Papa Francisco: “É a Igreja que me traz Cristo e me leva a Cristo”.

O Papa e o mestre de cerimônias, monsenhor Guido Marini.

O Papa e o mestre de cerimônias, monsenhor Guido Marini.

“A novidade causa sempre um pouco de medo, porque nos sentimos mais seguros se temos tudo sob controle, se somos nós a construir, programar, projetar a nossa vida de acordo com os nossos esquemas, as nossas seguranças, os nossos gostos. E isto verifica-se também quando se trata de Deus. Muitas vezes seguimo-Lo e acolhemo-Lo, mas até um certo ponto; sentimos dificuldade em abandonar-nos a Ele com plena confiança, deixando que o Espírito Santo seja a alma, o guia da nossa vida, em todas as decisões; temos medo que Deus nos faça seguir novas estradas, faça sair do nosso horizonte frequentemente limitado, fechado, egoísta, para nos abrir aos seus horizontes. Mas, em toda a história da salvação, quando Deus Se revela traz novidade, transforma e pede para confiar totalmente n’Ele: Noé construiu uma arca, no meio da zombaria dos demais, e salva-se; Abraão deixa a sua terra, tendo na mão apenas uma promessa; Moisés enfrenta o poder do Faraó e guia o povo para a liberdade; os Apóstolos, antes temerosos e trancados no Cenáculo, saem corajosamente para anunciar o Evangelho. Não se trata de seguir a novidade pela novidade, a busca de coisas novas para se vencer o tédio, como sucede muitas vezes no nosso tempo. A novidade que Deus traz à nossa vida é verdadeiramente o que nos realiza, o que nos dá a verdadeira alegria, a verdadeira serenidade, porque Deus nos ama e quer apenas o nosso bem. Perguntemo-nos a nós mesmos: Permanecemos abertos às ‘surpresas de Deus’? Ou fechamo-nos, com medo, à novidade do Espírito Santo? Mostramo-nos corajosos para seguir as novas estradas que a novidade de Deus nos oferece, ou pomo-nos à defesa fechando-nos em estruturas caducas que perderam a capacidade de acolhimento?”

“Segundo pensamento: à primeira vista o Espírito Santo parece criar desordem na Igreja, porque traz a diversidade dos carismas, dos dons. Mas não; sob a sua ação, tudo isso é uma grande riqueza, porque o Espírito Santo é o Espírito de unidade, que não significa uniformidade, mas a recondução do todo à harmonia. Quem faz a harmonia na Igreja é o Espírito Santo. Um dos Padres da Igreja usa uma expressão de que gosto muito: o Espírito Santo ‘ipse harmonia est – Ele próprio é a harmonia’. Só Ele pode suscitar a diversidade, a pluralidade, a multiplicidade e, ao mesmo tempo, realizar a unidade. Também aqui, quando somos nós a querer fazer a diversidade fechando-nos nos nossos particularismos, nos nossos exclusivismos, trazemos a divisão; e quando somos nós a querer fazer a unidade segundo os nossos desígnios humanos, acabamos por trazer a uniformidade, a homogeneização. Se, pelo contrário, nos deixamos guiar pelo Espírito, a riqueza, a variedade, a diversidade nunca dão origem ao conflito, porque Ele nos impele a viver a variedade na comunhão da Igreja. O caminhar juntos na Igreja, guiados pelos Pastores – que para isso têm um carisma e ministério especial – é sinal da ação do Espírito Santo; uma característica fundamental para cada cristão, cada comunidade, cada movimento é a eclesialidade. É a Igreja que me traz Cristo e me leva a Cristo; os caminhos paralelos são perigosos! Quando alguém se aventura ultrapassando (proagon) a doutrina e a Comunidade eclesial e deixando de permanecer nelas, não está unido ao Deus de Jesus Cristo (cf. 2 Jo 9). Por isso perguntemo-nos: Estou aberto à harmonia do Espírito Santo, superando todo o exclusivismo? Deixo-me guiar por Ele, vivendo na Igreja e com a Igreja?”

