Por que o papa Francisco não dá a comunhão

Por Sandro Magister – Tradução: Ecclesia Una | Há uma particularidade, nas Missas celebradas pelo papa Francisco, que suscita questões que até agora têm permanecido sem resposta.

Papa Francisco, durante Missa de inauguração de seu pontificado, 19 de abril de 2013.

Papa Francisco, durante Missa de inauguração de seu pontificado, 19 de abril de 2013.

No momento da comunhão, o papa Jorge Mario Bergoglio não a administra pessoalmente, mas deixa que sejam outros a dar aos fiéis a Hóstia consagrada. Ele se senta e espera que termine a distribuição do sacramento.

As exceções são pouquíssimas. Nas Missas solenes, antes de se sentar, o Papa dá a comunhão a quem o assiste no altar. E na Missa da Quinta-Feira Santa passada, no cárcere para menores Casal del Marmo, ele quis dar a comunhão aos jovens detentos que se aproximaram para recebê-la.

Desde que foi eleito Papa, Bergoglio não deu uma explicação deste comportamento seu.

Mas há uma página de um de seus livros do ano de 2010 que nos permite intuir os motivos que estão na origem do gesto.

O livro é aquele que traz suas conversas com o rabino de Buenos Aires, Abraham Skorka.

No final do capítulo dedicado à oração, o então arcebispo diz:

“Em seu tempo, Davi foi adúltero e assassino intelectual e, no entanto, o veneramos como um santo porque teve a coragem de dizer ‘eu pequei’. Humilhou-se diante de Deus. A pessoa pode fazer um desastre, mas também pode reconhecê-lo, mudar de vida e reparar o que fez. É verdade que entre os fiéis há pessoas que não só mataram intelectual ou fisicamente, mas mataram indiretamente pelo mau uso do dinheiro, pagando salários injustos. Fazem parte de sociedades de beneficência, mas não pagam a seus empregados o que lhes corresponde, ou os escravizam. (…) De alguns conhecemos o currículo, sabemos que se fazem católicos, mas têm estas atitudes indecentes das quais não se arrependem. Por essa razão, em certas situações não dou a comunhão, fico atrás e a dão os ajudantes, porque não quero que estas pessoas se aproximem de mim para a foto. A pessoa poderia negar a comunhão a um pecador público que não se arrependeu, mas é muito difícil comprovar essas coisas. Receber a comunhão significa receber o corpo do Senhor, com a consciência de que formamos uma comunidade. Mas se um homem, mais que se unir ao povo de Deus, enviesa a vida de muitíssimas pessoas, não pode comungar: seria uma contradição total. Esses casos de hipocrisia espiritual se dão em muita gente que se refugia na Igreja e não vive segundo a justiça que prega o Senhor. Tampouco demonstram arrependimento. É o que vulgarmente dizemos que levam vida dupla”.

Como se pode notar, Bergoglio explicava em 2010 seu abster-se de dar pessoalmente a comunhão com um raciocínio muito prático: “Não quero que estas pessoas se aproximem de mim para a foto”.

Como pastor experiente e bom jesuíta, ele sabia que entre os que se aproximavam para receber a comunhão podia haver pecadores públicos não arrependidos, que por outro lado se proclamavam católicos. Sabia que, a esse ponto, teria sido difícil negar-lhes o sacramento. E sabia dos efeitos públicos que poderia ter essa comunhão, se fosse recebida das mãos do arcebispo da capital argentina.

Pode-se argumentar que Bergoglio percebe o mesmo perigo como Papa, até mais, inclusive. E por isso adota o mesmo comportamento prudencial: “não dou a comunhão, fico atrás e a dão os ajudantes”.

Os pecados públicos que Bergoglio apresentou como exemplo, em sua conversa com o rabino, são a opressão do pobre e a negação do justo salário ao trabalhador. Dois pecados tradicionalmente mencionados entre os quatro que “clamam aos céus a vingança de Deus”.

Mas o raciocínio é o mesmo que nos últimos anos tem sido aplicado por outros bispos a outro pecado: o apoio público às leis pró-aborto por parte de políticos que se proclamam católicos.

Esta última controvérsia tem seu epicentro nos Estados Unidos.

No ano de 2004, o então cardeal Joseph Ratzinger, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, transmitiu à Conferência Episcopal norte-americana uma nota com os “princípios gerais” sobre a questão.

A Conferência Episcopal decidiu “aplicar” uma e outra vez os princípios recordados por Ratzinger, exortando “a cada um dos bispos que expressem juízos pastorais prudentes nas circunstâncias próprias de cada caso”.

De Roma, o cardeal Ratzinger aceitou esta solução e definiu-a “em harmonia” com os princípios gerais de sua nota.

