Unamo-nos aos bispos uruguaios contra a ameaça do aborto na América Latina

“Os bispos do Uruguai se manifestaram, não somente se manifestaram contra a aprovação do aborto, mas eles fizeram algo de único. Pela primeira vez na história, os bispos lançaram um documento em que eles mostram para os fiéis que todo este empenho de legalização do aborto não é uma coisa simplesmente de pessoas que estão preocupadas com a saúde pública, não são pessoas que estão preocupadas com algumas mulheres, não, trata-se de um esforço internacional bilionário – sim, é isso que vocês estão ouvindo. Esse negócio de legalização do aborto é abraçado por muitos dos nossos políticos, não porque eles estão preocupados com as mulheres ou com a saúde pública, como dizem, mas porque, por trás disso, existem bilhões de dólares.”

- Padre Paulo Ricardo em Manifestação de apoio aos bispos do Uruguai – Aborto Não!

QUANDO FALAMOS da tentativa que hoje é visível – não é possível não se mobilizar assistindo aos telejornais ou lendo periódicos e revistas – de se implantar, em nosso planeta, um modelo de civilização totalmente avesso aos princípios da moral judaico-cristã, não enunciamos simplesmente uma história da carochinha, uma mera teoria, um fato que mais se parece com teorias da conspiração que vez ou outra são divulgadas na Internet. Estamos falando do ensejo real de organizações internacionais que, preocupadas com seus próprios narizes, desejam fazer de tudo – tudo mesmo! – para impor seus projetos aos Estados nacionais ao redor do mundo.

Neste caso específico, falamos das arbitrárias intervenções destas referidas organizações em território latino-americano. O povo hegemonicamente católico deste continente vê ameaçada não somente a sua fé, mas o próprio direito de viver que todos os seres humanos possuem desde o momento em que são concebidos. Este direito é reconhecido não só pelas confissões religiosas abarcadas em nossa América Latina, como também pelo famoso Pacto internacional de San José da Costa Rica, que foi ratificado por praticamente todos os países de nosso vasto continente. “Toda pessoa – diz o tratado – tem o direito de que se respeite sua vida. Esse direito deve ser protegido pela lei e, em geral, desde o momento da concepção. Ninguém pode ser privado da vida arbitrariamente.”

A Conferência Episcopal Uruguaia, fiel ao mandamento do Senhor e antevendo os debates que resultariam na aprovação da descriminalização do aborto pelo Senado do país, enviou à Comissão de Saúde Pública do Senado uma carta, cujo conteúdo pode ser apreciado aqui. No documento, mais do que pedir que fosse respeitada a Convenção Americana de Direitos Humanos, os bispos uruguaios bradaram, com voz forte, contra as organizações internacionais que “olham para o crescimento populacional como um problema de segurança”: “Não é segredo para ninguém que instituições internacionais, para difundir suas ideologias, invistam suntuosas quantias de dinheiro, que condicionam as ajudas ao desenvolvimento, caso os países se adaptem ou não a seus interesses.”

Para quem deseja compreender melhor o que está se passando – e porque o problema que afeta o Uruguai é, sim, também, coisa de nossa responsabilidade – vale à pena ler esta página no site do Olavo de Carvalho. Os governos de esquerda da América Latina estão aliados ao capital internacional… e não desistirão tão facilmente da ideia de legalizar o aborto. Por isto, urge darmos nossas gratificações aos corajosos bispos uruguaios que, em um gesto de bravura, ousaram ir contra a corrente e denunciar a “cultura de morte” que vem se instalando neste lado do mundo.

Para fazer isto, basta ir ao site do Padre Paulo Ricardo, copiar os endereços eletrônicos dos bispos uruguaios, e enviar já a sua manifestação de solidariedade a eles.

Ele não vai se retratar!

Os tweets acima apontam a figura de um deputado que não vai se desculpar das ofensas dirigidas ao Santo Padre, o Papa Bento XVI. Mesmo com toda a indignação dos católicos brasileiros – o pedido #RetrateSeDepJeanWyllys ganhou durante um bom tempo os Trending Topics do Twitter e até mesmo um sucessor dos apóstolos, Dom Antônio Rossi Keller, “cyberbispo” da diocese de Frederico Westphalen-RS, aderiu à campanha -, o líder do movimento LGBT bate o pé e mantém que o Chefe de Estado do Vaticano seria um “genocida em potencial” e simpatizante do nazismo.

Até agora, Jean Wyllys não foi capaz de provar nenhuma das acusações feitas a Bento XVI e à “minoria homofóbica” pastoreada por Sua Santidade.

