Paraíso. Este será o Aleluia do amor pleno; o de agora, é o Aleluia do amor faminto, isto é, da esperança.


Dirá alguém: Mas se eu sou pobre pecador? Respondo-lhe como respondi a uma senhora desconhecida, que se confessava a mim já lá vão muitos anos. Estava desanimada porque — segundo afirmava — tinha tido uma vida moralmente borrascosa. Dá-me licença de lhe perguntar: quantos anos tem? — 35. — 35! Mas pode viver outros 40 ou 50, e fazer ainda um bem muito grande. Assim, arrependida como está, em vez de pensar no passado, projecte-se no futuro e renove, com a ajuda de Deus, a sua vida. Citei naquela ocasião São Francisco de Sales, que fala das “nossas caras imperfeições”. Expliquei: Deus detesta as faltas, porque são faltas. Mas, por outro lado, em certo sentido, ama as faltas, enquanto Lhe dão ensejo de mostrar a sua misericórdia e a nós o de permanecermos humildes e compreendermos as faltas do próximo e delas nos compadecermos.


Nem todos partilham esta minha simpatia pela esperança. Nietzche, por exemplo, chama-lhe “virtude dos fracos”. Segundo ele, faz do cristão um inútil, um solitário, um resignado e um estranho ao progresso do mundo. Outros falam de “alienação”, dizendo que afasta os cristãos da luta em favor da promoção humana. Todavia “a mensagem cristã — disse o Concílio não afasta os homens da construção do mundo… impõe-lhes, ao contrário, um dever mais rigoroso” (Gaudium et Spes, 34. Cfr. nn. 39 e 57; e Mensagem ao Mundo dos Padres Conciliares, de 20 de Outubro de 1962).


Têm surgido de vez em quando no decurso dos séculos afirmações e tendências de cristãos demasiado pessimistas quanto ao homem. Mas tais afirmações foram desaprovadas pela Igreja e esquecidas graças a uma falange de santos alegres e activos, graças ao humanismo cristão, aos mestres de ascética que Saint-Beuve chamou “les doux” e graças ainda a uma teologia compreensiva. São Tomás de Aquino, por exemplo, coloca entre as virtudes a iucunditas ou seja a capacidade de converter num sorriso alegre — na medida e no modo conveniente — as coisas ouvidas e vistas (Cf. 2.2ae, q. 168, a. 2). Jucundo deste modo — explicava aos meus alunos — foi aquele pedreiro irlandês, que se precipitou do andaime e quebrou as pernas. Levado ao hospital, vieram o médico e a Irmã enfermeira. “Pobrezinho — disse esta última feriu-se muito caindo”. Replicou o ferido: “Madre, não foi precisamente caindo, mas chegando ao chão é que me feri”. Declarando ser virtude gracejar e fazer sorrir, São Tomás encontrava-se de acordo com a “alegre nova” pregada por Cristo, com a hilaritas recomendada por Santo Agostinho. Vencia o pessimismo, revestia de alegria a vida cristã, convidava-nos a tomar “animo também com os gozos sãos e puros que se nos deparam no caminho.

Em Ostia, à beira-mar, numa famosa conversa, Agostinho e Mónica, “esquecidos do passado e voltados para o futuro, perguntavam-se que viria a ser a vida eterna” (Confissões IX, n. 10.). Tal é a esperança cristã; a esta se referia o Papa João e a esta nos referimos nós, quando, com o catecismo, oramos: “Meu Deus, espero da vossa bondade… a vida eterna e as graças necessárias para a merecer com as boas obras, que eu devo e quero fazer. Meu Deus, não fique eu confundido eternamente”.

10 de novembro-São Leão Magno

 [Abaixo uma Audiência do Santo Padre, Bento XVI, refletindo sobre a figura de São Leão Magno, e logo abaixo um de seus ensinamentos]