Na verdade, os bispos dos Estados Unidos não têm uma postura unânime. Alguns, também entre os conservadores, como os cardeais Francis George e Patrick O’Malley, são resistentes a “fazer da eucaristia um campo de batalha política”. Outros são mais intransigentes. Quando o católico Joe Biden foi eleito vice-presidente de Barack Obama, o então bispo de Denver, Charles J. Chaput, hoje na Filadélfia, disse que o apoio dado por Biden ao chamado “direito” ao aborto é uma culpa pública grave e “em consequência, por coerência ele não deveria se apresentar para receber a comunhão”.

É um fato que no último dia 19 de março, na Missa de inauguração do pontificado de Francisco, o vice-presidente Biden e a presidente do Partido Democrata, Nancy Pelosi, também ela católica pró-aborto, fizeram parte da representação oficial dos Estados Unidos.

E ambos receberam a comunhão. Mas não das mãos do papa Bergoglio, que estava sentado atrás do altar.

“Não é pão ou vinho comum o que recebemos.”

“A outros não é permitido participar da eucaristia, a não ser aquele que, admitindo como verdadeiros os nossos ensinamentos e tendo sido purificado pelo batismo para a remissão dos pecados e a regeneração, leve uma vida como Cristo ensinou.”

Jesus transubstanciação“Pois não é pão ou vinho comum o que recebemos. Com efeito, do mesmo modo como Jesus Cristo, nosso salvador, se fez homem pela Palavra de Deus e assumiu a carne e o sangue para a nossa salvação, também nos foi ensinado que o alimento sobre o qual foi pronunciada a ação de graças com as mesmas palavras de Cristo e, depois de transformado, nutre nossa carne e nosso sangue, é a própria carne e o sangue de Jesus que se encarnou.

“Os apóstolos, em suas memórias, que chamamos Evangelhos, nos transmitiram a recomendação que Jesus lhes fizera. Tendo eles tomado o pão e dado graças, disse: ‘Isto é o meu corpo (…) Fazei isto em memória de mim’ (Lc 22, 19; Mc 14, 22); e tomando igualmente o cálice e dando graças, disse: ‘Este é o meu sangue’ (Mc 14, 24), e os deu somente a eles. Desde então, nunca mais deixamos de recordar estas coisas entre nós. Com aquilo que possuímos, socorremos a todos os necessitados e estamos sempre unidos uns aos outros. E por todas as coisas, com que nos alimentamos, bendizemos o Criador do universo, por seu Filho Jesus Cristo e pelo Espírito Santo.”

(…)

“Reunimo-nos todos no dia do Sol, não só porque foi o primeiro dia em que Deus, transformando as trevas e a matéria, criou o mundo, mas também porque neste mesmo dia Jesus Cristo, nosso salvador, ressuscitou dos mortos. Crucificaram-no na véspera do dia de Saturno; no dia seguinte a este, ou seja, no dia do Sol, aparecendo aos seus apóstolos e discípulos, ensinou-lhes tudo o que também nós vos propusemos como digno de consideração.”

Das Apologias de São Justino (século II), mártir, confirmando a perene doutrina católica da transubstanciação

Cardeal Ranjith: pela piedade litúrgica, contra a comunhão na mão.

O perfil do cardeal Malcolm Ranjith, do Sri Lanka, foi abordado em um artigo recente do vaticanista John Allen Jr., traduzido pelo Fratres in Unum. Ranjith emerge, junto com o Prefeito do Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica no Vaticano, Raymond Burke, como um cardeal de linha mais conservadora, sendo próximo dos tradicionalistas, especialmente no que diz respeito à Liturgia.

O purpurado asiático já se manifestou contrário à comunhão na mão, ao escrever o prefácio do famoso livro de Dom Athanasius Schneider, “Dominus Est! – É o Senhor!” (cujo conteúdo já foi elogiado pelo cardeal Francis Arinze, ex-Prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos). Transcrevemos o texto do cardeal na introdução desta obra, a fim de ajudar os leitores a entender a urgente necessidade de tratarmos com respeito a Eucaristia, para superar a crise de fé contemporânea. Com a palavra, o cardeal Ranjith:

Cardeal RanjithNo livro do Apocalipse, São João narra que, tendo visto e ouvido o que lhe havia sido revelado, prostrou-se em adoração aos pés do Anjo de Deus (cf. Ap 22, 8). Prostrar-se ou ajoelhar-se ante a majestade da presença de Deus, em humilde adoração, era um hábito de reverência que Israel sempre praticava ante a presença do Senhor. Diz o primeiro livro dos Reis:

“Quando Salomão acabou de dirigir ao Senhor esta oração e súplica, levantou-se diante do altar do Senhor, onde estava ajoelhado, de mãos erguidas para o céu. Pôs-se de pé e abençoou toda a assembleia de Israel” (I Rs 8, 54-55).

