Deus não se limitou a inclinar o olhar para baixo

Papa na Santa Missa de Natal de 2010

“Na verdade, as palavras do rito da coroação em Israel não passavam de palavras rituais de esperança, que de longe previam um futuro que haveria de ser dado por Deus. Nenhum dos reis, assim homenageados, correspondia à sublimidade de tais palavras. Neles, todas as expressões sobre a filiação de Deus, sobre a entronização na herança dos povos, sobre o domínio das terras distantes (Sal 2, 8 ) permaneciam apenas presságio de um futuro – como se fossem painéis sinalizadores da esperança, indicações apontando para um futuro que então era ainda inconcebível. Assim o cumprimento da palavra, que tem início na noite de Belém, é ao mesmo tempo imensamente maior e – do ponto de vista do mundo – mais humilde do que a palavra profética deixava intuir. É maior, porque este menino é verdadeiramente Filho de Deus, é verdadeiramente ‘Deus de Deus, Luz da Luz, gerado, não criado, consubstancial ao Pai’. Fica superada a distância infinita entre Deus e o homem. Deus não Se limitou a inclinar o olhar para baixo, como dizem os Salmos; Ele ‘desceu’ verdadeiramente, entrou no mundo, tornou-Se um de nós para nos atrair a todos para Si. Este menino é verdadeiramente o Emanuel, o Deus conosco. O seu reino estende-se verdadeiramente até aos confins da terra. Na imensidão universal da Sagrada Eucaristia, Ele verdadeiramente instituiu ilhas de paz. Em todo o lado onde ela é celebrada, temos uma ilha de paz, daquela paz que é própria de Deus. Este menino acendeu, nos homens, a luz da bondade e deu-lhes a força para resistir à tirania do poder. Em cada geração, Ele constrói o seu reino a partir de dentro, a partir do coração. Mas é verdade também que ‘o bastão do opressor’ não foi quebrado. Também hoje marcha o calçado ruidoso dos soldados e temos ainda incessantemente a ‘veste manchada de sangue’ (Is 9, 3-4). Assim faz parte desta noite o júbilo pela proximidade de Deus. Damos graças porque Deus, como menino, Se confia às nossas mãos, por assim dizer mendiga o nosso amor, infunde a sua paz no nosso coração. Mas este júbilo é também uma prece: Senhor, realizai totalmente a vossa promessa. Quebrai o bastão dos opressores. Queimai o calçado ruidoso. Fazei com que o tempo das vestes manchadas de sangue acabe. Realizai a promessa de ‘uma paz sem fim’ (Is 9, 6). Nós Vos agradecemos pela vossa bondade, mas pedimos-Vos também: mostrai a vossa força. Instituí no mundo o domínio da vossa verdade, do vosso amor – o ‘reino da justiça, do amor e da paz’.”

“‘Maria deu à luz o seu filho primogênito’ (Lc 2, 7). Com esta frase, São Lucas narra, de modo absolutamente sóbrio, o grande acontecimento que as palavras proféticas, na história de Israel, tinham com antecedência vislumbrado. Lucas designa o menino como ‘primogênito’. Na linguagem que se foi formando na Sagrada Escritura da Antiga Aliança, ‘primogênito’ não significa o primeiro de uma série de outros filhos. A palavra ‘primogênito’ é um título de honra, independentemente do fato se depois se seguem outros irmãs e irmãs ou não. Assim, no Livro do Êxodo, Israel é chamado por Deus ‘o meu filho primogênito’ (Ex 4, 22), exprimindo-se deste modo a sua eleição, a sua dignidade única, o particular amor de Deus Pai. A Igreja nascente sabia que esta palavra ganhara uma nova profundidade em Jesus; que n’Ele estão compendiadas as promessas feitas a Israel. Assim a Carta aos Hebreus chama Jesus ‘o primogênito’ simplesmente para O qualificar, depois das preparações no Antigo Testamento, como o Filho que Deus manda ao mundo (cf. Heb 1, 5-7). O primogênito pertence de maneira especial a Deus, e por isso – como sucede em muitas religiões – devia ser entregue de modo particular a Deus e resgatado com um sacrifício de substituição, como São Lucas narra no episódio da apresentação de Jesus no templo. O primogênito pertence a Deus de modo particular, é por assim dizer destinado ao sacrifício. No sacrifício de Jesus na cruz, realiza-se de uma forma única o destino do primogênito. Em Si mesmo, Jesus oferece a humanidade a Deus, unindo o homem e Deus de uma maneira tal que Deus seja tudo em todos. Paulo, nas Cartas aos Colossenses e aos Efésios, ampliou e aprofundou a ideia de Jesus como primogênito: Jesus – dizem-nos as referidas Cartas – é o primogênito da criação, o verdadeiro arquétipo segundo o qual Deus formou a criatura-homem. O homem pode ser imagem de Deus, porque Jesus é Deus e Homem, a verdadeira imagem de Deus e do homem. Ele é o primogênito dos mortos: dizem-nos ainda aquelas Cartas. Na Ressurreição, atravessou o muro da morte por todos nós. Abriu ao homem a dimensão da vida eterna na comunhão com Deus. Por fim, é-nos dito: Ele é o primogênito de muitos irmãos. Sim, agora Ele também é o primeiro de uma série de irmãos, isto é, o primeiro que inaugura para nós a vida em comunhão com Deus. Cria a verdadeira fraternidade: não a fraternidade, deturpada pelo pecado, de Caim e Abel, de Rômulo e Remo, mas a fraternidade nova na qual somos a própria família de Deus. Esta nova família de Deus começa no momento em que Maria envolve o “primogênito” em faixas e O reclina na manjedoura. Supliquemos-Lhe: Senhor Jesus, Vós que quisestes nascer como o primeiro de muitos irmãos, dai-nos a verdadeira fraternidade. Ajudai-nos a tornarmo-nos semelhantes a Vós. Ajudai-nos a reconhecer no outro que tem necessidade de mim, naqueles que sofrem ou estão abandonados, em todos os homens, o vosso rosto, e a viver, juntamente convosco, como irmãos e irmãs para nos tornarmos uma família, a vossa família.”

