O Reino de Deus: Esperança dos homens

Neste último Domingo do Tempo Comum, a Liturgia cede lugar à Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo. Verdadeiramente nesta Festa litúrgica ouvimos novamente, com atenção, as palavras do Apocalipse: “Dignus est Agnus, qui occisus est, accipere virtutem, et sapientiam, et fortitudinem, et honorem. Ipsi gloria, et imperium in saecula saeculorum – O Cordeiro, que foi imolado, é digno de receber o poder, a divindade, a sabedoria, a força e a honra. A Ele, a glória e a o império por todos os séculos dos séculos” (5,12). Sim, rendamos glória ao Onipotente, Onipresente e Onisciente. Glória ao Rei e Senhor da História, que tudo governa e que é esperança imortal e perene dos homens.

No Antigo Testamento vemos também uma menção forte ao reinado. Diversos são os reis que se nos apresentam nas Escrituras e que, para o bem ou para o mal, exerceram sua influência na vida do povo. Reis pagãos, tementes a Deus, frágeis, fortes, guerreiros… enfim, todos com características diversas, mas que são inseridos nas narrações bíblicas.

No Novo Testamento essa figura do Rei não se torna menos presente, mas ao contrário, é atribuída ao próprio Cristo. Sabemos que em nenhum momento Jesus se auto intitulou Rei, mas manteve-se sempre na condição de servo. Por isso está escrito que Ele “esvaziou-se de sua glória e assumiu a condição de um escravo, fazendo-se aos homens semelhantes” (Fl 2,12). E aqui seríamos tentados a fazermos aquela mesma pergunta que outrora fizera Pilatos a Cristo e que volta a ressoar no evangelho de hoje: “Ergo Rex es tu? – Então, tu és Rei?” (Jo 18,37). Sim, olhando aquela condição em que se encontrava, envolto em correntes, flagelado, coroado de espinhos, na sua maior fragilidade, quais de nós ousaríamos dizer que era Ele rei? Quais de nós venceríamos a nossa racionalidade, a nossa mentalidade finita e cogitaríamos que Aquele que ali estava era realmente um Rei soberano? De onde era o seu Reino? Que Reino era este? 

Estas perguntas, de fato, não são fáceis de serem respondidas, nem mesmo em nossos dias. Em primeiro lugar precisaríamos ter em mente que a concepção de reino segundo a nossa mentalidade é totalmente divergente da ideia do que seria o Reino de Deus. É patente que aquele é um reino finito e este um reino perene; aquele um reino onde os ricos exploram e oprimem os desfavorecidos, este é o Reino dos pobres, não apenas os pobres materiais, mas sobretudo – e primeiramente! – os pobres de espírito; aquele é o reino da escravidão; este é o reino da liberdade, onde servir já não é um peso mas uma atitude corajosa e decidida de quem está livre para amar. E se um reinado tem a fisionomia do seu rei, este reinado tem a fisionomia do amor e da verdade, que residem totalmente em Cristo Jesus. Por isso a pergunta de Pilatos não encontra-se sem resposta, mas é dada por meio de uma palavra que resume todo o projeto salvífico de Cristo: “Ego in hoc natus sum et ad hoc veni in mundum, ut testimonium perhibeam veritati: omnis, qui est ex veritate, audit vocem meam – Eu para isso nasci e para isto vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade, ouve minha voz” (Jo 18,37).

O Reino de Deus (βασιλεία τοῦ θεοῦ) é também chamado de basiléia. Neste sentido é que ele tem simultaneamente três dimensões, sendo a primeira uma dimensão cristológica, ou seja, o próprio Jesus é o Reino de Deus, Ele mesmo se intitula, ainda que entrelinhas, como o auto-basiléia, Aquele pelo qual todos os homens podem ingressar se descobrirem o real sentido da verdade que reside n’Ele. 