A postura da súplica do Rei é clara: ele estava de joelhos ante o altar.

A mesma tradição se encontra também no Novo Testamento, onde vemos Pedro ajoelhar-se diante de Jesus (Lc 5,8); Jairo ao lhe pedir que cure a sua filha (Lc 8, 41); o Samaritano quando volta para agradecer-Lhe, e Maria, irmã de Lázaro, para Lhe pedir a vida em favor de seu irmão (Jo 11, 32). A mesma atitude de se prostrar, devido ao assombro causado pela presença e revelação divinas, nota-se não raramente no livro do Apocalipse (Ap 5, 8.14 e 19, 4).

Estava intimamente relacionada com esta tradição a convicção de que o Templo Santo de Jerusalém era a casa de Deus e, portanto, era necessário nele se dispor em atitudes corporais que expressassem um profundo sentimento de humildade e de reverência na presença do Senhor.

Também na Igreja a convicção profunda de que, sob as espécies eucarísticas o Senhor está verdadeira e realmente presente, e o crescente costume de conservar a Santa Comunhão nos tabernáculos contribuiu para a prática de ajoelhar-se em atitude de humilde adoração do Senhor na Eucaristia.

Continuar lendo

Debate político em São Paulo: coragem de uns e, de outros, nem tanto…

Reta final das eleições em vários municípios do país. E, novamente, vamos falar sobre São Paulo. Nos últimos dias, o debate político entre Fernando Haddad, do PT, e José Serra, do PSDB, contou com uma troca constante de farpas – como era de se esperar. Tudo começou com o apoio público dado pelo pastor Silas Malafaia, da comunidade protestante Assembleia de Deus, à candidatura de Serra. Haddad parece não ter gostado. Fez uma declaração, acusando seu adversário de “instrumentalizar” religiões: “O Serra instrumentaliza as religiões. Fez isso para atacar a Dilma, e eu entendo que ele fará o mesmo para me atacar. A minha família está muito indignada em relação a esses ataques, com a atitude do Serra de instrumentalizar pastores para me atacar na honra.”

Malafaia entendeu o recado de Haddad e publicou uma resposta, em forma de vídeo, fazendo críticas ferrenhas ao ex-ministro da Educação.

Apesar de ser pastor protestante – e, portanto, pregar uma Fé mutilada pelos erros da reforma luterana e do subjetivismo pentecostal -, Malafaia é uma personalidade que merece respeito, por sua coragem e valentia em defender seus princípios. Além de denunciar abertamente as obras destruidoras propaladas pelos inimigos do Cristianismo, criticando com veemência o discurso totalitário de muitos dos novos movimentos sociais – como o LGBT, feminista, ambientalista etc. -, não tem vergonha de dizer a verdade, nua e crua, mesmo que isto lhe custe a fama de “fundamentalista” ou “radical”: “Não tenho medo de dar minha cara a tapa, não estou nem aí se alguém não está gostando. Não estou em concurso de beleza.”

Bem diferente do discurso do líder da Assembleia de Deus foi a entrevista concedida por Dom Fernando Figueiredo à Folha de São Paulo, no começo desta semana.

Perguntado sobre o “kit gay” produzido por Haddad enquanto ministro da Educação, e sobre um programa similar – porém, mais genérico, não visando especificamente a abordagem de “preconceito sexual” – produzido por Serra, durante seu mandato no governo do estado, Dom Fernando “tirou o corpo fora”: “Elaborar esse material pode ser considerado algo que desabone um candidato? Creio que essa questão é muito delicada. (…) Não colocaria essas questões num período eleitoral.”

Questionado se a posição de Malafaia em condenar a campanha de Haddad foi preconceituosa, limitou-se a dizer que “não gostaria de julgar”.

Quando indagado sobre como as lideranças religiosas deveriam participar no debate político, afirmou que “ninguém deveria dizer quem é o candidato” no qual vai votar, pois “é um abuso do contato e da credibilidade que os fiéis nos dão”.

Por fim, perguntaram-lhe sua opinião sobre a atual ministra da Cultura, Marta Suplicy, famosa por sua militância frenética frente ao movimento LGBT, e também por ostentar a bandeira da descriminalização do aborto no Brasil. Dom Fernando falou pouco, e não disse nada: “Marta, Marta, Marta… O que eu poderia falar da Marta? Aqui na região sul… Ela tinha uma preocupação pela saúde. Vemos postos de saúde que ela incentivou. Isso foi importante.