Bento XVI, Homilia na Santa Missa da Noite de Natal
24 de dezembro de 2010

LEIA DISCURSO DO PAPA AOS BISPOS DO PARÁ E AMAPÁ

Leia a seguir, na íntegra, o discurso de Bento XVI aos bispos do Pará e Amapá, seguido da saudação do Presidente do Regional Norte 2, Dom Jesus Maria Cizaurre, Bispo Prelado de Cametá.

Amados Irmãos no Episcopado,

A vossa visita ad Limina tem lugar no clima de louvor e júbilo pascal que envolve a Igreja inteira, adornada com os fulgores da luz de Cristo Ressuscitado. Nele, a humanidade ultrapassou a morte e completou a última etapa do seu crescimento penetrando nos Céus (cf. Ef 2, 6). Agora Jesus pode livremente retornar sobre os seus passos e encontrar-Se como, quando e onde quiser com seus irmãos. Em seu nome, apraz-me acolher-vos, devotados pastores da Igreja de Deus peregrina no Regional Norte 2 do Brasil, com a saudação feita pelo Senhor quando se apresentou vivo aos Apóstolos e companheiros: «A paz esteja convosco» (Lc 24,36).

A vossa presença aqui tem um sabor familiar, parecendo reproduzir o final da história dos discípulos de Emaús (cf. Lc 24, 33-35): viestes narrar o que se passou no caminho feito com Jesus pelas vossas dioceses disseminadas na imensidão da região amazônica, com as suas paróquias e outras realidades que as compõe como os movimentos e novas comunidades e as comunidades eclesiais de base em comunhão com o seu bispo (cf. Documento de Aparecida, 179). Nada poderia alegrar-me mais do que saber-vos em Cristo e com Cristo, como testemunham os relatórios diocesanos que me enviastes e que vos agradeço. Reconhecido estou de modo particular a Dom Jesus Maria pelas palavras que acaba de me dirigir em nome vosso e do povo de Deus a vós confiado, sublinhando a sua fidelidade e adesão a Pedro. No regresso, assegurai-o da minha gratidão por tais sentimentos e da minha Bênção, acrescentando: «Realmente o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão» (Lc 24,34).

Nesta aparição, palavras – se as houve – diluíram-se na surpresa de ver o Mestre redivivo, cuja presença diz tudo: Estive morto, mas agora vivo e vós vivereis por Mim (cf. Ap 1,18). E, por estar vivo e ressuscitado, Cristo pode tornar-Se «pão vivo» (Jo 6, 51) para a humanidade. Por isso sinto que o centro e a fonte permanente do ministério petrino estão na Eucaristia, coração da vida cristã, fonte e vértice da missão evangelizadora da Igreja. Podeis assim compreender a preocupação do Sucessor de Pedro por tudo o que possa ofuscar o ponto mais original da fé católica: hoje Jesus Cristo continua vivo e realmente presente na hóstia e no cálice consagrados.

Uma menor atenção que por vezes é prestada ao culto do Santíssimo Sacramento é indício e causa de escurecimento do sentido cristão do mistério, como sucede quando na Santa Missa já não aparece como proeminente e operante Jesus, mas uma comunidade atarefada com muitas coisas em vez de estar recolhida e deixar-se atrair para o Único necessário: o seu Senhor. Ora, a atitude primária e essencial do fiel cristão que participa na celebração litúrgica não é fazer, mas escutar, abrir-se, receber… É óbvio que, neste caso, receber não significa ficar passivo ou desinteressar-se do que lá acontece, mas cooperar – porque tornados capazes de o fazer pela graça de Deus – segundo «a autêntica natureza da verdadeira Igreja, que é simultaneamente humana e divina, visível e dotada de elementos invisíveis, empenhada na ação e dada à contemplação, presente no mundo e, todavia, peregrina, mas de forma que o que nela é humano se deve ordenar e subordinar ao divino, o visível ao invisível, a ação à contemplação, e o presente à cidade futura que buscamos» (Const. Sacrosanctum Concilium, 2). Se na liturgia não emergisse a figura de Cristo, que está no seu princípio e está realmente presente para a tornar válida, já não teríamos a liturgia cristã, toda dependente do Senhor e toda suspensa da sua presença criadora.

Como estão distantes de tudo isto quantos, em nome da inculturação, decaem no sincretismo introduzindo ritos tomados de outras religiões ou particularismos culturais na celebração da Santa Missa (cf. Redemptionis Sacramentum, 79)! O mistério eucarístico é um «dom demasiado grande – escrevia o meu venerável predecessor o Papa João Paulo II – para suportar ambigüidades e reduções», particularmente quando, «despojado do seu valor sacrificial, é vivido como se em nada ultrapassasse o sentido e o valor de um encontro fraterno ao redor da mesa» (Enc. Ecclesia de Eucharistia, 10). Subjacente a várias das motivações aduzidas, está uma mentalidade incapaz de aceitar a possibilidade duma real intervenção divina neste mundo em socorro do homem. Este, porém, «descobre-se incapaz de repelir por si mesmo as arremetidas do inimigo: cada um sente-se como que preso com cadeias» (Const. Gaudium et spes, 13). A confissão duma intervenção redentora de Deus para mudar esta situação de alienação e de pecado é vista por quantos partilham a visão deísta como integralista, e o mesmo juízo é feito a propósito de um sinal sacramental que torna presente o sacrifício redentor. Mais aceitável, a seus olhos, seria a celebração de um sinal que corresponda a um vago sentimento de comunidade.