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Leia também: “A verdadeira face do movimento homossexual” – Cruzada pela Família e (mais!) Jean Wyllys, do blog Deus lo Vult!.

A ideia da imortalidade contém em si um poder

Destaco e comento um trecho da obra O conceito de angústia, do escritor dinamarquês Søren Kierkegaard – eu sei, ele é protestante, mas o que enuncia é de muito valor também para nós, católicos.

A verdade sempre teve muitos que a proclamaram em altos brados, mas a questão é saber se um homem quer, no sentido mais profundo, conhecer a verdade, quer deixá-la permear todo o seu ser, assumir todas as suas consequências, e não ter um esconderijo para si, em caso de necessidade, e ‘um beijo de Judas’ para as consequências.

“Nos nossos tempos recentes tem-se falado bastante a respeito da verdade; agora já está na hora de se insistir na certeza, isto é, na interioridade (…).”

“A certeza, a interioridade, que só se alcança pela e só existe na ação, determina se o indivíduo é ou não é demoníaco. É só manter firme a categoria que tudo se resolverá, e se tornará claro, por exemplo, que arbitrariedade, descrença, escárnio à religião, etc., não carecem, como se acredita geralmente, de conteúdo (de verdade), mas carecem de certeza, bem no mesmo sentido como crendice, subserviência, beatice. Os fenômenos negativos carecem justamente da certeza, porque eles residem na angústia diante do conteúdo.”

“Não é do meu gosto proferir grandes palavras sobre nossa época como um todo, mas aquele que já observou a geração que vive hoje não iria querer negar que a desarmonia que há nela e a razão para sua angústia e inquietude consistem em que numa direção cresce a verdade em abrangência, em massa, em parte também em clareza abstrata, enquanto que a certeza interior constantemente diminui. Que extraordinários esforços metafísicos e lógicos não foram feitos em nosso tempo para conseguir uma demonstração nova, exaustiva, absolutamente correta, combinando todas as demonstrações anteriores, da imortalidade da alma, e, é bem estranho, enquanto isso acontece, a certeza interior diminui. A ideia da imortalidade contém em si um poder, uma energia em suas conseqüências, uma responsabilidade quando admitida, que talvez venha a transformar toda a vida, de um modo que se teme. Então o que se faz é salvar e tranqüilizar a alma forçando-se o pensamento para produzir uma nova prova. O que é uma tal prova senão uma boa obra no sentido puramente católico! Qualquer individualidade deste tipo que, para ficarmos no exemplo, saiba levar a efeito a demonstração da imortalidade da alma, mas não esteja convencida ela mesma, há de sempre experimentar a angústia diante de qualquer fenômeno que queira tocá-la de tal modo que a force à compreensão mais extrema do que significa dizer que um ser humano é imortal. Isso a perturbará, ela se sentirá desconfortavelmente tocada quando alguma pessoa bem singela falar de maneira bem singela sobre a imortalidade.”

O último parágrafo é, de um modo particular, muito especial; faz um convite a todos nós, cristãos, a fim de que reflitamos um pouco como temos caminhado diante de Deus, e como temos cuidado daquela parte nossa que permanece viva, mesmo depois que morremos.

“A ideia da imortalidade contém em si um poder”. E é necessário reconhecer este poder. Que esta ideia – a da imortalidade da alma – seja poderosa, que possa realmente mudar a vida de um indivíduo, é bem verdade; o testemunho de tantos homens e mulheres que, ao longo dos anos, doaram a sua vida pela causa do Evangelho, serve-nos de prova. Mas, é preciso não somente que reconheçamos o poder da ideia, mas que – utilizando os termos de Kierkegaard – assumamos em nossa vida a ‘certeza’, pois é somente desta forma que proclamaremos com autenticidade a ‘verdade’ da Fé.

O problema que muitas vezes nós mesmos criamos, impedindo-nos de assumir para nossa vida aquela certeza, é geralmente um medo, medo de que aquela Verdade cuja face foi conhecida venha a desfigurar a nossa vida que até então vínhamos levando tão comodamente. Mas o conhecimento da verdade, embora acompanhado de renúncias, não é e nem deve ser encarado como uma realidade que desfigura; pelo contrário, o encontro com o Cristo deve ser uma etapa de verdadeira transfiguração, no qual nos deparamos com a Cruz, enxergando o mistério do sofrimento, mas do sofrimento vivido por amor.