A entrevista toda é reflexo de uma pusilanimidade aterradora. Dom Fernando chega ao ponto de afirmar que “há uma lei na igreja que, se a pessoa se aproxima para a comunhão, você não pode negá-la”, quando o Código de Direito Canônico pede justamente o contrário: que “não sejam admitidos à sagrada comunhão os excomungados e os interditos, depois da aplicação ou declaração da pena, e outros que obstinadamente perseverem em pecado grave manifesto” (cân. 915).

O teor desta entrevista infeliz é digno de lástima, mas é a imagem exata de como andam muitos mitrados na América Latina: se não estão entregues ao demônio do socialismo e da esquerda laicista e anticristã, estão nas redes sufocantes do bom-mocismo ou da cumplicidade silenciosa… com os maus, com os abortistas, com os inimigos da família. São poucas as estrelas que brilham no escuro céu latino-americano, mas são elas, insufladas pela intercessão sempre eficaz da Virgem de Guadalupe, a verdadeira Igreja de Cristo. Porque, como já dizia Santo Atanásio de Alexandria, “ainda que os católicos fiéis à Tradição se reduzam a um punhado, são eles a verdadeira Igreja de Jesus”.

Graça e paz.
Salve Maria Santíssima!

Quer acabar para sempre com sua fé? Um convertido apresenta dez formas infalíveis de fazê-lo.

Fonte: Religión en Libertad | Tradução: Ecclesia UnaO autor destas recomendações é um blogueiro. Não há muito mais o que dizer, a rede tem estas coisas. Chama-se Jason L. – sendo conhecido também como The Idler (“O Preguiçoso”) -, tem 28 anos, estuda Teologia, ama a cerveja Guinness (o esboço de imagem mostra ele com uma boa caneca* nas mãos) e é periodista freelancer. E, o mais importante: está “orgulhoso” de ter se convertido à fé católica.

Em uma recente postagem de seu blog Subida ao Monte Carmelo, ele fez um interessante elenco de As dez melhores formas de matar sua fé, com reflexões de índole espiritual que servem de guia ao leitor. Ele considera serem elas “as dez formas mais efetivas de arruinar por completo sua vida espiritual até uma sequidão absoluta, ou ao menos até fazer nela um buraco considerável”. Recomenda, portanto, a que sejam evitadas, caso queira crescer na vida espiritual.

Vejamo-las, então, seguindo o conselho de Tomás de Kempis, na Imitação de Cristo (I, 5, 1): “Não procures saber quem o disse; mas considera o que se diz”.

1. Admita que a Igreja está acabada. Escute àqueles que atacam a fé, sem a certeza que sua fé é forte o suficiente para sustentá-la. Assim você começará a sentir-se isolado, a enfadar-se e sentir-se longe de uma fé que um dia lhe pareceu bela, e a assumir que a maioria dos católicos de hoje estão completamente omissos com relação à sua fé.

2. Seja o mais escrupuloso possível. Diante da imponente realidade da Presença Real [de Jesus na Eucaristia] e da Santa Comunhão, ao invés de fazer um bom exame de consciência e confessar-se, se quer chegar a um estado de loucura como o de Nietzsche, prenda-se a cada uma de suas ações e considere que todos os pecados são mortais. Viva atemorizado. Garanto-lhe que sua fé arderá nessas chamas.

3. Esqueça da Misericórdia Divina. Dê atenção à Sua Justiça. Você tem que chegar à conclusão que Deus não é misericordioso, de que está desejoso de ver-lhe gritar no inferno. Com isso, você não somente matará sua fé e seu amor a Deus, mas também chegará facilmente ao mundo oposto dos anticristãos.

4. Preste atenção na vida espiritual de todo mundo, menos na sua. Faça uma análise minuciosa dos demais, mas você mesmo não trabalhe na sua própria salvação com temor e tremor.

5. Não mantenha discussões inteligentes sobre religião. Sobretudo, discuta muito. Cada vez que alguém te desafiar a sua fé de alguma forma, comece a manifestar indisposição, ignore o que diz o seu adversário e faça o possível para evitar conversar.

6. Faça o mínimo do mínimo que lhe seja exigido; converta-se em um católico vago. Comece por ir à Missa só aos domingos, logo procure faltar uma semana, e, antes de que perceba estará indo à igreja somente no Natal e na Páscoa.

7. Ignore sua fé. A melhor forma para abandoná-la é não buscar conhecê-la jamais. Não leia as Escrituras, nem os Santos Padres, não leia livros de teologia nem estude história. Assim, quando alguém duvidar ou atacar a sua fé, imediatamente você cederá.