Mas o culto não pode nascer da nossa fantasia; seria um grito na escuridão ou uma simples auto-afirmação. A verdadeira liturgia supõe que Deus responda e nos mostre como podemos adorá-Lo. «A Igreja pode celebrar e adorar o mistério de Cristo presente na Eucaristia, precisamente porque o próprio Cristo Se deu primeiro a ela no sacrifício da Cruz» (Exort. ap. Sacramentum caritatis, 14). A Igreja vive desta presença e tem como razão de ser e existir ampliar esta presença ao mundo inteiro.

«Fica conosco, Senhor!» (cf. Lc 24, 29): estão rezando os filhos e filhas do Brasil a caminho do XVI Congresso Eucarístico Nacional, daqui a um mês em Brasília, que deste modo verá o jubileu áureo da sua fundação enriquecido com o “ouro” da eternidade presente no tempo: Jesus Eucaristia. Que Ele seja verdadeiramente o coração do Brasil, donde venha a força para todos homens e mulheres brasileiros se reconhecerem e ajudarem como irmãos, como membros do Cristo total. Quem quiser viver, tem onde viver, tem de que viver. Aproxime-se, creia, entre a fazer parte do Corpo de Cristo e será vivificado! Hoje e aqui, tudo isto desejo à esperançosa parcela deste Corpo que é o Regional Norte 2, ao conceder a cada um de vós, extensiva a quantos convosco colaboram e a todos os fiéis cristãos, a Bênção Apostólica.

Homilia de Bento XVI no 5º ano da morte de João Paulo II

Fonte: Canção Nova

Venerados Irmãos no Episcopado e no sacerdócio,
queridos irmãos e irmãs!

Estamos reunidos em torno do altar, junto ao túmulo do Apóstolo Pedro, para oferecer o Sacrifício eucarístico em sufrágio da alma eleita do Venerável João Paulo II, no quinto aniversário da sua morte. Fazemo-lo com alguns dias de antecedência, pois o 2 de abril será, neste ano, a Sexta-feira Santa. Estamos, no entanto, dentro da Semana Santa, o contexto mais propício ao recolhimento e à oração, em que a liturgia nos faz reviver mais intensamente os últimos dias da vida terrena de Jesus. Desejo expressar minha gratidão a todos vós que estais participando desta Santa Missa. Saúdo cordialmente os Senhores Cardeais – especialmente o Arcebispo Stanislaw Dziwisz – os Bispos, os sacerdotes, os religiosos e as religiosas, bem como os peregrinos, especialmente os vindos da Polônia, e a tantos jovens e muitos fiéis que não quiseram perder esta celebração.

Na primeira leitura bíblica que foi proclamada, o profeta Isaías apresenta a figura de um “Servo de Deus”, que é, simultaneamente, o seu escolhido, no qual ele se compraz. O Servo agirá com firmeza inabalável, com uma energia que não desaparece até que tenha realizado a tarefa que lhe foi atribuída. No entanto, ele não terá à sua disposição aqueles meios humanos que parecem indispensáveis para implementar um plano tão grandioso. Ele se apresentará com a força da convicção, e será o Espírito que Deus colocou nele a dar-lhe a capacidade de agir com delicadeza e força, assegurando-lhe o sucesso final. Aquilo que o profeta inspirado disse sobre o Servo, o podemos aplicar ao amado João Paulo II: o Senhor chamou-o ao seu serviço e, confiando-lhe tarefas de sempre maior responsabilidade, também o acompanhou com sua graça e com a sua assistência contínua. Durante o seu longo Pontificado, ele se prodigalizou no proclamar o direito com firmeza, sem fraquezas ou hesitações, especialmente quando teve de lidar com a resistência, hostilidade e desperdício. Sabia ser conduzido pela mão do Senhor, e isso lhe permitiu exercer um ministério muito fecundo, pelo qual, mais uma vez, damos graças fervorosas a Deus.

O Evangelho há pouco proclamado nos conduz a Betânia, onde, como observa o Evangelista, Lázaro, Marta e Maria ofereceram um jantar ao Mestre (Jo 12, 1). Esse banquete na casa dos três amigos de Jesus é caracterizado pelo pressentimento da morte iminente: os seis dias antes da Páscoa, a sugestão do traidor Judas, a resposta de Jesus que lembra um dos atos piedosos da sepultura antecipados por Maria, o acenar de que nem sempre o terão com eles, o propósito de eliminar a Lázaro, em que se reflete a vontade de matar Jesus. Neste relato evangélico, há um gesto sobre o qual eu gostaria de focar a atenção: Maria de Betânia “levou trezentos gramas de perfume de nardo puro, muito precioso, com o qual ungiu os pés de Jesus, e após os enxugou com seus cabelos” (Jo 12, 3). O gesto de Maria é a expressão de fé e grande amor pelo Senhor: para ela, não é suficiente lavar os pés do Mestre com água, mas os unge com uma grande quantidade de perfume precioso, que – como contestará Judas – se teria podido vender por trezentos denários; não unge, pois, a cabeça, como era usual, mas os pés: Maria oferece a Jesus aquilo que tem de mais valiosos e com um gesto de devoção profunda. O amor não calcula, não mede, não se importa em gastar, não coloca obstáculos, mas se doa com alegria, procurando apenas o bem do outro, vence a mesquinhez, as mesquinharias, os ressentimentos, o fechamento que o homem carrega às vezes em seu coração.