Nem sempre adentrar neste mistério é fácil. Por isto, diz Kierkegaard, não raras as vezes “o que se faz é salvar e tranqüilizar a alma forçando-se o pensamento para produzir uma nova prova”…

Os céticos contemporâneos vivem à procura de provas… Querem porque querem que lhes seja mostrado o porquê disto, daquilo. Quando se lhes é apresentado um milagre, cujo fundamento a ciência simplesmente não consegue perscrutar, arrumam uma desculpa para não crer, alegando que, num futuro próximo, certamente nem os maiores mistérios escaparam do crivo infalível da ciência e da experiência empírica. O que fazem é tranqüilizar a alma… “Acalma-te, consciência, não te inquietes por pouca coisa… Sempre há uma desculpa, um subterfúgio, uma maneira de fugir…”

O que Jesus quer dizer a estas pessoas não são palavras meigas, carinhosas, gentis… São palavras incômodas, que inquietam, que atormentam de fato. Estas palavras não precisam ser palavras no sentido denotativo… Podem ser simplesmente acontecimentos. A divina Providência se utiliza de todos os meios possíveis para buscar a salvação do homem.

Chegará um dia, porém, em que a morte porá um fim, não à nossa alma, mas à nossa possibilidade de mudança, e aí, então, não poderemos mais fugir da verdade, nem tranqüilizar a nossa alma com palavras doces… Como estaremos, neste dia, data que nenhum dos homens conhece, mas somente o Todo-Poderoso…?!

Graça e paz.
Salve Maria Santíssima!

Catolicismo e Ordem DeMolay – mais um esclarecimento

Nossa discussão com membros da Ordem DeMolay continua. Recebemos agora as indagações de um demolay de Minas Gerais mesmo, que se apresenta como Roberto Nery. Os seus questionamentos se referem à postagem Ordem DeMolay e maçonaria – perigos aos cristãos, de fevereiro de 2009.

“Everth, o que você sabe sobre a Ordem DeMolay para a acusar daquela forma? Você, por acaso, tem informações concretas sobre a ordem, por acaso já teve a oportunidade de ir a uma reunião aberta?”

“Infelizmente, sem saber até do que se fala, você comenta e difama uma ordem que só ajudou a sociedade, ao contrario de algumas igrejas católicas (não todas) que forçam as pessoas a darem dizimo, dizendo que se a pessoa não doar tudo que tem a igreja e se dedicar integralmente a mesma, irá para o inferno.”

Não, nunca fui a uma reunião aberta da Ordem DeMolay. E não tenho sequer a pretensão de participar. Quanto ao que sei sobre a Ordem, sei o suficiente para rejeitar a filosofia que cerca tanto esta associação quanto a própria Maçonaria, cujos membros são tidos como “tios” por parte dos demolays.

Você me acusa de difamar “uma ordem que só ajudou a sociedade”… O que se encontra aqui não são difamações, mas sim esclarecimentos. Quando, neste espaço, escrevi que os princípios defendidos pela Maçonaria são simplesmente inconciliáveis com a doutrina católica, fiz apenas um alerta àqueles que são membros da Igreja, a fim de que estejam conscientes de que “permanece (…) imutável o parecer negativo da Igreja a respeito das associações maçônicas, pois os seus princípios foram sempre considerados inconciliáveis com a doutrina da Igreja e por isso permanece proibida a inscrição nelas”. O documento está no site da Santa Sé para qualquer homem de boa vontade ler.

Quanto à ideia de que “algumas igrejas católicas (…) forçam as pessoas a darem dízimo”, é preciso que fique bem claro que a) existe uma boa diferença entre “Igreja” e “igrejas” – Aquela é o Corpo Místico de Cristo, sendo uma realidade que transcende a própria história, enquanto estas são as comunidades dos fiéis espalhadas pelo mundo; b) as pessoas não são forçadas a darem dízimo, muito embora se saiba que é um dos cinco mandamentos da Igreja “atender às necessidades materiais da Igreja, cada qual segundo as suas possibilidades”. A assembleia precisa colaborar, de alguma forma, com a manutenção da sua comunidade.

“Sou católico e demolay, com muito orgulho, e gostaria de saber o que você tem contra a Ordem DeMolay.”

Roberto Nery, como católico, tenho contra a Ordem DeMolay o fato de ela entender Deus de uma maneira diversa daquela que ensina o Magistério da Igreja. A Maçonaria – e da mesma forma as associações a ela filiadas – é adepta do indiferentismo religioso e do agnosticismo. Pra quem deseja entender melhor as razões que separam a Igreja Católica da Maçonaria, recomendo novamente a leitura do livro A Maçonaria no Brasil – Orientação para católicos, do frei Boaventura Kloppenburg, OFM. Também já fizemos inúmeras postagens sobre o assunto. Agora, vai caber a você escolher ou o catolicismo de fato – o que reconhece os princípios cristãos em sua totalidade – ou o catolicismo self-service – aquele em que você, como em um restaurante, escolhe da doutrina cristã aquela parte que mais lhe convém e ignora aquela que lhe desagrada.