8. Procure não comungar com frequência, porque isso seria o que mais poderia ajudar sua vida cristã. Se você realmente quer crescer fraco, procure não comungar, porque, se não, cada vez que fizer isto, se sentirá limpo e rejuvenescido.

9. Assuste-se cada vez que ver um desafio contra a fé: minta, esconda-se, fuja. Isto é fundamental: cada vez que alguém objetar a sua fé, dê meia-volta e corra. Ou ainda melhor, peça desculpas e fique envergonhado. Isto fará você se sentir falso em sua fé, desleal, indigno de comungar, covarde. Se realmente quer perder a fé, aconselho a que se acovarde diante dela.

10. Acima de tudo: não reze nunca! Não rezar te afasta da conversa com Deus. Se quer matar sua fé de verdade, esta é a via. A oração é a água que mantém viva a árvore: esquece da água, e verá como se seca.

Leia o artigo completo em inglês.

______________________________________________________________________

* Nota do tradutor: No artigo em espanhol, o termo usado não pode ser traduzido como caneca. É a expressão pinta, que é uma unidade de volume anglo-saxônica, equivalente a 0,568 litros.

* * *

Aproveitamos a oportunidade para indicar um ótimo vídeo de São Josemaría Escrivá, explicando o que devemos fazer quando não estamos com vontade de rezar.

“Não nos acostumemos aos milagres que se operam diante dos nossos olhos.”

“Não entendo como se pode viver cristãmente sem sentir a necessidade de uma amizade constante com Jesus na Palavra e no Pão, na oração e na Eucaristia. E entendo perfeitamente que, ao longo dos séculos, as sucessivas gerações de fiéis tenham ido concretizando essa piedade eucarística: umas vezes, com práticas multitudinárias, professando publicamente a sua fé; outras, com gestos silenciosos e calados, na sagrada paz do templo ou na intimidade do coração.”

“Antes de mais, devemos amar a Santa Missa, que tem que ser o centro do nosso dia. Se vivemos bem a Missa, como não havemos de continuar depois o resto da jornada com o pensamento no Senhor, com o desejo irreprimível de não nos afastarmos da sua presença, para trabalhar como Ele trabalhava e amar como Ele amava? Aprendemos então a agradecer ao Senhor mais outra delicadeza: que não tenha querido limitar a sua presença ao instante do Sacrifício do Altar, mas tenha decidido permanecer na Hóstia Santa que se reserva no Tabernáculo, no Sacrário.”

“Devo dizer que, para mim, o Sacrário foi sempre Betânia, o lugar tranquilo e aprazível onde está Cristo, onde lhe podemos contar as nossas preocupações, nossos sofrimentos, nossos anseios e nossas alegrias, com a mesma simplicidade e naturalidade com que lhe falavam aqueles seus amigos Marta, Maria e Lázaro. Por isso, ao percorrer as ruas de uma cidade ou de uma aldeia, alegra-me descobrir, mesmo de longe, a silhueta de uma igreja: é um novo Sacrário, uma nova ocasião de deixar que a alma se escape para estar em desejo junto do Senhor Sacramentado.”

(…)

Não nos acostumemos aos milagres que se operam diante dos nossos olhos: ao admirável prodígio de que o Senhor desça todos os dias às mãos do sacerdote. Jesus quer que estejamos despertos, para que nos convençamos da grandeza do seu poder, e para que ouçamos novamente a sua promessa: Venite post me, et faciam vos fieri piscatores hominum, se me seguirdes, farei de vós pescadores de homens; sereis eficazes e atraireis as almas para Deus. Devemos confiar, pois, nessas palavras do Senhor, entrar na barca, empunhar os remos, içar as velas e lançar-nos a esse mar do mundo que Cristo nos entrega por herança. Duc in altum et laxate retia vestra in capturam! – fazei-vos ao largo e lançai as vossas redes para pescar.”

“Este zelo apostólico que Cristo infundiu em nossos corações não deve esgotar-se – extinguir-se – por falsa humildade. Se é verdade que arrastamos misérias pessoais, também é verdade que o Senhor conta com os nossos erros. Não escapa ao seu olhar misericordioso que nós, os homens, somos criaturas com limitações, com fraquezas, com imperfeições, inclinadas a pecar. Porém, manda-nos que lutemos, que reconheçamos os nossos defeitos; não para nos acovardarmos, mas para nos arrependermos e fomentarmos o desejo de ser melhores.”

