A comunhão com Pedro e seus sucessores é a garantia de liberdade

“Na primeira Leitura, é narrado um episódio que mostra a intervenção específica do Senhor para libertar Pedro da prisão; na segunda, Paulo, com base em sua extraordinária experiência apostólica, afirma estar convencido de que o Senhor, que já o havia livrado “da boca do leão”, o livrará de “todo o mal”, abrindo-lhe as portas do Céu; no Evangelho, ao contrário, não se fala mais dos Apóstolos individualmente, mas da Igreja no seu conjunto e da sua proteção com relação às forças do mal, entendida em sentido amplo e profundo. Desse modo, vemos que a promessa de Jesus – “as forças do inferno não prevalecerão” sobre a Igreja – compreende, sim, as experiências históricas de perseguição sofridas por Pedro e Paulo e outras testemunhas do Evangelho, mas vai além, desejando assegurar a proteção sobretudo contra as ameaças de ordem espiritual; segundo o que Paulo escreve na Carta aos Efésios: “Pois não é contra homens de carne e sangue que temos de lutar, mas contra os principados e potestades, contra os príncipes deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal (espalhadas) nos ares” (Ef 6, 12).”

Com efeito, se pensamos nos dois milênios de história da Igreja, podemos observar que – como havia prenunciado o Senhor Jesus (cf. Mt 10, 16-33) – nunca faltaram para os cristãos as provações, que em alguns períodos e lugares assumiram o caráter de verdadeiras e próprias perseguições. Essas, no entanto, apesar do sofrimento que provocam, não constituem o perigo mais grave para a Igreja. O dano maior, de fato, provém daquilo que polui a fé e a vida cristã dos seus membros e das suas comunidades, afetando a integridade do Corpo Místico, enfraquecendo a sua capacidade de profecia e testemunho, manchando a beleza de seu rosto. Essa realidade é atestada já no epistolário [cartas] paulino. A Primeira Carta aos Coríntios, por exemplo, responde exatamente a alguns problemas de divisões, incoerências, infidelidade ao Evangelho, que ameaçam seriamente a Igreja. Mas também a Segunda Carta a Timóteo – da qual ouvimos uma parte – fala sobre os perigos dos “últimos tempos”, identificando-os com atitudes negativas que pertencem ao mundo e podem contagiar a comunidade cristã: egoísmo, vaidade, orgulho, apego ao dinheiro, etc. (cf. 3, 1-5). A conclusão do Apóstolo é reconfortante: os homens que fazem o mal – escreve – “não irão longe, porque será manifesta a todos a sua insensatez” (3, 9). Existe, portanto, uma garantia de liberdade assegurada por Deus à Igreja, liberdade seja dos laços materiais que procuram impedir ou coagir a missão, seja dos males espirituais e morais, que podem afetar a autenticidade e credibilidade.”

“O tema da liberdade da Igreja, garantida por Cristo a Pedro, tem também uma relevância específica para o rito da imposição do pálio, que hoje renovamos para trinta e oito Arcebispos Metropolitanos, aos quais dirijo a minha mais cordial saudação, estendendo-a com afeto àqueles que quiseram acompanhá-los nesta peregrinação. A comunhão com Pedro e seus sucessores, de fato, é garantia de liberdade para os pastores da Igreja e para a própria Comunidade a eles confiada. E isso em ambos os planos destacados nas reflexões precedentes. No plano histórico, a união com a Sé Apostólica assegura às Igrejas particulares e às Conferências Episcopais a liberdade com relação aos poderes locais, nacionais ou supranacionais, que podem, em certos casos, obstaculizar a missão da Igreja. Além disso, e mais essencialmente, o ministério petrino é garantia de liberdade no sentido da plena adesão à verdade, à autêntica tradição, de tal forma que o Povo de Deus seja preservado de erros concernentes à fé e à moral. Daí que o fato de, todo o ano, os novos Metropolitanos virem a Roma para receber o Pálio das mãos do Papa deva ser compreendido no seu significado próprio, como gesto de comunhão, e o tema da liberdade da Igreja nos oferece uma chave de leitura particularmente importante. Isso aparece de modo evidente no caso das Igrejas marcadas pela perseguição, ou sujeitas a interferências políticas ou outras duras provações. Mas isso não é menos relevante no caso de Comunidades que padecem a influência de doutrinas enganadoras, ou de tendências ideológicas e práticas contrárias ao Evangelho. O pálio, assim, torna-se, neste sentido, um compromisso de liberdade, analogamente ao “jugo” de Jesus, que Ele convida a tomar, cada um sobre seus próprios ombros (cf. Mt 11, 29-30). Como o mandamento de Cristo – embora exigente – é “doce e leve” e, ao invés de pesar sobre quem o leva, o levanta, assim o vínculo com a Sé Apostólica – embora desafiador – sustenta o Pastor e a porção da Igreja confiada aos seus cuidados, tornando-lhes mais livres e mais fortes.”