E pra quem acha que o documento da Congregação para a Doutrina da Fé condenando a filiação de católicos a associações maçônicas é “velho” – considerando que a Igreja tem 2 milênios de vida, 25 anos nem fazem cócegas -, temos uma recente declaração do cardeal português Dom José Policarpo, que foi publicada recentemente no Fratres in Unum. O presidente da Conferência Episcopal Portuguesa afirmou, em conformidade com as leis da Igreja, que “não é compatível” ser católico e maçom, já que as associações maçônicas “rejeitam aquilo que é o essencial da fé, a aceitação da Palavra de Deus e da revelação sobrenatural”.

Graça e paz.
Salve Maria Santíssima!

Papa, sobre a família: “Não se trata duma simples convenção social”

N’O Globo: Casamento gay é uma ameaça à Humanidade, diz Bento XVI. Abaixo, trecho do discurso proferido por Sua Santidade ontem, dia 9 de janeiro.

“Para além de um objetivo claro, como é o de levar os jovens a um pleno conhecimento da realidade e, consequentemente, da verdade, a educação tem necessidade de lugares. Dentre estes, conta-se em primeiro lugar a família, fundada sobre o matrimônio entre um homem e uma mulher; não se trata duma simples convenção social, mas antes da célula fundamental de toda a sociedade. Por conseguinte, as políticas que atentam contra a família ameaçam a dignidade humana e o próprio futuro da humanidade. O quadro familiar é fundamental no percurso educativo e para o próprio desenvolvimento dos indivíduos e dos Estados; consequentemente, são necessárias políticas que o valorizem e colaborem para a sua coesão social e diálogo. É na família que a pessoa se abre ao mundo e à vida e, como tive ocasião de lembrar durante a minha viagem à Croácia, ‘a abertura à vida é um sinal da abertura ao futuro’.”

- Papa Bento XVI, ao Corpo Diplomático acreditado junto da Santa Sé para a troca de bons votos de início de ano

O Papa encontrou uma oportunidade para expor, aos embaixadores de diversos países ao redor do mundo, a doutrina moral da Igreja com relação à maneira como deve ser encarado o relacionamento afetivo-sexual no seio da família. Este não pode fechar-se em um egoísmo de morte, que reduz os atos sexuais à mera obtenção de prazer. Como ensina o próprio Catecismo da Igreja, “todo o ato matrimonial deve, por si estar aberto à transmissão da vida”. “Esta doutrina, muitas vezes exposta pelo Magistério, funda-se sobre o nexo indissolúvel estabelecido por Deus e que o homem não pode quebrar por sua iniciativa, entre os dois significados inerentes ao ato conjugal: união e procriação.”

Este ensinamento perene do Magistério também esconde uma verdade que infelizmente vem sendo esquecida, seja na empreitada desastrosa que muitos políticos arriscam ao tentar fazer o que chamam de “governo laico”, seja na forma perigosa com que muitos programas de televisão exercem sua influência no ambiente familiar: a família não é uma construção cultural, ou, nas palavras de Bento XVI, uma “convenção social”. A família é a “célula fundamental de toda a sociedade”, sendo necessário, portanto, salvaguardar e respeitar a estrutura que desde o princípio quis o Criador que ela formasse – um núcleo abarcado por um homem e uma mulher.

A declaração do Sumo Pontífice foi ridicularizada pelo deputado Jean Wyllys, do PSOL. Além de chamar Bento XVI de “genocida em potencial”, Jean acusou o Papa de ser simpático ao nazismo.

Papa, sobre os Magos: “Para eles o que contava era a própria verdade, não a opinião dos homens.”

Hoje a Igreja no Brasil celebra a Epifania do Senhor. No Vaticano, a Missa da Solenidade foi celebrada no dia 6 de janeiro, e, mais uma vez, o Papa Bento XVI fez uma belíssima reflexão acerca do mistério do Cristo que se manifesta não só aos judeus, mas também aos gentios. Destaco:

“Que tipo de homens eram os Magos? Os peritos dizem-nos que pertenciam à grande tradição astronômica que se fora desenvolvendo na Mesopotâmia no decorrer dos séculos, e era então florescente. Mas esta informação, por si só, não é suficiente. Provavelmente haveria muitos astrônomos na antiga Babilônia, mas poucos, apenas estes Magos, se puseram a caminho e seguiram a estrela que tinham reconhecido como sendo a estrela da promessa, ou seja, a que indicava o caminho para o verdadeiro Rei e Salvador. Podemos dizer que eram homens de ciência, mas não apenas no sentido de quererem saber muitas coisas; eles queriam algo mais. Queriam entender o que é que conta no fato de sermos homens. Provavelmente ouviram falar da profecia de Balaão, um profeta pagão: ‘Uma estrela sai de Jacob, e um cetro se levanta de Israel’ (Nm 24, 17). Eles aprofundaram esta promessa. Eram pessoas de coração inquieto, que não se satisfaziam com aparências ou com a rotina da vida. Eram homens à procura da promessa, à procura de Deus. Eram homens vigilantes, capazes de discernir os sinais de Deus, a sua linguagem sutil e insistente. Mas eram também homens corajosos e, ao mesmo tempo, humildes: podemos imaginar as zombarias que tiveram de suportar quando se puseram a caminho para ir ter com o Rei dos Judeus, enfrentando canseiras sem número. Mas, não consideravam decisivo o que se pensava ou dizia deles, mesmo pelas pessoas influentes e inteligentes. Para eles o que contava era a própria verdade, não a opinião dos homens. Por isso, enfrentaram as privações e o cansaço dum caminho longo e incerto. Foi a sua coragem humilde que lhes permitiu prostrar-se diante dum menino filho de gente pobre e reconhecer n’Ele o Rei prometido, cuja busca e reconhecimento fora o objetivo do seu caminho exterior e interior.”

E quanto à maneira como foi celebrada a Liturgia em Roma neste dia tão especial, nem é preciso dizer que a sacralidade ajudou a colocar no centro das atenções aquele que é e deve ser o protagonista de toda celebração litúrgica – nosso Senhor Jesus Cristo.

Epifania do Senhor: uma luz para os povos

Celebramos com grande alegria a Solenidade da Epifania do Senhor. Jesus Cristo, feito Homem, manifesta-se aos homens e em nós renova-se o constante convite a reconhecermos o Seu poder e a maravilhosa manifestação do Seu Amor. A esta Festa, celebrada neste dia, a Igreja une sua voz a voz dos anjos e santos para reconhecer que só em Cristo, e somente por meio dEle, os homens encontram sentido para a sua existência, mas ainda mais que isso: podem dar sentido a existência do próximo por meio do testemunho autêntico do Evangelho e do despojamento constante dos interesses e falsos “sentidos” que atribuem a este passageiro período.

No entanto, para que este despojamento aconteça, é necessário que os homens saiam de sua comodidade e estejam necessariamente segundo a verdadeira posição cristã. Como, porém, poderíamos conhecer esta posição? Conhecemo-la antes de tudo pelas palavras do profeta, que escutamos na primeira leitura: “De pé! Deixa-te iluminar! Chegou a tua luz! A glória do Senhor te ilumina. Sim, a escuridão cobre a terra, as trevas cobrem os povos mas sobre ti brilha o Senhor, sobre ti aparece sua glória. ” (60, 1-3).

A posição do cristão é a posição daquele que está pronto para guerrear contra as forças do mal. Estar em pé significa estar em constante vigilância, colocar-se a caminho. Assim, o profeta manifesta o nosso caminhar à Cristo. De certo que este caminho não deve ser visto no âmbito empírico mas é sobretudo uma via espiritual. A constante luta que travamos com os meios ideológicos de libertação e de salvação, de felicidades e de prazer, mostra-nos que todas essas coisas podem cair e desvanecem ao poder de Cristo. Mesmo na Igreja surgiram algumas correntes ideológicas que buscavam fazer com que a libertação que vem de Cristo fosse substituída por uma mera libertação social da opressão econômica. “Nós, segundo nos diz São Paulo, não lutamos contra o sangue e a carne, e sim contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes”. (Ef 6,12)

A verdadeira libertação vem de Cristo porque só Ele é o Libertador. E a sua libertação não é em causa de uma opressão social, mas do pecado, pelo qual Ele nos redimiu com seu Sangue.

Só estando em pé chegaremos a um segundo momento: a iluminação. Esta é confirmada pelo anuncio da chegada da luz, da luz que vem pela glória do Senhor. A luz de Cristo resplandece no mundo como sinal para todos os povos. Só nesta luz achar-se-á o caminho para a salvação. A manifestação da glória de Deus dá-se no nascimento de Cristo, feito homem, rebaixado a nossa condição para salvar-nos e assim pode a luz pairar sobre todos aqueles que nele acreditam.