Maria se coloca aos pés de Jesus em humilde atitude de serviço, como fará o Próprio Mestre durante a Última Ceia, quando – nos diz o quarto Evangelho – “levantou-se da mesa, depôs as suas vestes e, pegando duma toalha, cingiu-se com ela. Em seguida, deitou água numa bacia e começou a lavar os pés dos discípulos e a enxugá-los com a toalha com que estava cingido” (Jo 13,4-5), para que – disse – “como eu vos fiz, assim façais também vós” (v. 15): a regra da comunidade de Jesus é aquela do amor que sabe servir ao dom da vida. E o perfume se espalha: “toda a casa – anota o Evangelista – foi tomada pelo aroma do perfume” (Jo 12,3). O significado do gesto de Maria, que é resposta ao amor infinito de Deus, se difunde entre todos os convidados; todo o gesto de amor e devoção autêntica a Cristo não permanece um fato pessoal, não afeta somente a relação entre o indivíduo e o Senhor, mas afeta todo o corpo da Igreja, é contagioso: infunde amor, alegria e luz.

“Veio para o que era seu, mas os seus não o receberam” (Jo 1, 11): ao ato de Maria, se contrapõe a atitude e as palavras de Judas, que, sob a pretexto de ajuda aos pobres, esconde o egoísmo e a falsidade do homem fechado em si mesmo, acorrentado à ganância de posse, que não é envolta pelo bom perfume do amor divino. Judas calcula lá onde não se pode calcular, entra com espírito mesquinho onde o espaço é o do amor, do dom, da dedicação total. E Jesus, que até aquele momento havia permanecido em silêncio, falou em favor do gesto de Maria: “Deixai-a; ela guardou este perfume para o dia da minha sepultura” (Jo 12,7). Jesus compreende que Maria sentiu o amor de Deus e agora indica que sua “hora” está se aproximando, a “hora” em que o Amor encontrará sua expressão suprema no lenho da Cruz: o Filho de Deus doa a si mesmo para que o homem possa ter vida, cai no abismo da morte para levar o homem à altura de Deus, não tem medo de se humilhar “fazendo-se obediente até a morte, e morte de cruz” (Fil 2,8). Santo Agostinho, no Sermão em que comenta tal passagem do Evangelho, dirige a cada um de nós, com palavras insistentes, o convite a entrar neste circuito de amor, imitando o gesto de Maria e se colocando concretamente no seguimento de Jesus. Escreve Agostinho: “Toda alma que deseja ser fiel, una-se a Maria com perfume precioso para ungir os pés do Senhor […] Ungir os pés de Jesus: siga as pegadas do Senhor, levando uma vida digna. Enxugue-lhe os pés com os cabelos: se livre do supérfluo e dá-o aos pobres, e tereis enxugado os pés do Senhor” (In Ioh. evang., 50, 6).

Queridos irmãos e irmãs! Toda a vida do Venerável João Paulo II se desenvolveu sob o signo da caridade, da capacidade de doar-se generosamente, sem reservas, sem medidas, sem cálculos. Aquilo que o movia era o amor a Cristo, a quem tinha consagrado a vida, um amor superabundante e incondicional. E exatamente porque se aproximou sempre mais a Deus no amor, pôde fazer-se companheiro de viagem para o homem de hoje, espalhando no mundo o perfume do Amor de Deus. Quem teve a alegria de conhecê-lo e ser-lhe próximo, pôde tocar com a mão o quão viva era nele a certeza “de contemplar a bondade do Senhor na terra dos vivos”, como ouvimos no Salmo responsorial (26/27, 13); certeza que o acompanhou durante a sua existência e, em particular, se manifestou durante o último período da sua peregrinação nesta terra: a progressiva debilidade física, de fato, nunca afetou a sua fé rochosa, a sua luminosa esperança, sua caridade ardente. Se deixou consumir por Cristo, pela Igreja, pelo mundo todo: o seu foi um sofrimento vivido até o fim por amor e com amor.

Na Homilia pelo XXV aniversário de seu Pontificado, ele lembrou que sentiu forte em seu coração, no momento da eleição, a pe
rgunta de Jesus a Pedro: “Tu me amas? Me amas mais do que estes …?” (Jo 21, 15-16); e acrescentou: “Todos os dias se realiza, dentro do meu coração, o mesmo diálogo entre Jesus e Pedro. No espírito, fixo o olhar benevolente de Cristo ressuscitado. Ele, apesar de estar  consciente da minha fragilidade humana, encoraja-me a responder com confiança, como Pedro: ‘Sim, Senhor, Tu sabes que Te amo’ (Jo 21, 17). E me convida a assumir as responsabilidades que Ele mesmo me confiou” (16 de Outubro de 2003). São palavras cheias de fé e de amor, o amor de Deus, que tudo vence!

Na zakończenie pragnę pozdrowić obecnych tu Polaków. Gromadzicie się licznie wokół grobu Czcigodnego Sługi Bożego ze szczególnym sentymentem, jako córki i synowie tej samej ziemi, wyrastający w tej samej kulturze i duchowej tradycji. Życie i dzieło Jana Pawła II, wielkiego Polaka, może być dla Was powodem do dumy. Trzeba jednak byście pamiętali, że jest to również wielkie wezwanie, abyście byli wiernymi świadkami tej wiary, nadziei i miłości, jakich on nieustannie nas uczył. Przez wstawiennictwo Jana Pawła II niech was zawsze umacnia Boże błogosławieństwo.

