A eficácia da oração

“Através desta oração coral, que encontra o seu cume na participação cotidiana no Sacrifício Eucarístico, a vossa dedicação ao Senhor no silêncio e no escondimento é tornada fecunda e fértil, não somente em ordem do caminho de santificação e purificação pessoal, mas também no que diz respeito àquele apostolado de intercessão que desenvolveis por toda a Igreja, para que possa aparecer pura e santa diante do Senhor. Vós, que bem conheceis a eficácia da oração, experimentais todo o dia quantas graças de santificação ela pode obter à Igreja.”

(Papa Bento XVI, Homilia no Mosteiro Dominicano de Santa Maria do Rosário; 24 de junho de 2010)

O Santo Padre mais uma vez manifesta-nos a necessidade constante da oração, e não apenas dela, como também da vida contemplativa. Urge cada vez mais alto a necessidade de termos pessoas constantes na oração, que possam levar uma vida contemplativa e nela descobrir o verdadeiro rosto de Deus. Verdadeiramente não são as alegrias terrenas que nos farão contemplar a face de Deus, mas o nosso interior, a nossa condição de pessoas e de cristãos.

Para quantos no mundo hodierno parece-se uma insensatez, ou até mesmo uma loucura, a vida de clausura, ao qual muito dos nossos irmãos se detém? Mas a Igreja, constantemente, por meio dos Santos Padres sobretudo, nos convida a olharmos de forma diferenciada para esta vida de oração que a muitos enriquece. Quem sabe orar faz da sua vida um céu, quem não sabe a transforma em um inferno. Isto porque se a oração não nos dirige para Deus, e fere a nossa fé cristã nos fazendo cair na presunção da autossuficiência, não poderá ser boa e muito menos poderá pôr-nos em profundo contato com Deus, mas atirar-nos-á em um abismo, um existencialismo puro, sem um destino e sem Alguém que lhe dará pelo valor.

Só a oração verdadeira e íntima com Deus, que brota do coração, pode realmente fazer com que os homens e mulheres – especialmente os que dedicam suas vidas a rezar pelo mundo nos mosteiros – sintam o abraço do Pai e nele encontrem plena realização. Em um mundo tomado por ideologias que contrastam fortemente os sagrados ensinamentos evangélicos e os preceitos da moral católica, somos convidados a perseverar, como bem nos exorta São Pedro: “Sede, portanto, prudentes e vigiai na oração.” (1 Pd 4, 7).

São João Crisóstomo fala sobre os monges:

Ali há uma só riqueza para todos, a verdadeira riqueza, e uma só glória para todos, a verdadeira glória, pois não põem os bens nos nomes, mas nas coisas: um só prazer, um só desejo, uma só esperança para todos. Tudo está perfeitamente ordenado como com régua e esquadro. Não há ali desordem alguma. Tudo é ordem, ritmo e harmonia, e concórdia absoluta, e motivo constante de alegria. Por isto todos fazem e sofrem tudo para que todos vivam felizes e contentes. E assim, só entre os monges podemos ver esta pura alegria que não acontece em nenhuma outra parte, não só porque desprezaram o presente e cortaram pela raiz toda ocasião de dissensão e luta; não só porque têm as mais belas esperanças para o futuro, mas também pelo fato de que cada um considera como seu tudo quanto acontece de alegria ou tristeza aos demais. Deste modo, a tristeza desaparece facilmente, pois todos levam a carga, como se fossem um só, e se acrescentam os motivos de alegria, pois não se alegram só pelos próprios bens, mas também – e não menos que pelos próprios – pelos bens alheios”.

Contra os impugnadores da vida monástica
Discurso III, cap. 21

Se muitos soubessem o verdadeiro valor da vida monástica e religiosa não a atacariam tão vorazmente, e muito menos a colocariam como castigo. Da oração brota o amor. E quem primeiro ama são aqueles que mais rezam. Logo, em nenhum momento ousaria dizer que amo mais que um religioso, ou um monge, ou uma freira. É Deus que ama o mundo por meio deles, é Deus que nos ama por meio dos sacerdotes.

