Chamados à santidade

A Solenidade de Todos os Santos – que ocorre a primeiro de novembro, mas a Igreja no Brasil convida-nos a celebrar no domingo mais próximo – não se-nos apresenta como uma realidade impossível, e mesmo inacessível aos olhos humanos, mas tende, pelo contrário, a aproximar-nos de Deus, fazendo com que tornemo-nos partícipes do seu banquete escatológico e da vida eterna. Não obstante as constantes distrações e facilidades que o mundo apresenta, devemos fixar-nos em Cristo, voltarmo-nos a Ele, e, abertos à Sua mensagem, instaurar um Reino de Paz e amor, de justiça e fraternidade. Não um Reino utópico, mas um reino verdadeiro, ao qual devemos viver e esperar segundo as expectativas evangélicas.

Mas aqui gostaria de formular uma pergunta que – à medida que buscarmos uma vivência segundo os mandamentos – tornar-se-á mais veemente e ajudar-nos-á a colocarmo-nos em uma vivência íntima com o Senhor: Como ser santo hoje, em uma sociedade capitalista, que deseja denegrir a imagem de Deus, confiando em suas próprias expectativas e esquecendo que realizar-se-á somente aquilo que Deus destinou-nos? E mais ainda: Quem é Jesus para nós?

Essa dúplice pergunta remete-nos de imediato às leituras do dia. Por isso analisá-las-emos, fazendo uma analogia com os dias hodiernos e com o convite a santidade, dirigido também a nós.

No livro do Apocalipse (cf. 7, 2-4. 9-14), que tomamos hoje na liturgia, há uma riqueza de simbolismos, e narra de forma clara quem são os santos e como nós também somos chamados. Fala-se que os marcados com o selo do Cordeiro eram 144 mil. Isto significa que só serão salvos tal quantidade? Não! Essa simbologia numérica sempre ocorre na Sagrada Escritura. Tal quantidade seria a multiplicação das doze tribos de Israel por doze, e em seguida por mil, que é a cifra da história da salvação.

Em seguida narra-nos o apóstolo: “Vi uma multidão imensa, que ninguém podia contar, gente de todas as nações, tribos, povos e línguas. Estavam em pé diante do trono e do Cordeiro, vestiam túnicas brancas e tinham palmas nas mãos” (v. 9). Vemos aqui a figura dos santos, que põe-se em adoração diante do Senhor e nos mostram que, assim como eles chegaram, não nos-é também impossível lá chegar. Estavam de pé. Ora, no citado livro estar de pé significa já ser participante da vitória. Uma vitória que não é por mérito nosso, mas de Cristo. Esta foi-nos concedida por Cristo ao pender no lenho sagrado da Cruz, e de lá, com seu sangue, lavar nossos pecados e ensinar-nos a sermos pessoas melhores. Estavam com túnicas brancas, sinal da pureza, e assim vestiam-se com a glória de Cristo.

É manifesta também aqui a unicidade e unidade da Igreja. Uma Igreja que, mesmo sendo constituída de diversas culturas, uni-se em um só canto, rendendo graças a Deus por intercessão dos Santos. Negros, brancos, amarelos, índios, homens, mulheres, Papas, Bispos, Sacerdotes, Diáconos, coroinhas, reis e rainhas, religiosos e religiosas, gordos e magros… Na Igreja não há distinção. Todos são um perante Deus, e todos formam um só coro de agradecimento e louvores incessantes ao Altíssimo.

E aqui respondemos a primeira pergunta sobre como ser santo hoje. É necessário que morramos para este mundo, e assim poderemos viver para Deus. “Sem um ‘morrer, sem a destruição do que há de mais individual, não há comunhão com Deus nem redenção” (Papa Bento XVI, Jesus de Nazaré, pag. 74).

É, portanto, necessário que o santo esteja a disposição do próximo; que ele saiba servir; que esteja fora do seu “mundinho” e de seu individualismo; que não busque colocar as suas expectativas eternas nas limitações deste mundo. Santos que verdadeiramente amem o Senhor, vencendo a mesquinhez e doando-se sem reservas ao projeto salvífico que produzirá abundantes frutos.

Na segunda leitura São João nos mostra a graça de sermos chamados “filhos de Deus”, e se somos filhos é graça a Jesus Cristo e a nossa comunhão com Ele (cf. ibid., pag 131). “Se o mundo não nos conhece, é porque não conheceu o Pai” (1 Jo 3,2). Nosso Senhor precisa ser apresentado a todos, ainda que sua mensagem não agrade a muitos.