Um segundo aspecto é o eclesial, o Reino de Deus prefigurado na Igreja. De fato, também ela é chamada a manifestar a sua continuidade entre os homens e a sua prefiguração nos tempos escatológicos. Por isso o Sagrado Concílio Vaticano II nos adverte: “Porque o reino de Cristo não é deste mundo (cfr. Jo. 18,36), a Igreja, ou seja o Povo de Deus, ao implantar este reino, não subtrai coisa alguma ao bem temporal de nenhum povo, mas, pelo contrário, fomenta e assume as qualidades, as riquezas, os costumes e o modo de ser dos povos, na medida em que são bons; e assumindo-os, purifica-os, fortalece-os e eleva-os” (Const. Dogm. Lumen Gentium, 13).

A terceira característica o Reino de Deus que cada homem traz consigo, refletido no seu caráter espiritual e moral. De fato, a vinda deste que pedimos no Pai nosso é já um prenúncio salutar daquele mesmo Reino anunciado por Nosso Senhor (Cf. Mt 25,31-46). Entretanto este anúncio não é uma reivindicação por parte de Cristo do seu reinado. É clarividente nos evangelhos que Ele nunca cedeu ao entusiasmo da população que queria proclamá-lo rei, sempre encontramo-lo a fugir destes e daqueles. 

No encontro com Natanael este faz o reconhecimento do poderio de Jesus: “Tu es o Rei de Israel” (Jo 1,49), mas Ele logo trata de volver os olhos do discípulo para a parusia do Filho do Homem, naquela visão magnífica dos anjos que sobem e descem ante o Todo-Poderoso. Depois vemos a multiplicação dos pães, quando a multidão se consolava na esperança de um alimento não pago e desejam arrebata-lo para fazê-lo rei, mas ele novamente escapa (Jo 6,15).

E deparamo-nos novamente com o Evangelho. Jesus não nega a titularidade de rei, mas reafirma que o seu reino não está solidificado neste mundo (cf. Jo 18,36). Não é um reino concorrente com César e tampouco almeja roubar a coroa de Herodes. Por isso, na cegueira da incredulidade, os chefes judeus  não compreendem estas palavras e colocam Jesus como um devaneador, que usa-se do povo para sentar-se no trono de César. 

Na cruz está Seu trono, ali Ele pode reinar para todo o mundo e lá acontece a plenitude da encarnação, ato máximo da sua vida terrena e prefiguração do seu advento definitivo, onde ao seu lado reinaremos na glória final.

Por fim, com o autor sagrado nós queremos reconhecer que “Jesus Cristo é a testemunha fiel, o primeiro a ressuscitar dentre os mortos, o soberano dos reis da terra. A Jesus, que nos ama, que por seu sangue nos libertou dos nossos pecados e que fez de nós um reino, sacerdotes para seu Deus e Pai, a ele a glória e o poder, em eternidade. Amém” (Ap 1,5-6).

Quem está mais próximo do Reino de Deus?

“Há teólogos que, à vista de todas as coisas terríveis que acontecem hoje no mundo, põem em dúvida se Deus não possa ser realmente omnipotente. Diversamente, nós professamos Deus, o Omnipotente, o Criador do céu e da terra. E sentimo-nos felizes e agradecidos por Ele ser omnipotente; mas devemos, ao mesmo tempo, dar-nos conta de que Ele exerce o seu poder de maneira diferente de como costumamos fazer nós, os homens. Ele próprio impôs um limite ao seu poder, ao reconhecer a liberdade das suas criaturas. Sentimo-nos felizes e agradecidos pelo dom da liberdade; mas, quando vemos as coisas tremendas que sucedem por causa dela, assustamo-nos. Mantenhamos a confiança em Deus, cujo poder se manifesta sobretudo na misericórdia e no perdão. E estejamos certos, amados fiéis, de que Deus deseja a salvação do seu povo. Deseja a nossa salvação, a minha salvação, a salvação de cada um. Sempre, mas sobretudo em tempos de perigo e transtorno, Ele está perto de nós, e o seu coração comove-se por nós, inclina-se sobre nós. Para que o poder da sua misericórdia possa tocar os nossos corações, requer-se a abertura a Ele, é necessária a disponibilidade para abandonar livremente o mal, levantar-se da indiferença e dar espaço à sua Palavra. Deus respeita a nossa liberdade; não nos constrange. Ele aguarda o nosso «sim» e, por assim dizer, mendiga-o.”