Papa Bento XVI, Homilia na Solenidade de S. Pedro e S. Paulo
29 de junho de 2010

A Igreja celeste

Neste domingo o evangelho é como que uma continuação do domingo passado. Mas de maneira particular gostaria de centrar-me neste domingo na segunda leitura, para daí passarmos ao Evangelho.

No Apocalipse de São João somos convidados a olharmos a Igreja santa e celestial, a Jerusalém vindoura para a qual caminhamos esperançosos.

Mas devo confessar aqui que na minha leitura orante da Bíblia chamou-me bastante atenção tais versículos. Ricos em simbologia, estes exprimem o fundamento da Igreja e o rumo que ela dá aos seres humanos desesperançados neste mundo.

O apóstolo usa no texto uma rica simbologia numérica: 3 e 12 são números que, na Bíblia, são chamados de números da perfeição. Todo este simbolismo contém uma visão profética da Igreja. Esta já é premeditada pelo apóstolo e continua a manter-se firme, mesmo diante dos problemas que são indubitáveis em sua caminhada.

Mas agora devo ater-me a uma interpretação lógica do livro (Ap 21,10-14.22-23). A Jerusalém triunfante seria aquela gloriosa, que manifestar-se-á nos santos e naqueles que, nesta vida, deram testemunho do Evangelho e com dignidade viveram a sua vida cristã.

“Havia três portas do lado do oriente, três portas do lado norte, três portas do lado sul e três portas do lado do ocidente”. Ora, se somarmos 4 (direção das portas) X 3 (Três pessoas da Trindade) = 12. Doze é o número dos apóstolos. E se observamos os lados em que se posicionam as portas (norte, sul, leste e oeste) logo formarão uma cruz. A Igreja, em toda a direção, deve estar certa de que caminha com a Trindade. Seu objetivo é anunciar o Amor do Deus Trindade que, fazendo-se homem, enviado pelo Pai nos santifica com seu Santo Espírito. A Igreja deve olhar para a cruz de Cristo e nela ver a missão que deve impeli-la. Ela se fundamenta na cruz, ali, do lado direito de Cristo, jorram o sangue e água, representação da Eucaristia e do Batismo.

“A muralha da cidade tinha doze alicerces, e sobre eles estavam escritos os nomes dos doze apóstolos do Cordeiro”. Os doze apóstolos são colunas e fundamentos da Igreja. Neles ela se mantém sólida para enfrentar as dificuldades do mundo presente.

“A cidade não precisa de sol nem de lua que a iluminem, pois a glória de Deus é a sua luz, e a sua lâmpada é o Cordeiro”. Sim! Esta verdade nos é possível constatar ainda hoje. A Igreja caminha, mesmo em meio às trevas, com confiança no Cristo ressuscitado, Senhor e Juiz da história. A Sua luz irradia todo o seu interior e todos os seus pastores e membros, certos de que a mensagem de Cristo deve criar perspectivas salvíficas em todos os homens.

No Evangelho somos mais uma vez tomados pelo tema Amor. Aproximando-se das Solenidades da Ascensão e de Pentecostes, somos direcionados a vermos o Cristo que entra na Glória e de lá envia o Seu Espírito, Aquele que a partir daí deveria guiar a Igreja e seus pastores.

“Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e o meu Pai o amará, e nós viremos e faremos nele a nossa morada” (Jo 14, 23). Quantas vezes fico a pensar como é difícil guardar a palavra de Cristo hoje. E mais do que guardar é necessário testemunhá-la de forma autêntica, mostrando nossa missão e nosso compromisso com o Reino de Deus.

Verdadeiramente em uma sociedade secularizada, anti-vida e anti-família, que deseja sufocar os valores evangélicos, constantemente Jesus se dirige a nós e recorda-nos que o mais importante não é vivermos prazerosamente neste mundo e rejeitarmos, por conseguinte, a vida eterna. Mas o necessário é que nos privemos, já neste mundo, de muitas coisas, para podermos gozar alegremente das alegrias celestiais. Os homens de todo o mundo só poderão chegar à verdadeira paz quando descobrirem a beleza de Cristo e do Seu Evangelho. O conceito de paz implica muitos fatores, mas só uma solução: Jesus Cristo. Ele é a verdadeira paz. Nele encontramos total repouso. Não é uma paz firmada em limites e interesses terrenos, mas é uma paz que se doa sem reservas.

Aproveito a oportunidade e convido a elevarmos preces a Deus por ocasião do XVI Congresso Eucarístico Nacional e por ocasião da Viagem Apostólica do Santo Padre a Portugal.

Peçamos à Santíssima Virgem que guie o caminho dos homens, para que cheguem na Igreja celestial, em comunhão com todos os santos.

Pax Domini!