A mensagem de Cristo não garante uma vida de comodidade a nenhum de seus seguidores. A renúncia e o sacrifício constituem uma das vias para vermos resplandecer a glória de Cristo. Aqui chegamos a segunda pergunta: Quem é Jesus para nós? Um profeta que anunciou uma mensagem de amor? O Filho de Deus? Um mito? Essa resposta deve ser pessoal, pois dirige-se a cada um em particular.

Quem busca uma glória sem passar pela cruz terá uma vã glória. Será uma glória meramente passageira, e não nos colocará em estrita união com nosso Salvador. Somos frágeis, e esse é o primeiro passo que devemos dar para buscarmos a santidade: reconhecimento de nossa fraqueza. Ora, como então, pecadores, poderemos ser comparados aos Santos? Eis que nos diz o apóstolo Paulo: “Onde abunda o pecado, superabundou a graça” (Rm 5, 20). Os santos também foram pecadores, mas diferente de nossas muitas atitudes, eles souberam escutar a Deus; souberam que sua vontade não poderia prevalecer diante da vontade de Deus.

Eis, então, que se deveras amamos a Deus, deixemos que Ele possa agir e nos transformar. Assim, Jesus já não será mas um mito, ou um profeta, mas será aquele que nos motiva a uma mudança de vida.

Por fim chegamos ao Evangelho, ao qual poderia discorrer muito sobre tal, mas abreviar-me-ei para que o texto não seja demasiado cansativo.

Jesus sobe ao monte para ensinar e senta-se. Estar sentado significa estar em atitude de ensinar, por isso, ao proclamar um Dogma ou ao falar Ex Cathedra, os Papas devem estar sentados na Cátedra, de onde presidem a Igreja. Para os que desejam aprofundar-se no Sermão da Montanha recomendo a leitura do livro Jesus de Nazaré, do Santo padre Bento XVI. Gostaria apenas de destacar alguns pontos fundamentais.

Em primeiro lugar somos chamados a sermos discípulos de Cristo, e o Sermão da Montanha é um forte convite a esse discipulado, que, por sua vez, dirigir-nos-á à santidade.”O Sermão da Montanha dirige-se a toda a vastidão do mundo, presente e futuro, mas ele exige discipulado e só pode ser verdadeiramente entendido e vivido seguindo-se Jesus, caminhando-se com Ele” (Papa Bento XVI, Jesus de Nazaré, pag. 75).

Podemos associar as bem-aventuranças com a imagem da Igreja, perseguida, humilhada, mas que sempre consola-se de suas tribulações, pois sabe que Cristo está aos seu lado. E precisamente quando sofre, a Igreja sabe que está na direção correta. Podemos também associá-las com a realidade humana voltada à condição espiritual.

Peçamos que, pela intercessão de todos os Santos e de Maria Santíssima, também nós trilhemos nosso caminho de santidade, mesmo com nossa fraqueza humana.

Salus et Pax in corde Iesus et Maria.

Ser ovelhas do verdadeiro Pastor

Neste domingo a Igreja celebra o Domingo do Bom Pastor e o dia mundial de oração pelas vocações.

O Evangelho, apesar de curto, carrega em sí uma característica muito importante e bela. Analisando o seu profundo contexto poderemos notar as sábias palavras de Jesus. “As minhas ovelhas escutam a minha voz, eu as conheço e elas me seguem. Eu dou-lhes a vida eterna e elas jamais se perderão” (Jo 10, 27-28).

Jesus se manifesta como o Bom Pastor. Um pastor capaz de dar a vida por seu rebanho. Ora, na verdade, no mundo de hoje está difícil ouvir a voz de Jesus. Quando tantas vozes julgam indicar o caminho correto, o caminho mais prazeroso? Como reconhecer a voz do Senhor?

Certamente se seguimos a Igreja e a ela ouvimos, com certeza não estaremos desviando-nos do verdadeiro caminho. Poderemos ainda encontrar a resposta à esta nossa dúvida na segunda leitura, um dos textos que mais gosto. “Esses são os que vieram da grande tribulação. Lavaram e alvejaram as suas vestes no sangue do Cordeiro… Porque o Cordeiro, que está no meio do trono, será o seu pastor e os conduzirá às fontes da água da vida. E Deus enxugará as lágrimas de seus olhos” (Ap 7, 14b. 17).