Da Homilia do Santo Padre, o Papa Francisco, na Solenidade de Pentecostes, 19 de maio de 2013

Pentecostes: Amor e Coragem no discipulado

“Et repleti sunt omnes Spiritu Sancto et coeperunt loqui aliis linguis, prout Spiritus dabat eloqui illis” (At 2,4)¹.

           formacoes66 Fala mal quem deseja falar todas as línguas e em nenhuma se detém, visto que nem tem tempo para aprimorar-se – já que deseja chegar ao conhecimento de todas – e tampouco terá a exatidão da compreensão, que tem os que em alguma detiveram-se. Assim o é conosco, assim o foi outrora com os apóstolos. Para as diversas nações que ali se encontravam, nenhuma era a compreensão pela diversidade de línguas; pardos não compreendiam os elamitas; romanos não compreendiam os mesopotâmicos; frígios não entendiam os capadócios e assim por diante. Parecia-nos esta a Babel, o caos, o desentendimento. Mas, notai! Os construtores de Babel foram confundidos por Deus, e no Cenáculo não foram confundidos, senão que unificados. Lá fizera o Senhor confusão onde havia unidade; cá, o Senhor faz unidade onde há confusão; lá os homens almejavam edificar uma torre que chegasse até o céu – que era a ideia de espaço físico onde Deus se encontrava – para que elevassem seu nome sobre a terra; cá os homens não edificavam torre, senão que estavam temerosos para irem ao encontro de Deus, para o testemunharem, para traçarem uma ponte que pudesse chegar até Ele. Comparai uma e outra e vereis que há uma inversão, por assim dizermos, entre Babel e o Cenáculo. O que naquela se perdera, nesta se restaurara; o que naquela se destruíra, nesta se edificara.

            Diz-nos também o evangelista que o Espírito aparece e todos Dele ficam “repletos”. Pois não ficaram cheios, mas repletos. E por quê? Porque aquilo que está cheio pode não estar repleto, mas tudo o que está repleto, em si, já está cheio – e mais que cheio, está pleno. E aqui, sim, cumpre-se aquilo que houvera predito o Senhor aos seus antes de elevar-Se aos céus: “Recebereis o poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria e até aos confins da terra” (At 1,8).

Agora estão todos preparados e munidos da força interior para serem testemunhas, sem temor, sem tremor, levando somente o que por Si basta: O Espírito Santo. E por que vão eles aos “confins da terra” e não apenas à Palestina ou a Roma? Por que cada um dirige-se a um território diferente? Porque a salvação é para todos, não somente para alguns, isto é representado com maior clarividência na diversidade de povos acima citada. Todos tem a oportunidade de aderirem a salvação, mas não é a ninguém obrigado porque o Espírito, nos diz Paulo, é de liberdade. E porque testemunhar é servir e o amor é serviço, põem-se eles a irem a lugares tão distantes, espalhando o Reino de Deus e o Logos divino que permeia o homem.

Ao Filho de Deus, Segunda Pessoa da Trindade, atribui-se a sabedoria; ao Espírito, Terceira Pessoa, atribui-se o amor. Todo amor é serviço, entretanto, nem todo serviço é feito com amor. Quando se serve sob pretexto de algo, procurando favorecer-se ou sob ameaça de alguém, o amor perde o seu sentido mais belo: a liberdade, liberdade para amar e, por conseguinte, para servir. E os apóstolos são testemunhas autênticas de tal verdade. Ou não poderiam eles negar ao nome de Jesus, retornarem à comodidade de suas vidas e livrarem-se de todos os perigos e ameaças que a tarefa apostólica acarretaria? Pois optam por amarem o Amor, por servi-Lo e por darem as suas próprias vidas, encorajados pelo Espírito da Verdade, da Sabedoria, e do destemor dos homens, mas do Temor a Deus.

Eis, pois, que nenhum cristão sinta-se medroso diante das realidades do mundo! Se somos membros da mesma Igreja, se outrora viera o Espírito aos Apóstolos, agora Ele no-Lo é concedido, vem também a nós e, como fora a dois mil anos, o faz também hoje. Pois que medo há mais do que aquele de omitir-se no projeto salvífico de Cristo? Que vergonha maior há do que não testemunhar o Senhor da Igreja à qual somos membros? Que tristeza há mais do que aquela de estarmos na Igreja mas pensarmos como o mundo?

Hoje é a Festa do Espírito, mas é também a Festa da Igreja. O dia em que, encorajada pelo Espírito, ela abre-se ao mundo, torna-se missionária e testemunha; aliás, contraditório e perigoso é um missionário que não testemunhe. E justamente por ser missionária é também universal, fala várias línguas com apenas um entendimento. Não se entendem diversas coisas daquilo que ela diz nas diversas línguas, mas apenas uma – e necessária – cousa se-nos-é compreensível. A mesma doutrina é transmitida à variedade de línguas, de forma que todos possam saber que apenas um é seu ensinamento transmitido desde os tempos apostólicos. Bem o disse Paulo: “De fato, todos nós, judeus ou gregos, escravos ou livres, fomos batizados num único Espírito, para formarmos um único corpo, e todos nós bebemos de um único Espírito” (1Cor 12,13). Bebemos de um único Espírito porque não há de ter mais de um, mas somente aquele que inspira a Igreja durante seus dois milênios. Se alguém não bebe desta fonte, se alguém bebe de algum outro ensinamento, não bebe do Espírito de Deus mas de fontes desconhecidas e contrárias ao que se tem pregado por séculos.