Os Santos são exemplo vivo disto: Santa Teresinha do Menino Jesus, São Bento, Santo Antonio e tantos outros, que, apesar de não serem monges, viviam em alguma congregação.

Doar-se e doar-se sem reservas: eis um lema que deve centralizar a vida cristã. Aquele que se doa em primeiro lugar doa-se à oração. E se muitos soubessem o inexaurível valor da oração não a excluiriam de suas vidas, mas saberiam que ali achariam forças para nutrir a caminhada neste mundo e nos garantir a salvação no próximo.

Não basta rezar, é necessário saber rezar.

Encerro com as sábias palavras de São Paulo, que são tão consoladores à todos nós: “Sede alegres na esperança, pacientes na tribulação e perseverantes na oração” (Rm 12, 12).

Fraternalmente em Cristo Jesus e Maria Santíssima!

“E Ele lhes era submisso” – São Bernardo

 Indicação: Ecclesia Una

 Fonte: São Pio V
“E Ele lhes era submisso”. Quem era submisso a quem? Deus ao homem! Deus, repito-o, a Quem os Anjos são submissos, Que os Principados e Potestades obedecem, era submisso a Maria, e não somente a Maria, mas a José também, por causa de Maria. Maravilhemo-nos, pois, com os dois, e escolhamos o que maravilha mais: se é a benigníssima condescendência do Filho, ou a excelentíssima dignidade da Sua Mãe. Ambas nos estupefazem, e ambas são milagres. Que Deus obedeça uma mulher, é humildade ímpar; que uma mulher reja Deus, uma elevação incomparável. Em louvor às virgens, canta-se, particularmente, que seguem o Cordeiro por onde quer que Ele vá. De que louvor, portanto, é digna Aquela que até vai diante d’Ele?
Aprende, ó homem, a obedeceres! Aprende, ó terra, a te submeteres! Aprende, ó pó, a seres submisso! O Evangelista, falando de teu Criador, disse: “E Ele lhes era submisso”. E não há dúvida de que isso nos evidencia que Deus era submisso a Maria e José. Que vergonha para ti, ó ser de pó e cinzas! Deus Se abaixou, e tu, ó criatura tirada da terra, te exaltas? Deus Se submeteu ao homem, e tu, sempre tão ávido por te fazer senhor dos homens, ousas desmandar teu próprio Criador? Porque todas as vezes que Eu desejo preeminência sobre os homem, me esforço para superar Deus. Porque d’Ele foi dito: “Ele lhes era submisso”. Se tu desdenhas, ó homem, seguir o exemplo do homem, pelo menos poder seguir o exemplo do teu Criador sem desonra. Se, por acaso, não podes segui-l’O onde quer que Ele vá, digna-te, ao menos, segui-l’O nesse ponto no qual Ele Se rebaixou, desprezando a própria reputação pelo bem daqueles como tu.
Se não podes entrar para os caminhos sublimes da virgindade, ao menos segue Deus pela estrada seguríssima da humildade. Quem se desvia desse caminho reto, mesmo que seja virgem, a verdade seja dita, não segue o Cordeiro por onde quer que Ele vá. O homem humilde, mesmo que manchado de pecado, segue o Cordeiro; a virgem, se é orgulhosa, também segue; mas nenhum dos dois O segue por onde quer que Ele vá. O primeiro não pode atingir a pureza do Cordeiro, porque Ele é sem mancha; a última não se digna descer à Sua mansidão, que cala não diante do tosquiador, mas fica mudo diante do próprio assassino. Ainda assim, o pecador que segue em humildade escolheu um caminho mais salvífico do que o homem orgulhoso que segue em virgindade; porque o humilde presta satisfação, e é limpo de sua impureza, mas a castidade do orgulhoso é manchada pela sua soberba.