[Por fim, desejo saudar os poloneses aqui presentes. Vos reunis em grande número em torno do túmulo do Venerável Servo de Deus com um sentimento especial, como filhas e filhos da mesma terra, crescido na mesma cultura e tradição espiritual. A vida e a obra de João Paulo II, grande polonês, possa ser para vós motivo de orgulho. No entanto, devemos lembrar que isso é também um grande apelo a serdes fiéis testemunhas da fé, da esperança e amor, que ele nos ensinou ininterruptamente. Pela intercessão de João Paulo II, vós tereis sempre a benção do Senhor.]

Enquanto prosseguimos a celebração eucarística, nos preparemos para viver os dias gloriosos da Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor, nos entreguemos com confiança – a exemplo do Venerável João Paulo II – à intercessão da Beata Virgem Maria, Mãe da Igreja, a fim de que nos sustente no compromisso de sermos, em toda a circunstância, apóstolos incansáveis do seu Filho divino e do seu Amor misericordioso. Amém!

Lectio Divina de Bento XVI com os seminaristas da Diocese de Roma

[Publico aqui a lectio divina de Bento XVI com os seminaristas da Diocese de Roma, no último dia 12. O tema escolhido pelo Papa foi o capítulo 15º do Evangelho de São João, sobre a Parábola da Videira].

Fonte: Canção Nova

Eminências,
Excelências,
queridos amigos,

todos os anos é, para mim, motivo de grande alegria estar com os seminaristas da Diocese de Roma, com os jovens que se preparam para responder ao chamado do Senhor para serem trabalhadores em sua vinha, sacerdotes do seu mistério. É a alegria de ver que a Igreja vive, que o futuro da Igreja está presente também em nossa terra, e também em Roma.

Neste Ano Sacerdotal, queremos estar particularmente atento às palavras do Senhor sobre o nosso serviço. A passagem do Evangelho lido há 

pouco fala indiretamente, mas profundamente, de nosso sacramento, de nosso chamado a estar na vinha do Senhor, a sermos servidores do seu mistério.

Nesta breve passagem, podemos encontrar algumas palavras-chave que oferecem uma indicação do anúncio que o Senhor quer fazer com este texto. “Permanecei”: nesta breve passagem, encontramos dez vezes a palavra “permanecer”; o novo mandamento: “Amai-vos uns aos outros, como eu vos amo”, “Não mais servos, mas amigos”, “Produzais fruto”; e, finalmente: “Peçais, orai e vos será dado, vos será dada a alegria”. Rezemos ao Senhor para que nos ajude a entrar no significado de Suas palavras, para que essas palavras possam penetrar em nossos corações e, assim, possam ser caminho e vida em nós, com nós e através de nós.

A primeira palavra é: “Permanecei em mim, no meu amor”. Permanecer no Senhor é fundamental como o primeiro tema deste trecho. Permanecer: onde? No amor, no amor de Cristo, no ser amado e no amar o Senhor. Todo o Capítulo 15 concretiza o local da nossa permanência, porque os primeiros oito versículos expõem e apresentam a parábola da videira: “Eu sou a videira; vós, os ramos”. A videira é uma imagem que encontramos, no Antigo Testamento, seja nos Profetas, seja nos Salmos e tem um dúplice significado: é uma parábola para o povo de Deus, que é a sua vinha. Ele plantou uma vinha no mundo, cultivou esta vinha, cultivou a sua videira, protegeu a sua vinha, e com que intenção? Naturalmente, com a intenção de encontrar fruto, de encontrar o dom precioso da uva, do bom vinho.

E assim aparece o segundo significado: o vinho é um símbolo, é uma expressão da alegria do amor. O Senhor criou o seu povo para encontrar a resposta de seu amor e, por isso, esta imagem da videira tem um significado esponsal, é uma expressão do fato de que Deus procura o amor da sua criatura, Ele quer entrar em uma relação de amor, em uma relação esponsal com o mundo através de seu povo eleito.

Mas eis que a história concreta é uma história de infidelidade: ao invés de uvas preciosas, são produzidas apenas pequenas “coisas não comestíveis”, não oferecem uma resposta a esse grande amor, não nasce aquela unidade, aquela união incondicional entre homem e Deus, na comunhão do amor. O homem se retira em si mesmo, quer ter-se apenas para si próprio, quer ser o seu próprio Deus, quer ter o mundo para si mesmo. E, assim, a videira fica devastada, o javali e todos os inimigos vêm e ela se torna um deserto.

Mas Deus não desiste: Deus encontra uma nova maneira para chegar até um amor gratuito, irrevogável, ao fruto desse amor, à uva verdadeira: Deus se faz homem, e assim Ele próprio se torna a raiz da videira, Ele torna-se a própria videira e, assim, a videira se torna indestrutível. Este povo de Deus não pode ser destruído, porque o próprio Deus entrou, se plantou nesta terra. O novo Povo de Deus é realmente fundado no próprio Deus, que se faz homem e, assim, chama-nos a encontrar n’Ele uma nova vida e nos convida a estar, a permanecer n’Ele.

Devemos lembrar também que, no capítulo 6 do Evangelho de João, encontramos o discurso sobre o pão, que se torna o grande discurso sobre o mistério eucarístico. Neste capítulo 15, temos o discurso sobre o vinho: o Senhor não fala explicitamente da Eucaristia, mas, naturalmente, dentro do mistério de vinho está a realidade de que Ele se faz fruto e vinho para nós, que seu sangue é o fruto do amor que nasce da terra para sempre e, na Eucaristia, o seu sangue se torna nosso sangue. Assim, somos colocados em relação com Deus no Filho e, na Eucaristia, torna-se concreta aquela grande realidade da vida em que nós somos os ramos unidos com o Filho e, assim, unidos com o amor eterno.

