Nossos dias como os dias de Noé

Mais uma vez, com o Domingo de Ramos, somos chamados a adentrarmos na Semana Santa, tempo de, no silêncio, meditarmos sobre os últimos dias de Jesus nesta terra e sua gloriosa Ressurreição.

Eis, meus irmãos, que mais uma vez nos é chegada a Santa Semana. E agora cabe-me perguntar, não apenas a vós, senão que também – e antes de tudo – a mim, o que fizemos nesta Quaresma? Como nos aproveitamos dela para, como nos disse o Senhor por meio do profeta Joel em sua tão já escutada e tão nova proposta, convertermo-nos e rasgarmo,s os corações e não as vestes? (cf. Jl 2, 12-13). Agora, aproximando-nos das jubilosas festividades pascais vemos que o tempo está para encerrar-se. O sol da Ressurreição já desponta seus primeiros raios, e muitos ainda não se voltaram ao Senhor.

Santo Agostinho, São Basílio e São Pedro Crisólogo comparam os quarenta dias da Quaresma aos quarenta dias do dilúvio universal. Naqueles dias, por quarenta dias, fez Deus sobre a terra chover castigo; nestes dias faz chover abundantemente sua misericórdia. Mas sendo verdade que o amor de Deus por nós é incomensurável, apesar de nossas perversidades, o Senhor faz com que a chuva de misericórdia não cesse. Porém, como recordara o tão ilustre Padre Antonio Vieira: “Somos os homens tão protervos, que nem por bem, nem por mal pode Deus conosco: os castigos não nos emendam, as misericórdias não nos abrandam” (Sermão de Ramos).

Notemos que o mesmo que sucedeu-se àqueles antigos homens de coração endurecido no primeiro dilúvio a nós nos acontece neste outro que vivenciamos.

“Começou a chover o dilúvio de Noé: alagaram-se na primeira semana os vales e os quartos baixos dos edifícios; subiram-se os homens aos quartos altos. Choveu a segunda semana; venceram as águas os quartos altos, subiram-se aos telhados. Choveu a terceira semana; sobrepujou o dilúvio os telhados, subiram-se às torres. Choveu a quarta semana: ficaram debaixo das águas as torres e ameias mais altas, subiram-se aos montes. Choveu a quinta semana; ficaram também afogados os montes, subiram-se finalmente às árvores, e assim estavam suspensos e pegados nos ramos. Postos neste estado os homens já não tinham para onde subir, e não lhes restava mais que uma das duas: ou nadar, ou acolher-se à Arca, ou deixar-se afogar e perecer no dilúvio” (Idem).

Oh! Vejamos neste espelho o que hoje acontece à nossos dias verossímeis ao dilúvio, e talvez pior do que eles, visto que, se no dilúvio primeiro estavam os homens com os corações endurecidos para Deus; neste segundo há os que nem mesmo acreditam nEle. E não há vida mais vazia, desnorteada e sem sentido, fundamentada em um existencialismo descabido, sem uma verdadeira racionalidade, do que aquela onde Deus já não mais é o centro e o manancial de fortaleza. Sobre isso nos dirá o Santo Padre ao afirmar: “Somente a fé no único Deus liberta e ‘racionaliza’ realmente o mundo. Onde ela desaparece, o mundo se torna racional apenas aparentemente” (Bento XVI, Jesus de Nazaré, pag. 157, Edit. Planeta). Assim, os nossos dias hão de ser, e já o são, piores que os de Noé.

Desde o princípio da Quaresma quer Deus conquistar as almas, e nós sempre a nos retardarmos. “Passou a primeira semana da Quaresma, guardamo-nos para a segunda; passou a segunda, deixamo-nos para a terceira; passou a terceira, esperamos para a quarta; passou a quarta, dilatamo-nos para a quinta; passou a quinta, apelamos para a sexta; já estamos na sexta e na última semana deste dilúvio espiritual, já estamos como os do outro dilúvio, com as mãos nos ramos das árvores, ou com as árvores dos ramos nas mãos” (Padre Antonio Vieira, op. cit).

Noutro dilúvio não puderam salvar-se a todos, pois a uns não lhes era sabido da existência da Arca; outros não souberam nadar. Há neste dilúvio, no entanto, inúmeras portas abertas por nosso Salvador e pelas quais podemos ingressar. Naquele todos os homens morreram, só Noé e sua família salvaram-se; neste, morreu e afogou-se tão somente o divino Noé, para que a todo gênero humano fosse concedida a salvação.