“No Evangelho, Jesus retoma este tema fundamental da pregação profética. Narra a parábola dos dois filhos que são convidados pelo pai para irem trabalhar na vinha. O primeiro filho respondeu: «“Não quero”. Depois, porém, arrependeu-se e foi» (Mt 21, 29). O outro, ao contrário, disse ao pai: «“Eu vou, senhor.” Mas, de facto, não foi» (Mt 21, 30). À pergunta de Jesus sobre qual dos dois cumprira a vontade do pai, os ouvintes justamente respondem: «O primeiro» (Mt 21, 31). A mensagem da parábola é clara: Não são as palavras que contam, mas o agir, os actos de conversão e de fé. Jesus, como ouvimos, dirige esta mensagem aos sumos sacerdotes e aos anciãos do povo de Israel, isto é, aos peritos de religião do seu povo. Estes começam por dizer «sim» à vontade de Deus; mas a sua religiosidade torna-se rotineira, e Deus já não os inquieta. Por isso sentem a mensagem de João Baptista e a de Jesus como um incómodo. E assim o Senhor conclui a sua parábola com estas palavras drásticas: «Os publicanos e as mulheres de má vida vão antes de vós para o Reino de Deus. João Baptista veio ao vosso encontro pelo caminho que leva à justiça, e não lhe destes crédito, mas os publicanos e as mulheres de má vida acreditaram nele. E vós, que bem o vistes, nem depois vos arrependestes, acreditando nele» (Mt 21, 31-32). Traduzida em linguagem de hoje, a frase poderia soar mais ou menos assim: agnósticos que, por causa da questão de Deus, não encontram paz e pessoas que sofrem por causa dos seus pecados e sentem desejo dum coração puro estão mais perto do Reino de Deus de quanto o estejam os fiéis rotineiros, que na Igreja já só conseguem ver o aparato sem que o seu coração seja tocado por isto: pela fé.

Papa Bento XVI, Homilia na Esplanada do Aeroporto de Freiburg
24 de setembro de 2011

Somos sempre chamados ao Reino de Jesus

Chegando ao final de mais um ano litúrgico, a Igreja nos convida a celebrarmos a Solenidade de Jesus Cristo Rei do Universo, instituída pelo Papa Pio XI, em 1925. E seria muito interessante, mesmo já tendo feito em outras oportunidades, que meditássemos sobre o Reino de Deus e o seu advento escatológico.

Uma pergunta que justamente é feita em nossos dias é: Jesus é Rei? Como pode ser Ele rei, se vivemos em um mundo secularizado, anticlerical, que vive como se Deus já não mais existisse, que põe-se contra os valores do Evangelho e os ensinamentos da Igreja? “Cristo Rei, sois dos séculos Príncipe, Soberano e Senhor das nações! Ó Juiz, só a vós é devido julgar mentes, julgar corações”. Assim canta a Igreja neste dia, reconhecendo que, ainda que sejam impetuosas as forças contra o Evangelho, maior é o senhorio de Jesus, que jamais abandona a sua Igreja e os seus filhos.

Tenhamos em mente, por primeiro, que o Reino do qual nosso Senhor fala manifesta-se de forma diferente dos reinos deste mundo. Não é um reino de precipitação e nem deixa-se corromper. Mas, manifesta-se, sobretudo, com características cristãs: “Reino de verdade e de vida, de santidade e de graça, de justiça, de amor e de paz” (Prefácio da Missa de Cristo Rei).