“Permanecei”: permanecer neste grande mistério, permanecer neste novo dom do Senhor, que nos fez povo em Si mesmo, em Seu Corpo e em Seu Sangue. Parece-me que é preciso meditar muito este mistério, o de que Deus se fez corpo, um conosco; Sangue, um conosco; que podemos permanecer – permanecendo neste mistério – em comunhão com Deus, nesta grande história de amor, que é a história da verdadeira felicidade. Meditando sobre este dom – Deus tornou-se um com todos nós e, ao mesmo tempo, faz-nos todos um só, uma videira – também temos de começar a rezar para que esse mistério penetre mais e mais em nossas mentes, nossos corações e cada vez mais sejamos capazes de ver e experimentar a grandeza do mistério e, assim, começar a realizar este imperativo: “Permanecei”.

Se continuarmos a ler esta passagem do Evangelho de João, encontramos também um segundo imperativo: “Permanecei” e “Observai os meus mandamentos”. “Observai” é apenas o segundo nível; o primeiro é aquele de “permanecer”, o nível ontológico, de que estejamos unidos com Ele, que se deu, por antecipação, a si próprio, deu-nos o seu amor, o fruto. Não somos nós que temos de produzir o grande fruto; o Cristianismo não é um moralismo, não somos nós que devemos fazer o que Deus espera do mundo, mas devemos, antes de tudo, entrar neste mistério ontológico: Deus se dá a Si mesmo. Seu ser, seu amar precede as nossas ações e, no contexto de seu Corpo, no contexto de estar n’Ele, identificarmo-nos com Ele, sermos cobertos por seu Sangue, possamos também nós agir com Cristo.

A ética é consequência do ser: primeiro o Senhor nos dá um novo ser, esse é o grande dom; o ser precede o agir e deste ser segue o agir, como uma realidade orgânica, para que aquilo que somos, possamos sê-lo também em nossa atividade. Assim, agradeçamos ao Senhor porque nos tirou do puro moralismo; não podemos obedecer a uma lei que está diante de nós, mas devemos agir de acordo com a nossa nova identidade. Assim, já não é mais uma obediência, uma coisa externa, mas uma realização do dom do novo ser.

Digo mais uma vez: agradeçamos ao Senhor porque Ele nos precede, dá o que precisamos para que possamos nos dar e ser, na verdade e na força de nosso novo ser, atores de sua realidade. Permenecer e observar: o observar é o sinal da permanência e o permanecer é o dom que Ele nos dá, mas que deve ser renovado todos os dias em nossas vidas.

Segue, pois, este novo mandamento: “Amai-vos uns aos outros, como eu vos amo”. Nenhum amor é mai
or do que este: “dar a vida por seus amigos”. O que significa dizer isso? Aqui também não se trata de um moralismo. Se poderia dizer: “Não é um novo mandamento; o mandamento de amar o próximo como a si mesmo já existe no Antigo Testamento”. Alguns dizem: “Tal amor é agora mais radicalizado; este amar o outro deve imitar a Cristo, que deu a si mesmo por nós; deve ser um amor heroico, até o dom de si mesmo”. Neste caso, porém, o cristianismo seria um moralismo heroico. É verdade que devemos chegar até esta radicalidade do amor, que Cristo nos mostrou e doou, mas também aqui a verdadeira novidade não é o que nós fazemos, a verdadeira novidade é o que Ele fez: o Senhor deu a si próprio, o Senhor nos deu a verdadeira novidade de sermos membros seus no seu próprio corpo, de sermos ramos da videira que é Ele. Então, a novidade é o dom, o grande dom, e do dom, da novidade do dom, segue então, como eu disse, a nova lei.

São Tomás de Aquino o diz de uma forma muito precisa quando escreve: “A nova lei é a graça do Espírito Santo” (Summa theologiae, i-iiae, q. 106, a. 1). A nova lei não é um outro comando mais difícil que os outros: a nova lei é um dom, a nova lei é a presença do Espírito Santo que nos foi dado no Sacramento do Batismo, na Confirmação, e nos é dado todos os dias na Santíssima Eucaristia. Os Padres aqui distinguiram “Sacramentum” e “exemplum”. “Sacramentum” é o dom do novo ser, e este dom também se torna um exemplo para o nosso agir, mas o “sacramentum” precede, e nós vivemos do sacramento. Aqui vemos a centralidade do sacramento, que é a centralidade do dom.

Prossigamos em nossa reflexão. O Senhor diz: “Eu não vos chamo mais servos, o servo não sabe aquilo que faz o seu patrão. Vos chamo de amigos, porque tudo o que eu ouvi de meu Pai vos dei a conhecer”. Não mais servos, que obedecem ao comando, mas amigos que se conhecem, que estão unidos na mesma vontade, no mesmo amor. A novidade então é que Deus se fez conhecer, que Deus se mostrou, que Deus não é mais o Deus desconhecido, procurado, mas não encontrado ou apenas adivinhado à distância. Deus se deixou ver: no rosto de Cristo, vemos Deus, Deus faz-se “conhecido” e, assim, se fez amigo. Pensemos em como, na história da humanidade, em todas as religiões arcaicas, sabe-se que há um Deus. Este é um conhecimento imerso no coração do homem, que Deus é um, os deuses não são “o” Deus. Mas este Deus permanece muito longe, parece que não se deixa conhecer, não se deixa amar, não é amigo, mas está longe. Por isso, as religiões se ocupam pouco deste Deus, a vida concreta se encarrega dos espíritos, da realidade concreta que enfrentamos todos os dias e com a qual temos de fazer as contas cotidianamente. Deus continua distante.