- São Josemaría Escrivá, Na festa do Corpus Christi
extraído do livro “É Cristo que passa”, cap. 15

Fernando Haddad vai à igreja

Nas eleições de 2010, o que não faltou foi político indo à igreja para pedir o voto do eleitorado católico. Digo, sem medo de errar, que maior parte dos sujeitos mal sabe o que significam os termos essenciais da nossa Fé, tais como “batismo”, “salvação”, “graça”, “pecado”, “Eucaristia”, “sacrifício” et cetera. Ficou bastante claro que os indivíduos compareceram no templo por puro interesse político. Vamos além: até candidatos cuja fé católica parecia inquestionável – como era o caso do hoje pré-candidato à prefeitura de São Paulo, Gabriel Chalita – se renderam ao mesquinho jogo de interesses eleitoral e traíram de modo vil a sua Fé. Hoje, Chalita defende o Partido dos Trabalhadores, se cala com relação à descriminalização do aborto e ainda defende a união civil de homossexuais. Coisas realmente incompreensíveis para um “católico praticante”.

Este ano, mais uma vez os católicos vão às urnas. E, novamente, os políticos vão às igrejas “para rezar”. O safado da vez é o ex-ministro da Educação – e hoje concorrente de Chalita na corrida pela prefeitura de São Paulo -, Fernando Haddad. Mas o petista não se contentou em ficar sentado no banco não! Conforme reportou a Folha Online, o idealizador do projeto “Brasil sem Homofobia” – popularmente conhecido como “kit gay” – “fez uma leitura no microfone (…) e recebeu a hóstia”.

Não vou nem falar da recepção indigna da Sagrada Comunhão – todo bom católico tem consciência de que “aquele que comer do pão ou beber do cálice do Senhor indignamente, será réu do corpo e do sangue do Senhor” (1 Cor 11, 27). Inquieta igualmente ver um homem cuja vida não é nenhum modelo de catolicidade auxiliando na celebração da Santa Missa – o que pressupõe o consentimento das autoridades eclesiásticas!

Permanece válida, neste sentido, a instrução da Redemptionis Sacramentum (mais clara que isso, impossível!):

46. O fiel leigo que é chamado para prestar uma ajuda nas Celebrações litúrgicas e deve estar devidamente preparado e ser recomendado por suu vida cristã, fé, costumes e sua fidelidade para o Magistério da Igreja. Convém que haja recebido a formação litúrgica correspondente a sua idade, condição, gênero de vida e cultura religiosa. Não se eleja a nenhum cuja designação possa suscitar o escândalo dos fiéis.”

Ah, mas ninguém é suficientemente santo para ajudar dignamente no Sacrifício da Cruz…! Verdade. Mas que pelo menos se escolha algum pecador que queira conduzir a sua vida como pede a doutrina católica! Este senhor jamais demonstrou simpatia alguma ou pelo Papa ou por qualquer devoção católica que seja. Muito pelo contrário! Haddad declara abertamente que é um socialista! Só ignora este fato quem não conhece os interesses do Partido dos Trabalhadores e dos promotores disto que conhecemos hoje como “marxismo cultural”.

Sim, Haddad não é nem o primeiro nem o último homem a ir à igreja pra aparecer e fazer campanha política. Não vamos – nem queremos – impedi-lo de usar seu direito de ir e vir. A única coisa que pedimos é respeito. Respeito à comunidade católica de São Paulo, respeito a Jesus Eucarístico, respeito ao Santo Sacrifício da Missa. E isto não é pedir demais.

Graça e paz.
Salve Maria Santíssima!

No lado traspassado de Cristo, a origem da Igreja

“Saíram sangue e água do coração traspassado de Jesus. Em todos os séculos, a Igreja, segundo a palavra de Zacarias, olhou para esse coração traspassado e nele reconheceu a fonte de bênção indicada antecipadamente no sangue e na água. A palavra de Zacarias impele mesmo a buscar uma compreensão mais profunda daquilo que lá aconteceu.”

“Um primeiro grau desse processo de penetração encontramo-lo na Primeira Carta de João, que retoma vigorosamente o discurso do sangue e da água saídos do lado de Jesus: ‘Este é O que veio pela água e pelo sangue: Jesus Cristo; não com a água somente, mas com a água e o sangue. E é o Espírito que testemunha, porque o Espírito é a verdade. Porque três são os que testemunham: o Espírito, a água e o sangue; e os três tendem ao mesmo fim’ (5, 6-8).”

“Que entende dizer o autor com a afirmação insistente de que Jesus veio não só com a água, mas também com o sangue? Pode-se provavelmente supor que aluda a uma corrente de pensamento que dava valor apenas ao Batismo, mas punha de lado a cruz. E talvez isso signifique que se considerava importante só a palavra, a doutrina, a mensagem, mas não ‘a carne’, o corpo vivo de Cristo, exangue na cruz; signifique que se procurava criar um cristianismo do pensamento e das ideias, do qual se queria tirar fora a realidade da carne: o sacrifício e o Sacramento.”