Eis, pois, a semana em que deveis converter-vos, vós que até agora tendes passado a Quaresma despercebidos do tempo favorável à nossa salvação, perdendo tantos dias que pudéreis abrir os olhos, entrando em vossos corações e ouvindo estonteante a voz do Senhor, que deveras nos ama. Já não podem tornar os dias que, outrora tivemos, escorregaram por nossas mãos sem que dele nos aproveitássemos; os vindouros – até a quinta-feira in Coena Domini – não nos são mais que três dias reservados aos mais descuidados. Aproveitai-vos deles para reconciliar-vos com o Senhor! Como nos recordara o salmista: “Deus não desprezou nem rejeitou a miséria do que sofre sem amparo; não desviou do humilhado sua face, mas o ouviu quando gritava por socorro” (Sl 21, 25).

Agora seja-me permitido deter-me por um instante na Epístola paulina aos Filipenses, que para este dia nos é apresentada como segunda leitura. O texto é um hino que provavelmente já existia e era recitado nas comunidades cristãs. Paulo utilizar-se-ia dele para urgir aos Filipenses que se comportem de maneira humilde, como no-lO fez Cristo. Mas, além disso, o hino não pode ser ab-rogado de sua autonomia teológica profundamente rica.

É notória a evocação do despojamento de Cristo, que não se apegou a sua condição divina, mas “humilhou-se fazendo-se obediente até a morte – e morte de cruz” (2, 8). Cristo é o protótipo, por excelência, do cristão; seja enquanto Pastor; seja enquanto pregador; seja enquanto obediência; seja enquanto humildade. Mas, que em tudo, estejamos com os olhos fixos no Senhor, como nos diz o salmista (cf. Sl 122). Por meio da obediência Deus glorifica o Seu Filho acima de todas as coisas, constituindo-O Senhor do mundo, Senhor dos senhores. Não nos tardemos em adorá-lo, pois Ele não irá tardar-Se em salvar-nos. Aquele que assumiu a “forma de escravo” (Fl 2,7) é o Rei dos reis. Sua entrada em Jerusalém, assentado sobre um jumento, mostra, como nos afirma Zacarias, que uma das suas características de Messias é a humildade (cf. Zc 9, 9). Sim! O Senhor não entra em uma carruagem digna aos reis. E por quê? – perguntar-nos-emos. Porque Ele, melhor que ninguém, sabe que o Seu Reino não é dos dinheiros e dos prazeres. Não é da corrupção e da ambição; não é do ouro. As verdadeiras características deste são o amor, a humildade e a fé. Eis o verdadeiro tesouro do cristão! Não está visível aos nossos olhos, mas pode ser contemplado com os olhos da fé. Ele é uma Pessoa: Jesus Cristo, Filho de Deus! E eis que o vemos a caminho de Jerusalém. Apressemo-nos à sua frente, e prostrando-nos por terra O adoremos.

Ele voltará! E assim terá de sê-lo para que possa findar toda a história da humanidade. Não virá rodeado de pompas e adornado com ouro, não obstante ser o Verdadeiro e Único Senhor. Aproveitai o tempo que vos será oportuno. Lembrai-vos de quantas semanas se têm passado sem que dela tenhais tirado proveito. E pode ser que esta seja a última semana para alguns de nós. Quantos viveram a passada que não vivem esta, e quantos vivem esta e não viverão a vindoura! Pois se soubéssemos que esta será a última para alguns de nós, o que faríamos? Pois o que faríeis façais não meramente por medo do inferno e da morte, mas na certeza de amar a Jesus e de tê-lo ofendido.

Oh! Meu boníssimo Senhor! Peço-vos perdão por ter-vos outrora ofendido. Não Vos peço respostas, mas sabedoria para encontrá-las. Não vos peço imunidade contra as tentações, mas coragem para enfrentá-las. Não Vos peço santidade, mas forças para conseguir alcançá-la. Não Vos peço o céu, mas que ilumines a minha caminhada, para que trilhando o verdadeiro caminho, possa eu alcançá-lo.

Maria, Mãe do Autor e Senhor da vida, concedei-me, por vossa intercessão, a humildade que levou vosso Filho a obedecer, até o derramamento salvífico de Seu sangue.