Pouco é o que aqui tenho dito, muito é o que ainda há de se falar. Peçamos ao Espírito de Deus que nos conceda sabedoria, humildade e coragem para bem exercermos a nossa vivência cristã. Que Ele desça eficazmente sobre cada um de nós. Concede perseverança, Senhor, aos que falam em teu nome, e, como outrora fizestes descer língua de fogo sobre os apóstolos, dê fogo de língua aos nossos pregadores e com toda a Igreja clamemos: Veni, Sancte Spiritus, et emitte caelitus, lucis tuae radium – Vem, Santo Espírito, e mandai dos céus um raio de luz”.

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1.”Todos ficaram repletos do Espírito Santo, e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito lhes concedia que falassem”.

3ª Sinfonia de Beethoven: Na dor e na alegria o homem compõe sua vida

Depois de um demasiado período de distanciamento entre a última sinfonia a ser meditada, chegamos a 3ª de Beethoven Em Mi Bemol Maior, também conhecida como Eroica. Parece-nos que aqui encontra-se um marco do fim da Era Clássica e do início da Era Romântica. É, como sempre em Beethoven, uma harmoniosa e expressiva manifestação da capacidade compositiva do mesmo.

Encontramos na sinfonia a presença de 2 flautas, 2 oboés, 2 clarinetes em si bemol, 2 fagotes, 3 trompas em mi bemol, fá e dó, 2 trompetes em mi bemol e dó, tímpano e cordas.

A ideia inicial seria dedicar a sinfonia a Napoleão Bonaparte justamente porque via-se como admirador dos ideais da Revolução Francesa, entretanto tal ideal fora mais tarde frustrado quando Napoleão se auto intitulou imperador da França em maio de 1804, ao que Beethoven teria se revoltado ardentemente a ponto de riscar da página-título o nome de Bonaparte com uma faca de forma a fazer um buraco no papel. O compositor teria então mudado o nome da sinfonia para: Sinfonia eroica, composta per festeggiare il sovvenire d’un grand’uomo (“sinfonia heróica, composta para celebrar a memória de um grande homem”).

Segundo o seu assistente Ferdinand Ries:

“Ao escrever esta sinfonia Beethoven tinha pensado em Buonaparte, mas Buonaparte como Primeiro Cônsul. Naquela época, Beethoven tinha a maior estima por ele e o comparou aos máximos cônsules da antiga Roma. Não só eu, mas muitos dos amigos mais próximos de Beethoven, viu esta sinfonia em sua mesa, lindamente copiados à mão, com a palavra ‘Buonaparte’ inscrito no topo da página-título e ‘Ludwig van Beethoven’ na parte inferior. …Eu fui o primeiro a dizer a notícia de que Bonaparte havia se auto-declarado imperador, quando de repente teve um acesso de fúria e exclamou, ‘Então ele não é mais do que um mortal comum! Agora, também, ele vai pisar no pé de todos os direitos do homem, saciando somente a sua vontade; agora ele vai pensar que é superior a todos os homens, se tornando um tirano!’ Beethoven foi até a mesa, pegou a página-título, rasgou ao meio e jogou-o no chão. A página tinha de voltar a ser copiado e foi só agora que a sinfonia recebeu o título de ‘Sinfonia Eroica’” (Wikipedia apud A Era Napoleônica).

A execução da sinfonia deu-se pela primeira vez de forma privada para o seu grande amigo Joseph Franz Maximilian Lobkowitz em 1804, e a execução publica deu-se no seguinte ano.

Segundo conta-se, a recepção não foi assim tão caloroso, ao contrário, causou confusão e divisão nos ouvintes. A obra, duas vezes mais extensa que a de Haydn ou Mozart (já no primeiro movimento mais extensa que várias sinfonias), dividiu os ouvintes levando-os a afirmarem ser esta a obra-prima de Beethoven, entretanto outros diziam que seria uma busca de originalidade que acabou por se não ter.

Passemos agora a compreensão das divisões da sinfonia. O Primeiro Andamento é o Allegro com brio, que se inicia com alguns acordes que serão mais enfatizados na quinta sinfonia.