“Os Padres viram nesse duplo fluxo de sangue e água uma imagem dos dois sacramentos fundamentais – a Eucaristia e o Batismo -, que brotam do lado traspassado do Senhor, do seu coração. São a corrente nova que cria a Igreja e renova os homens. Mas os Padres, diante do lado aberto do Senhor que dorme na cruz o sono da morte, pensaram também na criação de Eva do lado de Adão adormecido, vendo assim, na corrente dos sacramentos, ao mesmo tempo a origem da Igreja: viram a criação da nova mulher do lado do novo Adão.”

[Papa Bento XVI, Jesus de Nazaré – Da entrada em Jerusalém até a Ressurreição. Capítulo 8: A crucifixão e a deposição de Jesus no sepulcro. pp. 204-205. Editora Planeta. São Paulo, 2011]

Padre Zezinho, a “dissidência calculada” e a Comunhão na boca

Em artigo recente, publicado em seu site e intitulado Cátedra de Pedro ou câmera do padre?, o padre Zezinho redigiu algumas considerações com as quais definitivamente não posso concordar. Ele começa tentando definir a expressão “dissidência calculada”; para isto, faz referência a um “neoconservadorismo que adota modernidade em alguns quesitos e volta ao passado no quesito que lhe interessa voltar”. No entanto, mais adiante, os ditos “dissidentes”, segundo o sacerdote, são aqueles que “teimam em receber a eucaristia só na boca, nunca nas mãos”!

Da maneira como redige o reverendíssimo sacerdote, aquelas pessoas que desejam receber Jesus Eucarístico na boca e de joelhos seriam rebeldes e desobedientes. “São dissidentes calculados. Desobedecem sem desobedecer. E dão um jeito de chamar de desobedientes os que não se regem pelos mesmos textos que eles.”

Sobre este tema, vários são os pontos a serem considerados. Para o padre dehoniano, “temos católicos que sistematicamente desafiam as normas das dioceses e paróquias, alegando que os líderes dos seus movimentos estão acima da diocese e da paróquia”. Mas, o que observamos na prática não é isto. Os argumentos que muitos católicos usam para defender a comunhão na boca – e de joelhos – estão, pelo contrário, em consonância com a Tradição da Igreja, com o Magistério da Igreja e com as palavras do atual Pontífice Romano, o Papa Bento XVI.

Primeiro, é visível o apelo de inúmeros Santos católicos – especialmente dos Padres da Igreja – a fim de que nenhum fragmento da Hóstia consagrada se perca. Assim se manifestam São Cirilo de Jerusalém, São Jerônimo, Santo Efrém, Santo Hipólito, São Cesário de Arles e São João Crisóstomo. Lembra ainda o Papa Pio XI que “ao administrar o sacramento eucarístico deve-se mostrar um particular zelo a fim de que não se percam os fragmentos das hóstias consagradas, dado que em cada um deles está presente o Corpo inteiro de Cristo” 1. Ora, está evidente que receber a Comunhão na boca representa, neste sentido, um risco muito menor do que comungar na mão.

Mais: em notificação emitida em 1985 pela Sagrada Congregação para o Culto Divino, a Igreja deixou clara uma coisa da qual talvez o pe. Zezinho tenha se esquecido:

Os fiéis jamais serão obrigados a adotar a prática da comunhão na mão; ao contrário, ficarão plenamente livres para comungar de um ou de outro modo. Essas normas e as que foram recomendadas pelos documentos da Sé Apostólica atrás citados, têm por finalidade lembrar o dever do respeito para com a Eucaristia independentemente do modo como se recebe a Comunhão.  Insistam os pastores de almas não só sobre as disposições necessárias para a recepção frutuosa da Comunhão, que, em certos casos, exige o recurso ao Sacramento da Penitência; recomendem também a atitude exterior de respeito que, em seu conjunto, deve exprimir a fé do cristão na Eucaristia.”

E, em 1999, no boletim Notitiae, a mesma Congregação fez um esclarecimento ainda mais incisivo: “Aqueles que obrigam os comungantes a receber a santa Comunhão unicamente nas mãos como também aqueles que recusam aos fiéis a Comunhão nas mãos nas dioceses que utilizam tal indulto, procedem contrariamente às normas estabelecidas. (…) Em todo caso, é para desejar que todos tenham presente que a tradição secular consiste em receber a Comunhão sobre a língua. O sacerdote celebrante, caso exista perigo de sacrilégio, não dê a Comunhão nas mãos dos fiéis e exponha-lhes as razões porque assim procede.” (Os trechos acima compilados também foram extraídos do site Cleofas)

Por fim, quem fala é o Papa Bento XVI. Em entrevista concedida em 2010 ao jornalista alemão Peter Seewald, ele explicou porque, muitas vezes, em seu pontificado, administrou a Sagrada Comunhão na boca e de joelhos.