Quarta-feira, 5 de Março de 2008


São Leão Magno
Queridos irmãos e irmãs!
Prosseguindo o nosso caminho entre os Padres da Igreja, verdadeiros astros que brilham de longe, no nosso encontro de hoje falamos sobre a figura de um Papa, que em 1754 foi proclamado por Bento XIV Doutor da Igreja: trata-se de São Leão Magno. Como indica o apelativo que depressa lhe fora atribuído pela tradição, ele foi verdadeiramente um dos maiores Pontífices que honraram a Sede romana, contribuindo muitíssimo para fortalecer a sua autoridade e prestígio. Primeiro Bispo de Roma com o nome de Leão, adoptado depois por outros doze Sumos Pontífices, é também o primeiro Papa do qual chegou até nós a pregação, por ele dirigida ao povo que o circundava durante as celebrações. É espontâneo pensar nele também no contexto das actuais audiências gerais de quarta-feira, encontros que nos últimos decénios se tornaram para o Bispo de Roma uma forma habitual de encontro com os fiéis e com muitos peregrinos provenientes de tantas partes do mundo.
Leão era originário da Túscia. Tornou-se diácono da Igreja de Roma por volta do ano 430, e com o tempo adquiriu nela uma posição de grande realce. Este papel de relevo levou em 440 Gala Placídia, que naquele momento regia o Império do Ocidente, a enviá-lo para a Gália a fim de resolver uma situação difícil. Mas no Verão daquele ano o Papa Sisto III cujo nome está ligado aos magníficos mosaicos de Santa Maria Maior faleceu, e na sucessão foi eleito precisamente Leão, que recebeu a notícia quando estava a desempenhar a sua missão de paz na Gália. Tendo regressado a Roma, o novo Papa foi consagrado a 29 de Setembro de 440. Tinha assim início o seu pontificado, que durou mais de 21 anos, e que foi sem dúvida um dos mais importantes na história da Igreja. Quando faleceu, a 10 de Novembro de 461, o Papa foi sepultado junto do túmulo de São Pedro. As suas relíquias estão conservadas ainda hoje num dos altares da Basílica Vaticana.
Os tempos nos quais viveu o Papa Leão eram muito difíceis: o repetir-se das invasões barbáricas, o progressivo enfraquecimento no Ocidente da autoridade imperial e uma longa crise social tinham imposto que o Bispo de Roma como teria acontecido com evidência ainda maior um século e meio mais tarde, durante o pontificado de Gregório Magno assumisse um papel de relevo também nas vicissitudes civis e políticas. Isto não deixou, obviamente, de aumentar a importância e o prestígio da Sé romana. Permaneceu célebre sobretudo um episódio da vida de Leão. Ele remonta a 452, quando o Papa em Mântua, juntamente com uma delegação romana, encontrou Átila, chefe dos Unos, e o dissuadiu de prosseguir a guerra de invasão com a qual já tinha devastado as regiões norte-orientais da Itália. E assim salvou o resto da Península. Este importante acontecimento tornou-se depressa memorável, e permanece como um sinal emblemático da acção de paz desempenhada pelo Pontífice. Infelizmente não foi de igual modo positivo, três anos mais tarde, o êxito de outra iniciativa papal, contudo sinal de uma coragem que ainda nos faz admirar: de facto, na Primavera de 455 Leão não conseguiu impedir que os Vândalos de Genserico, tendo chegado às portas de Roma, invadissem a cidade indefesa, que foi saqueada durante duas semanas. Contudo o gesto do Papa que, inerme e circundado pelo seu clero, foi ao encontro do invasor para implorar que se detivesse impediu pelo menos que Roma fosse incendiada e obteve que do terrível saque fossem poupadas as Basílicas de São Pedro, de São Paulo e de São João, nas quais se refugiou uma parte da população aterrorizada.
Conhecemos bem a acção do Papa Leão, graças aos belíssimos sermões deles estão conservados quase cem num latim maravilhoso e claro e graças às suas cartas, cerca de cento e cinquenta. Nestes textos o Pontífice manifesta-se em toda a sua grandeza, dirigido ao serviço da verdade na caridade, através de uma prática assídua da palavra, que o mostra ao mesmo tempo teólogo e pastor. Leão Magno, constantemente solícito pelos seus fiéis e pelo povo de Roma, mas também pela comunhão entre as diversas Igrejas e pelas suas necessidades, foi defensor e promotor incansável da primazia romana, propondo-se como herdeiro autêntico do apóstolo Pedro: disto se mostram bem conscientes os numerosos Bispos, em grande parte orientais, reunidos no Concílio de Calcedónia.
Tendo sido realizado em 451, com os trezentos e cinquenta Bispos que nele participaram, este Concílio foi a mais importante assembleia até então celebrada na história da Igreja. Calcedónia representa a meta certa da cristologia dos três Concílios ecuménicos precedentes: o de Niceia de 325, o de Constantinopla de 381 e o de Éfeso de 431. Já no século VI estes quatro Concílios, que resumem a fé da Igreja antiga, foram de facto comparados com os quatro Evangelhos: é quanto afirma Gregório Magno numa famosa carta (I, 24), na qual declara “acolher e venerar, como os quatro livros do Santo Evangelho, os quatro Concílios”, porque sobre eles explica ainda Gregório “como sobre uma pedra quadrada se eleva a estrutura da santa fé”. O Concílio de Calcedónia ao recusar a heresia de Eutiques, que negava a verdadeira natureza humana do Filho de Deus afirmou a união na sua única Pessoa, sem confusão e sem separação, das duas naturezas humana e divina.
Esta fé em Jesus Cristo verdadeiro Deus e verdadeiro homem era confirmada pelo Papa num importante texto doutrinal dirigido ao Bispo de Constantinopla, o chamado Tomo a Flaviano, que, lido em Calcedónia, foi recebido pelos Bispos presentes com uma eloquente aclamação, da qual é conservada notícia nas actas do Concílio: “Pedro falou pela boca de Leão”, prorromperam em uníssono os Padres conciliares. Sobretudo desta intervenção, e de outras feitas durante a controvérsia cristológica daqueles anos, sobressai com evidência como o Papa sentia com particular urgência as responsabilidades do Sucessor de Pedro, cujo papel é único na Igreja, porque “a um só apóstolo está confiado o que a todos os apóstolos é comunicado”, como afirma Leão num dos seus sermões para a festa dos santos Pedro e Paulo (83, 2). E o Pontífice soube exercer estas responsabilidades, no Ocidente e no Oriente, intervindo em diversas circunstâncias com prudência, firmeza e lucidez através dos seus
escritos e mediante os seus legados. Mostrava deste modo como a prática da primazia romana fosse necessária então, como também hoje, para servir eficazmente a comunhão, característica da única Igreja de Cristo.
Consciente do momento histórico no qual vivia e da transformação que se estava a verificar num período de profunda crise da Roma pagã para a cristã Leão Magno soube estar próximo do povo e dos fiéis com a acção pastoral e com a pregação. Incentivou a caridade numa Roma provada pelas carestias, pela afluência dos prófugos, pelas injustiças e pela pobreza. Contrastou as superstições pagãs e a acção dos grupos maniqueus. Relacionou a liturgia com a vida quotidiana dos cristãos: por exemplo, unindo a prática do jejum com a caridade e com a esmola sobretudo por ocasião das Quatro têmporas, que marcam no decorrer do ano a mudança das estações. Em particular Leão Magno ensinou aos seus fiéis e ainda hoje as suas palavras são válidas para nós que a liturgia cristã não é a recordação de acontecimentos do passado, mas a actualização de realidades invisíveis que agem na vida de cada um. É quanto ele ressalta num sermão (64, 1-2) a propósito da Páscoa, que deve ser celebrada em todos os tempos do ano “não tanto como algo do passado, mas como um acontecimento do presente”. Tudo isto se insere num projecto determinado, insiste o santo Pontífice: de facto, como o Criador animou com o seu sopro da vida racional o homem plasmado com o pó da terra, depois do pecado original, enviou o seu Filho ao mundo para restituir ao homem a dignidade perdida e destruir o domínio do diabo com a vida nova da graça.
Eis o mistério cristológico para o qual São Leão Magno, com a sua carta ao Concílio de Éfeso, deu uma contribuição eficaz e essencial, confirmando para todos os tempos através desse Concílio quanto disse São Pedro em Cesareia de Filipe. Com Pedro e como Pedro confessou: “Tu és Cristo, o Filho do Deus vivo”. E por isso Deus e Homem juntos, “não alheio ao género humano, mas contrário ao pecado” (cf. Serm. 64). Em virtude desta fé cristológica ele foi um grande portador de paz e de amor. Mostra-nos assim o caminho: na fé aprendemos a caridade. Aprendemos portanto com São Leão Magno a crer em Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, e a realizar esta fé todos os dias na acção pela paz e no amor ao próximo.