O Segundo Andamento (Marcia funebre: Adagio assai em dó menor) como o nome indica é uma marcha fúnebre. Trata-se de uma composição que é das mais pungentes de toda a história da música. Alterna entre a mais profunda expressão da dor com momentos de luz e esperança. E, de fato, é tão comovente e avassaladora, tão sentimental, que nos faz volvermos nossos olhos para uma cena de profunda dor; contudo, no decorrer da sinfonia é notório que da dor vai se criando um grito como que de esperança, uma luz daquela que nos diz o salmista: “Lux orta est iusto – Uma luz já se levanta para os justos” (Sl 97,11).

No Terceiro Andamento (Scherzo: Allegro vivace), tal como aliás e sobretudo o quarto, são por vezes considerados menores, ao ponto de um dos maiores críticos ingleses do século XIX ter afirmado uma vez “a interpretação da terceira sinfonia terminou e muito corretamente no fim da marcha fúnebre tendo as restantes partes sido omitidas”. Pessoalmente discordo desses. Só pela beleza e genialidade também presentes no terceiro e quarto seria impossível omiti-los como se não fizessem diferença.

O quarto andamento (Finale: Allegro molto), construído inteiramente a partir de um tema e variações em fuga bastante simples não deixa de ser uma composição extraordinária. Berlioz na sua análise das sinfonias de Beethoven, diz a respeito deste andamento que aqui Beethoven conseguiu construir a diferença de cores que existe entre o azul e o violeta.

E assim, na beleza da música clássica nós podemos contemplar cada sentido transcendental da vida, manifestações de dor ou de alegria, de vida ou de morte, mas que sempre nos levam a pensar, a reavaliarmos o valor da vida e fazermos desta o nosso lugar, o lugar do homem na história.

https://www.youtube.com/watch?v=MtYqcg53jEc

“…jamais chegareis a honrá-la tanto, como chamando-lhe Mãe de Deus.”

Our Lady of Fatima 2

“Necessário seria compreender quão sublime é a grandeza de Deus, para também se compreender a altura a que Maria foi elevada. Bastará, pois, somente dizer que Deus fez desta Virgem sua Mãe, para entender com isso que não lhe era possível exaltá-la mais do que a exaltou. Apropriadamente afirma Arnoldo de Chartres que, em se fazendo Filho da Virgem, Deus a colocou numa altura superior a todos os santos e anjos. Exceto Deus, ela é sem comparação mais elevada do que todos os espíritos celestes, como dizem S. Efrém e S. André de Creta. Vulgato Anselmo escreve: Senhora, vós não tendes quem vos seja igual, porque qualquer outro ou está acima, ou está abaixo de vós; só Deus vos é superior, e todos os outros vos são inferiores. É tão grande, em suma, a grandeza da Virgem, conclui S. Bernardino, que só Deus pode e sabe compreendê-la.”

“‘Por isso ninguém se maravilhe, adverte S. Tomás de Vilanova, se os santos evangelistas, tão prontos em registrar os louvores de São João Batista, de Madalena, foram tão parcos em descrever as prerrogativas de Maria. Contentam-se em dizer que dela nasceu Jesus. Baste-nos isso. Com tais palavras dizem tudo, resumem-lhe todas as excelências, sendo por isso desnecessário que as fossem descrevendo uma a uma’. E descrevê-las por que? Maria é Mãe de Deus, e já não excede com isso a toda grandeza e dignidade que se pode exprimir ou imaginar depois de Deus? pergunta Eádmero. Igualmente conclui Pedro Celense: Dai-lhe o nome que quiserdes, de Rainha do céu, de Senhora dos anjos, ou qualquer outro título de honra, jamais chegareis a honrá-la tanto, como chamando-lhe Mãe de Deus.”

Santo Afonso Maria de Ligório,
Glórias de Maria
3. ed. – Aparecida, SP: Editora Santuário, 1989
p. 291-292

O amor de Deus: fundamento da Religião

“Antigamente convertia-se o mundo, hoje por que se não converte ninguém? Porque hoje pregam-se palavras e pensamentos, antigamente pregavam-se palavras e obras. Palavras sem obras são tiros sem bala; atroam, mas não ferem (Pe. Antônio Vieira, Sermão da Sexagésima).

Após um longo período afastado por algumas razões de saúde e demais motivos superiores, hoje relendo o Sermão do Pe. Antônio Vieira, um dos  que mais me agradam nas obras e em todo o suporte retórico e teológico-espiritual que ele nos oferece, resolvi dedicar-me a este artigo, sobre o qual apenas pensei no papel da religião na nossa sociedade. É este um verdadeiro clamor às religiões e aos cristãos; um clamor que brota, mais do que nunca, diríamos, das entranhas do Espírito Santo. Ao chegarmos à conclusão do Tempo Pascal com a Solenidade da Ascensão do Senhor e de Pentecostes, somos impelidos por estas palavras que tocam o âmago da nossa fé e da nossa concepção de Cristianismo e de vivência cristã.