Para os Magos do Oriente esta manifestação dá-se, poderíamos dizer, empiricamente. Eles fazem a experiência do encontro pessoal com Cristo de forma literal. Mas quem eram os Magos? Devemos dizer que vinham de uma região distante, de cultura e religião diferentes, exerciam funções sacerdotais pagãs. Em contato com judeus, tiveram conhecimento do messianismo com a profecia de que um astro apareceria ao nascimento do maior rei esperado (cf. Nm 24,17). Para Santo Tomás de Aquino, o mesmo anjo que apareceu aos pastores em forma humana apareceu aos magos em forma de astro, por serem pagãos, desconhecedores de anjos.

São Leão Magno, na noite santa do Natal, nos diz: “Reconhece, cristão, a tua dignidade e, tornado participante da natureza divina, não queira recair à condição miserável de outro tempo com uma conduta indigna. Recorda-te de quem é a tua Cabeça e de qual Corpo és membro. Recorda-te de que, arrancado do poder das trevas, fostes trazido à luz e ao Reino de Deus” (Sermone 1 sul Natale, 3,2: CCL 138,88). Os magos reconhecem o Reino de Deus, eles o veem, o tocam; não se recusam em curvar-se diante do pequeno e do frágil Menino de Belém. Abandonam suas crenças para acreditar no Deus verdadeiro, naquele que contemplavam.

Belém significa Casa do Pão, inicialmente chamada Éfrata, isto é, fértil. O nome está em uma intrínseca relação com aquele que ali nasce. Na Casa do Pão é acolhido o verdadeiro Pão, o Pão da Vida, que fortalece o homem e o reanima para a sua caminhada. Ali o Menino rejeitado por todos encontra um lugar na manjedoura, cercado por animais e por seus pais. Jesus é a árvore fértil que faz com que todos os homens tenham vida. Ele é a Vida, vida verdadeira. A fertilidade que dele provém para o homem, não perece, mas é sinal e garantia de eternidade.

Reconhecendo a pequenez do Menino, os Magos reconhecem também a sua grandeza. Só é grande aquele que se faz pequeno. Só reconhece a Jesus quem antes se fizer simples, sair de seu mundo privado, formado por suas ideologias, e colocar-se a caminho daquele que vem ao nosso encontro.

As trevas, segundo a primeira leitura, tomavam a face da terra. Esta realidade não diverge do contexto em que se encontra a nossa sociedade. O obscurantismo da inteligência humana, que deseja sobrepujar a divina, as formas de cientificismo anticristão, a falta do testemunho evangélico e tantas outras situações, manifestam que o nosso mundo ainda não está totalmente iluminado, mas, do contrário, nos sinalizam para a falta de Deus no mundo e nos dizem que enquanto o homem não curvar a sua prepotência à sabedoria divina, não passará de um ser tomado pela escuridão e toda a sua aparente “inteligência” será produto de sua própria destruição.

A glória do Senhor brilha sobre o homem que se curva a Ele. A estrela brilha e conduz todo o que deseja trilhar pelo reto caminho. Muitas vezes aparecem algumas falsas luzes e estrelas que dizem estarem conduzindo o homem para o verdadeiro caminho, dizem serem deuses, mas não são. Só o Deus que salva e liberta o homem da sua ignorância e da sua arrogância é o verdadeiro Deus. O Deus em que só nEle encontramos salvação.

Peçamos ao Senhor que a Sua luz irradie toda a face da terra, para que reconheçam nEle o Deus vivo e verdadeiro, que guia o caminho dos povos e a todos retira do braço opressor das forças das trevas. Que todas as nações deixem-se guiar pela luz que, ainda que pareça muitas vezes ser ofuscada, nunca poderá ser extinta e sempre brilhará como sinal de esperança para os homens, sobretudo nos nossos turbulentos dias. E desta forma pedimos, por intercessão de Maria Santíssima, que gerou e concebeu esta Luz, que cumpra-se entre nós as palavras do profeta: “As nações caminharão à tua luz, os reis, ao brilho do teu esplendor” (Is 60, 3)

Maria: Modelo de vivência da Paz

Celebramos hoje a Solenidade de Santa Maria Mãe de Deus. Ainda envolvidos pelo clima natalino, neste primeiro dia do ano a Igreja confia-se e confia a cada um de nós a proteção materna de Maria Santíssima, aquela que renegou toda a sua vontade para fazer unicamente a vontade de Deus. Neste espírito de cumprir a vontade de Deus e colocá-la em primeiro lugar em nossas vidas é que desejo saudar a cada um neste novo ciclo anual e peço a Deus que vos fortaleça para que reconheçam em Deus a principal fonte de nossa vida. É também um dia importante para ressaltarmos o valor crucial da paz para história, celebrando o Dia Mundial da Paz.