“Não sou contra a Comunhão na mão por princípio: eu mesmo a administrei assim e a recebi também desta maneira. Fazendo com que a Comunhão seja recebida de joelhos e que seja administrada na boca, quis dar um sinal do temor e colocar um ponto de exclamação acerca da Presença real. Não por último, porque justamente nas celebrações de massa, como aquelas na Basílica de São Pedro ou na Praça, o perigo da banalização é grande. Ouvi falar de pessoas que colocam a Comunhão na bolsa, levando-a quase como se fosse um souvenir qualquer. Num contexto semelhante, no qual se pensa que é óbvio receber a Comunhão – da série: todos vão lá na frente, então também faço o mesmo -, queria apresentar um sinal forte, isto deve ficar claro: ‘É algo particular! Aqui está ele, diante dele é que caímos de joelhos. Prestem atenção! Não se trata de um rito social qualquer, do qual se pode participar ou não’.”

- Luz do Mundo: O Papa, a Igreja e os sinais dos tempos
III Parte, Capítulo 15, Como acontece a renovação?
pp. 190-191; Ed. Paulinas, 1ª edição. São Paulo, 2011.

As recomendações da Igreja são bem claras. Comungar diretamente na boca não se trata de mera opinião de lideres de movimento, ou de campanhas solitárias de sacerdotes tradicionais aqui ou acolá. Não se trata, como quer padre Zezinho, de “dissidência calculada”. É, pelo contrário, “tradição secular” católica.

Sobre o mesmo assunto, recomendo a leitura do livro de Dom Athanasius Schneider, o famoso “Dominus Est! – É o Senhor!”, sobre “o dom inestimável da Sagrada Comunhão”. Está disponível para leitura no Scribd. Para quem, entretanto, não tem tempo para fazer a leitura, urge ler o artigo da série “Mitos Litúrgicos comentados”, escrita pelo Francisco Dockhorn e revisada por Dom Antônio Rossi Keller, sobre a comunhão de joelhos e na boca.

Sim, há muitos bons textos escritos pelo padre Zezinho. Há alguns meses, chamou-me a atenção um em que ele diferenciava a Santa Missa de um reles concerto. Neste último artigo, porém, o reverendíssimo sacerdote definitivamente não foi feliz.

Graça e paz.
Salve Maria Santíssima!

* * *

Também é recomendada a leitura da instrução Memoriale Domini, sobre a maneira de distribuição da Sagrada Comunhão.

______________________________________________________________________

1. Instrução da Sagrada Congregação da disciplina dos sacramentos, de 26 de março de 1929: AAS 21 (1929) 635.

O Domingo de Ramos na liturgia da Igreja primitiva

“Com razão podia a Igreja nascente ver nessa cena [a entrada de Jesus em Jerusalém] a representação antecipada do que ela faz na liturgia. No texto litúrgico pós-pascal mais antigo que conhecemos – a Didaché (por volta do ano 100) -, já aparece o ‘Hosana’ juntamente com o “Maranata” antes da distribuição dos Dons sagrados: ‘Venha a graça e passe este mundo. Hosana ao Deus de Davi. Quem é santo, aproxime-se; quem não é, faça penitência. Maranata: Vinde, Senhor Jesus. Amém’ (10, 6).”

“Muito cedo foi introduzido na liturgia também o ‘Benedictus’: para a Igreja nascente, o ‘Domingo de Ramos’ não era algo do passado. Como então o Senhor entrara na Cidade Santa cavalgando o jumentinho, assim agora sem cessar a Igreja O via chegar sob as humildes aparências do pão e do vinho.

“A Igreja saúda o Senhor na Sagrada Eucaristia como Aquele que vem agora mesmo, que entrou no meio dela. E ao mesmo tempo saúda-O como Aquele que permanece sempre O que vem e nos encaminha para sua vinda. Como peregrinos, caminhamos para Ele; como peregrino, Ele vem ao nosso encontro e associa-nos à sua ‘subida’ para a cruz e a ressurreição, para a Jerusalém definitiva que, na comunhão com o seu Corpo, já está crescendo no meio deste mundo.”

[Papa Bento XVI, Jesus de Nazaré – Da entrada em Jerusalém até a Ressurreição. Capítulo 1: Entrada em Jerusalém e purificação do Templo. pp. 22-23. Editora Planeta. São Paulo, 2011]