 Desta feita, torna-se necessária hoje uma tríplice pergunta: O que é a fé cristã? Como exercitá-la no mundo? Como transmiti-la aos demais? Tais indagações fazem-nos refletir e adequarmo-nos a uma realidade sempre pertinente e à qual nunca me canso de chamar a atenção: a configuração total a Cristo por meio do Evangelho, de uma autêntica vivência da Fé. Não podemos nos cansar de ser cristãos; não podemos brincar com o Evangelho; não podemos adequar o Evangelho a nós – triste realidade do mundo hodierno. Ou somos destemidos ou somos covardes; ou somos audazes ou somos retraídos; ou somos cristãos ou não o somos, mas não podemos fazer meio termo da Palavra de Deus, pois Deus não faz meio termo do gênero humano.

Diz-nos a Escritura: “Nem quente, nem frio, mas porque és morno vomitar-te-ei da minha boca” (Ap 3,16). Palavras duras, mas verdadeiras. Deve haver uma contrapartida entre o homem e Deus, uma reciprocidade. Deus não é interesseiro, mas a questão aqui é de um reconhecimento da nossa parte. Aquele que é Senhor de tudo, doador de todas as graças, quer depender do nosso amor, quer de nós apenas isso: que O amemos. E só desta forma pode o homem senti-lO: pelo amor. A religião (re-ligare = religar) deve ser a propiciadora deste encontro, aquela ponte que une o homem a Deus e jamais deve ser muro que separa, desvirtuando-se, assim, não apenas da sua nomenclatura, mas da sua missão primeira.

Pregar sobre Deus, anunciá-lO, mostrar o Seu amor ao mundo, esse é o dever da religião. Quando a religião deixa de pregar sobre Deus e o seu Evangelho e passa a ser transmissora de suas convicções institucionais ou de convicções pessoais de seus membros, deixa de ser semente de Deus e passa a ser joio do Diabo. Se queremos que o mundo olhe para a Igreja, contemple o crucificado, adore o Senhor morto e ressuscitado, não podemos fazê-lo apenas por palavras e por belas retóricas – como recordara Pe. Vieira –, devemos antes de tudo dar testemunho. Coloquemos Deus novamente no centro da religião e de nossas vidas. Quando retiramos Deus dos horizontes da sociedade, tendemos a mostrá-los apenas horizontes de morte, desfigurados pela falta de amor e de misericórdia, pela falta de fraternidade e de humildade.

Antes de proferirmos belas palavras dos púlpitos, batamos no peito e reconheçamos as nossas misérias e peçamos perdão por nossos pecados; depois poderemos anunciar aos outros aquilo que escrevemos primeiramente para cada um de nós, pois enquanto não ponderarmos nossas ações e buscarmos autenticidade nelas, não passaremos de meros semeadores de confusão daquilo que falamos mas não fazemos, denunciamos mas não corrigimos, proclamamos mas não escutamos.

Na Solenidade da Ascensão do Senhor sejamos como os Apóstolos, testemunhas destemidas do mandato de Jesus. Que o nosso medo não resvale na nossa boa audácia de discípulos e que a nossa fé não sucumba nas adversidades.

Seduz-nos o provisório.

Oração do Rosário“Uma mãe ajuda os filhos a crescer e quer que cresçam bem; por isso os educa a não ceder à preguiça – que provêm de também um certo bem estar -, a não se acomodar em uma vida que se satisfaz só com coisas. A mãe cuida dos filhos para que cresçam sempre mais, cresçam fortes, capazes de assumirem responsabilidades, de se comprometerem na vida, de terem grandes ideais. O Evangelho de São Lucas diz que, na família de Nazaré, Jesus ‘crescia e se fortificava, pleno de sabedoria, e a graça de Deus estava com ele’ (Lc 2, 40). Nossa Senhora faz isso conosco, nos ajuda a crescer humanamente e na fé, para sermos fortes e não cedermos à tentação de sermos homens e cristãos superficiais, mas em viver com responsabilidade, a irmos sempre para mais.