Celebrar a Solenidade de Cristo Rei é celebrar também a realeza da Igreja. Não seria, porém, audaz fazê-lo? Verdadeiramente não! Porque ela é Esposa de Cristo, e é participante perene da sua realeza e dos seus mistérios salvíficos. Por isso, na segunda leitura, no hino cristológico que introduz a carta aos Colossenses, São Paulo afirma: “Ele é a Cabeça do Corpo, isto é, da Igreja” (Cl 1, 18). Cabeça e corpo, eis uma outra definição comumente presente nas cartas paulinas. Jesus é cabeça da Igreja, nada seria feito sem seu consentimento. Ele guia a Igreja como seguidora dos seus mandamentos, e nos torna servos por meio de sua realeza. Porém, esta realeza não é uma imposição, muito menos uma obrigação. Ela parte de uma consciência de estarmos contritos a Deus, unidos a Ele, sabendo que com Ele as dificuldades podem ser suprimidas mais facilmente, e que teremos sempre uma luz a guiar nossos passos.

Jesus Cristo não é um rei de ira. Não é alguém que nos força a segui-lo; mas, amando a todos igualmente, nos faz um convite ao qual nos cabe decidir: segui-Lo para as eternas alegrias, ou precipitarmo-nos no abismo do pecado. O inferno, no entanto, não é para que se imponha medo a quem não segue Cristo, mas é uma conseqüência das nossas ações já neste mundo. Como relata Jesus a Santa Faustina: “Antes de vir como justo Juiz, venho como Rei de Misericórdia” (Diário, 83).

Eis um Rei ao qual todos podem recorrer! Um Rei que é misericórdia, que ama e que perdoa. Um Rei que sabe que os valores espirituais superam os meros bens materiais, ao qual muitas vezes nos apegamos exacerbadamente. Ora, o próprio Cristo dá-nos o exemplo de humildade. O que Ele abraçou? As riquezas? Os poderes reais passageiros? O ouro? O luxo? Em que consiste seu Reino? Em uma suposta satisfação material? Em aparências? Não! O que Cristo abraçou muitos não teriam coragem de fazê-lo. O que Jesus abraçou, com todo o olhar misericordioso e com todo o seu amor, é a cruz. Unicamente a cruz!

Na cruz atinge-se o ápice da manifestação messiânica e real de Jesus. Ali Ele não apenas se mostra como Rei, como também redime o mundo por seu sacrifício, que também e sobretudo é um sacrifício real de Amor. Agora, pois, se perguntarmos: para que tanto apego às riquezas? Para que tanta ganância que consome as pobres almas que agora riem, mas irão padecer nos tormentos? Voltemo-nos para a única riqueza: Jesus Cristo. Submetamo-nos à sua realeza singular e salvífica!

O Evangelho nos apresenta a cena da crucifixão do Senhor. Prometendo o Paraíso ao ladrão arrependido, Jesus mostra que, mesmo diante da imensidão dos nossos pecados, maior é sua misericórdia, e as portas do seu Reino estão abertas para acolher a todos: “Hoje estarás comigo no Paraíso” (Lc 23, 43). Por isso, observa Santo Ambrósio:

“Ele pedia ao Senhor para que se recordasse dele, quando estivesse no seu Reino, mas o Senhor respondeu-lhe: Em verdade, em verdade te digo, hoje estarás comigo no Paraíso. A vida é estar com Cristo, porque onde está Cristo ali está o Reino” (Exposição do Evangelho segundo Lucas, 10, 121).

Poderíamos convictamente afirmar que o Reino, no quadro evangélico, foi antecipado ao ladrão, pois não estará com Cristo no fim dos tempos, quando vier o tão esperado Reino; mas já o está hoje, neste momento! Mesmo diante das zombarias para que descesse da cruz, Cristo não cede a essas tentações de manifestação de poder. Parece-nos paradoxal, mas justamente permanecendo na cruz Ele manifesta sua glória. Também a nós é dito: não fujamos da cruz. Não nos deixemos seduzir pelas tentações do prazer e de uma vitória superficial. E, desta forma, poderemos dizer a Deus, como o povo disse a Davi: “Aqui estamos. Somos teus ossos e tua carne” (2Sm 5,1). Conduza-nos e não nos deixes sucumbir perante as tentações de relativização da verdade e de uma conquista meramente material. Faze-nos que sejamos servos de uma realeza eterna e salvadora, a nós confiada pelo Batismo.