Celebrar a Solenidade da Mãe de Deus é reconhecer, na figura desta, o modelo de serviço e de seguimento, de aceitação da vontade de Deus e de seu cumprimento. Por meio de Maria Deus abre-se a salvação a toda a humanidade. Por ela Jesus Cristo entra no mundo, faz-se um de nós e redime a humanidade. Em Maria a humanidade pode aproximar-se de Deus sem temer. Com sua figura de Mãe que é terna, ela nos mostra que Deus não é um ser privado de um relacionamento conosco, mas está a comunicar-se desde a vinda a criação do mundo até os nossos dias.

Na primeira leitura vemos a benção que os sacerdotes pronunciavam sobre os israelitas nas grandes festas religiosas, nela, vemos evocar o poder de Deus e a sua misericórdia a todos os homens, manifestada na pessoa de Cristo, “Deus verdadeiro de Deus verdadeiro” (Credo Nisceno-Constantinopolitano). Uma das fortes características é a tripla menção ao nome de Deus, que representa a plenitude e a força que dele derivam. É o nome de Deus poderoso, e tão poderoso que é capaz de fazer curvarem os demônios. Só no nome de Deus encontramos força e abrigo para o fortalecimento da caminhada.

São Paulo faz menção também ao poder que há no nome de Jesus: “Ao nome de Jesus todo joelho se dobre, seja no céu, na terra ou nos infernos” (Fl 2, 10). O nome de Jesus, aqui, é associado ao poder que há no nome de Deus, o poder de abençoar, de santificar e de submeter a Ele todas as forças do mal. O nome de Jesus é para os povos sinal de esperança e de paz. Este mesmo Senhor que volve o seu rosto a nós é aquele que nos concede a paz, paz verdadeira que só dele pode vir.

Se vós, homens, buscais a vossa paz fora de Cristo, ainda que no-la encontrem, encontrarão uma paz passageira, finita, limitada a um fato ou a um mero presságio. A paz que vem de Cristo vai além: é eterna e não pode ser abalada por nenhum vento contrário que tente subestimá-la. Os homens só encontrarão verdadeira paz quando encontrarem a Deus, que não está nas buscas ávidas pelo dinheiro e pelo impulso da economia. Também não se pode encontra-lO nos prazeres que esta vida oferece, senão na pequenez de uma criança. Ele humilha-se para que possamos ser engrandecidos.

Na segunda leitura, Paulo faz menção da realização do salvífico desígnio de Deus e da adoção filial pela qual, também nós, nos tornamos filhos. “Quando se completou o tempo previsto, Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher, nascido sujeito à Lei” (Gl 4, 4). Estas palavras, embora muito meditadas e tendo sido alvo de profundos estudos teológicos, nunca esgotam-se de transmitir-nos uma mensagem sempre renovada cada vez que as lemos. Toca-se assim o cerne do mistério da salvação. Jesus fazendo-se um de nós, submetendo-se a Lei, renova o mundo, renova o coração dos homens e convida-nos a transmitirmos esta sua mensagem a sociedade hodierna. Este não é um simples anúncio, que com a vicissitude dos tempos se esvai e passa a ser algo passado, mas é uma constante novidade que é basilar para a paz no mundo. O tempo já não é nosso inimigo, mas passa a ser nosso aliado. “Desde que o Salvador desceu do Céu, o homem já não é mais escravo de um tempo que passa sem um porquê, ou que esteja marcado pela fadiga, pela tristeza, pela dor. O homem é filho de um Deus que entrou no tempo para resgatar o tempo da falta de sentido ou da negatividade, e que resgatou toda a humanidade, dando-lhe, como nova perspectiva de vida, o amor que é eterno” (Papa Bento XVI, Te Deum em Ação de Graças, 2011).

A cada dia que se passa, nós caminhamos para encontrarmos com Deus, para contemplar aquele que é tão pequeno e tão grande, tão humilde e tão poderoso, um Deus em quem o Amor se concretiza, ou mais ainda, um Deus que é o próprio Amor.

E por isso, quem não ama está privado de conhecer a face de Deus e, por conseguinte, não poderá abrir-se a sua graça santificante e ao próximo. Só reina a paz no coração em que há Deus, onde este não é um ser distante, opressor, mas é humilde. Quem é individualista e quer ter tudo para si não possui a lógica do amor, sintetizada na doação espontânea a Deus e ao próximo. Maria é aquela pela qual Deus demonstra a vitória sobre os arrogantes.