“Uma mãe pensa na saúde dos filhos educando-os também para enfrentar as dificuldades da vida. Não se educa, não se cuida da saúde evitando os problemas, como se a vida fosse uma auto estrada sem obstáculos. A mãe ajuda os filhos a olhar com realismo os problemas da vida e a não se perderem neles, mas em enfrentá-los com coragem, a não serem fracos, e a saberem superá-los, em um equilíbrio sadio que uma mãe ‘percebe’ entre os âmbitos de segurança e a zona de risco. Uma vida sem desafio não existe e um rapaz ou uma moça que não sabe enfrentá-lo colocando-se em jogo, não possui espinha dorsal! Recordemos a parábola do bom samaritano: Jesus não propõe o comportamento do sacerdote e do levita, que evitam socorrer aquele que se feriu na luta, mas o samaritano que vê a situação daquele homem e a enfrentou de maneira concreta.

(…)

“Um último aspecto: uma boa mãe não só acompanha os filhos no crescimento, não evitando problemas, desafios da vida: uma boa mãe ajuda também a tomar decisões definitivas com liberdade. Mas o que significa liberdade? Não é certo fazer tudo o que se quer, deixar-se dominar pelas paixões, passar de uma experiência a outra sem discernimento, seguir a moda; liberdade não significa, por assim dizer, jogar tudo que não agrada pela janela. A liberdade nos é dada para que saibamos fazer boas escolhas na vida! Maria como boa mãe nos educa para ser como Ela, capaz de fazer escolhas definitivas, com aquela liberdade plena com que respondeu ‘sim’ ao plano de Deus sobre sua vida (cf. Lc 1, 38).”

“Queridos irmãos e irmãs, quanto é difícil, em nosso tempo, tomar decisões definitivas! Seduz-nos o provisório. Somos vítimas de uma tendência que nos leva ao provisório… como se desejássemos permanecer adolescentes por toda vida! Não tenhamos medo dos compromissos definitivos, dos compromissos que envolvem e interessam toda vida! Deste modo nossa vida será fecunda! E isto é a liberdade: ter a coragem de tomar essas decisões com grandeza.”

Palavras do Santo Padre, o Papa Francisco, durante a oração do Santo Rosário, na Basílica de Santa Maria Maior, 4 de maio de 2013

Continuidade

Continuidade

O Papa Francisco, durante homilia proferida ontem, dia de seu onomástico, São Jorge, afirmou: “É uma dicotomia absurda querer amar Jesus sem a Igreja: identidade significa pertença”.

O padre Paulo Ricardo lembrou, durante sua aula semanal ao vivo, que Sua Santidade não fazia nada mais do que recordar um ensinamento do servo de Deus, o Papa Paulo VI: “Convém recordar aqui, de passagem, momentos em que acontece nós ouvirmos, não sem mágoa, algumas pessoas, cremos bem intencionadas, mas com certeza desorientadas no seu espírito, a repetir que pretendem amar a Cristo mas sem a Igreja, ouvir a Cristo mas não à Igreja, ser de Cristo mas fora da Igreja. O absurdo de uma semelhante dicotomia aparece com nitidez nesta palavra do Evangelho: Quem vos rejeita é a mim que rejeita. E como se poderia querer amar Cristo sem amar a Igreja, uma vez que o mais belo testemunho dado de Cristo é o que São Paulo exarou nestes termos: Ele amou a Igreja e entregou-se a si mesmo por ela?” (Evangelii Nutiandi, n. 16)

É isto, leitores: Francisco brindou-nos com uma belíssima homilia, trazendo à mente dos fiéis um axioma já há muito esquecido – “fora da Igreja não há salvação”.

A imagem acima foi postada originalmente em nossa página no Facebook. Se você está na rede social e ainda não nos curtiu, já passa da hora: https://www.facebook.com/ecclesiauna

Artigo do Cardeal Kasper. Sobre “uma Igreja com aspecto de inverno”.

Cardeal Kasper

Cardeal Kasper

Compartilho com vocês trecho dum artigo publicado em L’Osservatore Romano, no começo deste mês, da pena do Cardeal Walter Kasper. O artigo completo pode ser lido no Fratres in Unum. Há algumas considerações bastante sensatas do purpurado sobre o Concílio Vaticano II, que podem nos ajudar a entender melhor este fato tão importante na história da Igreja:

*

Era a época da guerra fria. Um ano antes do início do Concílio, tinha-se construído o Muro de Berlim e, durante o período da primeira sessão, o mundo se viu à beira do abismo da guerra atômica por causa da crise de Cuba. Hoje, cinquenta anos depois, vivemos num mundo globalizado, completamente diferente e em rápida transformação, com novas questões e novos desafios. A fé otimista no progresso e o espírito de se encaminhar em direção a novos horizontes esfumaram-se há muito tempo. Para a maior parte dos católicos, os desenvolvimentos postos em marcha pelo Concílio fazem parte da vida cotidiana da Igreja. Todavia, o que experimentam não é o grande avanço, não é a primavera da Igreja, que então esperávamos, mas sim, na verdade, uma Igreja com aspecto de inverno, que mostra claros sinais de crise.