Que Maria, nossa mãe, Rainha do Céu e da terra, nos guie ao encontro de Seu Filho, o Rei dos séculos!

 

“Meu Reino não é deste mundo”

Deveria ter feito algumas colocações sobre o Reino de Deus nos dois últimos domingos: um do Pai nosso e outro do domingo passado, que retratava a questão da vaidade e da ganância; porém, como não me foi possível fazê-lo, o farei agora, meditando sobre o Reino de Deus, e as três dimensões que o envolvem.

Em primeiro lugar gostaria de meditar sobre o em dimensão cristológica. Isto faremos baseando-nos no livro Jesus de Nazaré, de Sua Santidade o Papa Bento XVI. Essa primeira dimensão caracteriza-se pela pessoa de Jesus, Ele mesmo, em si, já seria o próprio Reino de Deus, como Orígenes definiu: autobasiléia. O próprio Jesus dá-nos a entender: “Mas, se é pelo Espírito de Deus que expulso os demônios, então chegou para vós o Reino de Deus” (Mt 12, 28).

Um segundo conceito seria o Reino de Deus “idealista”, ou seja, “essencialmente situado na interioridade do homem” (Jesus de Nazaré, pág. 60). Tal conceito provém também de Orígines, que, em seu escrito sobre a oração, diz: “quem reza pela chegada do Reino de Deus, reza sem dúvida pelo Reino de Deus que ele já leva em si mesmo, e pede para que este Reino produza frutos e para que chegue à sua plenitude… Por isso, se quisermos que Deus domine em nós, então o pecado não pode de modo nenhum dominar no nosso corpo mortal (Rm 6,12)… Então Deus deve passear em nós como num paraíso espiritual (Gn 3, 8 ) e somente em nós dominar com o seu Cristo” (PG 11, 495s).

E a terceira acepção seria sobre o Reino em sentido eclesiológico: A Igreja como prefiguração do Reino de Deus. “O Reino de Deus e a Igreja são colocados de um modo distinto em uma relação ao outro e mais ou menos aproximados um do outro” (Jesus de Nazaré, pag. 60).

Pois bem! Após tais colocações, desejo combater o sentido de “Reino de Deus” expresso, de modo errôneo, pela Teologia da Libertação. E onde está o erro? Em que contexto? Servirei-me também da Instrução Libertatis Nuntius, da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé.

Sabemos que, desde os primórdios, a Igreja anuncia veementemente a Boa Notícia do Evangelho, dada a conhecer primeira e unicamente aos pequeninos (notemos que pequeninos não são apenas os pobres financeiramente, mas todo aquele que humildemente segue os mandamentos e testemunha com convicção a sua fé, mesmo os ricos se repartem os seus bens e não os põe como centro de suas vidas) (cf. Lc 10, 21). Sabemos que a Igreja olha com amor e dedicação para os pobres, e não somente olha como também é a instituição que mais fez por eles. Mas tal atitude não deve procurar alterar aspectos teológicos da “sã doutrina” que foi-nos transmitida desde os tempos apostólicos.

E uma das ideologias da Teologia da Libertação é esta: o Reino de Deus faz-se presente exclusivamente nos pobres (contrariando os três respectivos ensinamentos vistos anteriormente). “Tende-se, deste modo, a identificar o Reino de Deus e o seu advento com o movimento de libertação humana e a fazer da mesma história o sujeito de seu próprio desenvolvimento como processo da auto-redenção do homem por meio de luta de classes” (Libertatis Nuntius, 3).

Para eles o Reino de Deus dar-se-á à medida que acontecer a libertação humana, por meio da luta de classes seria uma espécie de “auto-redenção”. Onde, pois, estaria o Reino do qual Jesus fala? Será que este seria apenas uma mera libertação do poder opressor social? Cristo então teria morrido por causa, não da redenção humana e salvação da humanidade, mas da luta social e proletariado?