Então nós vemos o grande movimento da filosofia: pensamos em Platão, Aristóteles, que começam a intuir como este Deus é o agathòn, a Bondade em si, é o eros que move o mundo, mas isto continua a ser um pensamento humano, é uma ideia de Deus que se aproxima da verdade, mas é uma ideia nossa e Deus continua a ser o Deus escondido.

Não muito tempo atrás, me escreveu um professor de Regensburg, um professor de Física, que tinha lido com grande atraso o meu discurso à Universidade de Regensburg, para dizer que ele não poderia concordar com a minha lógica ou só poderia fazê-lo em parte. Ele disse: “Claro, me convence a idéia de que a estrutura racional do mundo exija uma razão criadora, a qual fez essa racionalidade que não pode ser explicada por si mesma”. E continuou: “Mas se pôde existir um demiurgo – assim ele se exprime -, um demiurgo me parece seguro do que Ele diz, não vejo que haja um Deus amoroso, bom, justo e misericordioso. Eu posso ver que há uma razão que precede a racionalidade do cosmo, mas o resto não”. E assim Deus lhe permanece oculto. É uma razão que precede as nossas razões, nossa racionalidade, a racionalidade do ser, mas não é um amor eterno, não é a grande misericórdia que nos dá a vida.

E aqui, em Cristo, Deus se manifestou na sua verdade plena, mostrou que é razão e amor, que a razão eterna é amor e por isso cria. Infelizmente, ainda hoje muitos vivem longe de Cristo, não conhecem o seu rosto e, assim, a eterna tentação do dualismo, que se esconde também na carta deste professor, é sempre renovada, o qual defende que não haja apenas um princípio bom, mas também um princípio cativo, um princípio do mal; que o mundo está dividido e são duas realidades igualmente fortes: e que o Deus bom é apenas uma parte da realidade. Mesmo na teologia, incluindo aquela católica, se difunde atualmente esta tese: Deus não é onipotente. Deste modo, se oferece uma apologia de Deus, que, assim, não seria responsável pelo mal que existe amplamente no mundo. Mas que apologia pobre! Um Deus não onipotente! O mal não está em suas mãos! E como podemos nós confiar neste Deus? Como poderíamos estar seguros no seu amor se esse amor termina onde começa o poder do mal?

Mas Deus não é mais desconhecido: no rosto de Cristo crucificado vemos Deus e vemos a verdadeira onipotência, não o mito da onipotência. Para nós, homens de poder, o poder é sempre idêntico à capacidade de destruir, de fazer o mal. Mas o verdadeiro conceito de onipotência que aparece em Cristo é exatamente o contrário: n’Ele, a verdadeira onipotência é amar até o ponto em que Deus possa sofrer: aqui ele mostra sua verdadeira onipotência, que pode chegar ao ponto de um amor que sofre nós. Assim, vemos que Ele é o verdadeiro Deus e o verdadeiro Deus, que é amor, é poder: o poder do amor. E nós podemos confiar-nos ao seu amor onipotente e viver nele, com este amor onipotente.

Penso que devemos sempre meditar de novo sobre essa realidade, agradecer a Deus porque se mostrou a nós, porque conhecemos o seu rosto, face a face; não é mais como Moisés, que podia ver apenas o dorso do Senhor. Essa é também uma bela ideia, da qual São Gregório de Nissa diz: “Ver apenas o dorso significa que devemos sempre voltar a Cristo”. Mas, ao mesmo tempo, Deus mostrou com Cristo a sua face, o seu rosto. O véu do templo é rasgado, é aberto, o mistério de Deus se torna visível. O primeiro mandamento, que exclui as imagens de Deus, porque essas só poderiam diminuir a realidade, mudou, é renovado, adquire outra forma. Podemos agora, no homem Cristo, ver o rosto de Deus, podemos ter ícones de Cristo e, assim, ver quem é Deus.

Eu penso que quem compreendeu isso, quem se deixou tocar por esse mistério, o de que Deus se revelou, rasgou o véu do templo, mostrou o seu rosto, encontra uma fonte de alegria permanente. Nós podemos dizer apenas: “Obrigado. Sim, agora sabemos quem Tu és, quem é Deus e como responder a Ti”. E penso que esta alegria de conhecer a Deus, que se revelou, mostrou o mais íntimo de seu ser, implica também na alegria de comunicá-Lo: quem compreendeu isso, vive tocado por esta realidade, deve fazer como fizeram os primeiros discípulos, que vão a seus amigos e irmãos dizendo: “Achamos aquele de quem os profetas falam. Ele está aqui”. A missionariedade não é algo externo acrescentado à fé, mas é o dinamismo da própria fé. Quem o viu, quem encontrou Jesus, deve andar ao encontro dos amigos e dizer a eles: “O encontramos, é Jesus, o Crucificado por nós”.

A seguir, o texto do Evangelho diz: “Eu vos escolhi e vos constituí para que vades e produzais fruto, e o vosso fruto permaneça”. Com isto, retornamos ao início, à imagem, à parábola da videira: ela existe para dar frutos. E qual é o fruto? Como dissemos, o fruto é o amor. No Antigo Testamento, com a Torá como a primeira etapa da autorrevelação de Deus, o fruto era compreendido como a justiça, aquele que vive segundo a Palavra de Deus, vive na vontade de Deus, e assim vive bem.