Para quem conhece a história dos vinte concílios reconhecidos como ecumênicos, isso não constituirá uma surpresa. Os tempos pós-conciliares foram quase sempre turbulentos. O Vaticano II, porém, representa um caso particular. Diferentemente dos concílios precedentes, não foi convocado para excluir doutrinas heréticas nem para recompor um cisma, não proclamou dogma formal algum, nem sequer assumiu deliberações disciplinares formais. João XXIII tinha uma perspectiva mais ampla. Viu que se perfilava uma nova época, a cujo encontro foi com otimismo, na inamovível confiança em Deus. Falou de um objetivo pastoral do Concílio, tendo em vista uma posta ao dia (“aggiornamento”), um “tornar-se hoje” da Igreja. Não se queria uma adaptação banal ao espírito dos tempos, mas o apelo a fazer com que a fé transmitida no hoje falasse.

A grande maioria dos Padres conciliares captou a ideia. Quis acolher as demandas dos movimentos de renovação bíblica, litúrgica, patrística, pastoral e ecumênica, surgidos entre as duas guerras mundiais, começar uma nova página da história com o Judaísmo, carregada de agravos, e entrar em diálogo com a cultura moderna. Foi o projeto de uma modernização, que não queria nem podia ser modernismo.

Uma minoria influente opôs obstinada resistência a essa tentativa da maioria. O sucessor de João XXIII, Paulo VI, estava fundamentalmente na parte da maioria, mas tratou de engajar a minoria e, na linha da antiga tradição conciliar, de obter uma aprovação, o mais possível unânime, dos documentos conciliares, que foram dezesseis no total. Conseguiu, mas pagou-se um preço. Em muitos pontos, tiveram-se de achar fórmulas de compromisso, nas quais, amiúde, as posições da maioria figuram imediatamente ao lado daquelas da minoria, pensadas para delimitá-las.

Assim, os textos conciliares têm em si um enorme potencial de conflito, abrem a porta a uma recepção seletiva numa ou noutra direção. Que direção indica a bússola do Concílio e para onde conduz o caminho da Igreja Católica no ainda jovem século XXI? Permanece na confiança crente de João XXIII ou faz o caminho contrário, em direção a estéreis atitudes de defesa?

(…)

*

Recomendo, ao mesmo tempo, a leitura de outro texto, do amigo Jorge Ferraz, comentando as palavras do Cardeal Kasper e dando uma resposta razoável a quem as usa para justificar a desobediência ao Papa, ou mesmo o sedevacantismo.

Há um livro muito bom sobre o Concílio, bem documentado e organizado, do qual já li algumas páginas, e que recomendo a quem quiser conhecer um pouco mais sobre essa história: é a obra O Concílio Vaticano II – Uma história nunca escrita, do professor italiano Roberto de Mattei – que pode ser adquirida no site da editora Ecclesiae.

Quid est veritas?

Dom Aquino de fibra. Da carta pastoral “A Divisa dos Jornalistas”, de Dom Francisco de Aquino Corrêa, arcebispo de Cuiabá, 8 de dezembro de 1939:

Esta é a verdade, da qual disse o Cristo que Ele nascera e viera ao mundo, para dar-lhe testemunho: in hoc natus sum, et ad hoc veni in mundum, ut testimonium perhibeam veritati (Jo. XVIII, 37).

Pilatos e Jesus. Obra de Nikolai Nikolajewitsch Ge.

Pilatos e Jesus. Obra de Nikolai Nikolajewitsch Ge.

E foi, precisamente, nessa hora em que Ele assim falava, que Pilatos lhe dirigiu a célebre pergunta: “Que é a verdade” Quid est veritas? Jesus não respondeu; mas um espírito curioso, meditando aí sobre essa interrogação, a ressoar assim sem resposta no livro santo, descobriu-lhe, no próprio texto latino, a mais sublime resposta. Combinando habilmente as 14 letras, que formam a frase: quid est veritas? Construiu com elas, sem tirar nem pôr, estoutra: est vir qui adest, que quer dizer: “é o varão, que aqui está”. Assim, pois, à pergunta de Pilatos: Quid est veritas? “Que é a verdade?” ter-se-ia podido responder: Est vir qui adest, “é o varão aqui presente”.

O anagrama não passa, está claro, de engenhoso artifício; mas, o sentido que dele ressalta, é a maior das realidades. Jesus Cristo é a verdade. Ele próprio o declarou solenemente: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”. Ego sum via, et veritas, et vita (Jo. XIV, 6).