Quem não ama, na lógica do mundo, deve ser colocado à margem, renegado, tido como um divisor. A lógica de Deus nos ensina o contrário: A quem não ama, mais ainda deve manifestar-se o nosso amor. Só amando com o amor de Deus damos sentido a nossa vida e a vida do próximo.

O Evangelho narra-nos que os pastores, primeiros a contemplarem o maravilhoso mistério acontecido naquela gruta, foram também os primeiros a anunciarem tudo o que ali presenciaram (cf. Lc 2, 17). A Igreja é chamada a gritar ao mundo a necessidade que os homens têm de Cristo. Falar de Cristo nunca é demais. Viver o Seu Evangelho, ainda que para o mundo pareça demasiado difícil, para a Igreja é fonte de santidade e vigor.

Foram os pastores caminhando pressurosos ao encontro do menino. Este verbo “caminhar” indica não apenas uma simples ação daqueles que se põem em movimento, mas é também uma atitude recíproca de Jesus. A humanidade caminha ao Seu encontro, mas Ele apressa-se e vem até nós, não nos deixa abandonados, mostra o Seu poder não com autoritarismo, mas manifesta-o com misericórdia. Esse é o nosso Deus, o Deus que nunca nos abandona!

Como os pastores, a humanidade nunca deve resignar-se ao medo ou temer forças aparentemente maiores que a tentem subestimar de sua missão de ser portadora da verdadeira paz. Nenhum poder é maior que o de Cristo! O poder de Cristo é o poder do bem. Só por meio do bem a paz pode alicerçar-se.

Surge então uma pergunta: Como construir a paz em uma sociedade imediatista, portadora de tantas debilidades e de um forte relativismo? Em primeiro lugar a paz deve ser edificada na família. Ali se exerce o lugar primordial para uma convivência pacífica. Quem vive em paz com a família certamente saberá transmiti-la em outros ambientes. A família, contemplado o modelo da família de Nazaré, deve reconhecer que a paz não é apenas uma ausência de relacionamentos conflituosos, mas é também o exercício sadio de uma boa convivência familiar que deve ser transmitido aos filhos.

Um segundo aspecto a se considerar é o relacionamento entre países. Todos os povos são chamados a uma convivência pacífica, seja em relação a liberdade religiosa, seja em relação a cultura. A Igreja como portadora da paz é chamada a exercer o seu papel entre as nações para que a vida humana seja dignamente respeitada e não lhe falte nenhuma assistência. Nenhum ser humano pode ser obrigado a nada, pois, do contrário, viola-se o direito primordial dado por Deus: a liberdade.

Também vemos com grande dor e lamentação as perseguições na terra onde os anjos cantaram: “Super terram pax hominibus bonae voluntatis” (Lc 2, 14). Que a paz possa reinar também neste local, onde tantos cristãos são violentados por sua fé. Rezemos também por eles, para que possam sentir a força revigoradora do Rei da Paz e pelos governantes, para que cada vez mais sintam-se decididos a caminharem pela senda da paz.

“Educar os jovens para a Justiça e a Paz”, este é o tema da Mensagem para este dia escolhido pelo nosso Santo Padre Bento XVI. Educar os jovens na cultura moderna é um grande desafio. A Igreja coloca-se ao lado das famílias para colaborar nesta árdua missão, para que possam, assim, formar pessoas para um futuro melhor, comprometidas com a sincera busca da pacificação mundial, mas também para que esta paz seja sinal de uma abertura a Cristo, Senhor dos povos e da Paz. Que o desânimo não vos deixe desanimar! Que as dificuldades não vos abatam! Revigorai-vos sempre nos Sacramentos que a Igreja vos oferece, compreendendo, assim, que somente no Senhor está a verdadeira força e só dele havereis de haurir decisões certas para um futuro que, não poucas vezes, é incerto.

E neste primeiro dia de um novo ano, queremos pedir: Senhor concede a Vossa Paz. Afaste-nos do obscurantismo de nós mesmos. Dá vigor a Igreja para que continue a portar a vossa paz ao mundo dilacerado por discórdias e guerras. Instaura entre nós o Reino de vossa Justiça. Manifestai o poder de Vosso braço e quebrai os grilhões de todas as coisas que nos acorrentam, nos impedindo de caminhar até Vós. Tocai os corações dos poderosos, que oprimem aos desfavorecidos, tratando-os como produtos comerciais. Maria, Mãe de Deus e nossa, ensinais-nos a nunca nos esquecermos de sempre elevarmos os olhos ao Pai para agradecermos pelos benefícios que Ele nos concede e libertai-nos do indiferentismo e da comodidade.