Das Cartas de São Leão Magno, papa
(Ep. 31, 2-3: PL 54, 791-793) (Séc. V)

O mistério de nossa reconciliação

De nada serve afirmar que nosso Senhor, filho da Virgem Maria, é verdadeiro e perfeito homem, se não se acredita que Ele também pertence a essa descendência proclamada no Evangelho.

Escreve São Mateus: “Livro da origem de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão”. (Mt 1,1) E, a seguir, apresenta a série de gerações desde os primórdios da humanidade até José, com quem estava desposada a Mãe do Senhor.

São Lucas, porém, percorrendo em sentido inverso a ordem dos descendentes, chega ao começo do gênero humano, para mostrar que o primeiro e o último Adão têm a mesma natureza.

Com efeito, seria possível à onipotência do Filho de Deus, para ensinar e justificar os homens, manifestar-se do mesmo modo que aparecera aos patriarcas e profetas, como, por exemplo, quando travou uma luta ou manteve uma conversa, ou quando aceitou os serviços da hospitalidade a ponto de tomar o alimento que lhe apresentaram.

Mas essas aparições eram imagens, sinais misteriosos, que anunciavam a realidade humana do Cristo, assumida da descendência daqueles antepassados.

Nenhuma daquelas figuras, entretanto, poderia realizar o mistério da nossa reconciliação, preparado desde a eternidade, porque o Espírito Santo ainda não tinha descido sobre a Virgem Maria, nem o poder do Altíssimo a tinha envolvido com a sua sombra; a Sabedoria eterna não edificara ainda a sua casa no seio puríssimo de Maria para que o Verbo se fizesse homem; o Criador dos tempos ainda não tinha nascido no tempo, unindo a natureza divina e a natureza humana numa só pessoa, de modo que aquele por quem tudo foi criado fosse contado entre as suas criaturas.

Se o homem novo, revestido de uma carne semelhante à do pecado (cf. Rm 8,3), não tivese assumido a nossa condição, envelhecida pelo pecado; se ele, consubstancial ao Pai, não se tivesse dignado ser também consubstancial à Mãe e unir a si nossa natureza, com exceção do pecado, a humanidade teria permanecido cativa sob o jugo do demônio; e não poderíamos nos beneficiar do triunfo do Vencedor, se esta vitória fosse obtida numa natureza diferente da nossa.

Dessa admirável união, brilhou para nós o sacramento da regeneração, para que renascêssemos espiritualmente pelo mesmo Espírito por quem o Cristo foi concebido e nasceu. Por isso diz o Evangelista, referindo-se aos que crêem: Estes não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus mesmo (Jo 1,13).