Jesus Cristo, por isso mesmo que é Deus, é também a Verdade, na significação mais genuína, ampla e transcendental do termo. Ele, porém, não veio ao mundo para ensinar verdades científicas, que pouco ou nada aproveitam à felicidade do homem. Estas deixou Ele a cargo da inteligência humana. A verdade da fé e da moral, indispensável à salvação eterna da alma, esta, sim é que veio Ele revelar-nos, e desta é que principalmente afirmou: “Eu sou a verdade”.

Nunca filósofo algum pôde dizer: eu sou o caminho da verdade, nem, muito menos: eu sou a verdade e a vida.

Só Jesus Cristo é o caminho da verdade, em cujo conhecimento consiste a vida: pois outra coisa não é a vida eterna, senão conhecer ao só Deus verdadeiro: haec est autem vita aeterna, ut cognoscant te solum Deum verum (Jo. XVII, 3). Quem segue esse caminho, “não anda em trevas, mas terá a luz da vida” (Jo. VIII, 12).

Neste sentido, bem se pode repetir que a verdade cristã encerra todas as verdades.

E todos os séculos, se não quiserem errar o caminho da verdade e da vida, terão que ir ao Cristo, para interrogá-lo acerca da suprema questão: Quid est veritas? E a resposta, que o Divino Mestre houve por bem não dar a Pilatos, ou que este não quis ouvir, aí está nos seus Evangelhos, sob a guarda infalível da sua Igreja: tal é o verdadeiro e único oráculo que hão de consultar todos quantos aspiram à verdade.

[Dom Aquino Corrêa, 8 de dezembro de 1939. Cartas Pastorais, vol. III, tomo II. A Divisa dos Jornalistas. pp. 88-89. Brasília, 1985.]

Francisco: “Os santos são os que levam avante a Igreja!”

Cidade do Vaticano (RV) – A Palavra de Deus deve ser acolhida com humildade, porque é a palavra de amor: em síntese, foi o que disse o Papa esta manhã durante a homilia da Missa presidida na Capela da Casa Santa Marta. Estavam presentes alguns funcionários da Tipografia Vaticana e do L’Osservatore Romano.

Francisco se inspirou nas leituras bíblicas do dia: a vocação de Saulo e o discurso de Jesus na Sinagoga de Cafarnaum. A voz de Jesus, disse, “passa pela nossa mente e vai ao coração”. Já os doutores da lei respondem de outra maneira, discutindo entre si e contestando duramente as palavras de Jesus:

“Os doutores respondem somente com a cabeça. Não sabem que a Palavra de Deus fala ao coração”, disse o Papa, dando o exemplo de Maria, que acolheu com humildade as palavras do Senhor.

Quem responde somente com a cabeça são os grandes ideólogos, afirmou, recordando que “a Palavra de Jesus vai ao coração porque é a Palavra de amor, é palavra bela e traz o amor, nos faz amar”. Os ideólogos, por sua vez, cruzam a estrada do amor e da beleza e põem-se a discutir sobre como Jesus pode dar sua carne para comer.

“É tudo um problema de intelecto. E quando entra a ideologia, na Igreja, quando entra a ideologia na inteligência do Evangelho, não se entende mais nada.”

Para Francisco, os ideólogos falsificam o Evangelho. Toda interpretação ideológica, de qualquer parte vier, é uma falsificação do Evangelho. “E esses ideólogos – como vimos na história da Igreja – acabam por se tornar intelectuais sem talento, moralistas sem bondade. Nem falemos de beleza, porque disso eles não entendem nada.”

“Ao invés, a estrada do amor, a estrada do Evangelho – recorda o Papa, é simples: é a estrada que os Santos entenderam:

Os santos são os que levam avante a Igreja! A estrada da conversão, da humildade, do amor, do coração, da beleza… Peçamos hoje ao Senhor pela Igreja: que o Senhor a liberte de qualquer interpretação ideológica e abra o coração da Igreja, da nossa Mãe Igreja, ao Evangelho simples, àquele Evangelho puro que nos fala de amor, que traz o amor e é tão bonito! E que nos torna mais belos, com a beleza da santidade. Rezemos hoje pela Igreja!”.

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O pessoal do Rorate Caeli fez o alerta, e também nós fazemos coro. Afinal, quando as homilias diárias do Papa Francisco serão disponibilizadas na íntegra, pelo site da Santa Sé? Teremos mesmo que nos contentar com alguns trechos lançados em notícias da Rádio Vaticana?