A nova hermenêutica inserida nas “teologias da libertação” conduz a uma releitura essencialmente política da Escritura. É assim que se atribui a máxima importância ao acontecimento do Êxodo, enquanto libertação da escravidão política. Propõe-se igualmente uma leitura política do Magnificat. O erro aqui não está em privilegiar uma dimensão política das narrações bíblicas, mas em fazer desta dimensão a dimensão principal e exclusiva, o que leva a urna leitura redutiva da Escritura” (Libertatis Nuntiuns, 5).

Logo percebemos que nesta Teologia há um grande esvaziamento da doutrina e uma má interpretação da mensagem de Cristo. Por conseguinte deparamo-nos também com uma contradição na afirmação do próprio Senhor que, ao ser interrogado por Pilatos se era Rei, responde: “Regnum meum non est de mundo hoc – O meu Reino não é deste mundo” (Jo 18, 36).

Ora, se o Reino de Cristo (=de Deus) não se reduz a uma realidade terrena, mas é muito mais do que podemos imaginar, uma realidade que vivamente a cada dia somos convidados, que transpõe um simples conceito de mundo e nos faz transcender ao mais alto dos céus, seria impossível que ele se fizesse presente nos pobres e marginalizados da sociedade, como prega a Teologia da Libertação. Se é prefigurado na Igreja, então não pode ser pessoal, individual, senão a Igreja como todo, o sinal visível de salvação e unidade que Cristo deixou para que, perpassados estes 2010 anos, pudesse Sua Palavra chegar a todos os homens de forma inviolável.

Comparar o Reino de Deus a realidades materiais é querer reduzi-lo a uma ação apenas humana, excluindo, assim, o seu verdadeiro sentido que é salvífico.

Chame-se a atenção contra uma politização da existência, que, desconhecendo ao mesmo tempo a especificidade do Reino de Deus e a transcendência da pessoa, acaba sacralizando a política e abusando da religiosidade do povo em proveito de iniciativas revolucionárias” (Libertatis Nuntiuns, 17).

Esta “politização” que deve ser detida. Não se pode politizar o Reino de Deus, e muito menos reduzi-lo, revogando para si direitos inaceitáveis.

Mediante este texto jamais minha intenção foi dizer que devemos esquecer-nos dos pobres, deixá-los à deriva, até por que estaria, eu, indo contra os ensinamentos de Jesus e da Igreja. O que desejo retratar é que não se deve fazer confusões doutrinárias. Praticar a caridade sem alterar a doutrina.

Nós professamos que o Reino de Deus iniciado aqui na Terra, na Igreja de Cristo, não é deste mundo, cuja figura passa, e que seu crescimento próprio não se pode confundir com o progresso da civilização, da ciência ou da técnica humanas, mas consiste em conhecer cada vez mais profundamente as insondáveis riquezas de Cristo, em esperar cada vez mais corajosamente os bens eternos, em responder cada vez mais ardentemente ao amor de Deus e em difundir cada vez mais amplamente a graça e a santidade entre os homens. Mas é este mesmo amor que leva a Igreja a preocupar-se constantemente com o bem temporal dos homens. Não cessando de lembrar a seus filhos que eles não têm aqui na Terra uma morada permanente, anima-os também a contribuir, cada qual segundo a sua vocação e os meios de que dispõem, para o bem de sua cidade terrestre, a promover a justiça, a paz e a fraternidade entre os homens, a prodigalizar-se na ajuda aos irmãos, sobretudo aos mais pobres e mais infelizes. A intensa solicitude da Igreja, esposa de Cristo, pelas necessidades dos homens, suas alegrias e esperanças, seus sofrimentos e seus esforços, nada mais é do que seu grande desejo de lhes estar presente para os iluminar com a luz de Cristo e reuni-los todos nele, seu único Salvador. Esta solicitude não pode, em hipótese alguma, comportar que a própria Igreja se conforme às coisas deste mundo, nem que diminua o ardor da espera pelo seu Senhor e pelo Reino eterno”. (Credo do Povo de Deus)

Que a Virgem Santíssima nos ajude a extirpar os erros da Teologia da Libertação, e nos ajude a apregoar a verdadeira doutrina transmitida pelos apóstolos.

Saudações em Cristo Jesus e Maria Santíssima!