Isso permanece, mas ao mesmo tempo é tr
anscendido: a verdadeira justiça não consiste em uma obediência a certas regras, mas é o amor, o amor criativo, em que se encontra a riqueza, a abundância do bem. A abundância é uma das palavras-chave do Novo Testamento, Deus sempre dá a si mesmo em abundância. Para criar o homem, cria esta abundância de um cosmo imenso; para redimir o homem dá a si mesmo, na Eucaristia dá a si mesmo. E quem está unido com Cristo, que é ramo na videira, vive por essa lei, não pergunta: “Posso agora fazer isso ou não?”, “Devo fazer isso ou não?”, mas vive no entusiasmo do amor, que não pergunta: “isto é ainda necessário, ou proibido”, mas, simplesmente, na criatividade do amor, deseja viver com Cristo e por Cristo e dar tudo de si para Ele e, assim, entrar na alegria de produzir frutos. Tenhamos também em mente o que o Senhor diz: “Eu vos escolhi e vos constituí para que vades”: é o dinamismo que vive no amor de Cristo; ir, isto é, não permanecer sozinho para mim, ver a minha perfeição, garantir para mim a felicidade eterna, mas esquecer de mim mesmo, ir como Cristo andou, andar como Deus andou, de Sua Majestade imensa até a nossa pobreza, para encontrar frutos, para ajudar-nos, para nos dar a oportunidade de portar o fruto do amor verdadeiro. Quanto mais nós somos preenchidos com essa alegria de ter descoberto a face de Deus, tanto mais o entusiasmo do amor será real em nós e produzirá frutos.

E, finalmente, chegamos à última palavra desta passagem: “Eu assim vos constituí, a fim de que tudo quanto pedirdes ao Pai em meu nome, ele vos conceda”. Uma breve reflexão sobre a oração, que sempre nos surpreende de novo. Por duas vezes, neste capítulo 15, o Senhor diz: “O que pedirdes, vos dou”, e mais uma vez também no capítulo 16. E nós desejaríamos dizer: “Mas não, senhor, não é verdade.” Tantas orações boas e profundas das mães que rezam para o filho que está morrendo e não são atendidas, tantas orações para que aconteça uma coisa boa e o Senhor não responde. O que dizer dessa promessa? No capítulo 16, o Senhor nos oferece a chave para compreender: ele nos diz o quanto nos dá, o que é este tudo: a alegria – se alguém encontrou a alegria, encontrou tudo e vê tudo à luz do amor divino. Como São Francisco, que compôs o grande poema sobre a criação em uma situação desoladora, mas exatamente ali, ao lado do Senhor sofredor, redescobriu a beleza do ser, a bondade de Deus, e escreveu este grande poema.

Vale lembrar, ao mesmo tempo, também alguns versículos do Evangelho de Lucas, onde o Senhor, em uma parábola, fala de oração, dizendo: “Se vós, que sois mal, dais coisas boas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai do Céu dará aos seus filhos o Espírito Santo”. O Espírito Santo – no Evangelho de Lucas – é a alegria, no Evangelho de João é a mesma realidade: a alegria é o Espírito Santo e o Espírito Santo é a alegria, ou, em outras palavras, de Deus não invocamos qualquer coisa, pequena ou grande, de Deus invocamos o dom divino, o próprio Deus; esse é o grande dom que Deus nos dá: o próprio Deus. Neste sentido, temos de aprender a rezar, rezar para a grande realidade, a realidade divina, porque Ele nos dá a Si próprio, dá-nos o Seu Espírito para que possamos responder às exigências da vida e ajudar os outros no seu sofrimento. Evidentemente, o Pai Nosso nos ensina isso. Podemos orar por muitas coisas, em todas as nossas necessidades podemos rezar: “Ajude-me”. Isso é muito humano e Deus é humano, como vimos; por isso. é justo rezar a Deus para as pequenas coisas na nossa vida quotidiana.

Mas, ao mesmo tempo, a oração é um caminho, eu diria que uma escada: devemos aprender mais e mais para que coisas podemos rezar e para que coisas não podemos, porque são expressões do nosso egoísmo. Eu não posso orar por coisas que são nocivas aos outros, eu não posso orar por coisas que ajudam o meu egoísmo, minha soberba. Assim, o orar, diante dos olhos de Deus, torna-se um processo de purificação de nossos pensamentos, nossos desejos. Como disse o Senhor na parábola da videira: devemos ser podados, purificados, a cada dia; viver com Cristo, em Cristo, permanecer em Cristo, é um processo de purificação, e somente neste processo de lenta purificação, de libertação de nós mesmos e da vontade de ter somente para si, está o caminho verdadeiro da vida, se abre o caminho da alegria.

Como já mencionei, todas estas palavras do Senhor têm um pano de fundo sacramental. O pano de fundo fundamental para a parábola da videira é o Batismo: somos implantados em Cristo; e a Eucaristia: somos um pão, um corpo, um sangue, uma vida com Cristo. E também este processo de purificação tem um pano de fundo sacramental: o sacramento da Penitência, da Reconciliação, em que aceitamos esta pedagogia divina, que dia a dia, ao longo de uma vida, nos purifica e nos torna mais e mais verdadeiros membros de seu corpo. Deste modo, podemos aprender que Deus responde às nossas orações, muitas vezes responde com a sua bondade também às pequenas orações, mas muitas vezes também as corrige, as transforma e as guia para que sejamos finalmente e verdadeiramente ramos de seu Filho, da videira verdadeira, membros de seu Corpo.

Agradeçamos a Deus pela grandeza de seu amor, rezemos para que Ele nos ajude a crescer em seu amor, para que permaneçamos realmente em seu amor.