Não temos dúvidas que estes que estão diante do trono e que estão com tamanha alvura em suas vestes, são os mártires, além de trazerem palmas na mão (cf. 9), símbolo do martírio, vinham da tribulação. Estes seguiram o caminho do bom pastor, estes ouviram a voz de Cristo. Ele não temeram em suportar as tamanhas dores para estarem com Cristo.

Tertuliano já dizia: “O Sangue dos mártires é semente de novos Cristãos”.

Certamente muitos de nós hoje tememos as “dores” que o mundo pode causar por estarmos com Cristo. Mas não existe nenhuma dor maior do que estar longe de Cristo. Aquele que está afastado do Senhor está privado da esperança e da certeza da vida eterna.

O mundo deseja que sejamos do jeito que ele quer. Nós estamos no mundo, mas não somos do mundo. Viemos de Deus e para Ele voltaremos. Constantemente o mundo causa-nos tribulações e nós somos chamados a não deixarmos de testemunhar. Mais como reposta a ele, recordo as memoráveis palavras de São Paulo: “Somos afligidos de todos os lados, mas não vencidos pela angústia; postos em apuros, mas não desesperançados; perseguidos, mas não desamparados; derrubados, mas não aniquilados” (2Cor 4,8-9).

Isto porque aquele que está com Cristo pode passar por tribulações, mas nunca será vencido.

“Eu sou o Bom Pastor”, disse Jesus. Hoje em dias sentimos na nossa Igreja, em alguns locais, falta de padres e bispos que assumem sua missão como Jesus assumiu a dEle. Jesus, em hipótese alguma renunciou a sua missão para satisfazer a sua vontade. Não! Ele foi até a cruz, padeceu pela nossa salvação, mas jamais renunciou a vontade do Seu Pai. Os padres e bispos são pastores do povo, não produto de um mercado consumista e cheio de ideologias políticas.

Neste domingo de oração pelas vocações temos como tema “O testemunho suscita vocações”.

De modo particular devo dizer que com dois anos de idade decidi ser padre. Não tinha um conhecimento verdadeiro sobre essa vocação, mas creio que em mim realiza-se as palavras que o Senhor dirigiu a Jeremias: Antes de formar-te no ventre materno, eu te conheci; antes de saíres do seio de tua mãe, eu te consagrei e te fiz profeta das nações” (Jr 1, 5).

De modo particular, neste Ano Sacerdotal, os padres são chamados a darem testemunho e a serem modelos de vida para que, de tal forma, possa suscitar vocações na Igreja. E não somente os padres, como também os religiosos e religiosas.

Encerro com as sábias palavras do nosso Santo Padre Bento XVI, na sua Mensagem para o 47º dia mundial de oração pelas vocações:

Apraz-me recordar o que escreveu o meu venerado predecessor João Paulo II: «A própria vida dos padres, a sua dedicação incondicional ao rebanho de Deus, o seu testemunho de amoroso serviço ao Senhor e à sua Igreja – testemunho assinalado pela opção da cruz acolhida na esperança e na alegria pascal –, a sua concórdia fraterna e o seu zelo pela evangelização do mundo são o primeiro e mais persuasivo factor de fecundidade vocacional» (Pastores dabo vobis, 41). Poder-se-ia afirmar que as vocações sacerdotais nascem do contacto com os sacerdotes, como se fossem uma espécie de património precioso comunicado com a palavra, o exemplo e a existência inteira.

Isto aplica-se também à vida consagrada. A própria existência dos religiosos e religiosas fala do amor de Cristo, quando O seguem com plena fidelidade ao Evangelho e assumem com alegria os seus critérios de discernimento e conduta. Tornam-se «sinais de contradição» para o mundo, cuja lógica frequentemente é inspirada pelo materialismo, o egoísmo e o individualismo. A sua fidelidade e a força do seu testemunho, porque se deixam conquistar por Deus renunciando a si mesmos, continuam a suscitar no ânimo de muitos jovens o desejo de, por sua vez, seguirem Cristo para sempre, de modo generoso e total. Imitar Cristo casto, pobre e obediente e identificar-se com Ele: eis o ideal da vida consagrada, testemunho do primado absoluto de Deus na vida e na história dos homens.

À Virgem Maria pedimos que suscite santas vocações para a Igreja.